O Salmo 24 da Bíblia do Capeta


Um velho amigo meu, que prefere se manter no anonimato (e  não é o alemão Valdir, nem o Gérson Monteiro ou o Jorge Dantas), me solicita que publique resumidamente a sua história neste blog e a primorosa peça literária que acabou por compor, puto da vida com as “correntes” infindáveis que tem recebido pela internet.

Segundo a infeliz criatura, além do verdadeiro dilúvio de e-mails desta natureza, que acabou por fazê-lo desistir até mesmo de ler as demais mensagens que recebe, as famosas correntes foram responsáveis até mesmo por uma unha encravada e uma urticária braba debaixo do sovaco. Não é que alguma daquelas malditas pragas tenha caído sobre ele por desconsiderar as recomendações da corrente e deletá-la, mandando tudo às favas. A irritação violenta é que lhe fez dar um trombaço feio com o dedão no pé na escrivaninha e se ralar todo coçando as axilas, de pura raiva!

Na verdade, embora não acredite nas ameaças, o meu amigo, um tanto otimista além da conta, gastou horas e mais horas, e todo o seu estoque de credulidade, na esperança de ver atendido algum dos milagres babacas prometidos. E depois de repassar cem vezes a mesma asneira, às 3 h da madrugada, para os mesmos contatos de sempre (o que lhe rendeu o rompimento e a inimizade até mesmo daquelas gatinhas fogosas e gostosas, meio pancadas da cabeça, que tinham coragem de tomar um trago e fuder com ele volta e meia), nunca obteve a graça de receber o mais simples telefonema anunciando que havia ganho o prêmio do primeiro ao quinto no jogo do bicho, na hora prometida na corrente.

Assim é que, furioso com as invasivas e insistentes mensagens de sempre (que passou a responder com os piores impropérios e palavrões possíveis, sem conseguir dissuadir seus autores), especialmente com o Salmo 23, que já deve ter recebido no mínimo 1.544 vezes, das quais umas oitocentas repassou sem o menor resultado, resolveu se vingar compondo O Salmo 24 da Bíblia do Capeta, que me enviou pedindo que o publique, e reproduzo abaixo:

Oração da Cabritinha ao seu amado Pastor Zoófilo:

O pastor é o meu fodedor
E nada me faltará.

Deita-me em verdes pastos
E cobre-me mansamente
Em águas tranqüilas.

Refrigera as minhas nádegas,
Guia-me pelas veredas da impudicícia,
No amor do meu homem.

Ainda que eu ande pelo vale da sombra sem sorte,
Não metereis mal em mim,
Porque tu estás comigo.
A tua
vara e o teu cajado me consolam.

Prepara-me uma mesa perante os teus amigos,
Unge-me à beça com teu
óleo,
O teu
cálice sobre mim transborda.

Pois certamente,
Com a tua sacanagem e a minha concórdia,
Me cobrirão todos os dias da minha vida
E habitarei na casa de meu fodedor para todo o sempre.

O meu pobre e desbitolado amigo insistiu muito que eu deixasse claro o quanto se sente feliz dedicando o edificante poema aos seus benfeitores, que certamente se rejubilarão e morrerão de felicidade e encanto com a grata e humilde lembrança que lhes dedica.

Ubirajara Passos

 

 

Receita para trilhar seguramente a existência:


 Alguns ecos da leitura de “Cartas a um jovem poeta”, de Rilke, o embalo do seriado “Dalva e Herivelto” (exibido pela Rede Globo, nesta semana) e uma inspiração súbita, cuja redação foi adiada desde a semana anterior a do Natal, resultaram no poema abaixo publicado, escrito na quentíssima e modorrenta tarde de ontem:

Receita para trilhar seguramente a existência:

Quando fores, meu amigo, olhar a vida,
Com o olhar indefeso de quem mira
Um abismo pétreo à luz da alvorada, 
 

Não a encares de frente,
O rosto sério
E o queixo erguido, com ares de bravata.

 A enfrente, sim,
Com toda consciência,
E tome uns fortes goles de coragem, 
 

Mas faça como se estivesses no salão
De um cabaré de quinta, paquerando
Uma bela puta, com o olhar dissimulado.
 

Faça aquele ar de cão perdido,
Pisque o olho,
Mas tenha sempre à mão
Dois reais de malandragem, 

 Que a vida, camarada, rebola como gata,
Mas é uma velha marafona esquiva
E nocauteia o falso cafajeste
Que não a saiba seduzir completamente;
É onça braba, 
 

Que, envolvida na conversa mole
Mil vezes superior à sua lábia,
Perde os arroubos de fera,
Amansa e mia apaixonada.
 

Gravataí, 9 de janeiro de 2010 

Ubirajara Passos 

A todos os revolucionários legítimos que acompanham este blog: um feliz 2010 vermelho e libertário!


as rosas que florescerão de nossa luta

A todos os leitores e companheiros de jornada que, de alguma forma, tem me acompanhado nos últimos anos, na luta incruenta e diária pelo fim de todas as opressões (das domésticas e quotidianas às de caráter globalizado), pelo direito à liberdade, ao prazer puro e genuíno de andar, viver e respirar segundo as próprias inspirações, sem ter de submeter ao ranço e ao sadismo alheio, o blog Bira e as Safadezas deseja

que, no ano que se inicia, as sementes que viemos espalhando, vida afora, com a nossa luta e inconformidade floresçam definitivamente e inundem a Terra com as rosas vermelhas da revolução! VIVA A ANARQUIA!

Ubirajara Passos

anarquistas em salvador d