Inebriamento


Domingo, 23 de maio de 2010, realmente me rendeu uns quantos poemas, cada um mais besta do que o outro. Mas, na falta de coisa melhor, brindo os leitores com mais este, escrito já no final da tardinha:

Inebriamento

Apesar de domingo, havia um ar
Irresistível de sábado à tardinha.

Ventava forte e frio nos nossos rostos
E a luz do outono, coada no arvoredo,
Nos transportava aos mais estranhos mundos.

A ventania acariciava-nos o ouvido
Com o sussurro longínquo dos desertos

E tecia, artista intuitivo,
Aos nossos pés, sua tapeçaria
De folhas marrons e amareladas.

E a tudo envolvia um espírito estranho
De outras terras e eras já perdidas.

Ecoavam, débeis, velhos cantos
De caravanas milenares, profecias
Sorvidas no “chá forte” dos xamãs,

E líricas guitarras mergulhadas
No graal sacro da cuia de erva-mate.

Gravataí, 23 de maio de 2010

Ubirajara Passos

À Margem de si Mesmo


Mais um poeminha desconsolado que o último domingo inspirou-me:

À Margem de si Mesmo

Que coisa horrível é viver num limbo,
Sempre a parte das coisas, mas presente,

A tudo vendo, ouvindo, sentindo, mal cheirando
(Que a crônica rinite seqüestrou-me o olfato),

Tudo fazendo, mas não encontrando
Nenhum contato íntimo com elas.

Melhor seria não saber de nada,
Ser um grão de areia esvoaçante,
Que nada achar de prazeroso na existência,

Que não sentir-se vivendo a própria história,
Mas um alheio e pesaroso sonho
Em que um deus irônico e pérfido lançou-nos.

Melhor seria o coma alcoólico que um porre
Que, quanto maior, mais lúcidos nos torna.

Melhor seria ser o “asno falante”
De Balaão do que Moisés, velho, morrendo
À margem da “terra prometida”.

Gravataí, 23 de maio de 2010

Ubirajara Passos

Da Censura a este Blog e seu Pretenso Caráter “Pornográfico”


Por incrível que pareça, como já dizia o velho e sacana Rei Salomão, no Eclesíastes (outro livro seu fantástico, de que tratarei de reproduzir trechos brevemente), nunca “há nada de novo sob o sol”, mas apenas “tédio e vaidade”.

Este blog já havia sido censurado pelo ímpeto persecutório da administração anterior do judiciário gaúcho (o que resultou na minha suspensão por sessenta dias, praticamente sem salário, em razão de uma crônica aqui publicada) e agora, durante a campanha eleitoral para coordenador-geral do Sindjus-RS (a própria entidade que deveria defender a liberdade de expressão e pensamento de seus filiados), foi novamente censurado, e difamado, por componentes da chapa, que, casualmente, ocupa já a direção da entidade.

Com o nítido e anti-ético objetivo de influenciar os eleitores menos conscientes e de mentalidade ainda patriarcal e moralista (desviando-os do voto em uma chapa de oposição classista, pró-servidores, combativa e anti-pelega) foram divulgados, fora de contexto e de maneira distorcida, poemas deste blog que fazem parte da sua seção “erótica”, digamos, mas não passam de pura sátira anarquista e reichiana, já mencionados em posts anteriores, caracterizando a mim e, o que é pior, aos meus próprios companheiros de chapa (que não possuem nenhuma responsabilidade sobre o que aqui é publicado) como um tarado devasso e a este blog como uma suprema peróla da “imoralidade sexual” e da pornografia. Tudo feito da forma mais sutil e torpe que caracteriza a estratégia e a tática política do fascismo petista.

Companheiros meus de chapa haviam, prevendo a manobra infeliz, me sugerido que tirasse este blog do ar durante a campanha. Mas, como isto seria de uma desonestidade intelectual inaceitável, pois não é prática minha florear ou esconder a realidade em prol do proselitismo eleitoreiro resolvi mantê-lo, assim como preferi nã0 responder as acusações subterrâneas, para manter o nível político da campanha. Até porque retirá-lo seria ceder também à “patrulha ideológica” da intolerância falso-moralista  e do fascismo informal em que vivemos.  

Mas, infelizmente,  parece que um dos fatores da derrota da nossa chapa foi justamente a intolerância incentivada de boa parte do eleitorado. Não mudará em nada a realidade eleitoral, já abertas e apuradas as urnas há mais de uma semana, mas tomando-o de empréstimo, a guisa de resposta para os companheiros trabalhadores do judiciário induzidos pela difamação petista, e de alerta aos freqüentadores deste blog, publico abaixo um trecho da biografia de Érico Veríssimo (o grande romancista gaúcho), constante da seção 1 do capítulo “O Escritor e o Espelho” de Solo de Clarineta – volume II,  que dá conta de casos desta natureza:

“Em geral , quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, num misto de alegria, alívio e essa vaga tristeza que vem após o ato do amor físico satisfeita a carne. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso assim: ‘Não era bem isto que eu queria fazer’.

Chegamos assim a um assunto que eu gostaria de discutir com mais vagar. Sou habitualmente apontado como um escritor erótico ou mesmo pornográfico.

Por que – me perguntam às vezes – tenho tanta preocupação com o sexo? Ora, respondo, decerto é porque no fundo sou um puritano. Mora dentro de mim um pastor protestante a pregar interminavelmente um sermão apocalíptico contra o pecado da carne, e eu não posso consentir que esse homenzinho emascule as minhas personagens ou a mim mesmo.

Por outro lado quero contribuir para que o problema do sexo seja examinado com mais coragem, honestidade, espírito adulto… e saúde. Muitas vezes fico alarmado ao pensar que, relativamente falando, um leitor sente menos indignação ao tomar conhecimento do assassínio de seis milhões de judeus nas câmaras de gás asfixiante dos campos de concentração nazistas, ou do lançamento da bomba atômica em Hiroxima que rendundou na morte de mais de cem mil pessoas, ou ainda saber que mais de dois terços da população do Brasil vive numa miséria abjeta – do que quando lê num romance uma cena erótica descrita com clara franqueza. O que quero dizer é que noto uma desproporção absurda, direi mesmo monstruosa, entre a natureza e a intensidade desses dois tipos de indignação.

Falando com a maior sinceridade, para mim pornografia mesmo é a crueldade do homem para com seu semelhante, a exploração do homem pelo homem; obscenidade é a guerra e o genocídio. Os mocambos do Recife, as favelas do Rio e de centenas de outras cidades da nossa terra constituem as mais indecentes e repulsivas páginas e cenas da vida brasileira.

Acho que os verdadeiros pornógrafos da História – já que uma pessoa realmente adulta só poderá sorrir das grotescas fantasias eróticas do Marquês de Sade – foram homens como Tamerlão, Nero, Calígula, Mussolini, Hitler –, para mencionar apenas os primeiros nomes que me brotam na mente.

Quanto à questão dos ‘nomes feios’, creio que não existe nada mais ridículo que esse supersticioso temor a certos vocábulos que, afinal de contas, não passam de sinais ou símbolos convencionais. Tomemos por exemplo a famosa palavra de quatro letras que designa a mais antiga das profissões. Conta-se que Ruy Barbosa descobriu dezenas de sinônimos, entre os perfeitos e imperfeitos, para o termo prostituta, de maneira que não temos nenhuma desculpa quando usamos a palavrinha tabu. No entanto em toda essa história o que importa mesmo, o realmente deplorável e melancólico é a existência da prostituição, o que não parece preocupar muito as pessoas  mais sensíveis às palavras do que às coisas que elas representam.

Isso nos dá uma idéia da terrível importância da linguagem. Vivemos tolas e terríveis ilusões semânticas . Por causa de palavras ou frases matamos ou morremos, sentimo-nos desgraçados ou infernizamos a vida de nossos semelhantes. Qualquer ato ou fato, por mais reprovável que seja, de acordo com paradigmas morais rígidos, perde a sua força, a sua natureza pecaminosa e tende a ser ignorado ou esquecido quando não verbalizado, principalmente em romances. Fazer, pois, não é tão importante, tão grave quanto dizer ou escrever. Quantas vezes transferimos a culpa duma situação vergonhosa – que na realidade cabe a um regime político-econômico ou a uma conjuntura social – para cima dos ombros dos jornalistas ou do ficcionista que ousou reproduzi-la numa reportagem ou num romance?

E é exatamente por causa da exagerada importância que damos às palavras que nós muitas vezes resolvemos nosso problemas apenas no papel, isto é, de maneira verbal, e vamos dormir tranqüilos. Porque se ninguém jamais pronunciar ou escrever a palavra puta (desculpem se me escapou o ‘nome feio’) a prostituição deixará de ter existência real.”

A Face Atroz do Tédio


As minhas manhãs de domingo normalmente não produzem nada mais do que a modorra xaroposa. Mas hoje, indo a pé comprar aquilo que o salário de oficial escrevente falido permite nesta altura do mês, um litro de coca-cola e um quilo de carne moída, o insconciente tratou de preparar esta vingancinha contra os dias de repouso semanal obrigatório enjoativos e me trouxe o verso final do poema abaixo, que foi todo ele composto mentalmente no trajeto:

A Face Atroz do Tédio

Olhai para esta gente que se agita
Nos corredores dos supermercados,

Aos cujas tardes de domingo se consomem
Entre a “loira” da garrafa e o futebol,

Aos que, com o olhar parado, se encantam,
Em transe abestalhado, ante a televisão;

Ouvi a gritaria estridente
Dos cultos neopentecostais,

Os bordões dos camelôs nas ruas cheias
E os discursos, sempre iguais,
Dos militantes, nos comícios,
A protestar contra a corrupção;

Senti o profundo dissabor
Dos corpos cabisbaixos que se arrastam,
Nas madrugadas, à labuta compulsória,
E das nervosas correrias
Da hora do almoço nos “bifês por quilo”;

Observai a multidão que abandonou
O prazer do movimento espontâneo,
O riso frouxo e o êxtase sem regras,

E, infinitamente pálida e prostrante ,
Vereis a face atroz do tédio!

Gravataí, 23 de maio de 2010

Ubirajara Passos

Caso estrambótico de austero “pai de família” levado, por engano, a uma boate gay:


Como uns companheiros meus, fiéis leitores deste blog, me alertassem que faltava um paralelo masculino a um dos poemas publicados (o da secretária de multinacional que foi ao buteco escroto), já que o ontem publicado dava conta, de certa forma, do da patricinha de repartição pública que caiu na esbórnia, segue abaixo mais uma pérola da “antropologia satírico-sexual” deste ilustre pseudo-tarado-machista-homofóbico que vos escreve:

Caso estrambótico de austero “pai de família”
levado, por engano, a uma boate gay:

Nunca, em toda sua vida,
Foi dado à boêmia pândega.

Era como um relógio
De sol esculpido em mármore.

Do trabalho para casa,
Da casa para o trabalho,
Dava-se o desplante, às vezes,
De assistir uma missa,
Ou de uma conversa rápida
Com o dono da farmácia.

Sério e seco como um tronco
De árvore morta infecundo,
Em casa não permitia
Lhe tratasse a cozinheira
Senão por senhor,
Com os filhos
Só tratava pra ralhar.

E, se alguém lhe contestasse
O infeliz estilo de vida,
Respondia, taciturno,
Mas em tom alto e grave:

Lhe pesavam sobre as costas
Graves responsabilidades,
Não havia tempo, portanto,
Para o fútil desfrute
Cheio de imoralidades,
Pois era um pai de família!

Um dia lhes convidaram
Para uma estranha festa,
Disseram, de aniversário,
Num obscuro salão,
Todo enfeitado com estrelas,
Luzes negras e, nas mesas,
Abajures cor-de-rosa.

Sentou ao seu lado uma “moça”,
Muito meiga e toda prosa,
Que, lhe garantiu, vivia
Para a mãe e os irmãos,
Muito devota ela era,
E, se voltava e meia, ali ía,
Era para garantir
À família o ganha-pão.

Piedoso, o nosso herói,
Cedeu-lhe aos rogos chorosos
E cometeu o sacrifício
De ir, sério, para a alcova
Apenas pra remediar
A horrível pobreza alheia!

E, quando, penitenciando-se,
Adentrava-lhe as carnes
Tenras de ovelha perdida,
Em posição de cachorro,
Levou-lhe a mão à virilha,
Num ímpeto não contido,
E quase enfarta de espanto,
Com aquela banana enorme
Em posição de sentido!

Gravataí, 21 de maio de 2010

Ubirajara Passos

O Valente Misógino


A fim de provar aos que, porventura, se deixaram influenciar pelas distorções divulgados pela chapa pelega nas últimas eleições do Sindjus-RS (a chapa 1 – Pra Seguir), ao divulgar os poemas “A Madame do Balcão” e “Causo Bizarro de uma Patricinha que foi de Tayeur ao Buteco”, e desistiram de votar na chapa por mim liderada (a chapa 2 – Movimento Indignação – por um Sindjus Independente, Democrático e Combativo),  que  não sou um terrível tarado machista, publico abaixo, ainda que depois do pleito, mais um poema satírico da série “sacanagens empíricas e sociológicas da pequena burguesia e da peonada orgulhosa”:

O Valente Misógino

Era macho pra caralho,
Tanto que chá não tomava,
Mas emborcava uma “pura”.

Os cabelos não penteava,
Alisava suas crinas.

De novela não gostava,
Que era coisa de fresco,
E futebol só assistia
Em buteco sem mulheres.

Se o olhassem atravessado,
Botava bronca tremenda,
Quebrava mesas com socos,
Fazia voar cadeiras.

Caneta não empunhava,
Porque não era um molenga.
Orgulhava-se, estufado,
De se fuder carregando
Nas costas uma pedreira.

E avesso a fru-frus, fraquezas
Rendas e romantismos,
Evitava as gatinhas
Ronronantes, as gostosas
Cheias de dengo e malícia.

Preferia, rija e forte,
A companhia bagual
Dos culhudos orgulhosos.

E, pra provar que maricas
Não tinha como virar,
Não usava papel higiênico,
Mas um sabugo bem grosso
No cu curtido em urtiga!

Gravataí, 20 de maio de 2010

Ubirajara Passos

À minha mãe ida, mas sempre presente


Não sou dado a manifestações emotivas em datas de comemoração “obrigatória” e padronizada, que atendem muito mais à ganância do mercado capitalista do que às memórias afetivas coletivas. Mas, hoje de manhã, em meio às peripécias finais da campanha eleitoral como candidato a Coordenador-Geral do Sindjus-RS, acordei com uma nostalgia antiga e dolorida, que o arvoredo de fundo de pátio, em pleno outono de frio, nuvens e ventania, para que dá a janela do meu quarto, tratou de reforçar, e acabei parindo o poema abaixo:

À minha mãe ida, mas sempre presente

Já faz bastante tempo que partiste
Para a longínqua estância do eterno,
Deixando-me pra sempre desmamado.

Quando tu fostes de volta ao pó da terra,
Mais do que alguém que carregou-me nove luas
No edênico berço do teu ventre,
Perdi uma amiga, uma das raras almas
Que compreendia-me profundo e desnudado
Dos atavios de adágios e discursos.

Perdi uma parte irrecuperável de mim mesmo,
Mas conservei, pulsante e permanente,
Uma ternura por tudo é quanto frágil,
Um cuidado preocupado e extremoso
Com a vida nova que se agita entusiasmada
E inconsciente da perfídia deste nosso mundo.

Eu que privava da tua intimidade,
Mas fui, contraditório, parco de palavras
Pra te dizer o quanto tu eras tudo,
Hoje compreendo, pai que sou de uma filhinha
O que inspirava as intromissões,
Que sufocavam meus ímpetos de potro,
Já bem crescido e senhor de si.

Hoje, conservo, em meio ao fogo da batalha
Pela transformação da sociedade
Em justa e solidária comunhão de peões,
Sempre uma ponta de intranquilidade,
Quando distante da minha menininha,

E, sempre que posso, jogo longe a armadura
E sento ao chão, criança revivida,
Para com ela ser bebê de novo,
Me arrebatar com o mais simples brinquedinho
Rindo à toa, com ela, o olhar cúmplice,

E lhe dar o que trago de mais caro,
Bem fundo, no mais íntimo de mim,
Que é o carinho que de ti restou-me,
Como relíquia sagrada e sem medida.

Gravataí, 9 de maio de 2010.

Ubirajara Passos