REVOLUÇÃO ORTOGRÁFICA DA LÍNGUA PORTUGUESA


Conforme divulgado pelo Ministério da Educação do governo do pseudo-analfabeto Luís Inácio, em março passado, o Brasil deverá aderir, a partir de 2009,à mais inócua e imbecil reforma ortográfica do idioma pátrio, cujas medidas mais polêmicas consistem em abolir o trema e o hífen (em casos absurdos como anti-rábica, em que deverá se escrever a coisa duplicando o r – antirrábica – para preservar a pronúncia), sem tocar, entretanto, no verdadeiro samba do crioulo doido da pronúncia múltipla de letras como o x, que equivale, atualmente a quatro sons distintos (ch, como em xuxu; z como em existência; s como em extenso e cs como em sexo), nem nas quatro grafias absurdas do porquê (que correspondem às suas diferentes funções sintáticas, mas podem ser facilmente distinguíveis, independentemente do modo como são escritas, pelo contexto da oração).

A rigor, a besteira lingüística em nada facilitará a vida da grande maioria dos lusófonos, extinguindo algumas regras úteis que garantem o uso do dito padrão lingüístico, e facilitando o analfabetismo endêmico de certas camadas pequeno-burguesas aparentadas do Inácio que poderão pronunciar lingüiça como rima de “enguiça” diante de um u que geralmente é mudo quando posto entre g, q e as vogais “e” e “i”.

E fica muito aquém da revolução necessária para que um brasileiro ou angolano pobre coitado não tenha de queimar neurônios na infeliz e chique arte de decorar grafias etimológicas, que até podem facilitar a pesquisa de língua comparada de um aprendiz de erudito, mas já não possuem nenhuma função efetiva na expressão escrita da grande maioria.

Um desses abastados e imbecis doutores pode até achar graça (e se esporrar todo) em escrever transatlântico com “s” sotaposto à consoante (caso em que, conforme a regra lógica geral, deveria espelhar a pronúncia, se grafando z) só porque se trata de um prefixo latino cujo som final original era de s forte, coisa que o empregado do açougue da esquina sequer imagina, e não fará nenhuma diferença para a sua vida precária, além de lhe acrescentar um incômodo inútil a mais.

O alfabeto, quando surgiu, no meio dos velhos fenícios, tinha justamente o intuito de facilitar e popularizar a arte da escrita, e seu propósito era eliminar os inúmeros hieróglifos confusos, que íam da representação do que hoje é uma simples letra a uma sílaba, uma palavra ou uma frase inteira – o que obrigava a existência de verdadeiras elites profissionais especializadas na sua utilização, a classe dos primeiros masturbadores intelectuais da sociedade, mãe primeva de todos os economistas e sociólogos empolados e pequeno-bugueses de nossos dias. Assim, as letras deveriam representar sons fundamentais, sem qualquer ambigüidade de pronúncia. Uma ortografia exclusivamente fonética.

Mas, como toda idéia racional e popular além da conta, numa sociedade hierarquizada e calcada na dominação do homem sobre o homem, a coisa não foi muito longe e logo ressurgiram, mesmo no sistema gráfico simplificado, as complicações intelectuais chiques que pudessem justificar como filhas da “cultura” (ou corrigir-lhes as incapacidades gramaticais de débeis mentais finos) as classes dominantes. Assim é que o próprio latim, ao adotar o alfabeto de Cartago (ex-colônia fenícia que havia se tornado a metrópole do mundo antigo mediterrâneo e foi derrotada e dizimada pelo rival romano), já não tinha regularidade ortográfica e as línguas que derivaram de sua gíria popular, após o fim do Império Romano do Ocidente (português,galego, castelhano, catalão, provençal, francês, reto-romanche, italiano, romeno, etc.), muito menos ainda.

E, no caso do Português, chegou-se a adotar, no auge da frescura da Europa pré-industrial, a ortografia pseudo-etimológico que obrigava a escrever pharmacia, asthma, sciencia, psalmo, etc. O que foi, em parte, resolvido, no Brasil, com a reforma de 1943, e seu adendo de 1971 (que eliminou a maioria dos acentos diferenciais).

Daí porque, já que no Brasil fascista do Inácio dos Nove Dedos não há mais oposição oficial, e só a rebeldia independente de partidos organizados e legalizados tem alguma chance de expressar, que seja, a indignação da peonada fudida que ainda não se deixou seduzir pelo medíocre, moralista e clientelista canto de sereia dos bolsa-família e “políticas sociais” (leia-se assistencialismo eleitoreiro) da vida, resolvi eu mesmo, escrevinhador metido a intelectual, propor não uma reforma,mas a revolução racional da ortografia da língua portuguesa, lógica e acessível a toda população, ainda que não toque nos acentos (que isto deixo para os doutores do Ministério da Educação, pois se a coisa pega podem ficar sem emprego):

1) a princípio, a cada fonema-padrão (som fundamental da língua) deve corresponder, na escrita, uma letra;

2) fica, portanto, eliminado o h no início de palavras, se restringindo seu uso aos dígrafos lh e nh, que não possuem símbolo único em português – embora pudessem ser substituídos pelos ñ e ll do espanhol;

3) o som atualmente representado pelo q (sempre anteposto, cretinamente, da semi-vogal u) e pelo c diante das vogais “a”, “o” e “u” será grafado unicamente com a letra k, que volta a compor o alfabeto; assim se escreverá kuanto, kerer, keda, kaza koisa, ku, trankuilo, kilo – a vantagem é que os internautas, já viciados, legitimamente, no seu uso o terão consagrado como norma;

4) o uso do g se restringirá aos casos em que soa como “gue” (atualmente anteposto, como o q,de um u serviçal e puxa-saco) – assim se escreverá gerra, portugês, aguentar (ao invés de agüentar, o trema fica inútil com lógica, como no caso de tranqüilo, que será absorvido pela regra anterior), jelo, jiro;

5) grafar-se-á com “j” todos os sons assim pronunciados na língua-padrão, se escrevendo, conseqüentemente, jeléia, jinástika, etc.;

6) mantém-se o uso do “r”, que, quando forte, será simbolizado pelo dígrafo “rr”

7) serão escritos com “s” todos os sons correspondentes, hoje grafados como “ss”, “sc”, “x”, “xc”, “c” diante de “e” e “i”, “ç”; assim se escreverá kasa (atualmente caça), paso, nasimento, estensão, esitar (atualmente excitar), séu, publikasão;

8- se escreverão com “z” todos os sons correspondestes, hoje grafados como s e x; assim grafar-se-ão kaza (atualmente casa), ezitar (atualmente hesitar),êzodo, ezímio, tranzatlântiko, etc.

9) ficam, conseqüentemente, abolidos o uso do c e do q – e do h inicial -, salvo nas abrevituras de uso internacional e derivados de nomes próprios estrangeiros;

10) a palavra porque será grafada sempre como porke, independentemente da função sintática em que estiver sendo empregada, que se distinguirá pelo contexto, o que já ocorre na língua falada;

11) a palavra “boceta”, na acepção de vulva ou vagina, grafar-se-á buseta;

12) mantém-se as demais regras ortográficas, atualmente vigentes no Brasil.

E, komo bom anarkista, no ezersísio da rebelião mais à mão posível, kontra mais um dos artifisialismos impostos pelos “senhores da kultura”, kom a kolaborasão do semi-inkulto Hitler nasional, de oje em diante, pasarei, neste blog, a eskrever eskluzivamente pelas regras da nova ortografia revolusionária, konklamando a kada kompanheiro ke, komo eu, não suporta mais a pantomima demagójika, e subserviente ao imperialismo, do poder petista, a uzá-la em seus sites e blogs e a mandar à merda as komplikasões gráfikas da língua nasional.

Até mesmo a klase dominante tem tudo a lukrar kom esta minha pekena e radikal revolusão. Os ekonomistas de plantão ke fasam os kálkulos e verifikarão o kusto inútil e absurdo de tempo e dinheiro ke se gasta em uma empreza (sem falar no ensino públiko e privado) para se empregar korretamente um sc, xc, e ets. Koisa ke é kompleksa mesmo para os mais kultos profisionais não espesializados em letras.

Vamos lá, kompanheiro! Já ke não á outro jeito. Vamos nós komesar a mudar o Brazil em nosos sites mesmo!

Ubirajara Passos

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PEQUENO INFERNO PARTICULAR


Enquanto recarrego as baterias mentais e emocionais, exauridas nas reinas e desacertos políticos e funcionais, e sacudidas pelas surpresas amorosas (que, por ora, continuarão a ser surpresas para os leitores), deixo os amigos na companhia de mais um poema de fossa, este escrito no meio de fevereiro, logo no período pós-férias. Sei que a grande maioria vai se entediar e me mandar, intimamente, à puta que pariu: “lá vem o Bira de novo com esta merda; desde dezembro não sabe escrever em versos outra coisa senão esta lamúria alcoólico-depressiva repetitiva”. Mas me perdoem os mais exigentes. Pode ser que algum bi-polar tão doido quanto eu se console, nesta hora da madrugada, com a “pérola” que segue:

PEQUENO INFERNO PARTICULAR

Hoje me sinto qual uma tia velha,
Uma dessas solteironas de romance
Oitocentinta ou documentário,
Como um estéril personagem feminino
De “novela das seis” da Rede Globo,
Ou seca e raivosa virago patriarcal
De um mundo morto, ainda pulsante
Nos alfarrábios de um García Marquez.

Me sinto hoje qual aquelas doidas
Que ainda esperam aos oitenta o amor
Que um dia sumiu dobrando a esquina
De intemporais eras, na neblina
De uma vaga juventude não vivida.

Hoje, boêmio já meio aposentado
Da sacanagem ingênua mergulhada
Em rios de cerveja e irreverência,
Pareço uma beata azeda e insossa.,

Ou o arremedo medíocre de um Dante
Sonhando um paraíso semi-islâmico
Na doce nostalgia ressentida
De uma gostosa Beatriz nunca tocada.

Sou uma infeliz mistura ambulante
De boemia descomprometida
E romantismo nostálgico e choroso!

Sou a profundidade apenas sonhada
E a fria emoção superficial e falsa
A se esconder na altissonante gargalhada,
Gozando em ondas circulares, em orgasmos
Múltiplos auto-abastecidos
Da entusiasmada e oca irreverência,
Do pobre porre que esvai, no meio,

Na xaroposa choradeira cheia de glamour,
Na arenga lamentosa e intelectualizada
Ou falsamente expontânea e popular,
Mas tão medíocre, infeliz e comezinha
Quanto a de qualquer bêbado frustrado,
Tão cambaleante quanto a falta de sentido
De um pivete no barato da “loló”!

Gravataí, 17 de fevereiro de 2008

Ubirajara Passos