Pero Vaz de Caminha e a Buceta índigena


Nada como tratar, em plena véspera de Natal e após o frustrado “fim do mundo”, de assunto sério e paradisíaco, relacionado profundamente com os destinos e a formação do Brasil.

Se o leitor caiu de pára-quedas neste blog, num vôo cego e acidental pela internet, a partir de tags sisudas e sem graça, como política ou história e (apesar da advertência constante em sua barra lateral) resolveu se embrenhar nesta mata literária, provavelmente tomará por sacanagem e invencionice pura o tema desta crônica (para ele) cretina, apelativa e despropositada.

Se veio parar aqui a partir de indexações do tipo putaria, velhinhas trepando com jegue fogoso e outras asneiras que, devido ao erudito vocabulário deste cronista, acabam por conduzir a este blog, certamente estará mais indignado ainda por não encontrar os vídeos ou contos pornôs de pobre imaginação e precária construção verbal que, infeizmente, costumam povoar a pornografia internética padrão, reduzida, como a pornografia em geral, ao estilo cru e “analfabético” dos piores funks globalizantes do sadismo sexual imbecil e sem imaginação.

Mas o tema deste post não é gaiatagem minha, muito menos invencionice, e nos dá, de certa forma, uma palha da predestinação do caráter brasileiro, a partir da informalidade, bom humor e plena desenvoltura mental dos primeiros portugueses que aportaram por estas terras e, concretamente “seduzidos” por sua natureza edênica, lhe acrescentaram a pimenta da malícia ibérica, que mais tarde a padralhada trataria, em conluio com o sadismo bandeirante, de maltratar, ao ponto de quase extinguir, debaixo do carrancismo moralista de um catolicismo imperialista histérico e opressor.

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É bem verdade que os invasores lusitanos, nesta parte da América Latina, não foram menos funestos que seus vizinhos espanhóis e fizeram dela, no correr dos séculos, como dizia o saudoso companheiro Darcy Ribeiro, um moinho de gastar gente pra adoçar a boca de europeu. Na fornalha de sua fome sádica e furibunda por enricar e viver à forra, nossos “colonizadores”manietaram, escravizaram, torturam e torceram, com o mesmo entusiasmo da inquisição religiosa na peninsula, mas com o objetivo bem mais concreto e paupável do enriquecimento ao custo do sofrimento e embrutecimento alheio, os corpos e almas de multidões de índios e negros, cujo sofrimento forjou a riqueza de europeus e o cadinho de um país enorme e rico, mas ainda submetido à lascívia estrangeira sádica, e, apesar de tudo, pontilhado por uma alegria de viver e um estilo despachado que haverão de garantir, no dia em que nos fizermos donos de nosso próprio destino, o verdadeiro paraíso na terra.

Se o bandeirante ou o colono luso posterior era violento e carrancudo, entretanto,o fato é que os primeiros patrícios a aportar por aqui, a maioria degredados deixados na costa em navios como o de Cabral, tinham um estilo bem mais sutil e malandro, típico do esteréotipo nacional posterior. Tratavam de se enfiar no meio da indiarada e, gozando de institutos culturais estabelecidos como a poligamia e o cunhadismo (noção de que todos os membros de uma aldeia são parentes de quem se casar com uma índia dela e, como tal, tem obrigação de auxiliar o “cunhado”) se fartaram na utilização das bucetas, e dos braços masculinos, para prover suas necessidades de diversão e mantimentos, se tornando verdadeiros barões tropicais, felizes e poderosos,com um exército de solícitos e ingênuos índios, dispostos a satisfazer seus menores desejos materiais, com toda bonomia de seu caráter naturalmente empático e solidário. Eram terríveis malandros estas criaturas, como João Ramalho e Caramuru,que, infelizmente, acabaram por se fazer auxiliares do imperialismo brutal, que mais tarde transformaria o éden tropical num inferno,pleno de choro e ranger de dentes, por muitos séculos, até conformar o Brasil que conhecemos hoje.

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Mas, antes que o leitor me mande à puta que pariu pela tagarelice historiográfica e antropológica, vamos ao assunto principal do texto. Está lá, na certidão de nascimento do Brasil, inscrito em todas as letras, o olhar embevecido e lúbrico, desatinado de tesão, surpresa, e até de uma certa ingenuidade, do escrivão da armada cabralina, logo no início de sua carta a El-Rei, dando o tom de admiração e apaixonamento diante daquele mundo perfeito de corpos nus e folgazões, dedicados ao prazer, ao trabalho e à caça, sem qualquer grilhão que os obrigasse a uma rotina obrigatória, opressiva e sofrida sob o tacão do dominador.

Na transcrição de Sílvio Castro (L & PM, Inverno de 1985), o embasbacado burocrata lusitano, descreve com todo o gozo de um êxtase místico, a cena maravilhosa que tinha à sua frente (depois de semanas terríveis, chacoalhando entre maremotos e calmarias, cercado de machos,no infecto navio), na inimaginável praia baiana:

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos vergonha nenhuma”.

“Vergonha”, para quem não conhece a gíria quinhentista, é buceta mesmo. E “cerradinhas” quer dizer fechadas. A pena do Pero Vaz,prova, portanto que, nossos “descobridores” europeus podiam ser doidos por ouro, escravos e riqueza, mas, ao contrário de seus irmãos peninsulares, não desprezavam,mas antes admiravam profundamente o que era bom e apreciavam bem a maior riqueza já produzida pela natureza.

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Em outro trecho, adiante, comenta, entre irônico (“vergonha – que ela não tinha!”) e admirado, sublinhando o vivo contraste entre as índias e as portuguesas:

“E uma daquelas moças era toda tingida, debaixo a cima, daquela tintura; e certamente era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha – que ela não tinha! – tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela.”

E os espertos portugueses, forjados no sangue celta e mouro, enfastiados com as raras e terríveis visões das “aranhas” européias (cuja contemplação implicava numa série de aventuras perigosas,prenhas de percalços e, no mais das vezes, fadadas a levar à breca o infortunado aventureiro – fosse na perda de seus patacões ou da própria vida) não eram nada bobos e trataram de aproveitar a exposição gratuita e inédita e entusiasmante da buceta raspadinha brasileira.

O descobrimento ficou imortalizado em quadro que retrata a “primeira missa”.Mas podem ter certeza que, naqueles dias, muito mais do que a arenga devota do latinório clerical, o que aproximou mais a marujada e a fidalguia da expedição cabralina do céu prometido por Cristo foi a visão absolutamente surpreendente e imprevista do paraíso terreste na buceta índigena!

Ubirajara Passos

Tratado Geral dos Bordéis (CAPÍTULO 2: DEFINIÇÃO DISTINTIVA)


O bordel é, portanto, um local onde se trepa, fode, namora, furunfa, troca o óleo, se fornica, prevarica,  se copula, faz-se amor, cobre, empurra, transa, se acasala, ou, simplesmente, se faz sexo, destinando-se à satisfação do tesão, da lascívia, da lubricidade, ao êxtase, ao clímax, ao acme, enfim, ao gozo, embora este muitas vezes não ocorra, e, em sua grande maioria, esteja garantido, seja prerrogativa ou consequência filosoficamente necessária de apenas um dos parceiros ou classe ou gênero de participantes da atividade.

Mas não um lugar qualquer, sem nenhum preparo ou qualificação específicos. Sob o ponto de vista da essência do labor ou lazer que o caracterizam, não necessita, obrigatoriamente, de determinada qualificação física, como a existência de paredes (do pau-a-pique à alvenaria, à divisória de aglomerado ou mesmo ao metal), mas tão somente, e fundamentalmente, que seja destinado à tal atividade.

O que exclui necessariamente os cantos obscuros de salões de bailes, os banheiros de boates chiques ou rodoviárias, os bancos de praças e de estação de metrô, os depósitos de fábricas, ou mesas de escritórios, as salas de visitas de velhos sobrados (habitadas por jovens casais em pleno rala e rola, enquanto os proprietários, e genitores, dormem), conventos e seminários (ainda que lá, muitas vezes seja a atividade predominante) bem como os gabinetes dos palácios, onde se fode, muitas vezes com grande contumácia as/os auxiliares e amantes (e todo o tempo, o povo),  em razão das características próprias de seus frequentadores, mas cujo afã principal, para o qual foram projetados,  não é a lida da volúpia.

O bordel é, portanto, um local exclusivamente destinado ao sexo, seja um prédio, barraco, rancho, pavilhão (que não se destine a cultos neo-pentecostais, até porque seus pastores normalmente fodem as fiéis na própria casa ou na do corno), terreira (que não de umbanda, embora não se exclua a possibilidade de algum exu ou pomba-gira vir a transar com a assistência), sala (desde que não seja gabinete de presidente de multinacional, político ou escritório de profissional liberal, onde, em pé, no sofá, ou na mesa, muitas vezes acaba por praticar-se a sacanagem bem mais proveitosa e interessante do que aquelas que se costuma fazer em tais lugares com o povo, os trabalhadores ou clientes).

Mas não a qualquer forma de sexo. Nele não se vêem as fodas sem imaginação  dos quartos de casados, nem, necessariamente, o glamour romântico de namorados no sofás das salas ou quartos de móteis (local este que, embora destinado tão somente ao sexo, e muitas vezes à putaria bordelística, admite qualquer modalidade de trepada).  O bordel é o lugar onde o sexo, com raras exceções, é praticado com todos os requintes de posições e formas de prazer, sem as limitações insossas impostas pela moral pequeno-burguesa, e com a inspiração mais exclusiva e genuína de simplesmente se alcançar a mais incrível volúpia no encontro dos corpos em carne e osso.

É um requisito essencial, portanto, que nele a putaria se passe de forma concreta, envolvendo todos os parceiros. O que elimina os punhetódromos, velhos e decadentes cinemas pornográficos, casas de streap tease e paper wieu, bem como locais virtuais como a internet, ou a literatura. No bordel o sexo é ao vivo, a cores e inclui necessariamente o quente e arfante, entusiasmante roçar dos corpos, especialmente de caralhos, bucetas, tetas e bundas, nas mais diversas formas possíveis de usufruto comum do corpo humano (não existindo, nesta instituição, caso estatisticamente significante de zoofilia) destinado ao prazer.

Mas, acima de tudo, o bordel é um lugar onde se pratica sexo em troca de dinheiro!

 

A foda telepática


Como já relatei na minha primeira crônica sobre o Almanaque do Pensamento e as previsões astrológicas de revolução absoluta da humanidade, desde os meus tempos de pré-adolescente que o “paranormal” (seja o científico ou o mágico, o místico  ou o simples espetacularismo filosófico) me fascinam, apesar do meu materialismo ateu professo.

Richard Bach (com o seu Fernão Capelo Gaivota, lido aos 16 anos, mas só entendido mesmo aos vinte e tantos, e com Ilusões – aventuras de um messias indeciso) é um autor que sintetiza perfeitamente o que já vinha caraminholando mentalmente muito antes de lê-lo e absorvê-lo e que se pode traduzir em “anarquismo místico” ou mágico, e que consistia na crença absoluta na liberdade, ao ponto de crer nas possibilidades dos poderes puramente mentais para alterar a realidade (especialmente quando assessorados por qualquer um ritual emocionalmente – Jung diria energicamente – significativo) e na possibilidade de alterar tudo pelo questinamento e pela vontade absolutamente livre.

Aos dezessete anos, por exemplo, eu cria piamente que era possível, mesmo, desafiar a própria morte pelo questionamento filosófico profundo. Se a humanidade inteira morria era porque acreditava na realidade da morte e nenhum maluco havia tido ainda a coragem de colocar em cheque a necessidade de sua existência… Hoje, à medida em que o programa genético universal que rege os seres vivos neste planeta vai me fazendo definhar fisicamente, em que as rugas e cabelos brancos vão se acentuando, e o espelho vai desmentindo, ao acordar diariamente, a minha eterna convicção de ter dezoito anos (pois a mente não muda e não adquire senso inato de velhice), vou me convencendo do meu engano adolescente… Se bem que volta e meio, apesar do espelho, tenho umas recaídas!

Este é um tema (como a crença nos extra-terrestres e na sua visitação à Terra na antiguidade – cevada em muitos livros de Von Daniken, lidos dos vinte pouco até quase os quarenta anos) que só tenho discutido em caráter extremamente privado, com o devido entusiasmo, e que em geral só exaustivamente explorado com o alemão Valdir (que comunga, apesar de velho comunista ateu, destas maluqices) e, em menor grau, com o Carlão.

 Mas, com toda a minha piração, o meu materialismo sempre colocou um freio nos chamados poderes paranormais da mente. Eu podia acreditar na possibilidade da mente humana influenciar o corpo a ponto de evitar o envelhecimento e/ou a morte (afinal a “mente” é resultado de uma série de interações elétricas e fisiológicas do cérebro e dos nervos que, no caso humano, acabou por tomar consciência discriminativa de si e do universo).  Mas, como bom libertário racionalista, só daria aval a determinados fenômenos se tivesse uma prova física irrefutável, como a telecinesia, por exemplo. Passei anos sonhando, inclusive, que fazia movimentar objetos com a simples vontade e direcionamento das mãos, mas até uns dois anos atrás jamais me dei conta de que, salvo uma coincidência absurda (que até é possível, mas, dadas as circunstâncias, é um tanto precária), havia tido, sem me perceber, em meio ao furacão emocional em que vivia, uma prova justamente de telepatia!

Lá por meados do ano 2000, apaixonado, e rejeitado pelo objeto da paixão, por uma gostosa loirinha de 24 anos, um belo domingo de manhã, já quase meio-dia, ainda me encontrava (pra variar) espichado na cama, quando me lembrei que a safada deveria estar, exatamente naquele momento, trepando com o meu rival (que, para meu desconsolo e piora do meu sofrimento, era bem mais feio e imbecil que eu) e pus-me a bater uma punheta, enquanto imaginava o casalzinho se pegando, pensando na safada o tempo todo. Troço meio masoquista que creio nem meu amigo Xupaxota deve ter feito. Mas, enfim, o que faz a neurose!

O diabo é que, umas duas horas depois, a cretina (que me rejeitava, mas, obviamente aceitava meus favores e mimos financeiros), me liga, perguntado se eu estava bem e me avisa que tinha uma coisa estranha para contar. Logo imaginei que tinha alguma coisa a ver com a tal punheta, mas não insisti e esperei o dia seguinte, quando, numa conversa em mesa de bar a gostosa revelou: 

– Puta que pariu! Ontem de manhã eu tava no “rala e rola” e não é que, na hora da loucura me vi pensando em ti, e te imaginei fazendo aquilo ainda por cima!

O mais interessante é que a hora, e outros detalhes cretinos do devaneio da gata, que  não revelarei, pois podem levar à identificação da criatura , que só eram do meu conhecimento, batiam completamente! Tivemos, portanto, ainda que sem retorno de parte a parte, uma comunicação mental paralela à distância!

Ubirajara Passos

A Fi(n)cada


Os leitores mais radicais ou adeptos da razão absoluta vão me matar e espancar mentalmente. Mas, pela centésima, vou usando o argumento da exceção e me desculpando descaradamente antes de detonar o que, para muitos deles, parece uma contradição com o meu ideário manifesto e o a linha programática deste blog.

O fato é que não sou nenhum moralista (do que é a prova a profusão de palavrões que se encontra, especialmente, no item “mais lidos” da coluna lateral deste blog), muito menos um beato anti-sexo ou um machista.

Mas outro dia, pra ser exato um belo fim de tarde, depois do expediente, me vi mais uma vez surpreso, junto ao caixa do supermercado, com a conversa que a loirinha gostosa (na casa dos seus vinte e poucos anos) mantinha com o empacotador.

Começou contando que custara a se adptar à solidão quando se separou e foi morar sozinha e que sua família (que é extremamente superprotetora) acampou na sua nova casa no primeiro fim de semana e só saiu de lá depois que se convenceu que ela não ía se suicidar desitratada de tantas lágrimas.

Aí, com o ar mais despreocupado, de quem está discorrendo sobre o preço da banana, arrematou dizendo que está “ficando” com um cara há uns seis meses. E que, por incrível que pareça, apesar da insistência dele, ela não pretende ainda “namorar”. É muito cedo, e chegou a ameçar o pobre homem de não vê-lo mais se insistir na idéia. Afinal, se ele continuar com esta idéia de namoro é melhor não ficar mais!

Certamente é nesta altura da crônica que o leitor libertário, de mentalidade elástica, me encherá de impropérios em razão da minha surpresa. Mas convenhamos: apesar da pretensa revolução de costumes (especialmente sexuais e dos papéis de gênero) desde os anos 1970, a verdade é que a maioria das mulheres ainda se pauta pelo antigo comportamento carregado de preconceitos e papéis pré-determinados, típico das dondocas. E os machos, mesmo tendo assimilado uma certa inversão de papéis, em geral não chegam ao extremo de se constituir nas novas dondocas românticas, carentes, apegadas e rejeitadas!

Leitores mais antigos e atentos deste blog pinçarão uma terrível incoerência da minha estupefação e dirão que eu próprio já havia diagnosticado este tipo de comportamento feminino na crônica As Jararacas Emancipadas, publicada há mais de 4 anos.

O detalhe é que, se o comportamento da gatinha é uma constante sociológica entre a maioria das mulheres em nossos dias (ainda que, normalmente, da pequena-burguesia para cima), o empenho romântico emotivo do candidato a namorado é, no mínimo, grotesco.

Mas o que mais me chama atenção é a nomenclatura da coisa, que, confesso, desde que surgiu o termo, nunca entendi. Afinal qual a diferença entre “ficar” e “namorar”? Se a primeira palavra designa uma relação em que rola de tudo, especialmente o sexo, e a segunda pressupõe apenas uma certa sofisticação da primeira, se distinguindo pela freqüência e caráter rotineiro da coisa, não estaríamos diante de um novo “código moral” artificioso e heterônimo no comportamento sexual? O novo “namoro” dos modernos casais não estaria, contraditoriamente, se constituindo numa relação institucionalizada, cheia de regras e cobranças obrigatórias, vindas de fora e opressivas (o que não tinha todo este caráter nos tempos em que a Filomena tagarelava, e se esfrega furtivamente, com o Felisberto no portão de casa)?

E, aliás, seguindo na linha distintiva da “duração temporal” e da “rotina e do costume”: se uma foda, que deve incluir necessariamente algumas distrações não puramente sexuais (como uma cervejinha no bar ou um programinha de TV asssistido a dois, em pleno quarto de motel), já ultrapassou seis meses sendo praticada com certa regularidade pelo mesmo casal, já não teria ultrapassado há muito o status da “fincada”?

Ubirajara Passos

Tratado Geral dos Bordéis (CAPÍTULO 1: DEFINIÇÃO ABSTRATA)


Bordel, cabaré, boate, casa da luz vermelha, maloca (no interior do Rio Grande do Sul), puteiro (de Santa Catarina para cima, especialmente no nordeste brasileiro), pouco importa a denominação (e o colorido especial que ela encerra), filosoficamente falando, é um espaço destinado exclusivamente ao exercício do mais doce prazer do universo, verificável entre as mais diversas espécies animais, de todos os graus de complexidade, na nesga de mundo conhecida pela humanidade.

Embora acidental, é estatisticamente avassaladora, também a presença, neste espaço do segundo prazer mais procurado e gozado pela espécie humana, o consumo do fogo, do goró, do trago, da bebida, ou simplesmente do álcool etílico ( fermentado ou destilado a partir de substâncias vegetais), que geralmente se denomina de pileque, carraspana (no linguagem arcaico dos anos 1800), ou porre, quando não farra – nome genérico que pode tanto se aplicar ao prazer da beberagem quanto ao tal da putaria, e que resume em si a íntima e simbiótica relação que guardam entre si ambas as categorias, que dificilmente se manifestam na realidade concreta sem o acompanhamento simultâneo da outra.

E que, embora não necessariamente, se completa e se refina na boemia, que é o modo sutil, profundo e sensível da prática noturna do prazer espiritual do álcool e do prazer carnal do sexo, enlevando o ser humano no gozo mental e abstrato que advém do líquido e na emoção profunda e mística que incrementa, inspira e aprofunda o tesão dos corpos. E que, mesmo apartada eventualmente da farra de natureza erótica, enobrece a pessoa humana na convivência mutuamente prazerosa e dignificante dos bons amigos, cuja afinidade se alicerça no bom papo, no usufruto comum e voluptuoso das idéias e das emoções longa e cuidadosamente cultivadas e desenvolvidas.

Visto deste ângulo, restrito à essência de sua natureza, ao que lhe é próprio e imediato,  e aos acidentes que numericamente lhe são comuns, antes de toda e qualquer complexidade e idiossincrasia concreta, o bordel é o verdadeiro paraíso, e guarda um perfeito paralelo com o prêmio post mortem que o islã reserva aos bons muçulmanos (bem mais interessante e criativo que o frio e instrumentalista céu cristão, carregado de austero e infelicitante “bem estar” assexuado e apartado de toda e qualquer satisfação e conforto iluminado e entusiástico).

Ubirajara Passos

Lula e a Burocratização da Putaria


O assunto já é um tanto passado do ponto, tendo sido explorado na imprensa eletrônica brasileira há alguns anos e, não fosse o Brasil ainda uma sociedade autoritária e profundamente marcada pela opressão coisificante e preconceituosa, não deveria render maiores polêmicas.

O fato é que o Ministério do Trabalho mantém em seu site na internet um espaço próprio para divulgação da Classificação Brasileira de Ocupações (a CBO), que instrumentaliza, entre outros, as estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a respeito das diversas áreas do emprego dos trabalhadores no territério nacional, esmiuçando, na linguagem mais “culta”, “científica” (o que equivale a dizer “higiênica” e “isenta de apreciações subjetivas e emocionais”) e padronizada as diversas características de cada atividade laboral exercida entre o extremo norte de Roraima e o Arroio Chuí.

E, pasmem!, logo no início de 2003, primeiro ano do mandato do Inácio dos Nove Dedos, um gaiato qualquer da grande imprensa fuçando na insípida e abestalhada lista oficial de ocupações deu com o “escandoloso” e hilário verbete, codificado na “família” (grupo) 5198, sob título de “Profissional do sexo” (sub-código 5198-05) – que significa, em boa e popular fala: “puta”!

A descrição era, então, extremamente pormenorizada e explícita, a tal ponto que o órgão, interpelado pela mídia, além de reduzi-la, atribuiu ao governo de Fernando Henrique Cardoso sua implantação na CBO, mas a manteve, entretanto, com todas as características “picantes” e imbecilmente oficialescas, que nos permitem, hoje ainda, ler o negócio sem saber se rimos, choramos ou zurramos tresloucadamente!

Não é preciso que o leitor seja um experiente ex-putanheiro como eu, um balbuciante e tímido rapazola recém-iniciado nas manhas da sacanagem paga (que vários ainda há por aí afora) ou uma aprendiz rebelde de meretriz admiradora da vilã/mocinha da atual novela do horário nobre da Rede Globo (a gostosíssima e insossa Clara/Chiara, precária enganadora do “Totó idiota de língua de fora por buceta nova”) para morrer de rir e calejar a mão… de tanto bater… na própria própria perna (ou no  braço da cadeira) diante da besteira suprema que constitui o “tratado governamental da ocupação laboral ligada ao prazer do corpo dos cidadãos”.

Já na introdução (que atende pelo nome de “Descrição Sumária”) o negócio carrega nas tintas da fantasia mais cretina e cruel possível, primando pela mais falcatrua das inocências (similar àquela que justificou a continuidade de Lula no governo sob o  pretexto de seu “desconhecimento” completo do esquema mensaleiro).

Depois de nominar e “sinonimar” (como diria o Odorico Paraguaçu) a atividade de Profissional do Sexo ou Garota de programa, Meretriz, Messalina (pobre imperatriz romana de saudável tesão sem preonceitos!), Michê, Mulher da Vida, Prostituta, Trabalhador do sexo”, a cartilha petista (que, se eventualmente não foi elaborada pelo fascismo luliano, tem todo o estilo dos filhos da sacristia salvacionista autoritária), declara, em tom programático e pomposo, e como se tratasse de texto de edital de concurso público, que o cargo almejado (e tido por desejável e incentivável) se constitui no afã de pessoas que Buscam programas sexuais; atendem e acompanham clientes; participam em ações educativas (grifo nosso) no campo da sexualidade. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minizam a vulnerabilidade da profissão.” E arremata, listando como pré-requisitos do ingresso em tal dignificante e auto-relizadora carreira que Para o exercício profissional requer-se que os trabalhadores participem de oficinas sobre sexo seguro, o acesso à profissão é restrito aos maiores de dezoito anos; a escolaridade média está na faixa de quarta a sétima séries do ensino fundamental” e que os agraciados pelo esforço e pela sorte  terão o privilégio dos que “Trabalham por conta própria, em locais diversos e horários irregulares. No exercício de algumas das atividades podem estar expostos à intempéries e à discriminação social. Há ainda riscos de contágio de dst, e maus-tratos, violênia de rua e morte.”

Não tenho, como bem sabe o leitor contumaz e atento deste blog, a menor implicância contra a putaria profissifonal, a que sou, inclusive, muito grato, pois sem ela jamais teria vencido a minha timidez e adentrado no mundo do sexo e da boemia, gozando um pouco dos raros prazeres que o mundo humano filho da puta propicia sobre a superfície do Planeta Terra. E muito menos acho indigno o ganha-pão das (ou dos) que possibilitem o supremo prazer dos corpos aos excluídos do mercado amoroso/sexual por serem possuidores de parcas qualidades estéticas ou comportamentais tidas por  pré-requisito ao seu usufruto, na cartilha da mentalidade padronizada do capitalismo cretino em que vivemos.

Cansei, inclusive, de defender (com a gaiatice suficiente para não ser motivo da gargalhada geral da malandragem, é claro), nas minhas noitadas nos cabarés de Porto Alegre, a organização do sindicato das putas e o reconhecimento legal da profissão. Que é terrivelmente sofrida, pelo próprio caráter intrinsecamente coisifante de suas profissionais – que veem-se na circunstância de exercer como “trabalho”, atividade compulsória, fria e cheia de regras (até certo ponto…), o que é normalmente fonte peronsalíssima  e viva de prazer para ambos, ou vários, participantes, mas, no caso da prostituição, com raríssimas exceções, se restringe à “clientela”. Somado a isto, a  exploração de donos de maloca e cafetões de rua,  e  a clandestinidade decorrente da “ilegalidade” da putaria intermediada por patrões, torna a coisa tão infeliz e terrível quanto a escravidão formal. O bordel é um ambiente instigante e feliz até o p0nto da fantasia de seus freqüentadores (e, eventualmente, de suas trabalhadoras), mas, em regra, é o local do exercício de um dos trabalhos mais estressantes, mal-remunerados e impregnado de assédio moral, também.

Agora, convenhamos, daí a tratar a prostituição como uma espécie de “carreira” desejável e incentivável para qualquer mulher ou gay, omitindo as opressões e frustrações que levam tanto “profissionais” como clientes ao mercado do sexo explicitamente remunerado (que, mesmo espúrio, porque alienado, guarda ainda alguma emoção e prazer genuínos e válidos para seus participantes diante de suas versões informais: o casamento burguês tradicional e compulsório e o casamento ou o relacionamento baseado no interesse financeiro ou sócio-hierárquico informal dos nossos dias) é o fim da picada!

Vivêssemos num mundo de plena liberdade e autenticidade das criaturas, sem quaisquer limitações e subjugamentos a papéis artificiosos e sofridos e não haveria problema nenhum em tal espécie de “atividade econômica”. Mas em pleno capitalismo desumano, desintegrador e espezinhador dos corpos e das mentes da massa da peonada submetida ao tacão patronal, a putaria empresarial nada mais é que o pérfido efeito colateral da transformação da grande maioria da humanidade em infeliz objeto sem direito a dispor de si própria nem a qualquer conforto e prazer legítimos e genuínos.

Mas o manual da boa puta do Governo Lula não se contenta com as definições e regulamentações genéricas imbecis e fora de contexto, descendo a detalhes de recomendação que (por sua própria pretensa ingenuidade e desconhecimento concreto da realidade) parecem se destinar a incentivar a jogar outros tantos milhares de criaturas, além das que já vivem-na, nos sofrimentos sem nome do negócio ou simplesmente fazer de conta que é possível se prostituir de “forma segura e não submetida às piores violentações físicas e psicológicas”, legitimando-as pela recriminação oficial indireta.

Assim é que, assumindo ares de programa de “qualidade total” de “departamento de gestão de recursos humanos” de multinacional badalada ou repartição pública de porte, a listagem de “atividades envolvidas no labor da putaria” publicada pelo Ministério do Trabalho Brasileiro  tem a capacidade de fazer constar asneiras do tipo:

Atividades:

1) BUSCAR PROGRAMA:

Agendar o programa; produzir-se visualmente; esperar possíveis clientes; seduzir o cliente; abordar o cliente

2) MINIMIZAR AS VULNERABILIDADES (sic!):

– Negociar com o cliente o uso do preservativo (imaginem um estivador musculoso do cais porto, bebão, ou um burguesão drogado até o cu de êxtase, parlamentando com toda a polidez, paciência e “delicadeza” sobre a necessidade de usar camisa de vênus!);

–  usar preservativos; utilizar gel lubrificante à base de água (só se for puta suíça para ter dinheiro e tempo para andar catando o sofisticado produto);

–  participar de oficinas de sexo seguro (esta é de cravar: para  o governo toda puta deve ser petista, intelectualizada e politicamente correta);

– identificar doenças sexualmente transmissíveis (dst);

– fazer acompanhamento da saúde integral (se for pelo SUS – sistema único de saúde – oficial, está perdida: a consulta por uma simples gripe demanda o agendamento com um mês de antecipação em qualquer posto de saúde público do país!);

– denunciar violência (pobre puta! numa sociedade em que qualquer peão é gente de segunda categoria, ela é tida por de terceira e é mais fácil ficar presa na delegacia de polícia que ter sua queixa registrada, e, além do mais, quem vai fiscalizar a proibição da pancadaria? o conselho regional das meretrizes?);

– denunciar discriminação (pra quem, mesmo?);

– combater estigma (sem comentários!);

– administrar orçamento pessoal (este item, além de desfocado da realidade, é a pedra de toque do fascismo vermelho aplicada à putaria profissional: não contentes em encher o saco da prostituta com as outras recomendações impossíveis de serem praticas, ainda pretendem regulamentar sua própria vida pessoal!)

3) ATENDER CLIENTES: (ou, manual burocrático da qualidade total do amor remunerado para a puta burra!)

– Preparar o kit de trabalho (preservativo, acessórios, maquilagem) (é puta ou modelo de desfiles de moda? o que, aliás, normalmente não faz muita diferença…);

– especificar tempo de trabalho (está-se tratando de sexo pago ou de empreitada de obra de construção civil?);

– negociar serviços (já imaginaram marafona e cliente discutindo os itens da obra antes da execução?);

– negociar preço; realizar fantasias sexuais (capaz?);

– manter relações sexuais (mas, afinal, está no cabaré “pra fuder ou pra conversar”?);

fazer streap-tease (quem sabe vai trepar vestida?);

– relaxar o cliente (que deve estar muito tenso mesmo! trepar com puta petista burocratizada é mais perigoso que levar injeção na bunda feita por enfermeira nazista!);

acolher o cliente (como?);

– dialogar com o cliente (e se for muda?)

4) ACOMPANHAR CLIENTES: (cartilha da puta de luxo para deputados governistas)

Acompanhar cliente em viagens; acompanhar cliente em passeios; jantar com o cliente; pernoitar com o cliente; acompanhar o cliente em festas

5) PROMOVER A ORGANIZAÇÃO DA CATEGORIA: (manual da puta petista militante e policitamente correta)

– Promover valorização profissional da categoria; participar de cursos de auto-organização (no MST – Movimento Sem-Terra?);

– participar de movimentos organizados (se filiar ao PT?);

– combater a exploração sexual de crianças e adolescentes;

– distribuir preservativos (é puta ou agente sanitário do posto de saúde?);

– multiplicador  de informação (em que programa de “qualidade total” mesmo?);

– participar de ações educativas no campo da sexualidade


Para o exercício do vasto e estafante programa de atividades o site governamental prescreve uma de lista de Competências Pessoais que, além das mais toscas obviedades e do tom militante e politicamente correto, chega até a recomendações (como a última) que devem ter sido inspiradas na falta de discrição do denunciador do mensalão, o mensaleiro Roberto Jeferson:

demonstrar capacidade de persuasão; demonstrar capacidade de comunicação;

– demonstrar capacidade de realizar fantasias sexuais; demonstrar paciência; planejar o futuro;

– demonstrar solidariedade aos colegas de profissão; demonstrar capacidade de ouvir;

– demonstrar capacidade lúdica;

– demonstrar sensualidade;

– reconhecer o potencial do cliente;

– cuidar da higiene pessoal; manter sigilo profissional.

Por fim, a coisa se encerra da forma mais fordista possível. Como se se tratasse da execução um trabalho industrial, eminentemente mecânico e robotizado, figura, sob o título Recursos de Trabalho, uma linda e cretina lista de ferramentas e utensílios necessários à atividade:

guarda-roupa de trabalho;

– preservativo;

cartões de visita (por acaso é advogado ou corretor de ímóveis?); documentos de identificação (pra quê, mesmo?);

– gel à base de água; papel higiênico (!);

–  lenços umedecidos (eu, hein?);

acessórios; maquilagem;

álcool (não quero nem imaginar o que a profissional do amor vai fazer com isto!);

celular e agenda (este tipo de “empresária” deve ser muito “ocupada”, mesmo!).

Não estivéssemos vivendo os tempos mais surrealistas possíveis da Hístória nacional (em que uma ex-guerrilheira e um ex-líder estudantil radical disputam pra ver quem vai ser o melhor capacho do imperialismo burguês no Palácio do Planalto) e seria inacreditável que a imbecilidade burocrática do fascismo petista tivesse chegado ao minucioso refinamento de produzir a cartilha das “Normas Brasileiras de Técnicas do Trabalho Sexual”! Mas a coisa está aí, pra quem quiser ver e zurrar de quatro! Já que a vida do leitor, na média, deve ser de uma atroz e monótona tristeza, aproveite a piada de mau gosto da turma Inácio e ria com a retumbante besteira hierática e compenetrada como “pracinha” veterano da Segunda Guerra Mundial em desfile de 7 de setembro!

Aliás, por que não fazer constar da CBO a profissão de apontador do jogo do bicho ou aviãozinho de tráfico, também?

Ubirajara Passos

DA DITADURA DA ESTÉTICA E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL


Há absurdos três anos sem escrever sequer um sermão da Igreja de Satanás, finalmente me nasceu este, que comecei a escrever ao pé de um caneco de chopp, no bar Viene, na rua Andrade Neves, centro de Porto Alegre, há uma semana atrás, após ter participado de manifestação no Pleno do Tribunal de Justiça em favor da adoção do turno único de sete horas contínuas para a peonada do judiciário estadual e de panfleteação, em frente ao Palácio da Avenida Borges de Medeiros e ao Foro Central, da candidatura a deputada estadual da minha amiga Simone Nejar, juntamente com a própria. E conclui nesta insone madrugada de domingo para segunda-feira. Leiam, reflitam e divirtam-se!

DA DITADURA DA ESTÉTICA

E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL

É mais ou menos óbvio que o sem graça, o tosco e o jocoso não inspiram absolutamente o menor tesão nem em um oligofrênico, um louco furioso ou num idiota drogado!

Do que não resulta necessariamente que o desejo humano deva restringir-se aos cânones da beleza absoluta e irretocável, tão perfeita, lisa e marmórea, qual estátua clássica ou manequim pós-moderno, que acaba por enjoar, justamente por sua precisão fria e burocrática, acompanhada, na imensa multidão dos casos, pela completa e entediante incapacidade imaginativa e emocional. Belíssima criatura carnal reduzida a um oco e inanimado exemplar padronizado da estética abstrata, como uma boneca de louça produzida em série.

A sensibilidade e a experiência concreta do repertório de sensações e modalidades de exercício do prazer permitem que o animal humano possa apreciar, pela mera contemplação da estampa ou pela aferição dos modos e trejeitos, da voz e do olhar aos gestos mais diversos, toda uma escala de beleza, na escolha do ser cuja presença lhe arrebata corpo e alma e o conduz à mais urgente e inadiável necessidade de consumir-se em fogo na fusão dos corpos.


Não há assim, na média dos casos e longe dos condicionamentos culturais das sociedades de classe, mulher, homem, veado ou lésbica tão feios e desengonçados que não sejam capazes de inspirar, circunstancialmente que seja (e ausente qualquer privação mental ou distorção emocional do apreciador), o desejo de fuder até lambuzar-se e extenuar-se completamente. Abstraído qualquer caso de fogo doentio por criaturas aleijadas ou bizarras, a verdade é que mesmo aquela gordinha de rosto lindo, aquela vovozinha sessentona, o sujeito magro, mas cheio de traquejo e charme, e outros tantos exemplares heréticos (segundo o padrão tradicional) da beleza, são capazes de botar muito macho de pau duro ou fêmea molhadíssima com a sua presença. E o exercício concreto da foda, ultrapassada a barreira inicial da mera visualização, pode revelar-se bem mais prazeroso e instigante do que a possível trepada insossa e sem graça com a mais deslumbrante e xaroposa modelo fotográfica ou manequim de desfile de modas.

Evidentemente que a beleza completa e requintada de uma gostosona não lhe retira necessariamente o requinte emocional e sexual, o fascínio dos movimentos e a sensualidade e o enlevo de olhares, da voz, dos trejeitos ou da própria prática arrebatadora das diversas modalidades de trepada. A loira linda e meiga não é necessariamente burra, ao inverso do estereótipo propalado, e pode muito bem ser uma loba devoradora e insaciável. Quando se encontra corpo perfeito unido a sensibilidade, humor  gaiato e boa foda tem-se o verdadeiro paraíso na face da Terra, aquele que, segundo o cretino mito cristão-judaico, fez o “primeiro homem”, criado pela pretensa divindade monoteísta, trocar todos os privilégios de viver em permanente e deleitoso ócio por alguns minutos de usufruto com a boazuda Eva.


Mas a pura e atroz verdade é que a distorção estética de nossa sociedadezinha capitalista filha de uma puta tem botado a perder e impedido muito macho ou fêmea (adepto dos mais diversos modos de exercício do prazer, da heterossexualidade ao homossexualismo ou à orgia desenfreada com tudo quanto é tipo de parceiro, até mesmo da zoofilia) de fuder gostoso, em nome de seu império tacanho e absurdo!


Prima dos critérios de escolha de escravos, e insuflada pela ideologia empresarial da qualidade, a exigência implacável e renitente de uma beleza física perfeita e inalcançável tem não só torturado muito dondoca nos mais infelizes regimes alimentares, e nas mais sobressaltantes e ansiosas neuroses, mas frustrado muito sujeito franzino, ou muita gatinha de bunda nem tão arrebitada ou seios mais próximos da pêra que da melancia, em seu intento sexual, frustrando e relegando à infeliz punheta ou siririca meia humanidade, em nome dos preconceitos e pré-requisitos estético-corporais que a safada mídia burguesa despeja sobre nossas mentes todo santo dia!


Se, na economia colonial do século XIX, por exemplo, o sinhozinho adquiria para o serviço escravo em sua propriedade o negrão de dentes perfeitos e brancos, e preferencialmente de canela fina (que os de grossa eram tidos por preguiçosos), a televisão, os jornais e as revistas de nossa ilustre nobreza burguesa se encarregaram, em nossos dias, de plantar na cabeça de 90% da humanidade que só serve para se dividir a cama, a mesa, ambos ou muitos outros tantos ambientes, na prática do deleite físico e emocional aquelas criaturas de bunda pefeitamente lisa, redonda e empinada, de seios absolutamente fartos e cintura de vespa ou (se se tratar do macho da espécie) aqueles indivíduos transformados em músculos dos pés à cabeça, de tronco portentoso como árvore de madeira nobre e ar macho, agressivo (e abestalhado!). Qualquer deslize mínimo de tais critérios e o pobre exemplar analisado está condenado a padecer a mais dura e revoltante solidão e a gozar, no máximo, da companhia erótica da própria mão!


Garante-se assim uma multidão de seres neuróticos, raivosos e idiotizados, cujo tesão frustrado se transforma, na medida perfeita, em revolta, recusa e combate a toda e qualquer manifestação alheia de contentamento, prazer e liberdade, a todo movimento espontâneo e leve, oriundo simples fato de estar vivo. Uma legião de filhos do banimento estético-sexual (sejam eles virtuais parceiros rejeitados ou estetas de gosto artificioso eternamente insatisfeito) afeitos ao sacrifício inumano, pronta a engrossar  a manada de trabalhadores submissa à hierarquia do escravismo assalariado, e empenhada na vigilância mútua e na delação moralista do comportamento de seus companheiros de desgraça – que se tornam a única válvula capaz de extravasar sua raiva histérica, filha da privação do gozo genuíno, espontâneo e benfazejo, auto-imposta pela adesão ao padrão ideal introjetado.

O tesão esteja convosco!

Porto Alegre, 16; Gravataí, 23 de agosto de 2010


Ubirajara Passos