DO MEU AMIGO “CORONEL”


Estes dias, numas andanças pelo interior do Rio Grande do Sul, dei, eu e meus camaradas, com uma figura na mesa de um buteco, que já ocupou os mais altos postos da hierarquia militar e que hoje, reformado, tem indignação maior do que qualquer peão ou soldado dos quartéis, fábricas ou escritórios, com a situação destes nossos pampas e do Brasil, e com a vida fútil e sacrificada que levamos todos, como gado que somos. Por óbvias razões, não divulgarei aqui seu nome ou sua patente militar.

Mas, como lhe prometi no churrasco que fizemos no seu apartamento, em uma grande cidade do interior gaúchos, e de onde trouxemos, os três, presente seu, uma manta de lã cada um, como recordação das horas de irmandade existencial e filosófica passadas com a figura, a que apelidamos simplesmente de “Coronel”, publico aqui um de seus poemas, que o sujeito aprendeu não só a comandar homens e manejar a espada, mas também a lutar com as palavras:

“Fortes ou fracos?

Você já se indagou o que é?
Você já pensou em viver com muita força, poder, dinheiro, carros
mordomias a todos os momentos,
bajuladores, falsidades, dizendo-lhe que você é o melhor?

Admirado por pessoas que nunca te viram, mas sabem que você existe,
em teu caminho sendo olhado e observado,
tua paz sendo prejudicada pelo que teme, não pelo que deveria fazer ou pensar?

Tua simplicidade aparente não se escapa das mazelas,
das ganâncias e desejos não concebíveis.
Tua voz se abre em todos momentos e todos te escutam,
porém um surdo não te percebe, mas te admira e chora por ti.
Um cego que não te vê, mas te escuta,
sabe que você tenta ser forte,
mas sente que és fraco
(Um deficiente de que você não foi ao encontropara dar-lhe algum carinho,
pois somente tem pena e não demonstra respeito).

Porém um dia você já parou?
E pensou: por quê? Eu não sei!
Pois a tua vida é como a da maioria:
“vai e vem”.
Teus propósitos são demonstar e aparecer ,
Ser saliente por pensar que tudo tens.

Você pensa que é forte!
Os fracos não fazem demonstrações,
pois assimilam o que não possuem,
e, dentro de suas humildades,
superam as fraquezas que vivem.

Fracos valorizam, ouvem, são mais valentes do que imaginamos.
Admitem as dificuldade materiais,
humildemente vivem e caminham se vangloriarem.
Amam as pequenas coisas, se contentam com a simplicidade,
se alimentam sem exigências soberbas,
cultivam a purezas das coisas,
se entregam eternamente na esperança que amanhã será um dia melhor
e amam a Deus com fervor.

Reflita!

Uma árvore nasce de uma pequena e humilde semente.
Algumas irão dar frutos e outras não.
Porém as que não darão frutos darão sombras que muitas pessoas
que estão a procurar a PAZ,
independente de ser forte ou fraco.”

Ao “Coronel”, se me ler, deixo aqui um abraço do “tamanho do Rio Grande”, e aos leitores na companhia das reflexões singelas, mas profundas, deste meu mais novo amigo.

Ubirajara Passos


Anúncios

DO DOCE DE COCO À BOSTA DE VACA


Apesar da importância das decisões e atitudes que tenho tomado nos últimos dias, esta semana uma clássica exaustão de DDA, aliada à falta de sono crônica, me tomou a ponto de me transformar num verdadeiro “zumbi” haitiano, completamente sonolento, burro e robotizado. Uma criatura daquelas que consegue cumprir apenas as “tarefas” mais burocráticas e insossas do trabalho e do quotidiano diário – da cagada protocolar pela manhã ao cálculo judicial urgente das 3 h da tarde, do pagamento da conta de água no caixa do Banrisul ao peido incontido no meio do cartório, e da assistência do noticiário televisivo à esculhambação privada dos mais vaidosos inimigos políticos.

E foi em meio a esta jornada de “morto-vivo” que, num lampejo dos mais infantis e, por isto mesmo, criativo, acabei por parir com o Kadu, no finalzinho desta tarde, uma das  conclusões filosóficas mais geniais da história humana sobre a terra. A coisa pode cheirar a Machado de Assis (sem nenhuma conotação onomatopaica!) e ser digna de figurar no discurso do filósofo Quincas Borba (quem sabe até na cartilha positivista do próprio Comte, na sua  versão escrita em “absinto”), mas o fato é que ultrapassa, em originalidade, até o próprio Einstein!

Depois de ver, pela segunda vez nesta semana,  o Peruca encher a barriga de doce, inclusive banana, torta de chocolate e coca-cola, e sair correndo com a mão nas calças para casa – não para “esvaziar a barriga”, mas trocar de roupa – me dei por conta, “a las cinco en punto de la tarde”, como diria o velho Garcia Lorca (poeta andaluz gay e revolucionário assassinado pelo fascismo franquista no início da guerra civil espanhola), de que, nesta nossa vidinha de animais humanos, primatas precários, “evoluídos” mas desconectados das raízes mais básicas e benéficas da vida, tudo que começa doce acaba se transformando em merda!

Não é preciso ser nenhum Sócrates, muito menos um Heidegger ou Witgeinstein (perdoem-me os leitores eruditos a possível grafia errada, pois já estou meio bêbado – o que é um mal hábito: o bom é estar embriagado por completo) para determinar tal comezinha equação. Mas, com certeza, muito pouca gente já se deu conta disto e levou o troço a sério. O fato é que o mais delicioso manjar, o mais sofisticado, “nobre” e raro prato, daquele quindim de sabor inigualável a um exótico caviar ou escargot (lesma fresca de francês muito comentada no Brasil dos anos 1980), passando pela pamonha de um colono açoriano (pasta de milho ralado cozida na palha da própria espiga) ou por um bronco xis-burger gaúcho, tudo, no fim, percorrido o trajeto de um arrogante e vistoso corpo humano (até o daquela gatinha linda, miona e gostosa) acaba por virar uma grande bosta!

O que não justifica, ou ao menos não deveria, com certeza, justificar os absurdos de uma revolução russa de 1917 desembocando no autoritarismo torpe e vaidoso de um Stalin (assassino de milhões de camponeses), uma revolta estudantil libertária e impetuosa de Paris em 1968 se tornando a sombra mal-concatenada de uma pretensa “malandragem” e uma forma “casual” de ser na vida privada, incorporada aos canônes do imperialismo capitalista; ou a  crença, ingênua mas determinada, de um povo oprimido num PT brasileiro resultando no governo mais fascista e, ridícula e atrozmente, coronelista e feudal da história nacional, sob o comando do Inácio dos Nove Dedos (Lulinha, o mais entusiasta “cabo” eleitoral latino-americano do candidato fascista “republicano” John McCain à presidência dos United States of America).

E, muito menos, deveria ser motivo para que transformemos nossa vida, nós animais capazes de consciência de si próprios e do mundo, de raciocínio lógico profundo e, simultaneamente, de profundidade de sentimentos e emoções, numa verdadeira bosta, rotineira, insípida, sem criatividade, nem direito às próprias decisões. O velho aforisma daquela brincadeira infantil (quem tem mais de quarenta anos deve se lembrar, não sei se a molecada ainda a conhece) deveria ser invertido, na sociedade autoritária e hipócrita que vivemos, para derrogar toda opressão: Vaca amarela/cagou na panela,/Quem” não “falar primeiro”/Come a merda dela!“.

Ubirajara Passos

JOÃO VELHACO


Já mencionei, há uns meses, o velha esquema da imprensa brasileira, no auge da ditadura militar fascista de 1964, de substituir matérias censuradas por meras receitas de bolo, trechos dos “Lusíadas”, de Camões, ou mesmo por, aparentemente, inocentes e ingênuas previsões de tempo.

Pois é, por falta absoluta de originalidade para abordar outros assuntos transbordantes de ardor, como os capítulos seguintes da “Bíblia do Peruca”, e não por imposição de qualquer censor externo ou interno, que resolvi acatar a sugestão do companheiro Valdir Bergmann.

E, assim, publicamos, em homenagem à maioria avassaladora de “gatos pardos” da política nacional (embora alguns bichanos se diferenciem pelo tamanho do rabo, que tende a crescer com a reposição de seus minguados salários em 143%, como é o caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius), o poema que segue.

O texto foi escrito a quatro “patas” por mim e pelo alemão Valdir, há uns quatro anos, como sátira aos ilustres sindicalistas pelegos destes pampas, e serve como uma luva para advertir-nos contra falsos líderes, do quilate de Lula e de Stalin, especialmente neste momento em que setores do serviço público gaúcho, como os funcionários do Poder Judiciário, sofrem os mais descabelados ataques à sua condição salarial e funcional, destinados que estão, pela patronagem, a se transformar em meros robôs de carne e osso, sem direito a reajuste, nem dignidade pessoal em seu trabalho.

Deixamos claro, desde já, que qualquer coincidência com a trajetória de algum dirigente petista é mera semelhança. Vamos às “quadrinhas”:

João Velhaco

Dizem uns, foi em Pelotas,
Outros em Arroio Grande –
Lá pelas bandas do sul,
Nasceu há uns bons trint’anos
O bebezinho João!

Joãozinho, lindo moço,
Tão simpático e envolvente,
Rechonchudinha criança
Desde cedo revelou-se
Um primor de rebeldia!

Na festa de formatura,
Orador, do pré-primário,
Encantou toda assistência
Com um discurso veemente:
Cola tenaz (não havia
Ainda a super bonder)
Jogar aos cabelos da “tia”
Era um tremendo protesto
Contra os maus-tratos à infância!

Já jovenzinho, criado
Na escola forense da vida,
De pai Oficial de Justiça,
João, embora panfletário,
Da pompa dos gabinetes
Tanto viu-se fascinado
Que integrou-se ao Judiciário.

Mas ao pai que era o exemplo
Joãozinho não suplantou!
Fez-se apenas escrevente
E, rebelde novamente,
Resolveu ser o momento
De fazer algo medonho:
Tornou-se sindicalista
Pra balançar toda gente!

Greve, passeata, discursos –
Discursos e mais discursos –
João era um temporal!
E da sua boca saia
Não o inconformismo apenas!
Seu palavrório era belo,
Tão lógico, tão perfeito!
João, bonachão gordinho,
Homenzinho sem defeito,
Era a estrela do dia!

Mas, como isso não rendia
Nem um tostão, nem trazia
Fama maior, iracundo,
“Don Juan”, gay enrustido,
Na comarca, furibundo,
Frustrou-se e se foi ao mundo.

Como quando piá havia
Na primeira vez levado
Um tarugo na sua bunda,
Nosso caro Don Juanzito,
“Trespassado” de entusiasmo,
Finalmente descobrira
Como ser “alguém”,
Sem ser profundo!

Tornou-se mais contudente,
Relinchou, deu coice, fez-se
Tão intenso e Presidente
Já era do sindicato!
No cargo, traiu, roubou,
Praticou todos conchavos
Que a arte da vigarice
Supõe e, sempre irado,
Aos traídos encantou.
Enrustiu, como enrustido,
Veado ele sempre fora!

porcos

Até que, em recompensa,
De um bode velho e safado,
Demagogo deputado,
Nos braços foi elevado
Ao gabinete. Assessor,
Hoje a João todos conhecem
E proclamam, com estrondo,
“Um roliço burguês redondo!”

Entre Vila Palmeira e Santa Rosa, 18/19 de setembro de 2004

Ubirajara Passos & Valdir Bergmann

*************************************************************

 

 

Nossas reverências ao poeta e político Ramiro Barcelos, cujo poema Antônio Chimango transmitiu o seu espírito, inconscientemente, ao nosso João Velhaco, na época em que o escrevemos.

 

Aos Senhores Burgueses e seus Capachos Políticos


Peço dez mil perdões aos pobres leitores deste blog, mas os acontecimentos do cartório, nos últimos dias, e a inspiração da caminhada, agora à noitinha, do foro até em casa, acabaram por me fazer parir mais um poema, que publico a seguir. Prometo que, em breve, voltarei com algumas crônicas e narrativas mais gaiatas e interessantes.

Aos Senhores Burgueses e seus Capachos Políticos:

 

 

Quando a revolução bater à vossa porta
Não  lamentareis pela expropriação
Dos vossos caros jatinhos e mansões.

 

Quando a revolução interromper vossas orgias,
Regadas a vinho cujo preço
De alguns milhares de reais é o máximo requinte,
Não sofrereis com o clamor dos “peões”
Pelo fuzilamento imediato
De vossos corpos vestidos do glamour
Que o trabalho exaustivo e acachapante
Da manada humana propicia.

 

 

Quando a insurreição incendiar-nos
E a liberdade iluminar a Terra,
Quando perderdes a “celebridade”
E a adoração abestalhada e inciente
Das mentes hipnotizadas
Pela vossa oca e envolvente “mídia”,
Não vos desesperareis, tanto,
Na falta do escravo assalariado,
Com a extinção de vossa vadiagem chique.

Vós sofrereis, sim,
Por não poder
Pisotear mais as cabeças de bilhões,
Nem gozar, histéricos, babando,
Com a tortura e o aniquilamento
Quotidiano das nossas vidas simples,
Que desgraçais, tornando ocas e infelizes,
Com o sádico tacão de vosso mando!

 

Gravataí, 10 de julho de 2008

 

 

 

 

 

Ubirajara Passos

Ao Pé de Ernesto Che Guevara


Mais um estranho espírito poético me incorporou, desta vez invocado por umas doses de absinto, e, ao que tudo indica, deve ser o de um adolescente deslumbrado dos anos 1970. Mas, seja do jeito que for, aí vai a última produção de um bêbado em “crise existencial”:

Ao Pé de Ernesto Che Guevara

Diante do teu ícone profano,
Santo ateu e anti-clerical,
Sinto a força transcendente da Paixão,
Sinto-te um Cristo sem Deus,
Crucificado
Nas balas torpes do colonialismo.

No teu olhar firme e sonhador
Intuo a febril fé de um São Francisco
Banhado na bíblia marxista,
E tremo, em um forte transe místico,
Tomado de uma raiva sacra
Contra o escravismo assalariado que reduz-nos
A mero gado destinado ao abate.

Diante da firmeza inabalável
Que vem do âmago profundo do teu ser,
E atravessa-te todas as camadas
Sem se perder em dissimulações,
Sinto sangrar a sede de vingança,
Sinto gritar, metálico, o brado
De uma América sofrida e estenuada
Sob os grilhões do sadismo requintado,

De um povo mestiço e teimoso
Que vive, apesar da tortura quotidiana,
E ri, desventurado e em frangalhos,
Na euforia rara e contida
Da coca em folha, da cachaça,
De um tango, de uma rumba,
Ou de um samba!

Ernesto Guevara de la Serna:
Não foi tua ação objetiva, ou o pensamento,
Que transportou-te ao altar da rebeldia.
Nem foi a banal “celebridade”
Da mídia burguesa que te fez
Uma imagem de luta generalizada.

Mesmo o mais inciente playboyzinho
Que te carrega no peito “por esporte”
Não está imune á profundidade
Que emana, indignada e sem fronteiras,
Da tua imagem muda, ressoando
A cada instante, o martírio desta América!

Gravataí, 6 de julho de 2008

Ubirajara Passos

A MADAME DO BALCÃO


Há quinze dias sem escrever nada neste blog, nem em parede de banheiro masculino, depois de entornar uma garrafa de 960 ml da cerveja uruguaia “Norteña”, nada bêbado que estou para os padrões comuns (mas em porre de andar de quatro segundo a última legislação de trânsito fascista promulgada no Brasil, que penaliza até o pobre e idiota pequeno-burguês sem imaginação que tomou um copo de licor e foi dar uma voltinha de Pálio), fui possuído (no “bom sentido”) mais uma vez por um espírito repentista nordestino e, bêbado não-motorizado que sou, acabei parindo, do nada, o poema cretino que segue. Que, já vou avisando, não é nenhuma homenagem a gatinhas ou onças velhas que conheço. Qualquer coincidência é mera semelhança!

A MADAME DO BALCÃO

Foi dar o cu nas macegas
Ao som de músicas bregas
E acabou perdendo as pregas
Uma peruazinha chique,
Daquelas que tem chilique
Só de ouvir um palavrão.

Dizem que era funcionária
De repartição falida,
E, enjoada da lida,
Do diminuto salário
E das asneiras do chefe,
Caiu de boca na vida
E Resolveu se divertir
Com o primeiro “mequetrefe”
Que lhe cantou no balcão!

E, de entojada que era,
Cheia de não-me-toques
E afetada etiqueta,

Tornou-se uma “devassa”:
Muito pouco dá a buceta,
Só quer tomar no cuzão!

Gravataí, 6 de julho de 2008

Ubirajara Passos