Nirvana Bêbado


Ultimamente não tenho bebido muito (efeito colateral do casamento), mas só consigo escrever poemas de fossa intelectual, dignos daquele porre enjoativo que se toma quando a patroa te deu uma reinada porque tu colocaste o cachorro na lixeira e o lixo na casinha do cachorro.

Hoje à noitinha, indo à loja de conveniência do posto de gasolina mais próximo comprar cigarro para a “patroa” se intoxicar um pouco mais com a fumacinha sem graça (já que não tem o bom de gosto de se envenenar com aquele goró do bom), bateu-me às guampas o poeminha que segue, que, com exceção do 2.º, 4.º e 5.º versos da última estrofe, foram integralmente compostos na caminhada de cinco minutos:

Nirvana Bêbado


Quero sentar à mesa do buteco,
Viajar na embriaguez boêmia.

Com meu compadre as mais banais
Fofocas quotidianas da esquina
E os eternos planos da revolução
Discutir na madrugada a dentro,

Cantando, entusiasmados, as putinhas
De pouco preço e esperteza imensa.

Quero filosofar nas ondas suaves
E cambaleantes do vinho até o sol nascer,
E entrever, em meio ao porre pândego,
Uma experiência de unidade absoluta
Com o todo que nos cerca.

Quero viver, na noite estrelada,
A brisa úmida esfriando o fogo bêbado,
Um êxtase estático em canto escuro da calçada

E penetrar, embalado nos vapores
Da uva sacra fermentada,
Na irmandade com o espírito do mundo!

Gravataí, 18 de março de 2010

Ubirajara Passos

Confissões de um Rebelde Hipocondríaco


 

Outro poema escrito na tarde de quarta-feira, após o trabalho:

Confissões de um Rebelde Hipocondríaco

Há no desastre da minha existência
Um componente besta, mas fatal:
É esta insegurança infinda
E este pavor da morte, que me mata
Cada segundo, em pânico; a incerteza
Que me mantém no sobressalto eterno
E me faz sofrer em vida as mais banais
E irritantes penas do inferno!

É este medo absurdo, e inconfessado,
De sucumbir, sem aviso, a um repentino mal
Vindo de dentro, secreto, trabalhado,
Silente e lento, pela própria hipocondria!

É este receio exasperante e irremediável
De, por qualquer artéria obstruída,
Sair da cena sem gozar toda a vida,
Abandonar o campo no meio da batalha,
De nunca mais avistar a luz do dia

E, ironia cretina, eu que não sou rebanho,
Mas gasto a vida na defesa da manada,
Tornar-me o adubo que engendra a grama
E, indiretamente, servir de pasto ao gado.

Gravataí, 10 de março de 2010

Ubirajara Passos

Reina do Poeta em Crise Existencial


Poeminha parido hoje,  no final de tarde, depois de um cinzento, e chuvoso, dia de trabalho:

Reina do Poeta em Crise Existencial 

Poeta fui, dos medíocres prepotentes
Que se supõem uns gênios,
Se entusiasmam,
Compõem em febre, noite a dentro,
De um só jato,e involuntariamente
Dão à luz um plágio comezinho! 

Poetei em jorros,
Metáforas inéditas,
Motes bizarros,
Versos refinados

Gritantes, carregados, grávidos
De uma sonoridade rara e embevecida,
Se me projetavam em relâmpagos da mente! 

Hoje um cansaço velho e mofado
Só me permite rabiscar o óbvio,
Todo poema é um espelho fosco
Do muro cinza que se ergue à frente
E não se arremessa além de uns doze passos
No cercadinho da mesmice quotidiana. 

Gravataí, 10 de março de 2010 

Ubirajara Passos

O Monge e o Pinguço Executivo


O monge saiu de mansinho pela rua. Nos lábios aquele sorriso abobalhado de quem toma no cu e é forçado a fingir que está adorando. Ia lento e cabisbaixo, com o ar de plenitude beatífica típica do Buda. Somente um observador atento, e malandro, o suficiente notaria o detalhe estranho. O compassivo e etéreo oficiante do desapego e da pureza de corpo e alma segurava um cigarro junto aos lábios, emitindo, pelas narinas, pequenas baforadas de uma fumacinha mentolada.

Diante de si vinha, traçando com seus passos, na calçada, um gráfico invisível das finanças de funcionário público, um elegante bêbado, de maleta em punho, terninho verde-garrafa intacto, apesar do porre. O tipo, ao avistar o monge, ameaçou desabar-lhe sobre os cornos, umas três guinadas abruptas ao redor, e estacou abobalhado!

Maz que bezteira é esta, meu tchiozinho? Dudo bem que tu seja colorado! Ninguém é perfeito, maz razbá o cabelo? Ô zofredor maiz bobo. Não adianta! Go’esse teu time ruim, se tu for arrangar os pelo, vai arrangar do zuvaco até os pentelho!

− Pobre senhor, parece até o Peruca… Meu caro amigo, venha cá comigo. Vamos tomar um bom chá verde que o equilíbrio logo se recupera.

− Não me faldava maiz nada! Tu é betizta! Não me inziste com maconha líquida, que eu te arranco ezte vestido encarnado! – E, como o monge tentasse amparar-lhe o zigue-zague ambulante, propondo que fosse até sua casa tomar um café preto, se não lhe agradava chá, e descansasse em seu sofá para dissipar a bebedeira, o verdoengo gambá arrematou:

− Ih, o gue é isso? Além de Inter, magonheiro e PT ainda é veado! Ou é primo do Nandinho Andarola ou é o próprio diabo!

Ubirajara Passos

O Aparecido


Num pavilhão de alvenaria, numa vila popular da Grande Porto Alegre, cinzenta tarde de sábado, deu-se o ocorrido.

Tanto o pastor evangélico histérico clamou a respeito do demônio que, um belo dia, em pleno culto, o tinhoso se materializou no púlpito ao seu lado.

Sem tridente, nem rabo, muito menos chifre (que diabo que se preza não é corno, isto é coisa pra marido de irmã de fé), o capeta envergava um terninho última moda, destes que só usa executivo paraguaio de multinacional. E ao invés de enxofre, fazia uma fumacinha de cigarro mentolado, que segurava com um ar meio afetado. Tinha pinta de assessor legislativo e, não fosse pelo terninho, poderia passar por professor da UFRGS. E foi logo lhe saudando:

− Salve, ilustre camarada. Vim te visitar, com exclusividade, já que tu é o meu maior fã. Tu e as tuas ovelhas fissuradas! Pensei muito, fazia já uns bons quinhentos anos que eu não aparecia, no máximo mandava os secretários. A última vez foi lá no Vaticano, quando fui dar uma mãozinha na acusação daquele gringo boca grande, o tal de Galileu. Mas tu é muito especial, nunca vi fiel tão dedicado ao meu nome. Eu não podia, de jeito nenhum, faltar!

O pobre vigarista, aparvalhado, não sabia se corria ou ajoelhava, a merda querendo lhe escapar por entre as pernas, diante da figura, surgida do nada, sem efeitos pirotécnicos, nem trilha sonora pauleira de trombetas. Gaguejante, o joelho a tremer num frenesi de fanqueira rebolando, a muito custo conseguiu miar as frases:

− Seu satanás, o senhor me perdoe! Sempre pensei que o senhor fosse uma invenção da grossa. Não se preocupe que lhe dou a sua parte, contadinha, sem 171, mas, por favor, some daqui e larga do meu pé.

− Mas o que é isto aí, ô amizade? Vê lá, tu tá me decepcionando, bicho! Sempre te achei o maior salafra, malandro dos bons, como poucos há no Inferno! E tu me sai, aí, com esta voz fininha e esta frescura de carola petista, ô rapaiz! Toma vergonha nesta tua cara de madeira aglomerada!

− Ó meu senhor, excelentíssima potestade infernal. Não me leve a mal. Não me fulmine. Eu juro que não tinha intenção de lhe lograr. Não tem problema, eu pago o dízimo, melhor o quinto da arrecadação daquela viúva pensionista otária, beata tarada. Eu não queria, mas ela me força a pecar na sua carne em troca! Eu pago tudo, mas me leva esta megera fodedora lá pras profundezas!

− Porra, meu tio, que tanta caganeira! Até parece doutor do Mato Grosso! E eu que pensei que tu era a salvação deste mundinho que me encheu o saco! Vai te fudê, ô golpista de araque! Tô enojado igual filhote de urubu! Que porra de humanidade! Se tu, ô meu bom, é este bosta o que será do resto? Tô desistindo até mesmo de ser diabo!

E, num pequeno truque de mágico de programa americano, doutor Coisa-Ruim deu um giro e saiu, soturno e cabisbaixo, cabeça raspada, envolto numa túnica vermelha de monge budista, porta a fora, enquanto a multidão de trouxas, raivosa como cão hidrófobo, tratava de acariciar cada centímetro do pastor a chute e bordoada.

Ubirajara Passos