Isaque, o nihil tom, e a puta força!


Isaque era um professor judeu de meia-idade. Para ser exato, um quarentão cabaço, terrivelmente excêntrico e distraído.

Sua excentricidade incomum principiava na própria condição étnica. Pois sendo um judeu, filho de um comerciante judeu, e (agravante indefensável) judeu inglês, cuja família se encontrava radicada na ilha há séculos, negou-se terminantemente a suceder o pai no bolicho londrino, dedicando-se ao infausto, mal quisto, mal visto e mal remunerado ofício de mestre-escola de meninos burgueses, numa época em que ser burguês era coisa equivalente à ralé de nossos dias (ao menos para os falidos e soberbos nobres de então).

Jacó, seu pai, havia percebido, que o rapazinho, desde novo, tinha um ar e uns hábitos estranhos. Ao invés de correr as guriazinhas goens do vilarejo, preferia andar, ensimesmado, pelos obscuros becos, com a cabeça na lua e os pés tropeçantes, como se pisasse sobre um colchão de penas de ganso e não sobre a terra dura e fria.

Suspeitava mesmo que o filho era veado e só não o levou ao rabino, para as devidas admoestações, porque o estranho piá, apesar do ar fresco e abestalhado, também não chegava perto de guris. Preferia passar o dia a conversar sozinho nas esquinas.

Crescido, já o pai morto, Isaque liquidou o comércio da família e, para decepção de sua mãe, irmãs e primos, abriu aula pública para filhos da nascente burguesia mercantil-marítima, garantindo algumas vagas, custeadas pelos cobres herdados, a ranhentos filhos da ralé suburbana, que diferiam dos demais alunos por sua compleição física um tanto avantajada e rudes hábitos zoófilos.

Mas Isaque não era um professor comum. Apesar de sua propensão ao pouco lucro e, contrário à sua raça, à ingenuidade própria dos mais imbecis otários, Isaque, como todas as gerações que o antecederam, era exímio em cálculos, e bastante criativo. O que não lhe favorecia nem um pouco a ilustre condição de bocaberta. Era famosa em toda a Londres do final do século XVII a anédota sobre o dia em que foi cronometrar o tempo necessário ao cozimento de um ovo no forno à lenha e introduziu neste  o relógio, ficando a segurar o ovo (por motivos bem mais puros e precários do que poderiam supor seus maledicentes vizinhos, cuja diversão preferida era espionar o jardim de sua chácara, quando nele se reunia a pequena multidão de mancebos em idade púbere).

Ermitão esquisito,  com fama de puto,  portanto, Isaque, surpreendentemente, tinha por melhor amigo um sujeito enfronhado na pior ralé do baixo meretrício da antida Londinium. E foi por sua insistência, heróica e veemente, que um dia resolveu abandonar  quadro negro e estrado, dando-se à futilidade de ir percorrer, em plena e apavorante madrugada, a zona da capital bretã.

Como convém a todo chato intelectual burocrático e moralista, Isaque era abstêmio. E, herança maldita que integrava a essência da índole herdada, tão recalcitrante (apesar da rejeição voluntária), era pão-duro. Assim, quase bota a perder a vantagem do amigo, que o levava ao cabaré do Peter em troca dos favores gratuitos das ilustres falenas rubras, justificado apenas na valorização que a fama da presença do ilustre mestre haveria de trazer à casa, situada às margens do então cristalino Tâmisa. Chegado às dez da noite, eram três horas da manhã e, entediado e bocejante, o seco professor não havia se disposto a pagar uma única dose a qualquer das dadivosas e dedicadas girls e já começava a causar rebuliço entre o plantel de pinguanchas, exasperadas com a chatice e a inexistência da clássica porcentagem sobre o vinho, ainda que obrigadas pelo rufião-proprietário do bordel a sentar-se à mesa do urubu narigudo, todo vestido  de preto (com olhar parado e turvo de sádico dominador).

O homenzinho, além de empolado e discursante (de uma conversa enigmática, pedante e enjoativ) era brocha. As putas desdobravam-se na maior loucura, se esfregavam em pelo no colo do infeliz, bolinavam-lhe e lhe lambiam a cara e NADA!

Mas eis que chegado próximo ao encerramento da função noturna, apavorado, o pobre amigo tratou de fornecer-lhe, sem aviso, uma estranha erva no cachimbo, e o qüera, enlouquecido, pôs-se sobre a mesinha circular, completamente nu, com o tarugo em riste, a cantar e gesticular, desafinado, se esvaindo em gargalhadas.  Num giro histérico, foi deitar o olhar justamente na Clotilde, a mais rechonchuda e desvalorizada camareira do lugar, que naquela hora passava pelo salão com um rolo de lençóis entre o único quarto e a tina de lavar.

Doidão como estava, não houve quem pudesse convencer Isaque, jegue emaconhado, a largar mão da tia e grudar uma mariposa nova e bonitinha. E assim foi, saltitante, histérico, aos gritos e relinchos, para um infecto cubículo, onde, à luz cambaleante do candeeiro, Clotilde, entusiasmada (que fazia uns bons vinte anos nem cego ou marinheiro torto se dispunha a lhe ralar as carnes) sacou as roupas de um único e arrebatado coice. Apavorado com o enorme e esburacado traseiro, que mais parecia um queijo (ou a lua, como o professor a vira ao telescópio), Isaque ficou sóbrio num segundo e, vendo aquela coisa molenga e pesada lhe pender sobre o caralho, agora falecente, entrou em transe matemático, e, num insight histórico, formulou a clássica e irrefutável teoria que explica o funcionamento do universo.

Havia uma força muito grande, absurdamente séria e preocupante, que o havia conduzido ao sujo catre  e fazia aquela colossal buzanfa flácida pender sobre o seu púbis e lhe esmagar os ovos magros, sem apelação, fazendo-o esbugalhar os olhos num movimento reativo da cabeça de baixo ao topo da de cima. Não sabia como explicá-la, embora pudesse calcular em detalhes o impacto e a trajetória. E sendo tão grandiosa e infelicitante, num lance genial, a denominou, diante da situação periclitante, de FORÇA DA GRAVIDADE!

Ubirajara Passos

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A última canção


Meio-dia e meia de uma tarde quente de final de primavera, para ser mais exato, 9 de dezembro do ano passado. Aproveitando o horário do intervalo, o Oficial Escrevente de um Foro da comarca da serra gaúcha, nas horas vagas ilustre músico honorário de uma banda de quarentões classe média (funcionários públicos e profissionais liberais), está na loja de instrumentos musicais comprando encordoamento para o seu violão.

Absorto, sentando na banqueta acolchoada, junto da velha janela de vitrais, com aquele ar estranho de quem pegou um trem pra Marte e esqueceu de pagar a passagem, coloca as cordas novas e vai afinando o instrumento, repetindo, com curtas pausas, cadenciadamente os gestos e tiques típicos de músico experiente que começa a abrir as portas da mente para as notas e vai nelas se aprofundando, até se deixar tomar pela influência de Apolo, numa verdadeira obsessão do deus grego.

Aproveitando a cortesia da casa, que, na esteira da velha tradição imigrante européia, faz questão de manter o espaço informal no canto da sala para os improvisos dos clientes, deixa-se possuir, de vez, pelo espírito da música e, mergulhando no próprio ser, começa a executar Blackbird, do velho mestre Macca (Paul Mcartney para os leigos na gíria musical), quando sente ao seu lado a presença de um “encosto” bem menos diáfano que Apolo ou Baco (cuja inspiração também se fazia presente, embora até agora não tenhamos mencionado, afinal não poderia faltar, em plena serra gaúcha, de colonização italiana, a taça de vinho colonial servida por cortesia do dono da loja repousando na mesinha circular em frente).

A figura magra, de uns 7o anos bem vividos, pele amarela como a de uma estátua de museus de cera, vestida a rigor, apesar do aspecto puído e vetusto do terno, empertigando uma camisa de riscado e uma calça de tergal desgastados pelo uso, mas perfeitamente frisados a ferro, sentou-se a seu lado, sacudida por uma rápida tosse seca, e ficou ali, com um olhar suplicante e embevecido lhe observando, irritantemente.

Quebrado o encantamento da poesia interna, do improviso musical no meio do dia atabalhoado a lhe dar instantes sagrados de sossego e embevecimento longe de tudo e de todos, o músico de horas vagas, funcionário forense burocrático de todo dia, já ía se dispondo a se erguer e foi atalhando, ríspido, sem mais nem menos:

– Meu senhor, se espera escutar música, está perdendo o seu tempo. Daqui não sai nada, não, senhor. Estou só tentando afinar meu violão no afinador eletrônico, onde qualquer débil mental consegue.

Polidamente, de uma educação de moça virgem ingênua de internato, o velho lhe estendeu a mão e apresentou-se:

– Desculpe, meu senhor, se o interrompo. É que já fui cantor de boates há muito tempo. Já estou aposentado, não tenho mais saúde pra continuar. Mas eu ía passando por aqui e, não sei por que, dei com o senhor, e resolvi entrar. Faz pouco tempo operei um câncer na laringe – e indicou a marca do catéter recém retirado – e como o vi tocando tão concentrado, pensei que poderia, quem sabe, acompanhá-lo e relembrar um pouco do prazer da mocidade.

– Não sei mais quanto tempo me resta  e é raro ver um músico com a tua paixão. Mas se o senhor está incomodando, não se preocupe. Me retiro. Só quero lhe dar meus cumprimentos pela virtuosidade.

E, abaixando-se numa saudação de palco, estendeu ao nosso protagonista ambas as mãos, que enlaçou nas dele, quentes de um calor febril.

Constrangido, o nosso músico amador, deixou-se comover e, esperando, ainda, qualquer porcaria executada por qualquer maluco, como estes que passam a vida brincando de viajantes, com chapéu de palha e mala feita de caixa de sapatos, crivada de recortes de cidades famosas, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, recuou de sua rejeição inicial:

– O que é isto, companheiro? Esteja à vontade. Afinal a casa não é minha, é de todos nós. O que vamos tocar?

E o velho, como se não o tivesse ouvido, não deu resposta, mas abriu o peito e se pôs a executar uma canção de Lupicínio, a que se seguiu outra. Ambas conhecidíssimas do nosso herói, que muito as tocara quando, ainda rapazote, animava bailes do Clube dos Coroas, na Avenida João Pessoa, na capital gaúcha.

O importuno cantou, e cantou muito! Com muita técnica e uma melodia absolutamente impecáveis e arrebatadoras, que jamais poderia se imaginar estivessem saindo de uma garganta condenada, mas sobretudo com uma sensibilidade absoluta, inatingível, inatacável e irrepetível. E atingiu o auge, num arrebatamento digno de coro gregoriano em catedral gótica, em plena Idade Média, quando o quarentão, comovido, o acompanhou ao violão, fundindo-se ambos numa estranha sinfonia, destas que nos visitam raras vezes na vida, na meia idade ou na adolescência, e nos transportam a mundos indizíveis e maravilhosos, que deixam uma saudade amarga, mas adorável para o resto da vida.

Olhos marejados, cara de cachorro que vomitou no colo da madame, o nosso músico de horas vagas não soube o que dizer quando o cantor, tão delicado e circunspecto como entrara, despediu-se, sem maior explicação:

– Meu guri, tocaste muito, e muito bem. E me deste um grande presente de Natal executando estas canções. Até logo!

E afastou-se, trôpego, mas de espinha ereta e digno, dobrando na primeira esquina.

O violonista, abestalhado, deixou-se ficar ali, sentado no canto da loja sem saber o que pensar, nem o que fazer. Por pouco não ceifara a felicidade enorme daquele homem que, por tão pouco, e com tanto mérito, parecia ter atingido o paraíso de um instante único, talvez o último digno de sua vida, verdadeiro “canto de cisne”. E pensou que, talvez, tivesse sido visitado por algo bem menos corriqueiro que um velho virtuose aposentado pela absoluta impossibilidade física de prosseguir no ofício. Quem sabe ele, que apesar de doar-se como um louco nas raras ocasiões possíveis em que se encontrava com a música, mas que vivia reclamando e se enfronhando nas piores neuroses das mesquinharias de repartição e do lar, no dia-a-dia, não recebera uma visita de outras dimensões, que viera testá-lo no seu amor à música, ao ser humano e à vida. Em Deus não acreditava, menos por razões político-ideológicas do que por puro empirismo racional sem sobressaltos, mas algo estranho ocorrera ali. Parece que estivera na presença do próprio Apolo, ou quem sabe não era, afinal, Papai Noel?

Ubirajara Passos

O discurso de Brizola no comício da Central do Brasil (13 de março de 1964)


Sexta-feira, 13 de março de 1964. Um ano, dois meses e 10 dias após o plebiscito que garantiu a devolução de seus plenos poderes como chefe de governo, o Presidente da República João Goulart, finalmente se convence de que a conciliação com os partidos da direita “progressista” (especialmente o PSD de Juscelino e Tancredo, com que o PTB mantinha aliança desde a morte de Getúlio Vargas) se tornara incompatível com o nacionalismo e a defesa dos interesses dos trabalhadores. E toma  definitivamentre o lado das forças populares e anti-imperialistas, assinando, no maior comício da história do Brasil, até então, junto à Estação Ferroviária Central do Brasil, os atos legais que regulamentavam a remessa de lucros das empresas multinacionais ao estrangeiro, desapropriavam as refinarias privadas de petróleo e desapropriavam os latifúndios situados ao longo das rodovias federais, criando a Supra (Superintendência Nacional da Reforma Agrária).

Junto a Jango e à massa de trabalhadores radicalizados no movimento pelas reformas de base (a reforma agrária, a reforma urbana e universitária, entre outras), se encontram no palanque as lideranças da UNE (União Nacional dos Estudantes, ironicamente representada por seu então presidente, José Serra), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do PSB (Partido Socialista Brasileiro), do clandestino Partido Comunista Brasileiro, da Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e, principalmente, da Frente de Mobilização Popular. Falam, entre outras lideranças  da FMP, o governador de Pernambuco Miguel Arraes, do Partido Social Trabalhista (PST), o deputado do PSB Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, e o grande líder da frente, que era o deputado federal  do PTB pelo Estado da Guanabara Leonel Brizola.

Brizola, como governador de seu estado natal, o Rio Grande do Sul (1959-1963) havia se tornado o grande baluarte do nacionalismo de esquerda, ao desapropriar duas grandes multinacionais, a IT&T (telefônica) e a Bond and Share (energia elétrica). E, com sua rebeldia intemerata e audaz, havia garantido a posse do Vice-Presidente da República João Goulart na titularidade do cargo, vetada pelos ministros militares fascistas e pró-imperialistas de Jânio Quadros, quando da renúncia deste em agosto de 1961.

Utilizando-se da estrutura legal do governo do Estado, Brizola, com o apoio da Brigada Militar e da massa popular (que se mantinha informada através das ondas da Rádio Guaíba, instalada nos porões do Palácio Piratini, de onde Brizola proferia seus discursos), havia feito uma verdadeira revolução contra o golpe que se preparava então, epsiódio que se tornou conhecido como a Campanha da Legalidade.

Agora era o mais radical e inconformado dos líderes populares que reclamavam reformas na sociedade capazes de dar um mínimo de dignidade às massas populares (e que, se implementadas, teriam criado as condições mínimas para um avanço futuro rumo ao socialismo). Neste comício proferiria o discurso que reproduzimos abaixo, publicado no órgão de imprensa da FMP, o jornal  Panfleto – o jornal do homem da rua – , de 16 de março de 1964, n.º 5 (páginas 2 e 3)

“Este é um encontro do povo com o governo. Encontro com esta multidão e com os milhões que, através dos seus rádios, do recesso de seus lares, estão presentes não apenas para aplaudir, mas para dialogar com o governo.  Se fosse apenas para aplaudir, não seríamos um povo independente, mas um rebanho de ovelhas. O povo está aqui para clamar, para reivindicar, para exigir e para declarar sua inconformidade com a situação que estamos vivendo.

Saudamos o governo pelo seu gesto democrático. Porque é realmente democrático um governante descer para o diálogo com o povo.  E estamos certos de que o presidente não veio, nesta noite, apenas para falar, mas para ouvir e para ceder ao povo brasileiro. Para ceder a esta pressão – é a voz que vem da fonte de todo o poder, é a pressão popular, a que com honra, um governante deve se submeter. 

Quero citar e aplaudir estes dois atos que devem deflagrar um processo de transformação em nosso país: o decreta a Supra e o decreto de expropriação das refinarias de petróleo.

Povo e governo, num país como o nosso, devem formar uma unidade.  Unidade esta que já existiu em agosto de 1961, quando o povo praticamente de fuzil na mão, repeliu o golpismo que nos ameaçava e garantiu os nossos direitos. Unidade, esta, que já existiu no plebiscito de janeiro de 1963, quando mais de dez milhões de brasileiros exigiram o fim da conciliação do parlamentarismo e a realização imediata das reformas.

Quando uma multidão se reúne como nesta noite, isto significa um grito do nos caminhos da sua libertação. Em verdade, se conseguirmos hoje a  restauração daquela unidade, o presidente poderá retornar, através da manifestação do povo, às origens de seu governo. E, para isso, será suficiente que ponha fim à política de conciliação e organize um governo realmente democrático, popular e nacionalista. 

Pode ser que, neste momento, a minha palavra esteja sendo impugnada. Podem julgar que as minhas credenciais não sejam suficientes. Mas o meu lugar é ao lado do povo, interpretando suas aspirações, e por isso, aqui estou como um dos seus autênticos representantes.

Mas quero perguntar ao povo: querem que continue a política de conciliação ou preferem um governo nacionalista e popular? Aos que desejam  um governo nacionalista e popular que levantem as mãos.

Chegamos a um impasse na vida do nosso país.  O povo brasileiro já não suporta mais suas atuais condições de vida.  Hoje, até as liberdades  democráticas estão ameaçadas.  Vimos isso em Belo Horizonte, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, onde um governo reacionário está queimando os ranchos dos camponeses.   O que se passa no estado da Guanabara é uma prova dessa ameaça, pois a Guanabara é governada por um energúmeno.  Tanto isso é verdade que o próprio presidente da República, para falar em praça pública, precisou mobilizar as valorosas Forças Armadas.

Não podemos continuar nesta situação.  O povo está exigindo uma saída.  Mas o povo olha para um dos poderes da República, que é o Congresso Nacional, e ele diz NÃO, porque é um poder controlado por uma maioria de latifundiários, reacionários, privilegiados e de ibadianos.  É um Congresso que não dará nada mais ao povo brasileiro.  O atual Congresso não mais se identifica com as aspirações do nosso povo.  A verdade é que, como está, a situação não pode continuar.  E aqui vai a palavra de quem deseja apenas uma saída  para o trágico impasse a que chegamos.  A palavra de quem apenas quer ver o país livre da espoliação internacional como está escrito na CartaTestamento de Getúlio Vargas.


E o Executivo? Os poderes da República, até agora, com suas perplexidades, sua inoperância e seus antagonismos, não decidem.  Por que não conferir a decisão ao povo brasileiro?  O povo é a fonte de todo poder.  Portanto, a única saída pacífica é fazer com que a decisão volte ao povo através de uma Constituinte, com a eleição de  um congresso popular, de que participem os trabalhadores, os camponeses, os sargentos e oficiais nacionalistas, homens públicos autênticos, e do qual sejam eliminadas as velhas raposas da política tradicional.

Dirão que isto é ilegal.  Dirão que isto é subversivo.  Dirão que isto é inconstitucional.  Por que, então, não resolvem a dúvida através de um plebiscito?

Verão que o povo votará pela derrogação do atual Congresso.  

Dirão que isso é continuísmo. Mas já ouvi pessoalmente do presidente da República a sua palavra assegurando que, se fosse decidida nesse país a realização de eleições para uma Constituinte, sem a participação dos grupos econômicos e da imprensa alienada, mas com o voto dos analfabetos, dos soldados e cabos, e com uma imprensa democratizada, o presidente encerraria o seu mandato.

A partir destes dois atos – assinatura do decreto da SUPRA e do que encampa as refinarias particulares – desencadear-se-á, por esse país, a violência. Devemos, pois, organizar-nos para defendermos nossos direitos.  Não aceitaremos qualquer golpe, venha ele de onde vier.  O problema é de mais liberdade para o povo, pois quanto mais liberdade o povo tiver maior supremacia exercerá sobre as minorias dominantes e reacionárias que se associaram ao processo de espoliação de nosso país. O nosso caminho é pacífico, mas saberemos responder à violência com a violência.  

O nosso presidente que se decida a caminhar conosco e terá o povo ao seu lado.  Quem tem o povo ao seu lado nada tem a temer.

Dezessete dias depois os capachos do imperialismo americano, sob as lideranças histéricas e conservadoras de Carlos Lacerda UDN (governador do Estado da Guanabara), de deputados do PSD, dos governadores Ademar de Barros (São Paulo), Magalhães Pintos (Minas Gerais) e Ildo Meneghetti (Rio Grande do Sul), iniciariam o golpe militar, através do general Olímpio Mourão Filho, o auto-denominado “Vaca Fardada” , que derrubaria Jango do poder na madrugada de 2 de abril, inaugurando o Brasil da pobreza extrema, da corrupção escancarada e assumida e da deformação ideológica e mental do povo sob a influência da mídia eletrônica, que vivemos até nossos dias, hoje, ironicamente sob a direção de uma ex-guerrilheira que se opunha à ditadura entreguista e fascista então estabelecida, a Presidente Dilma Rouseff.

Ubirajara Passos

 

A Caverna das Chuvas Eternas


Um ano e meio depois, mais um capítulo de Erótilia, para cujo perfeito entendimento, sugiro aos leitores acessar, na coluna lateral deste blog, o LIVRO ELETRÔNICO correspondente onde constam os capítulos anteriores:

A Caverna das Chuvas Eternas 

Caminharam como dois malucos por um dia inteiro até alcançar uma clareira na fralda de uma colina, onde às margens de uma cachoeira se encontravam as mais diversas oferendas a todos os deuses possíveis e imagináveis, muitas em pleno estado de putrefação, outras brilhando ao olhar do luar e dos cúpidos andantes, com suas redondas formas de amarelo brilhante e intenso, ouro e absoluto  ! Ali, pleno início noite, sentaram-se de qualquer jeito e, consumidas as provisões de pamonha dos alforjes, trataram de encharcar-se do suco fermentado da cana, sucumbindo aos seus apelos oníricos e roncando  “indecentemente” até a madrugada.

Três horas de uma noite pesada, densa e eterna, acordaram-se sob os gritos estridentes de um luar histérico e puseram-se novamente a caminho. O dia já nascia quando finalmente atingiram o destino programado pelo gordo mestre e Epicuro, trêmulo, e ainda meio bêbado, deixou-se levar pelas pernas e ser engolido pela abertura longilínea e elíptica na negra pedra, que o conduziu a uma enorme caverna, estranhamente iluminada por uma onda de verde flutuante que projetava sombras de todos os cantos. Repentinamente pareceu-lhe que a onda verde agigantava-se, ao mesmo tempo em que adquiria maior força (perceptível na própria pele) e velocidade e passava a descrever no ar rarefeito uma série de elipses sobrepostas, que o agitavam nas mais diversas direções, fazendo-o girar para todos os lados, em alternância enlouquecida e sucessiva, até que viu-se completamente suspenso, flutuando em meio a tudo.

Foi então que o verde foi escurecendo até transmutar-se por completo e projetar-se a sua frente um estranho e remoto mundo. Num único e violento jorro viu uma diminuta força transparente agitar-se numa vibração cada vez mais contundente e ir-se tornando cada vez maior e mais visível, até adquirir o aspecto de uma rubra e pastosa fogueira, que foi girando, girando e girando, até tornar-se uma esfera escalavrada azul e cinzenta, que se revelou a própria Terra primitiva.

Um chiado insistente e ensurdecedor, tomou então conta de seus ouvidos, a ponto de não entender uma única palavra do mestre Pancius, que gritava como doido em requebros, relinchos e coices de êxtase primevo. A frente de Epicuro se desenrolou por horas que duraram milênios e milhões de anos, uma torrente contínua, persistente e desgastante de chuvas, que desenrolou-se na paisagem de montanhas, vales, planaltos e depressões.

 A torrente incessante  penetrava cada vez mais e mais na terra, e na consciência de Epicuro, com uma força constante e envolvente, e ía cinzelando vagarosamente os contornos mais imprevisíveis sobre o solo, enquanto sua monótona e arrebatadora música ía forjando  profundamente todo os eventos vivos e dinâmicos dos milênios, milhões e bilhões de anos seguintes. Criando e cruzando histórias e personagens, imagens e abstrações mentais profundas e bizarras, que mergulhavam Epicuro até o fundo das águas, e além, até o núcleo líquido e incandescente, trazendo-o de volta à tona, e, por fim, projetaram-no numa encruzilhada escura, em meio da floresta, em que mal se via, sob um silêncio absoluto e aterrador, uma tênue fresta de luz à frente. Pancius, liberto de sua última missão (conduzir o imberbe discípulo narcisista às fraldas do nada), rebentou, num estrondoso tombo, junto à pedra da caverna, e seus cacos (que tornou-se, na queda, rígido qual estátua vítrea) reagruparam-se espontaneamente, até formar um chifre de ponta furada, que Epicuro, ainda semi-ínconsciente, juntou do chão e tocou reproduzindo a melodia da garoa eterna.

Gravataí, 16 de abril de 2011

Ubirajara Passos

Crônica de segunda-feira


Lá vem o Bira com mais um lugar comum! Parece que o casamento corroeu seu cérebro e picou em pedacinhos, bem medíocres, sua criatividade. Se o leitor acabou de ter um pensamento desconsolado e irritante destes, saiba que talvez o criativo esteja justamente na publicação deste pobre e vazio lugar comum!

Como tenho ultimamente escrito aqui, a função de “pai de família” não tem me deixado muito tempo para escrever, ou fazer qualquer outra coisa que não esteja vinculado ao estrito cumprimento das rotinas de sobrevivência e manutenção. Exceto, é claro, descobrir com a Isadora os pequenos encantos de um campinho, um monte de terra vermelha destoando em meio à calçada de pedra, dois cachorros birutas se pechando na correria afoita, e quase nos derrubando, tudo sob a sinfonia de uma brisinha de outono, num sábado à tarde.

Encerrada esta pequena digressão poética pequeno-burguesa e sentimentalóide, cabe dizer que ultimamente programo com semanas de antecedência qualquer texto a ser publicado, anotando de passagem as eventuais inspirações que se fazem presentes, para poder, na torrente de desvios e postergações eternas com que o DDA me empurra de um lado para o outro da ventania existencial, atualizar este pobre e maltratado blog.

Assim, hoje deveria finalmente publicar aquela crônica política reproduzindo o discurso do Brizola no comício de 13 de março de 1964, acalentada desde o fim de março (e escrita na madrugada do último sábado, sob a inspiração da cachaça, que, manhosa, tratou de me fazer deletá-la por acidente antes de publicar). Como deveria já ter publicado no blog do Movimento Indignação o relatório da última, e infeliz, Assembléia Geral do Sindjus.

Mas a segunda-feira me tomou de chofre e me fez arrastar o dia inteiro na pior modorra possível. E não permite mais que simplesmente dela me queixar, maldizer este ânimo sonolento, lento e sorumbático, que nos faz jogar-se a um canto qualquer do mundo e ficar olhando para tudo com um estranho olhar, abestalhado, mas eventualmente surpreso.

Nestes dias, que não costumam ocorrer somente às segunda-feiras, mas podem se manifestar até aos sábados, e não são incomuns nas tardinhas ou noites de quarta-feiras, a gente (pelo menos eu) se sente meio fantasma. E sai por aí vagando, e observando tudo, como se não existisse, muito embora esteja cumprindo a rotina comum de todo mundo e todo dia e nossa figura, tropeçando pela rua, não difira nem um pouco do férreo e duro martelar histérico do trabalho e da ansiedade de todo dia.

Mas é estranho. Do nada, de repente, neste deslizar dissimulado, avistamos uma casa antiga, um pedaço torneado de cerca, um canto de varanda, uma velha vidraça de moldura bizarra cheia de arabescos, um vitral quebrado, e, por alguns instantes, zumbis adormecidos no mundo do necessário e do útil, acordamos para uma dimensão estranha e ali ficamos, boquiabertos, sonhando fantasias indefinidas, até que o ronco do motor, ou o latido do pit bull ao lado, nos traz de volta à vaca chata, morta e fria.

Desculpem os leitores esta crônica sem fim, nem princípio, e este linguajar meio balbuciante e afetado. É que hoje fui tomado de uma forma estranha, e completamente inédita na minha vida, pela maldição que desconhecia: a da segunda-feira mula sem cabeça, pé ou rumo. Boa noite a todos!

Ubirajara Passos