Estava o guaipeca no seu lugar… vieram os gatos lhe incomodar!


2017-08-08 21.30.32

Este sujeito aí de cara invocada é o Vagabundo (ilustre gato da Isadora que poderia ser meu, tamanha é a devoção que me dedica, dando-se, inclusive ao trabalho de seguir-me e entrar junto comigo em casa quando retorno ao trabalho e se acha na rua) e só se encontra solitário na foto porque não encontrei nenhuma de seu primo e parceiro de estripulias, o Luba, com o qual cometeu a façanha que deu origem a este post.

Nascido em novembro de 2014, em plena cama, quando a Janaina descansava numa tardinha de domingo, na mesma época em que o seu tio e pai de seu parceiro (o Mel)  desapareceria pela Vila Natal a farrear, para voltar quase um ano depois para casa, completamente estropiado, e aí morrer, o bichano aí, assim como o primo (parentesco que lhe foi atribuído pela semelhança com seu pretenso pai angorá, quando surgiu por casa há mais ou menos um e nos adotou como seus “donos”), foi castrado faz um tempo, o que não o fez ficar mais caseiro, nem menos macho.

E, outro dia, no final de uma bela manhã de sábado, andavam ele e o Luba pela calçada de casa, com aquele ar modorrento de boêmio recém chegado da esbórnia, quando uma dupla de assustadores e valentes cães de rua (que na Vila Natal os há de todo tipo, tamanho, pelagem e atitude, alguns tão atrevidos a ponto de formar gangue e nos cercear o passo pela rua, a ladrar e ameaçar como militantes do MBL) se postou, ar de ameaça e determinação típicos, capazes de botar a correr muita beata ou moleque desavisado, em frente ao portão do vizinho do lado, pronta julgava eu, para dar um corridão na gataiada.

E eis que, para minha surpresa e confirmação definitiva de que estamos no fim do mundo e as coisas andam todas fora de ordem, mesmo para o mais empedernido anarquista questionador e contestador do mundo, a dupla de gatos é que os pôs a correr, mas não com uma carga de unhadas e miados histéricos e esganiçados, como suporá o leitor.

Juro que é a mais absoluta verdade, assim como é o episódio em que peguei o gato Luba com uma trufa (que minha mulher havia feito para arrecadar fundos para a festa de sua formatura em Técnico em Enfermagem, ocorrida mês passado) na boca, embalagem aberta por ele mesmo, que ele sacara da mesa para o chão, pondo-se a correr a minha chegada, no que ninguém em casa me acredita. Mas os gatos se mantiveram impávidos, sem dar um mio, e retesando o corpo com aquele olhar de mafioso pronto a fuzilar, botaram a correr a jaguarada com esta simples e muda ameaça, movendo-se apenas um único passo a frente.

Não se sabe se é efeito da guerra de facções do tráfico de drogas que anda pela cidade – trazendo novidades do “caveirão” à execução de uma dupla forçada a cavar a própria cova e nela se deitar para, depois de uma saraivada de balas (boa parte ‘perdidas” pela má pontaria), virar churrasquinho e protagonizar vídeo em pleno facebook – ou da onda de estripulias fascistas que corre o Brasil,  mas o fato é que, num lance nunca visto, os meus caros gatos, que até o episódio jamais haviam manifestado esta pose de mafiosos de filme americano, parecem estar provando para muita gente que, bem mais do que espalhafato e o uso físico da violência, muitas vezes a determinação e a postura é tudo.

O que corrobora a minha velha tese, exposta aqui neste blog faz uns quantos anos, de que, para derrogar o regime vigente de dominação a que vivemos nós, pobre peonada trabalhadora, submetidos, não é necessário nem o uso do fuzil, mas simplesmente virar as costas para a burguesia, como diria o falecido Valdir Bergmann, e, entrando em greve permanente, mandá-la à puta que pariu, tomando nós mesmos a condução de nossas vidas e da administração e geração dos meios de sua manutenção.

Pois, por valente e perigosa que pareça, a tropa de choque encarregada da manutenção da ordem vigente (e até aquela, não encarregada, que pretende empestear ainda mais nossas vidas com sua censura e falso moralismo) é tão poderosa que há de desmontar-se ao menor gesto de enfado e desfaçatez diante de sua ruidosa fúria!

Ubirajara Passos

 

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Da Censura a este Blog e seu Pretenso Caráter “Pornográfico”


Por incrível que pareça, como já dizia o velho e sacana Rei Salomão, no Eclesíastes (outro livro seu fantástico, de que tratarei de reproduzir trechos brevemente), nunca “há nada de novo sob o sol”, mas apenas “tédio e vaidade”.

Este blog já havia sido censurado pelo ímpeto persecutório da administração anterior do judiciário gaúcho (o que resultou na minha suspensão por sessenta dias, praticamente sem salário, em razão de uma crônica aqui publicada) e agora, durante a campanha eleitoral para coordenador-geral do Sindjus-RS (a própria entidade que deveria defender a liberdade de expressão e pensamento de seus filiados), foi novamente censurado, e difamado, por componentes da chapa, que, casualmente, ocupa já a direção da entidade.

Com o nítido e anti-ético objetivo de influenciar os eleitores menos conscientes e de mentalidade ainda patriarcal e moralista (desviando-os do voto em uma chapa de oposição classista, pró-servidores, combativa e anti-pelega) foram divulgados, fora de contexto e de maneira distorcida, poemas deste blog que fazem parte da sua seção “erótica”, digamos, mas não passam de pura sátira anarquista e reichiana, já mencionados em posts anteriores, caracterizando a mim e, o que é pior, aos meus próprios companheiros de chapa (que não possuem nenhuma responsabilidade sobre o que aqui é publicado) como um tarado devasso e a este blog como uma suprema peróla da “imoralidade sexual” e da pornografia. Tudo feito da forma mais sutil e torpe que caracteriza a estratégia e a tática política do fascismo petista.

Companheiros meus de chapa haviam, prevendo a manobra infeliz, me sugerido que tirasse este blog do ar durante a campanha. Mas, como isto seria de uma desonestidade intelectual inaceitável, pois não é prática minha florear ou esconder a realidade em prol do proselitismo eleitoreiro resolvi mantê-lo, assim como preferi nã0 responder as acusações subterrâneas, para manter o nível político da campanha. Até porque retirá-lo seria ceder também à “patrulha ideológica” da intolerância falso-moralista  e do fascismo informal em que vivemos.  

Mas, infelizmente,  parece que um dos fatores da derrota da nossa chapa foi justamente a intolerância incentivada de boa parte do eleitorado. Não mudará em nada a realidade eleitoral, já abertas e apuradas as urnas há mais de uma semana, mas tomando-o de empréstimo, a guisa de resposta para os companheiros trabalhadores do judiciário induzidos pela difamação petista, e de alerta aos freqüentadores deste blog, publico abaixo um trecho da biografia de Érico Veríssimo (o grande romancista gaúcho), constante da seção 1 do capítulo “O Escritor e o Espelho” de Solo de Clarineta – volume II,  que dá conta de casos desta natureza:

“Em geral , quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, num misto de alegria, alívio e essa vaga tristeza que vem após o ato do amor físico satisfeita a carne. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso assim: ‘Não era bem isto que eu queria fazer’.

Chegamos assim a um assunto que eu gostaria de discutir com mais vagar. Sou habitualmente apontado como um escritor erótico ou mesmo pornográfico.

Por que – me perguntam às vezes – tenho tanta preocupação com o sexo? Ora, respondo, decerto é porque no fundo sou um puritano. Mora dentro de mim um pastor protestante a pregar interminavelmente um sermão apocalíptico contra o pecado da carne, e eu não posso consentir que esse homenzinho emascule as minhas personagens ou a mim mesmo.

Por outro lado quero contribuir para que o problema do sexo seja examinado com mais coragem, honestidade, espírito adulto… e saúde. Muitas vezes fico alarmado ao pensar que, relativamente falando, um leitor sente menos indignação ao tomar conhecimento do assassínio de seis milhões de judeus nas câmaras de gás asfixiante dos campos de concentração nazistas, ou do lançamento da bomba atômica em Hiroxima que rendundou na morte de mais de cem mil pessoas, ou ainda saber que mais de dois terços da população do Brasil vive numa miséria abjeta – do que quando lê num romance uma cena erótica descrita com clara franqueza. O que quero dizer é que noto uma desproporção absurda, direi mesmo monstruosa, entre a natureza e a intensidade desses dois tipos de indignação.

Falando com a maior sinceridade, para mim pornografia mesmo é a crueldade do homem para com seu semelhante, a exploração do homem pelo homem; obscenidade é a guerra e o genocídio. Os mocambos do Recife, as favelas do Rio e de centenas de outras cidades da nossa terra constituem as mais indecentes e repulsivas páginas e cenas da vida brasileira.

Acho que os verdadeiros pornógrafos da História – já que uma pessoa realmente adulta só poderá sorrir das grotescas fantasias eróticas do Marquês de Sade – foram homens como Tamerlão, Nero, Calígula, Mussolini, Hitler –, para mencionar apenas os primeiros nomes que me brotam na mente.

Quanto à questão dos ‘nomes feios’, creio que não existe nada mais ridículo que esse supersticioso temor a certos vocábulos que, afinal de contas, não passam de sinais ou símbolos convencionais. Tomemos por exemplo a famosa palavra de quatro letras que designa a mais antiga das profissões. Conta-se que Ruy Barbosa descobriu dezenas de sinônimos, entre os perfeitos e imperfeitos, para o termo prostituta, de maneira que não temos nenhuma desculpa quando usamos a palavrinha tabu. No entanto em toda essa história o que importa mesmo, o realmente deplorável e melancólico é a existência da prostituição, o que não parece preocupar muito as pessoas  mais sensíveis às palavras do que às coisas que elas representam.

Isso nos dá uma idéia da terrível importância da linguagem. Vivemos tolas e terríveis ilusões semânticas . Por causa de palavras ou frases matamos ou morremos, sentimo-nos desgraçados ou infernizamos a vida de nossos semelhantes. Qualquer ato ou fato, por mais reprovável que seja, de acordo com paradigmas morais rígidos, perde a sua força, a sua natureza pecaminosa e tende a ser ignorado ou esquecido quando não verbalizado, principalmente em romances. Fazer, pois, não é tão importante, tão grave quanto dizer ou escrever. Quantas vezes transferimos a culpa duma situação vergonhosa – que na realidade cabe a um regime político-econômico ou a uma conjuntura social – para cima dos ombros dos jornalistas ou do ficcionista que ousou reproduzi-la numa reportagem ou num romance?

E é exatamente por causa da exagerada importância que damos às palavras que nós muitas vezes resolvemos nosso problemas apenas no papel, isto é, de maneira verbal, e vamos dormir tranqüilos. Porque se ninguém jamais pronunciar ou escrever a palavra puta (desculpem se me escapou o ‘nome feio’) a prostituição deixará de ter existência real.”