Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

A negra noite da alma


A negra noite da alma

A dor da madrugada,
O desatino duro e distante dos quartos anônimos,
O mergulho na embriaguez disforme
Da escuridão silente e indiferente aos gritos

Desesperados dos que se perderam
De si nas brenhas diurnas da rotina
E penetraram na profundidade
Apavorantemente branca

De uma vigília eterna cumpridora dos deveres
E vem buscar refúgio nos porres tristonhos
De velhos butecos de luz amarela.

Uma rota bandeira que já não balança
Nem nas tardes mornas de um céu de domingo.
Um café sem açúcar, esquentado de novo.
O riso obrigatório da euforia falsa.
As novidades velhas das redes sociais.

O sem sentido tão grande
Que nem dói, mas só arrasta
Nossas mentes insones num mar branco e sem ondas.

Não grite ao portão de granito quando vierem
Te visitar todas estas “entidades”.
Pois não há rogo que as afaste e só após varrerem
Todo sossego modorrento e informe
Te abandonarão ao calor de um novo dia.

Gravataí, 17 e 20 de julho de 2016

Ubirajara Passos

Um e-mail das Arábias


Era a milésima vez que recebia por e-mail aquelas versões “internacionais” do golpe do bilhete, do tipo “tenho uma grana enorme que não posso aplicar em meus país conflagrado no Oriente Médio e sei que o senhor pode me dar dicas de investimento em seu país”.

Mas, agora, a coisa era completamente diferente. Viera em português. É bem verdade que num português sofrível, capaz de injuriar o próprio Inácio dos Nove Dedos (e sua sucessora, a “presidenta” aclamadora de mandiocas – na qual a mídia e o aparato institucional da direita explícita andam ultimamente querendo enfiar de vez a mencionada raiz) ou mesmo o patrício de mais estropiado sotaque emigrado do Líbano ou da Palestina. O texto dizia o seguinte: 

“Respondi Urgente Para Investomento!!!
Lamento se meu e-mail incomodá-lo, eu decidi entrar em contato com você, porque eu sinto que você vai me entender melhor ..Estou realmente precisando de sua ajuda,    pois requer uma resposta urgente de você. Por favor, esta é uma mensagem pessoal para você, eu preciso de algumas directivas de você para investir algum dinheiro ou de capital no seu país, EU e meu marido era industrial e um membro do conselho de empresários de petróleo síria em Damasco, Síria. Devido a matanças,decapitações bombardeios e conflito crise guerra em Síria que milhares de civis relatados fugindo como batalha por Aleppo, Síria,intensifica à medida que a guerra se intensifica a partir de hoje, eu não posso investir o dinheiro aqui na Síria isso é quando eu entrar em contato com você E ver como podemos parceria no negócio e intensificar complexo multinacional.
Responder-me explicar melhor para voce nesta e-mail: aishaalrashid1@qq.com

Sra.Aisha Al.Rashid

Por breves e imbecis instantes, o nosso herói quase caiu na asneira de levar a sério a coisa e responder a mensagem da forma como solicitada, já sonhando com a fortuna que poderia abarcar com o tesouro do milionário árabe. Ficou imaginando a imensa e infinda farra que faria num harém particular, contratando as mais gostosas e safadas “odaliscas” dos mais chiques (e também dos mais fuleiros, desde que tivesse aquele rostinho sem-vergonha e aquela malícia ronronante que põe qualquer leão furioso desvairado mansinho como gato de madame) da capital, na qual poderia acabar, literalmente, morrendo de trago e gozo.

Mas, antes que as mãos digitassem apressadamente o que seu cérebro de asno ditava, o zé pelintra que o acompanhava soprou-lhe ao ouvido a tremenda encrenca em que ia se metendo e, ao invés de simplesmente deletar o e-mail, como fizera com os outros tantos, resolveu se divertir e devolveu a tentativa da golpe da maneira mais sacana que encontrou:

“Não se preocupe. Você enviou este e-mail para a pessoa certa. Eu e meu amigo baiano, dr. Luisinho Sugacheca, não temos um único puto na carteira, mas conhecemos todas as putas de Porto Alegre, capital do Sul do Brasil, onde prolifera o negócio mais rentável deste país: a putaria. E moro justamente  na cidade periférica da Região Metropolitana daonde provém a maior parte destas putas!
Podemos, tranquilamente, investir os petrodólares de seu marido num FANTÁSTICO PUTEIRO GIGANTE, com direito a 2 torres gêmeas de 14 andares, cada qual destinado a shows e práticas públicas e privadas de boquete, streap-tease, sessenta-e-nove, sexo anal, vaginal, oral, nasal, umbilical, espanhola, ucraniana e polaca, sexo bizarro com cães, vacas, ovelhas, camelos, gordas, velhas, ciganas e mães de santo em pleno transe da pomba gira kadija al-sacanidi, bem como diversos gays de barba grisalha e com um dedo a menos na mão esquerda (perdido no cu do povo brasileiro), especializados em fuder nações e continentes inteiros como o Brasil e a América Latina.
Para construirmos esta mega instalação e contratarmos os profissionais e a logística adequada necessitamos tão somente da módica quantia de 24 trilhões de euros!

Favor enviar esta grana para a Caixa Beneficente das Putas e Gays do Brasil, agência 024, conta 694324 – titularidade da senhora Dilma-Ahma-Mandyioca-Emmet Abanananopovo.

Aguardamos com muita ansiedade e entusiasmo a sua resposta.

Assinado: Salym Al-Assad-Ocudosviga-Ristasimeim-Becys”

Pelo que se sabe, até hoje, passados uns 3 meses, muito embora nosso amigo, contra os próprios hábitos, acorde de madrugada e salte da cama como um cabrito embrigado para conferir em seu computador, até hoje não recebeu a minima resposta.

Ubirajara Passos

Soneto do Quinto Dia


Sexta da cerveja,
A tua noite reveja
A velha boemia de eras distantes.

Traga o fim do dia
A redenção divina
Da cruz do serviço
Às três horas da tarde.

E, o batismo no copo,
A iluminação
No altar do buteco,
Em comunhão bêbada.

Na noite exaltada
Mergulhemos rumo
Ao paraíso das setenta mil loucuras!

Gravataí, 28 de novembro de 2012

Ubirajara Passos

A BÍBLIA DO PERUCA: O último trago


Era a véspera da páscoa, e como já estava terminando a “quaresma” (tempo de abstinência sexual, que Jesus Peruca e seus apóstolos não respeitavam mesmo) foram todos para a Taverna Lucy Bar (sob nova direção, devido a morte de sua antiga proprietária)  realizar o que acabou se tornando conhecida como a farra bíblica de maior relevância no “Evangelho de Nosso Senhor Jesus Peruca” mais conhecida como ” O Último Trago”.

Para variar, o Mestre e seus discípulos já se encontravam terrivelmente embriagados, se preparando para iniciar a maior esbórnia sexual, quando Jesus Peruca, dirigiu-se, já com a língua enrolada,  para Simão Pedro Carpanus Andarolas, e lhe fez a primeira grande revelação daquela fatídica madrugada:

– Pedro, antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu  me comerás .

Pedro Carpanus, apavorado, então responde:

– Ainda que me seja necessário morrer contigo, de modo nenhum te comerei.

A revelação gay do profeta explodiu como um peido cósmico no salão do bordel! Os demais apóstolos presentes mal conseguiam conter o riso, mediocremente disfarçado por um ar de distração, que se parecia mais com o deboche puro e simples.

Emputecido com a reação deles, brabo como um burrico no cio chicoteado, o Messias Peruca levanta-se e, fazendo a segunda revelação, clama:

– Em verdade vos digo: um de vós me trairá hoje!

Nesse momento, São Tomé Hugo levantou-se e saiu correndo porta afora, mais rápido que uma gazela com pulga no cu, e não fosse Jesus Peruca gritar que não seria ele o traidor, o apóstolo velocista já estaria cruzando o Mar Vermelho.

A farra continuou, então, até altas horas, e era já por volta das 5 h da manhã quando o último apóstolo bêbado, Santo André Gílsius, mais conhecido pelo apelido de Law Cabritus da Taverna 59, que estava de quatro-pés no salão central, resolveu largar de mão a mula (que também participara da suruba) e ir dormir.

Santo André Gílsius, São Tomé Hugo, Jesus Peruca e Ubirajudas Iscariotes, iniciando os trabalhos alcoólicos do "último trago"

O que poucos sabiam, porém,  é que Jesus Peruca necessitava de verbas, além dos parcos donativos dos “fiéis” , para manter sua vagabundagem, isto é, sua carreira política de Messias “nacional-farrista”, e, por isso, prestava uns serviços “extra-proféticos” justamente  ao governador romano da Província da Perucaléia, Pôncio Excelsus Pilatos, que lhe remunerava cada sessão com 10 moedas de ouro, contribuindo assim, secretamente,  com o financiamento  da campanha messiânica.

Pôncio Excelsus, porém, era um  sujeito bastante excêntrico, dado aos mais estranhos fetiches, além de portador de um sadomasoquismo grotesc0. Assim, exigia que Jesus Peruca, cada vez que o visitava, se fantasiasse como um centurião do exército e que entrasse sorrateiramente pela janela de sua casa, à noite (o que era  pra lá de costumeiro).

Antes que fosse consumado o ato libidinoso (diga-se de passagem, bastante mal remunerado) ele apreciava que o Messias Peruca lhe desferisse uma boa e velha SPM (surra de pingola mole), que não fazia parte do pacote contratado, mas rendia a Jesus Peruca alguns favores políticos e autonomia para continuar a exercer suas profetizações alccólico-subversivas sem ser incomodado.

Por isto era freqüente Jesus Peruca se ausentar depois da meia-noite, vestindo aquela velha farda e saindo de mansinho para não acordar os demais apóstolos, contando com o auxílio do seu fiel apóstolo-tesoureiro Ubirajudas Iscariotes, que, além de servir de pombo-correio à dupla gay, se encarregava diretamente da arrecadação dos “dezinhos”, que Pilatos, discretíssimo, deixava em baixo de uma pedra, junto às muralhas do palácio, toda vez que solicitava os serviços de Jesus Peruca.

Porém, naquela noite, após o maior porre já registrado pelo homem, o “último trago”, Jesus Peruca, vestindo aquela pesada e barulhenta armadura, tomou um tombo na saída da taverna e acabou acordando dois dos apóstolos, Pedro Andarolas e Judas Cabelinho Tadeu (outro primo de Jesus Peruca).  Os dois encontravam-se em condição alcoólica semelhante a do próprio “messias michê” e, dando com a estrambótica figura, acharam que estavam sob ataque do exército romano. Judas Cabelinho jurava que o sujeito fardado era agente do DOPS e, em um reflexo retardado, contudo rápido o suficiente para o embriagado Messias, juntou um bastão que estava dando sopa e desferiu um único e certeiro golpe, com toda força, na cabeça de Jesus Peruca, deixando-o desmaiado.

Cabelinho estava tão enfurecido que pretendia dar cabo do “soldado” ali mesmo, mas foi contido por Pedro Andarolas, que alegava que isto iria contra o 5.º mandamento, mas que também concordava que aquele espião romano devia ser castigado de outra forma. Como era metido a estudioso das leis, Pedro Andarolas fez a brilhante constatação jurídica de que nos 10 mandamentos não havia qualquer menção proibitiva ao “estupro homossexual”, resolvendo ser esta a melhor punição. E ali mesmo deitando-o de bruços sobre a mesa do “último trago”, Pedro Andarolas comeu o cu de  Jesus Peruca por 3 vezes antes do galo cantar.

Enquanto a baderna sexual sem vergonha acontecia, Ubirajudas Iscariotes, que devia em toda  a praça (pois ganhava bem menos como apóstolo do que sua máscula amante conseguia gastar às  suas custas no jogo do osso) aproveitou o ocorrido para cometer um leve delito. E, usando de suas atribuições em proveito próprio, pegou as 10 moedinhas de ouro, que Pilatos deixara no costumeiro local, embolsou-as e ficou bem quietinho.

Pilatos, velho e rabugento que era, não aceitou o atraso de Jesus Peruca, e ao ver que as moedas não estavam mais onde as deixara, indignou-se e mandou seu exército ao “esconderijo” (que sempre soubera onde ficava) da turma do Messias, trazendo-o a pau até o palácio. Os soldados lá chegando encontraram não só Jesus Peruca, mas toda a “quadrilha apostólica”, que rapidamente fugiu, deixando, sem saber de nada, Jesus Peruca desmaiado e com seu ânus exposto e arrombado. Prenderam, então, Jesus Peruca.

Ubirajara Passos

A BÍBLIA DO PERUCA: Maria Madalete


Conforme  a versão da Bíblia Peruca  contida nos manuscritos gnóstico-asníferos de Nágua-Enrabadi, na antiguidade perucaica existiu uma mulher chamada Maria Madalete. Alta, magra e loira, descendia de uma tribo germânica que migrou para o Oriente Médio, provavelmente em alguma embarcação viking ou coisa do gênero. Sua vida até os fatos aqui narrados é quase um completo mistério. Sabe-se apenas que casou-se com um cobrador de impostos romano e teve um casal de filhos antes de seus atos tornarem-se publicamente relevantes.

Ela mantinha uma pose nojenta e arrogante, com um cinismo escorrendo pelas orelhas, perante o ciclo social de nobres e patrícios, com os quais o status de seu marido forçava-a conviver. No entanto o que poucos sabem, e quase nenhum de seus contemporâneos enricados conhecia, é que Madalete na verdade, foi a meretriz mais famosa de toda antiguidade peruca.

Conhecida pelo nome de guerra de “Alemoa”, era proprietária de um prostíbulo de alto padrão, a “Taverna Lucy Bar”(onde  também ocorreu um dos maiores eventos bíblicos peruca, o “Ultimo Trago”), nos subúrbios de Perucalém!

Naquele alegre e descontraído local era raro o dia em que não se encontrava Jesus Peruca e todos demais apóstolos fazendo o que faziam de melhor: pregar a palavra de Deus Peruca. Isto, evidentemente, depois de desfrutar dos serviços muito bem prestados pelas funcionárias de Madalete, e após aquele goró antológico.

Certo dia os santos pregadores estavam, como de costume, por ali bebendo e farreando como uns porcos piçuídos. Apóstolos e discípulos haviam fechado o famoso cabaré, e rolavam, bêbados e excitados, muitos nus, sobre mesas e cadeiras. O apóstolo-tesoureiro Isacariotes havia mesmo tomado do corpo de uma jovem e agitada puta gaulesa e tratava de lamber-lhe a ervilha do prazer em pleno salão, para gáudio, deboche e espanto de seus colegas. Jesus Peruca, porém estava cabisbaixo, com  um ar triste e soturno. Ocorre que ele ainda curtia uma ressaca da festa que proporcionara no dia anterior, na aldeia de Feliz, e ainda tinha o estômago meio embrulhado, pois não conseguira tirar da cabeça a cena estrambótica de Camarguinius fazendo sexo oral em um jumento.

Uma das prostitutas, uma loira esquisita e gordinha metida a psicóloga letrada, perguntou para um dos apóstolos, o que havia ocorrido com Jesus Peruca, porque não era costumeiro dele estar daquele jeito. A desgraçada,  porém, deu o azar de dirigir sua pergunta justamente para Ubirajudas Iscariotes, que era o apóstolo mais sem-vergonha de todos os 12, e ele foi logo respondendo:

– O mestre Peruca está assim porque descobriu que sua mãe não é virgem nada! O Espírito Santo mandou ver umas 3 ou 4 vezes nela!

A puta ingênua e tonta, de mentalidade estilo  peruca, acreditou na mentira, e foi logo dizendo que ia dar um jeito de animá-lo. Buscou um cântaro de cerveja e despejou tudo no colo do infeliz Messias Peruca, que saltou mais alto que um gato, enfurecido, xingando a moça de tudo o que podia.

São Tomé Hugo, mais conhecido por São “Dente” Hugus – em alusão ao proverbial ataque de gargalhadas que teve ao saber da perda da dentadura de Camarguinus — tentou acalmar os ânimos. Mas, neste momento o barraco já estava formado. A puta era nervosa e não levava desaforo pra casa: era copo voando para todo lado, socos, chutes, arranhões, mordidas… não tivesse Deus peruca mandado um terremoto para apartar a briga e sabe-se lá o que teria acontecido.

O Messias Peruca e seus apóstolos aproveitaram o terremoto para sair sem pagar a conta. E já estavam longe, dando gargalhada da situação, quando deram pela falta de São Robertinus, um dos apóstolos – por sinal o único dentre todos que ainda era virgem – e,  ao retornar para a taverna, a sua busca, constataram que o pior já havia acontecido. Deram todos de cara com a própria Maria Madalete montada, e a galope, em cima de Robertinus, que gritava e esperneava como se estivesse à beira da própria morte.

A indignação foi geral. São Robertinus era um rapaz casto por opção, e tinha orgulho de sua condição de abstinência sexual, além de ser o único seguidor “puro” de Jesus Peruca. Os apóstolos, então, pegaram Madalete pelos cabelos e arrastaram-na até o meio da praça, onde começaram em coro a incitar a multidão ao apedrejamento da mesma.

Jesus Peruca, entretanto, aproximou-se, com toda calma e lerdeza típicas de peruca, e com sua celestial burrice, proferiu as seguintes palavras:

– Sei que esta mulher adúltera e pecadora errou e, se for o desejo de todos apedrejá-la, que assim seja.

Abaixou então sua cabeça, juntou uma vareta, riscou as areias do solo, e voltou a dizer:

– Portanto, quem nunca errou que atire a primeira pedra!

Nesta hora já havia uma multidão formando um círculo ao redor de Madalete, pronta a apedrejá-la, mas os populares, ao ouvirem os dizeres de Peruca, foram largando um a um as pedras que empunhavam.

Quando o fudunço parecia ter sido contornado pelo Messias bocaberta, e a turba principiava a se afastar, surgiu de repente, abrindo um corredor em meio àquela gente, vindo lá do fundo, São Kadu, outro dos apóstolo, que estando a uns 15 metros de distância da cafetina,  veio correndo, carregando sobre a cabeça uma pedra maciça de mais ou menos uns 30 kg e, antes que Deus Peruca pudesse novamente intervir, arremessou-a contra a pobre Madalete, trucidando-a.

Jesus Peruca apavorado com a situação, tremia igual vara verde, não sabia onde tinha errado em seu discurso redentor, e perguntou ao apóstolo:

– Por que fizestes isso? Tu por acaso nunca erraste?

E o apóstolo então respondeu:

– Olha, dessa distância ainda não!

Ubirajara Passos

A BÍBLIA DO PERUCA: O mau samaritano


Deus Peruca, apesar de lerdo, era metido a gozador. E assim resolveu se divertir um pouco, para espantar o proverbial tédio celeste, e dotou o seu “filho” Jesus Peruca do raro dom de multiplicar o vinho, já que transformar água em vinho era milagre em que o Messias, mesmo após 70 tentativas, não se acertava mesmo. E o resultado é que o profeta vivia de porre.

Certa vez, quando,Jesus Peruca, evidentemente bêbado, pregava a palavra de Deus Peruca sobre a terra, dele acercou-se um de seus apóstolos, de nome Zé Flávius Doidínius, com aquele seu sorriso de mula característico, e lhe interpelou:

-Mestre! Como devo proceder para alcançar a vida eterna?

Jesus Peruca fez um ar de jegue sábio, e, dando uma cuspida pro lado, contou-lhe a seguinte parábola para que ele compreendesse melhor o significado da passagem do homem sobre a terra e os mandamentos de Deus Peruca:

Camarguinus-clama-hugus era um comerciante perucalomitano. Na verdade foi ele a primeira espécie de representante comercial que existiu na província da Perucaléia. Viajava de cidade em cidade, vendendo a muamba que seu amigo e representado, Law Moisés Tataraneto buscava em longas viagens à China (cujo contrabando veio a render a Law a ameaça de prisão das autoridades provinciais e o exílio forçado no Egito).

Em uma de suas andanças Camarguinus chegou à aldeia de “Feliz”, que se situava mais ou menos a uns 30km de Jericó. E lá se deparou com o maior bacanal que já vira em todas suas viagens pela Palestina, da Perucaléia à Síria.

Eu, Jesus Peruca, ao completar meu 32.º aniversário, resolvera, então comemorá-lo (pois nem eu, nem ninguém, até então, em Perucalé,jamais havia ouvido falar que se fizesse festa no dia do ano em que nascera). E, terrivelmente criativo que sou, tratei de inovar nos “bebes” (que os comes eram basicamente os machos e fêmeas participantes dos festejos).

Ao invés de servir vinho, eu, Jesus Peruca inventei uma espécie de bebida alcoólica fermentada, a base de cevada, aplicando então meus poderes multiplicadores elevados à centésima potência, o que redundou na maior e mais animada festa que a aldeia já vira.

Camarguinus, ainda que comerciante, era algo tímido e hesitava em largar seus alforjes mercantis e cair naquele carnaval divino. Mas não podia perder esta, e se enfiou de cara em um barril daquela deliciosa bebida, e, dizem as más línguas, ficou tão doido que até show de sexo oral ao vivo com um jumento ele fez.

Ainda sob os efeitos da cevada fermentada em barril, na sua volta para Perucalém, Camarguinus mal se equilibrava em cima do jumento, quando caiu nas mãos de salteadores da quadrilha de Dente Barrabugo (ladrão que virá a ser crucificado comigo Jesus Peruca, mas, na “hora h” vai fugir da cruz, roubando os pregos de cobre, e deixando eu me fuder sozinho).

Os bandidos após depenarem-no, ao ponto de deixá-lo completamente nu, espancaram-no, e largaram-no, moribundo, à margem da estrada.

Coincidentemente descia pelo mesmo caminho um sacerdote farisaico,o Pastor Kadu, que, mesmo vendo-o em tal situação, passou ao largo, escarrou na cara do pobre infeliz e seguiu seu caminho.Logo a seguir desceu seu, até então, amigo Law Moisés,  cujo procedimento não foi diferente daquele do sacerdote, porém muito mais cruel! Indignado por Camarguinus ter perdido seus artefatos chineses, Law chutou a cara do bebum, até arrancar-lhe todos os dentes da boca.

Eis que do nada, então, surgiu um samaritano conhecido na região como Caius Gugu, que, encontrando-o naquele estado deplorável, moveu-se de íntima compaixão e, descendo de sua cavalgadura, levou-o a uma hospedaria de nome “Amplexus Analius”, onde continuou a cuidar dele.

No dia seguinte, Camarguinus, ao acordar, não encontrou mais Caius Gugu, que havia saído logo cedo. E embora ainda sem conseguir caminhar devido a fortes dores traseiras, fato que estranhou bastante, pois mirando-se ao espelho, viu que não havia hematomas naquela parte de seu corpo, e sem sua arcada dentária completa, ficou muito agradecido para com o bom samaritano, que, além de levá-lo à tal hospedaria, tudo pagou, e ainda por cima deixara 10 moedinhas de ouro ao lado da cabeceira da cama.”

Após ouvir essa parábola, Zé Doidínius, ainda sem ter por respondida sua pergunta voltou a indagar:

– Mas, Mestre, como essa parábola me ajudará a descobrir como alcançar a vida eterna?

Jesus Peruca então empertigou-se e respondeu:

– Isso eu também não sei, mas pode te ajudar a evitar uma bela
dor no rabo!

Ubirajara Passos