DA DITADURA DA ESTÉTICA E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL


Há absurdos três anos sem escrever sequer um sermão da Igreja de Satanás, finalmente me nasceu este, que comecei a escrever ao pé de um caneco de chopp, no bar Viene, na rua Andrade Neves, centro de Porto Alegre, há uma semana atrás, após ter participado de manifestação no Pleno do Tribunal de Justiça em favor da adoção do turno único de sete horas contínuas para a peonada do judiciário estadual e de panfleteação, em frente ao Palácio da Avenida Borges de Medeiros e ao Foro Central, da candidatura a deputada estadual da minha amiga Simone Nejar, juntamente com a própria. E conclui nesta insone madrugada de domingo para segunda-feira. Leiam, reflitam e divirtam-se!

DA DITADURA DA ESTÉTICA

E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL

É mais ou menos óbvio que o sem graça, o tosco e o jocoso não inspiram absolutamente o menor tesão nem em um oligofrênico, um louco furioso ou num idiota drogado!

Do que não resulta necessariamente que o desejo humano deva restringir-se aos cânones da beleza absoluta e irretocável, tão perfeita, lisa e marmórea, qual estátua clássica ou manequim pós-moderno, que acaba por enjoar, justamente por sua precisão fria e burocrática, acompanhada, na imensa multidão dos casos, pela completa e entediante incapacidade imaginativa e emocional. Belíssima criatura carnal reduzida a um oco e inanimado exemplar padronizado da estética abstrata, como uma boneca de louça produzida em série.

A sensibilidade e a experiência concreta do repertório de sensações e modalidades de exercício do prazer permitem que o animal humano possa apreciar, pela mera contemplação da estampa ou pela aferição dos modos e trejeitos, da voz e do olhar aos gestos mais diversos, toda uma escala de beleza, na escolha do ser cuja presença lhe arrebata corpo e alma e o conduz à mais urgente e inadiável necessidade de consumir-se em fogo na fusão dos corpos.


Não há assim, na média dos casos e longe dos condicionamentos culturais das sociedades de classe, mulher, homem, veado ou lésbica tão feios e desengonçados que não sejam capazes de inspirar, circunstancialmente que seja (e ausente qualquer privação mental ou distorção emocional do apreciador), o desejo de fuder até lambuzar-se e extenuar-se completamente. Abstraído qualquer caso de fogo doentio por criaturas aleijadas ou bizarras, a verdade é que mesmo aquela gordinha de rosto lindo, aquela vovozinha sessentona, o sujeito magro, mas cheio de traquejo e charme, e outros tantos exemplares heréticos (segundo o padrão tradicional) da beleza, são capazes de botar muito macho de pau duro ou fêmea molhadíssima com a sua presença. E o exercício concreto da foda, ultrapassada a barreira inicial da mera visualização, pode revelar-se bem mais prazeroso e instigante do que a possível trepada insossa e sem graça com a mais deslumbrante e xaroposa modelo fotográfica ou manequim de desfile de modas.

Evidentemente que a beleza completa e requintada de uma gostosona não lhe retira necessariamente o requinte emocional e sexual, o fascínio dos movimentos e a sensualidade e o enlevo de olhares, da voz, dos trejeitos ou da própria prática arrebatadora das diversas modalidades de trepada. A loira linda e meiga não é necessariamente burra, ao inverso do estereótipo propalado, e pode muito bem ser uma loba devoradora e insaciável. Quando se encontra corpo perfeito unido a sensibilidade, humor  gaiato e boa foda tem-se o verdadeiro paraíso na face da Terra, aquele que, segundo o cretino mito cristão-judaico, fez o “primeiro homem”, criado pela pretensa divindade monoteísta, trocar todos os privilégios de viver em permanente e deleitoso ócio por alguns minutos de usufruto com a boazuda Eva.


Mas a pura e atroz verdade é que a distorção estética de nossa sociedadezinha capitalista filha de uma puta tem botado a perder e impedido muito macho ou fêmea (adepto dos mais diversos modos de exercício do prazer, da heterossexualidade ao homossexualismo ou à orgia desenfreada com tudo quanto é tipo de parceiro, até mesmo da zoofilia) de fuder gostoso, em nome de seu império tacanho e absurdo!


Prima dos critérios de escolha de escravos, e insuflada pela ideologia empresarial da qualidade, a exigência implacável e renitente de uma beleza física perfeita e inalcançável tem não só torturado muito dondoca nos mais infelizes regimes alimentares, e nas mais sobressaltantes e ansiosas neuroses, mas frustrado muito sujeito franzino, ou muita gatinha de bunda nem tão arrebitada ou seios mais próximos da pêra que da melancia, em seu intento sexual, frustrando e relegando à infeliz punheta ou siririca meia humanidade, em nome dos preconceitos e pré-requisitos estético-corporais que a safada mídia burguesa despeja sobre nossas mentes todo santo dia!


Se, na economia colonial do século XIX, por exemplo, o sinhozinho adquiria para o serviço escravo em sua propriedade o negrão de dentes perfeitos e brancos, e preferencialmente de canela fina (que os de grossa eram tidos por preguiçosos), a televisão, os jornais e as revistas de nossa ilustre nobreza burguesa se encarregaram, em nossos dias, de plantar na cabeça de 90% da humanidade que só serve para se dividir a cama, a mesa, ambos ou muitos outros tantos ambientes, na prática do deleite físico e emocional aquelas criaturas de bunda pefeitamente lisa, redonda e empinada, de seios absolutamente fartos e cintura de vespa ou (se se tratar do macho da espécie) aqueles indivíduos transformados em músculos dos pés à cabeça, de tronco portentoso como árvore de madeira nobre e ar macho, agressivo (e abestalhado!). Qualquer deslize mínimo de tais critérios e o pobre exemplar analisado está condenado a padecer a mais dura e revoltante solidão e a gozar, no máximo, da companhia erótica da própria mão!


Garante-se assim uma multidão de seres neuróticos, raivosos e idiotizados, cujo tesão frustrado se transforma, na medida perfeita, em revolta, recusa e combate a toda e qualquer manifestação alheia de contentamento, prazer e liberdade, a todo movimento espontâneo e leve, oriundo simples fato de estar vivo. Uma legião de filhos do banimento estético-sexual (sejam eles virtuais parceiros rejeitados ou estetas de gosto artificioso eternamente insatisfeito) afeitos ao sacrifício inumano, pronta a engrossar  a manada de trabalhadores submissa à hierarquia do escravismo assalariado, e empenhada na vigilância mútua e na delação moralista do comportamento de seus companheiros de desgraça – que se tornam a única válvula capaz de extravasar sua raiva histérica, filha da privação do gozo genuíno, espontâneo e benfazejo, auto-imposta pela adesão ao padrão ideal introjetado.

O tesão esteja convosco!

Porto Alegre, 16; Gravataí, 23 de agosto de 2010


Ubirajara Passos

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“Corneacione”, a novela nobre da Globo


Que as novelas da oito horas da noite 4.ª maior rede de televisão do mundo são a verdadeira versão ficcional do Big Brother, primando pela exaltação glamourizada da falcatrua e da putaria sexual sádica da burguesia de São Paulo e Rio até reclusos monges tibetanos sabem!

O mundo no filtro de suas lentes digitais toma cores de conto de fadas trágico e mambembe, com requintes de teatro de marionetes de lugarejo do sertão nordestino da década de vinte do século passado. No seu tacanho esquematismo a sociedade se reduz ao frenético e sobressaltado círculo dos burgueses de “sangue azul”, arrastados neuroticamente de um lado para o outro nas ondas da vigarice mútua e da histeria geral, e a um caricato e abobalhado “núcleo pobre” em que os personagens ganham o pão que o diabo amassou trabalhando de criados nas “casas grandes” do núcleo rico, ou vivendo de esquemas na favela, mas tem um quotidiano temperado de alegria e descontração no samba do buteco da esquina e nos fuxicos das comadres da rua.

Nada disto é novidade, mas, simplesmente, a surrada e velhíssima lavagem cerebral eletrônica que quem conta no mínimo quarenta anos de idade está acostumado a receber desde criancinha, a tal ponto que se tornou mais banal que zumbido de mosquito em barraca de farofeiro bêbado dormindo às duas da manhã em praia poluída.

O grande ineditismo, e a verdadeira sensação do momento, da última pérola da testa de ferro brasileira da yankee Time-Life, entretanto é a ênfase explícita e total no esporte favorito da burguesia segundo Karl Marx: “a corneação”.

O protagonista da novela, por exemplo, protótipo do ingênuo  chato (daqueles de doer) cai nas mãos de uma sofisticada puta falcatrua cuja brincadeira favorita é gastar seus cobres com um sobrinho doidão do idiota, fudendo a varrer num luxuosíssimo hotel italiano às custas do imbecil. Outro irmão do “mocinho” da novela (que, pra variar, é “meio-irmão”) é um pedófilo histérico que, como conseqüência de seus ataques paranóicos acaba sendo chifrado pela mulher com o mais sonso e puxa-saco agregado de sua mãe presidente de metalúrgica S.A. A irmã deste pedófilo, por sua vez, desiste do casamento com um vigarista que explora toda a família após passar a tarde, em pleno horário da cerimônia religiosa, fudendo com o tal agregado. A cunhada da ex-noiva, ao seu turno, trata de cornear o marido com o sobrinho dele (filho do protagonista), que acaba comendo a filha da sua parceira de safadeza. Para coroar o festival de guampas a avô da família “nobre” aparece com a perna quebrada na cama do motorista de décadas da família, casualmente pai do sonso empregadinho da firma que come a mulher e a irmã do pedófilo. Tudo sob a justificativa mais imbecil possível das contradições amorosas entre o casamento  compulsório e as imposições do jogo econômico-social.

Antes que o leitor me berre aos ouvidos que estou me tornando um velho rabugento, moralista e fascistóide, vou esclarecendo, anarquista e reichiano, além de boêmio e sacana, que sou: o problema não está na fodelança desenfreada (e o conseqüente excesso de galhada por metro quadrado, que quase impede os personagens de se movimentarem), nem na pretensa tensão entre o amor livre e as amarras do sistema. O detalhe escandoloso e torpe, para não dizer ridículo, é que toda esta sarabanda de trepadas às escondidas, inédita pelo volume e insistência (que é, claramente, a tônica da novela, que não faz questão de enfatizar qualquer outra “tensão dramática”) se dá da forma mais carrancuda e crua possível. Com uma “seriedade”, aliás, que beira o olhar grave de defensor do júri em performance demagógica.

Os personagens não se deixam levar nas ondas de um tesão gaiato e avassalador, nem no fogo da paixão romântica absoluta que anula o resto do mundo e nos conduz às loucuras quixotescas de “fuder” com tudo. Mas a coisa se dá da forma mais banal e descolorida possível (com exceção do par de velhinhos safados), com todos os matizes imagináveis da psicopatia e da esquizofrenia. Ninguém apronta por que seja movido por uma emoção fortemente arrebatadora e envolvente, mas antes parece movido por um automatismo robótico filho de uma hipnose mal feita. A “traição” parece se dar de forma automática, gratuita e rotineira como o próprio ruído sem graça e consciência das esteiras de uma fábrica de tecido conduzindo a matéria-prima.

A conclusão necessária cagada sobre a mente dos telespectadores desavisados é de que a omissão e a meia-verdade são peça fundamental a quem não queira sucumbir no jogo social e que fora dela não há sobrevivência. O que não deixa de ser verdade, afinal a hipocrisia é a pedra de toque do sistema burguês. Sem ela, a falsa verdade, a maquiagem sentimentalista tosca, não há como justificar a redução do operário braçal ou mental a ferramenta de geração do luxo sádico e sofisticado de um brutal patrão, que faz questão de humilhar, além de reduzir o explorado à miséria material. Somente a fantasia da colaboração entre órgãos de um mesmo corpo pode sustentar a idéia de que o resultado das relações de produção da existência material das criaturas (o trabalho), sem o qual nada nem ninguém existe, se faça nas condições de opressão e diferenciação absurda entre algozes e escravos assalariados.

O problema é que a natureza concreta do sadismo psicopático social (o capitalismo) não se esclarece com a propaganda de seu principal instrumento (a deslealdade), na medida em que tudo aparece como conseqüência lógica e sem escapatória da pretensa natureza absoluta da sociedade humana e não como distorção atroz a ser combatida e superada. Mas seria muito ingenuidade (pior do que aquela que os autores da peça novelística devem atribuir à grande maioria de seus espectadores) esperar outra coisa. Afinal, além tudo, parafraseando o companheiro Karl Marx, no Manifesto do Partido Comunista, de 1848, ao abordar a questão da opressão entre os sexos e sua relação com o sistema capitalista: “Para o burguês, sua mulher nada mais é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que haverá comunidade das mulheres. Não imagina que se trata de arrancar a mulher de seu papel atual de simples instrumento de produção.

“Nada mais grotesco, aliás, que a virtuosa indignação de nossos burgueses sobre a pretensa comunidade oficial das mulheres que os comunistas adotariam. Os comunistas não precisam introduzir a comunidade das mulheres. Esta quase sempre existiu.

Nossos burgueses, não satisfeitos em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se uns aos outros.”

Ubirajara Passos

Dos velhos bordéis, a velha putaria, as putas velhas e os antiquários!


Escrevo esta crônica na última meia-hora do domingo à noite, embora ela só vá ao ar na tardinha de segunda-feira. E talvez seja o tardio do momento (que fim de noite de fim de semana, domingo, é o verdadeiro apocalipse: por mais enjoada que tenha sido a folga, a volta ao trabalho é a própria encarnação da “náusea” existencialista sartreana) o responsável por este bizarro título e mistura de assuntos.

Que os três primeiros itens tenham alguma relação entre si é a coisa mais banal e cretina, daquelas de fazer o Pantaleão (velho coronel nordestino encarnado há uns quarenta anos atrás por Chico Anísio, no antológico programa humorístico “Chico City”) esbravejar com “Pedro Bó” (o afilhado imbecil). Muito embora a álgebra antropológica não tenha estabelecido exata conexão de causa e efeito, ou similaridade, entre velha putaria e putas velhas. Agora, o que tudo isto tem a ver com antiquários, somente o vinho da meia-noite, no fim do domingo mais gélido do inverno do Rio Grande do Sul (extremo sul do Brasil), em pleno agosto, talvez, possa explicar.

A verdade é que, faz quase uns dois meses, eu andava na maior conversa com o meu colega de judiciário de Garibaldi, o Carlão, que é também amigo pessoal há vinte anos, e, rememorando saudosamente os  velhos tempos de solteiro, lhe contei um episódio, não tão antigo (data da primavera de 2005) ocorrido num sábado de ressaca pela manhã, em que eu, completamente pilchado (assim havia comparecido a uma Assembléia Geral do Sindjus-RS, por questões de markenting, no dia anterior – que aliás me renderam uma foto histórica, que se tornou ilustração de cartaz e fôlder de plenária da entidade), havia adentrado um decadente cabaré na rua Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, e lá dado com uma única mulher no salão.

Mais velha do que o próprio ambiente, com um beiço que beirava o chão, a puta velha me pediu uma cerveja, na esperança de que eu fosse mais um incauto qüera bêbado com coragem e valentia gaúchas o suficiente para enfrentar sua “experiência” vasta e “antiga” na cavalgada dos potros e mouros velhos os mais diversos, acumulada desde algumas décadas do século passado.

Se o leitor, neste ponto da narrativa, imagina que a distinta senhora era alguma quarentona (idade em que, em geral, 99% das putas já pendurou as chuteiras há alguns anos, por óbvia falta de encantos), sinta-se o próprio Pedro Bó (que costumava fazer perguntas óbvias do tipo: “Esta faca é pra cortar mandioca, padinho?” –  ao que o Pantaleão, enfurecido, respondia: “Não! É pra fazer o teu escalpo, Pedro Bó”!). O fato é que a “senhorita” era tão “madura” que foi me contando, por imensa e convicente vantagem, no seu marketing cabareteiro, que sua primeira foda na zona havia sido nada mais, nada menos que com o “governador” (interventor da ditadura militar) Sinval Guazzeli (em seu primeiro mandato), e que fora ele que a havia ensinado a chupar caralho. O detalhe é que o referido político terminou seu primeiro período à frente do governo do Estado justamente há uns 31 anos! (na época faziam 26).

Paguei-lhe a cerveja, acompanhando-a no seu consumo, e tive o bom tom e a polidez de, além de entretê-la, contando alguns episódios da minha vida política e sindical (que, talvez tanham sido os inspiradores da propalada foda com o governador), e (como bom macho sulino que nada renega) dar-lhe um beijinho na boca, me despedindo, entretanto, antes que um porre fenomenal me fizesse cometer a besteira de fuder a velharia em pessoa.

Foi ao terminar de contar este causo ao meu amigo Carlão que lembrei de lhe mencionar a saudade que me dava a “putaria antiga” (como a que conheci, recém entrado na década dos trinta e sindicalista com uns dois anos de atuação na direção executiva na capital, com as fantástica putas cocainadas do antigo “Bagdá Café, na ponta sul da lomba da Marechal Floriano). Se há coisa de uma década, uma década e meia era possível a gente virar a noite entornando cerveja e fudendo com umas duas, três putas, na farra mais bem-humorada e jocosa, se divertindo como se fôssemos colegiais a namorar pelos cantos do muro do colégio de freiras, hoje a disposição da maioria das putas (pelo menos as do centro de Porto Alegre) é de uma falta de uma imaginação, de uma burocracia seca e ríspida dignas de um contra-mestre de fabriqueta de calçados no Vale do Rio dos Sinos, tamanho é o seu “profissionalismo”, que se pauta exclusivamente na caça dos reais dos clientes e na execução fria e sem graça, digna do Iso 9001, dos serviços oferecidos.

Digo isso com a atualidade correspondente há uns dois anos atrás, afastado que me encontro das doces lides dos puteiros, casado que estou desde 2008. Mas creio que a coisa não deve ter melhorado, neste recente tempo da minha aposentadoria bordelística (que não significou a renúncia completa da boemia: sempre que posso me dou ao desplante de virar uma madrugada de trago com os amigos, que, além da ressaca, me rende, no dia seguinte, os impropérios da mulher amanda, a mãe da minha linda e maravilhosa filhinha).

E foi aí que me lembrei que a “velha putaria” que conheci no início de minhas ocupações boêmias também já era coisa de velhos bordéis. O Bagdá, por exemplo, morreu há uns bons dez anos – muito embora eu ainda encontrasse até 2008 velhas amigas lá conhecidas na Cláudia Bar Drink  (que ainda existe no prédio ao lado do qual se situava e foi resultado de uma “dissidência” daquele “templo do amor”) e no “Le Boheme”, na lomba norte da Pinto Bandeira. E, pasmem, no edifício onde era o velho Bagdá funciona há anos, metáfora viva da sua condição e do gaiato e alegre exercício do prazer de que lá gozávamos, nada mais que um antiquário. A Gauchinha, a uma quadra do Palácio da Justiça, também, na rua Riachuelo, assim como o Nosso Cantinho, desde uns sete anos, transformaram-se em lúgubres hospedarias. O que dá a exata noção de que a própria putaria bon vivant, e velhos freqüentadores como eu, está reduzida definitivamente, ao menos na capital gaúcha, a peça de museu!

Ubirajara Passos

Dilma Rousseff não é comunista!


Não pretendo discutir neste post os detalhes da militância da minha “ex-companheira” de partido (PDT, em que também já não milito, ainda que continue filiado) Dilma na guerrilha da resistência socialista à ditadura militar fascista inaugurada em primeiro de abril de 1964. Pouco importa se sua atuação na POLOP (política operária), COLINA (Comando Libertador Nacional) ou VAR-PALMARES (Vanguarda Armada Revolucionária PALMARES), ou outra eventual organização clandestina de que agora não me lembro, foi de planejamento, atuação física concreta ou simples discussão e apoio logístico. Afinal os qualificativos de “terrorista”, “assaltante de banco” ou “assassina sanguinária” com que a direita concorrente (“democratas” e “tucanos”) a tem brindado, nada mais são do que a reprodução tosca e ridícula das acusações que a mais torpe e cruel das ditaduras que o Brasil já conheceu fazia aos legítimos defensores, de armas na mão, da dignidade da massa do povo brasileiro, fossem eles comunistas, nacionalistas ou trabalhistas, no auge do regime militar.

Na tentativa de espantar o eleitorado com a caracterização da “comunista comedora de criancinhas que mata velho pra fazer sabão” seus adversários infelizmente estão errando feio a estratégia e embarcando na canoa de marketing mais furada possível, que talvez não convença nem eventuais octagenários saudosos de Plínio Salgado (o fürehr tupiniquim, líder máximo da versão brasileira do nazismo, o “integralismo”).

Pois se há alguma coisa que Dilma Roussef não é, desde que abandonou o Partido Democrático Trabalhista, quando este rompeu com o governador gaúcho petista Olívio Dutra, na virada do século, migrando para o PT (a fim de conservar seu cargo no secretariado) é justamente comunista.

Primeiro porque o PT, conforme nos foi definitivamente revelado por sua prática depois de sua ascensão ao poder federal em 2003, sequer pertence realmente às hostes do “fascismo de esquerda” (seja ele stalinista, trotskysta, maoísta ou de qualquer outra escola leninista minoritária), mas é neo-fascismo puro e simples, em que os métodos tradicionais de domínio autoritário (partido único e incentivo ao conservadorismo religioso místico-cristão) foram apenas modernizados e adaptados aos interesses e carências do patriciado político pequeno-burguês e do proletariado “lumpen” (a massa dos trabalhadores em estado completo de miséira). No governo de Lula são bem mais eficazes, e permitem manter a fachada de regime democrático-constitucional, o uso do mensalão e do bolsa-esmola.

Segundo porque, ao contrário do que o próprio marketing político petista tenta fazer passar (enfatizando, de forma chorosa e glamourizada, por exemplo, as tendências esquerdistas da Dilma menininha do Jardim da Infância, que não sabia que uma cédula rasgada ao meio não vale, mas já “sabia dividir” e se compadecer dos pobres, dando ao guri esfarrapado metade rasgada de seu único dinheirinho), a senhorita Rousseff não é uma militante diferenciada do partido, participante do núcleo do poder, mas com intenções mais “avançadas” e vermelhas em relação a Dom Luís Inácio. Ela, depois de ter sido ministra das Minas e Energia, ocupava ultimamente justamente o cargo burocrático-administrativo chave do Palácio do Planalto, a chefia da Casa Civil, onde exercia, de fato, as funções de implementação institucional dos interesses da burguesia imperialista, seus gerentões no Brasil colonial, e da incipiente e dependente burguesia nacional associada. Pois o Inácio dos Nove Dedos, muito mais do que qualquer presidente da República, possui tarefas meramente decorativas, e cênico-mambembes, correspondentes ao seu semi-analfabetismo cultural histórico. Ou seja, Dilma é quem fazia andar, efetivamente,  com o seu afã diário a máquina do Poder Executivo em Brasília, e, como verdadeira “primeira-ministra” é ela a própria responsável pela miséria e condições indignas de vida e trabalho da maioria, mantidas pelo disfarce do assistencialismo safado e eleitoreiro.

Seu horrendo e “criminoso” passado guerrilheiro, ao contrário da desqualificação falaz tentada pela turma de José Serra e seus asseclas, é justamente a única coisa que poderia absolvê-la perante a massa dos trabalhadores brasileiros e preservar-lhe a dignidade política, se tivesse mantido coerência com ele na sua atuação constitucional e institucionalizada na última década. O fato de ter pertencido a organizações clandestinas de contestação da ditadura militar é justamente o que há de mais louvável e benéfico. Seu inconformismo juvenil e sua disposição de colocar em risco a própria vida em favor das classes oprimidas e contra o autoritarismo lhe renderam inclusive a prisão e a tortura (bem como ao seu marido, o ex-deputado brizolista gaúcho Carlos Araújo, que eu, assim como Dilma, admirava quando pertencíamos todos ao PDT) nos porões do funesto regime.

A Dilma dos anos 1960 e 1970 era, como tantos, mais um dos inconformados jovens latino-americanos a seguir o ímpeto rebelde e altruísta de Ernesto Che Guevara, e, se  seus pendores ainda fossem exatamente os mesmos, estaríamos salvos, porque a peonada que sua todo dia sem ver o resultado do seu trabalho, recebendo de volta o mau trato e a vida faminta e esfarrapada, teria como líder quem estivesse disposto a botar a mão na expropriação que lhe pratica todo dia a patronagem multinacional e brasileira, e revertê-la em favor do povo.

Mas a deusa da História parece que, especialmente no hemisfério situado ao sul da linha do Equador terrestre, é terrivelmente irônica. E assim os principais candidatos à presidência da República são hoje uma ex-guerrilheira comunista e o ex-Presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), que liderava a entidade rebelde pró-reformas de base (aliada dos trabalhistas, nacionalistas e socialistas, em favor da Reforma Agrária, Urbana, Universitária, a limitação de remessa de loucros ao estrangeiro, e outras que pavimentavam o avanço dos direitos populares e o estabelecimento do socialismo no Brasil) justamente às vésperas do golpe que derrubou João Goulart, em primeiro de abril de 1964. Teríamos tudo, caso qualquer um dos dois fosse eleito, para retomar a linha de defesa dos interesses nacionais e populares, e de combate ao imperialismo, ao latifúndio e à dominação burguesa, que foi rompida dramaticamente há 46 anos atrás! Mas ELA representa o neo-fascismo travestido de esquerda assistencialista, subserviente ao imperialismo americano e ELE a fração da direita política alijada da representação dos interesses majoritários da burguesia internacional, que necessita sobreviver (ocupando os cargos de confiança palacianos que garantam seus privilégios e comodidades) se fazendo alternativa no jogo da disputa de mentirinha!

Pobre Brasil! Ao invés do rebelde presidente da UNE e da rebeldíssima guerrilheira, pode ter certeza de que terá no poder, após as eleições de outubro, qualquer um dos dois ilustres canastrões dispostos a perpetuar sua condição de colônia econômica crivada de escravos assalariados sem condição nenhuma de vida caracterizável como de gente, seja sob o aspecto econômico, seja quanto ao conforto e dignidade mental, psicológica e cultural (burros de carga que somos, açoitados todo dia pelo mais cru e disfarçado assédio moral, que nos dá direito, dos escritórios às lavouras, tão somente a obedecer e nos prostrar em culto e honra das ordens e interesses patronais e da ideologia da mídia abobalhada e mediocrizante, que nos submete à hipnose de massas permanentemente).

Somente a revolução independente, vinda do âmago das cabeças pensantes do proletariado marginalizado poderá nos resgatar. Mas estes rebeldes ainda estão dispersos e, em boa parte,  desiludidos e a revolução ainda está muito distante!

Ubirajara Passos