Até a mídia burguesa reconhece: o capitalismo é irracional e está no limite do insuportável!


Como anarquista não sou nenhum destes militantes socialistas ingênuos (nem um de seus matreiros líderes propagandistas de asneiras) para acreditar em análises políticas superficiais e espetacularistas, ou em simples fórmulas pré-estabelecidas, como aparenta o título provocativo desta crônica. Mas o fato inédito que, como se verá, sequer pode ser confundido com o mero puxa-saquismo do falso verniz socialista do governo do Inácio, parece justificar, desta vez de forma real e válida, a tese de que a opressão da massa de trabalhadores fudidos, de todas as camadas e matizes, atingiu tamanha intensidade (o que não deixa de ser verdade no fascismo informal do Brasil de hoje) que as consciências se libertarão na porrada das amarras que as mantém sob o jugo da safadeza alheia, da auto-submissão masoquista e da ignorância mútuas.

Desde piá (muito antes de aprender a ler e escrever) convivo com a presença do Almanaque do Pensamento, velho guia astrológico anual que publica, no Brasil, previsões e (como todo almanaque) artigos de curiosidades e utilidades os mais vários, há exatos 97 anos. Foi no do ano de 1982, por exemplo, que tomei, pela primeira vez um contato um pouco mais estreito com as previsões mileranistas de Nostradamus e outros, que alimentaram o meu misticismo ateu (podem crer: como contradição em pessoa, consigo ser simultaneamente anarquista e brizolista, racionalista e místico, predominando sempre a consciência livre e questionadora sobre tudo). Como quase todo esquerdista revolucionário, aliás, sempre nutri esperanças secretas e inconfessáveis de que os apolicapses da vida fossem uma obscura confirmação da da derrocada inevitável da sociedade hierarquizada e a assunção da igualdade e da liberdade absolutas para a humanidade.

Ocorre, entretanto, que, apesar das minhas suposições e interpretações íntimas, o referido almanaque jamais teve qualquer familiaridade com ideais de redenção da classe trabalhadora, se atendo sempre aos assuntos próprios do seu gênero e, sempre que abordou política, em suas diversas edições ao longo do tempo, reproduziu fielmente o discurso da mídia burguesa, se esmerando, por exemplo, em sua edição para 1972, na louvação mais descarada ao general gorila mais sanguinário e anti-povo dos que ocuparam o poder na última ditadura fascista formal , Emílio Garrastazu Médici.

Na página 2 da edição citada, pode-se ler no horóscopo para o Brasil referente ao quarto trimestre de 1972, por exemplo: ” Esse aspecto vaticina notáveis mudanças, favoráveis aos meios sociais e governamentais; haverá modificação nas ações do govêrno, porém sempre de modo acertado(grifo nosso); haverá igualmente melhora financeira e progresso nos assuntos relacionados com o poder judicial“.

Na edição para 1989, em pleno governo inaugural da ditadura informal (já promulgada a Constituição de mentirinha de 1988, para ser desrespeitada escancaradamente todo dia), na gestão do senhor feudal José Sarney, a rasgação de seda governamental e a falta de contato com a realidade efetiva é mais explícita e violenta ainda. Veja-se estes trechos:

“Haverá melhorias para a população de maneira geral, o que permitirá que as pessoas individualmente, vivam melhor, ainda que numa escala social maior tudo permaneça confuso e indefinido”;

“Ainda não haverá um acordo total entre o governo e os anseios da população, sendo necessárias algumas reformas que, até o final do ano, serão iniciadas (especialmente após o mês de setembro, mês em que é delineado um novo horóscopo anual para o país”;

“Até esse mês, as ações individuais (seja cuidando da própria vida, seja cuidando de negócios particulares), serão mais produtivas do que as ações conjuntas com o governo ou na dependência deste”; “Mas entre setembro e novembro a situação reverterá, dando impulso para uma fase nova e produtiva do nosso país” (casualmente se elegeria o mais badalado corrupto esquizofrênico – ainda que não tão eficaz na corrupção quanto o Inácio – o Fernandinho do Pó).

Já na edição para 1991, em plena era Collor, a coisa assume ares defintivos de defesa do regime vigente e das análises econômicas falcatruas do neo-liberalismo fernandiano:

“O ano de 1991 começará de forma muito positiva para os brasileiros, pois devido a bons aspectos da Lua progressada, a população como um todo terá melhores  condições de saúde, higiene, alimentação e trabalho”.

“Nos meses de janeiro e fevereiro a população receberá essas condições de vida, através de acordos feitos tanto com o governo quanto com a classe empresarial”.

“Os trabalhadores terão momentos difíceis nos meses de junho e setembro, quando poderão sofrer uma diminuição de salário, ou alguma forma de dificuldade financeira. Mas o mês de julho trará uma melhoria significativa no âmbito econômico, de forma a contrabalançar possíveis prejuízos”(grifo nosso).

No último trecho das previsões para aquele ano a epifania governista  atinge o auge do orgasmo astral: “O país será governado de forma estável e forte por seu dirigente máximo, dando continuidade à sua maneira de governar, desde que assumiu a Presidência do país”.

No ALMANAQUE DO PENSAMENTO 2010 (98º ano), entretanto, para espanto absurdo de quem tenha acompanhado a publicação ao longo das décadas (de que dei apenas 3 exemplos clássicos, haveria muitos outros entre os volumes que possuo em minha coleção) o discurso mudou diametralmente, a ponto de fazer tremer o menor pentelho (como diria, e escreveu certa feita no jornal do Sindjus-RS, o Lutar é Preciso, o meu amigo Moah, para escândalo dos diretores pelegos de plantão).

Nas previsões de caráter mundial  pode-se ler, por exemplo:“Um Vislumbre de 2010”(…) “Haverá protestos da população no mês de janeiro, e depois de abril a setembro”

“Independentemente das medidas políticas adotadas pelo governo, a situação econômica e financeira do país se revelará insatisfatória. O aumento de taxas e impostos cria insatisfação na população.”

“A partir da primavera tudo será questionado e até dezembro o mundo viverá um período de calma de pouca duração.”

“O ano se encerra numa atmosfera de lentidão: tanto os jovens como as pessoas idosas terão bons motivos para demonstrar sua insatisfação (…)

Já nas de caráter nacional, o compromisso com a realidade econômica e social concretas (e não a interpretação distorcida da imprensa submissa aos interesses da classe dominante) se faz plenamente presente:

Horóscopo para o Brasil no ano de 2010″

…) “O cenário macrocósmico estará dramático: quatro dos cinco planetas coletivos  estarão se relacionando de forma tensa no céu e nos primeiros graus dos signos cardinais, considerados por um lado como criativos, heróicos e renovadores, mas também impulsivos, bélicos e explosivos. A última vez que uma configuração semelhante ocorreu foi nos anos 30 e nos deixou como legado daquela época a queda da bolsa de Nova York, alguns golpes de estado, falências bancárias, redução drástica do comércio mundial, graves índices de desemprego, invasão da Manchúria pelo Japão, emergência de regimes totalitários, criação da bomba atômica, desmoronamento do liberalismo econômico na Europa. É claro que houve mudanças positivas, mas não são delas que nos lembramos.  E agora, o que podemos esperar? Um período de desafios sem semelhantes e de mudanças radicais para a humanidade e para o planeta.”

No parágrafo abaixo a coisa se aprofunda e assume o caráter nítido de análise socialista do mundo e da história humana:

“Na verdade, o paradigma em que nossa civilização mergulhou parece estar falido. Desde a Revolução Francesa vimos sendo orquestrados pela batuta de uma classe que chegou ao auge da dominação econômica e detém 95% dos principais ramos da economia e da sociedade atuais: o bancário, o do petróleo, o armamentista, o da mídia/comunicação/tecnologia, o químico/farmacêutico e o religioso. São muito poucos os indivíduos que dominam os 6,5 bilhões de seres humanos carentes e ignorantes da sua existência e atuação sem escrúpulos e sem ética. O estágio de incivilidade e de insustentabilidade que atingimos só tem sentido sob a ótica deles, do consumo, do poder ou do abuso do poder desses setores e classes dominantes. Atingimos o máximo que o racionalismo pôde chegar, fomentado pela ganância e pela sede de poder dos que estão por cima. A civilização contemporânea está de luto pela morte dos sentimentos, pela perda de sentido e pela ausência de significado que atingiu. Os aspectos que estão por vir, inaugurados por Plutão em Capricórnio, derrubam velhas e rígidas estruturas, porém são tremendamente criativos e e nos estimulam à reconstrução de uma nova sociedade, de uma nova estrutura, que partirá do físico, do básico, do concreto, do alicerce.(…)

Se o leitor já se encontra apavorado com o salto mortal do posicionamento ideológico e filosófico, leia então os trechos que se seguem, encharcados na mais pura e engajada propaganda revolucionária:

“É claro que o Brasil não poderia ficar à margem destas grandes mudanças. No entanto, por aqui as transformações serão mais concentradas nos aspectos político e social do que no econômico. Economicante, o Brasil parece estar bem, parece estar forte e deve atravessar a crise econômica mundial sem grandes percalços. No entanto, não esqueçamos que estamos num contexto e que o mundo está em crise. Mas é politicamente que por aqui não sobrará pedra sobre pedra e que finalmente chegou a hora dos velhos caciques da oligarquia brasileira darem lugar ao sangue novo, ao empreendedorismo, à criatividade e à juventude que intenciona replantar uma sociedade em bases mais justas, éticas e sustentáveis. O ano de 2010 representará uma quebra de paradigma na civilização humana e a tensão celeste ativará bastante o mapa natal do Brasil: assistiremos mudanças radicais ocorrerem nos poderes legislativo e executivo do nosso país, com direito a descobrirmos toda a corrupção e bandalheira que existe por trás destes poderes. Assistiremos ainda a verdadeiras convulsões  sociais, fruto do aumento do aumento da violência urbana e da indignidade do povo brasileiro que não aguenta mais tanta fome, miséria e injustiça.”

(…) Devemos agradecer por estarmos vivos neste momento tão importante da história humana, pois poderemos assistir o Brasil e o mundo se transformarem a olhos vistos”.

Confesso que a natureza da profecia é entusiasmante e fez a mim e ao Alemão Valdir (para quem enviei, no mês de janeiro, por e-mail, os trechos de 2010 reproduzidos) delirar em transe místico-anarquista por semanas. Mas, a parte a validade científica das “previsões”, o fato é que temos pela frente um fenômeno extremamente original, que não se explica nem por uma pretensa orientação vermelha da redatora dos textos (cujo site acessei e pude verificar não justifica tamanha verve revolucionária, ela até se pretende assessora esotérica de empresários). E que só pode ter uma única justificativa cabal: a pressão concreta da voracidade e do sadismo do escravismo assalariado no Brasil, e quem sabe a nível internacional, atingiu um limite tão absurdo que a própria imprensa burguesa baba-ovo, prenunciando (não pelos métodos mágicos ou paranormais, mas pela simples sensibilidade sócio-antropológica, que, talvez seja facilitada no âmbito dos profissionais da astrologia e outras práticas místicas) o estouro da boiada e a revolta generalizada contra tais condições, já está tratando de se adequar aos novos tempos, abandonando os capitães do mato de luxo da classe dominante (leia-se políticos e ideólogos de todo tipo, a começar por sacerdotes de tudo quanto é culto).

Talvez não vejamos realizado nem um centésimo do furor revolucionário previsto, e a alteração diametral de posição do anuário seja apenas um fato a ele restrito. Mas, como diz o próprio texto reproduzido, tal aceitação tão escancarada da realidade política e social, tal qual ela é, e vem sendo denunciada pelas gerações de revolucionários, é, no mínimo,paradigmática!

Ubirajara Passos

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Suprema Felicidade!


Não! Não se trata de um flagrante (fotográfico…) da última quarta-feira de cinzas em Porto Alegre, nem a foto é original. O local é a Avenida Paulista, na “maior cidade da América do Sul”, e a foto, para variar, foi pirateada de outro site (como muitas ilustrações deste blog e de outros tantos… quem não comete, na internet, estes furtos mutuamente consentidos e jamais admitidos?).

A cena que deu origem a esta matéria, que pretende reviver um pouco este blog moribundo, se deu há alguns meses (se não me engano num domingo do início de dezembro), em lugar bem distante de São Paulo: a provinciana “cidade grande” de Gravataí, 300.000 habitantes, na Região Metropolitana de Porto Alegre. E o seu protagonista só possui em comum  com o fotografado o fato de estar dormindo bêbado em plena rua, sob o sol mais estridente e agitado (não vá pensar o leitor que estou sob o efeito da crise de abstinência forçada: a metáfora com as percepções trocadas é proposital…).

A criatura não vestia paletó, nem dormia sob uma calçada de pedras e se não publico a sua própria foto não é pelo simples intuito de proteger sua imagem, pois se se tratasse de um bom pequeno-burguês, como aparenta o cidadão acima, eu não teria a menor complacência (e, muito menos, temeria responder um processo por crime contra a honra ou utilização indevida de imagem). Justamente por ser um desconhecido operário, e não nenhuma estrela da aristocracia capitalista, merece seja preservada sua privacidade.

Vestido com uma impecável camisa xadrez, calça azul-marinho, aparentado tergal, e sapatos pretos de cadarço, o traje do operário, mais típico dos anos 1950 ou 1960, nos dava a impressão que o trintão ou quarentão havia sido transportado pela máquina do tempo para o fim da primeira década do século XXI. E ali, deitado sob um gramado, nas bordas do muro da chácara que abriga o  convento de freiras, denominada “Vila Lurdes” (que já foi o Palácio do bispo), a alguns passos do portão principal, curtia o sono mais profundo e relaxante, apesar do calor de derreter os cornos de boi zebu. Destoando do vestuário antigo, e me dando certeza de que não era eu, também, que havia pego o “túnel do tempo” e retroagido uns bons cinqüentas anos (pois o próprio cenário não era nada moderno), uma sacola de plástico de supermercado montava guarda ao seu lado, como um discípulo novato de mestre budista velando a meditação profunda do mestre no alto da campina descampada.

A roupa estava impecável, nada amarfanhada. Somente a barba por fazer e a posição dos membros  (perna direita estendida e a esquerda dobrada, o braço esquerdo sobre a barriga, o outro estendido na grama) denunciava que o sujeito simplesmente capotara no chão sob a pesada inspiração de Baco. Não se tratava, portanto, de um arquétipo vivo da tradição budista (ainda que pudesse possuir algum parentesco comportamental e ideológico profundo com Drukpa Kunley), mas do mais irreverente e hedonista paganismo ocidental! Para completar o quadro “beatífico” de prazer, serenidade e liberdade (um “nirvana” anarquista) só faltava mesmo estar dormindo entre um gato, um cachorro e uma criança!

Sei que, a esta altura, os safados como eu estão entendiados e revoltados com toda esta lenga-lenga e, justamente, acusando a crônica de sem sal e extremamente ingênua, muito lírica e pouco irreverente. Já os beatos moralistas da religião do lucro e da qualidade total devem estar cochichando para si próprios que, apesar de fraco, o texto é imoral e irracional, ao celebrar o porre desavergonhado, desregrado e prejudicial à economia, de um operário que, ao sair do trabalho para a casa, e depois de passar no supermercado para comprar os mantimentos, deixou-se arrastar na devassidão boêmia, deixando a família na preocupação da espera e sem a carne moída e as alfaces para a janta (cogitação que chegou a me passar pela cabeça de anarquista hipócrita).

Mas, falemos sério! Fosse qual fosse a história do pobre diabo, pai de família contrariado que se abrigou no retiro do buteco, empregado “indisciplinado”, dado a faltas e serviço pouco produtivo (na visão do gerente “capitão-do-mato” que administra o gado humano para a burguesia, evidentemente), o fato é que o sujeito, com toda a precariedade de seu porre (que o ideal e confortável, mesmo, é dormir embriagado em cama fofa, cercado de gostosas, com ar condicionado e home theater), não lembrava nem de perto uma situação de neurose e desastre pessoal, mas antes evocava uma perfeita serenidade e “comunhão com a natureza”.

Preocupações histéricas, obrigações compulsivas, planos artificiosos de revolta, ou obediência canina, todas as imposições compulsórias, externas ou introjetadas, suspensas, gozava por uma eternidade do merecido “descanso do guerreiro” (fosse a guerra o trabalho escravo assalariado ou a própria sessão farsesca de beberagem junto aos parceiros de buteco), e, recomposto, simplesmente levantaria, tomaria da sacola e prosseguiria sua vida, neurótica, trabalhosa e atabalhoada como a de todos nós.

Não se sabe se sairia melhor em suas peripécias, ou desabaria diante dos acintes raivosos da jararaca doméstica. Se, solteiro, se consumiria em remorsos recorrentes e chorosos com a parca grana gasta na cachaça. Ou, simplesmente, passaria sobre as dificuldades quotidianas, se imporia, pouco a pouco, sobre as pequenas (mas fundamentais) opressões de cada dia e viveria um pouco melhor, ao menos com mais dignidade.

A única coisa certa é que, tenha sido como foi o porre (gaiato e feliz, ou furioso e desastroso), por algumas horas, na ressaca onírica, deve ter vivido o êxtase paradisíaco supremo, embalado por anjos (se lá de cima ou de baixo não sabemos, nem nos interessa), quem sabe até não visitou o “Castelo do Graal” e foi servido dos mais saborosos manjares e, por que não, bebidas e “donzelas” (destas que, apesar da experiência vasta, sempre trepam com o entusiasmo e o encanto de uma verdadeira “virgem”).

Ubirajara Passos