BUCETA, PUNHETA E VEADAGEM


Este blog deverá completar, na madrugada, a marca de oitenta mil visitas desde que o transferi para o wordpress, há quase um ano atrás (dia 31 de março de 2007). O provedor Terra que me desculpe, mas então, com quase um ano de existência (inaugurado em 17 de abril de 2006) o “Bira e as Safadezas…” mal chegara aos 18.000 acessos, e seu estilo e a qualidade dos textos em nada diferem dos que foram escritos no último ano. Tanto que um dos textos mais acessados no upassos.wordpress.com foi escrito em plena era do Terra (Tendinite de Punheteiro, publicado em novembro de 2006).

Mas o fenômeno que justifica o título acima é que, apesar da variedade de assuntos do blog (da política ao tédio), e do seu clima farsesco, gaiato e desbocado, os dez títulos mais acessados versam todos sobre putaria – embora nem sempre correspondam à essência do conteúdo do post, como o caso do campeão de visitas, escrito justamente para ironizar a pecha de pornográfico do site, atribuída pelos leitores superficiais e mal-amados. Até o momento em que escrevo a lista dos dez mais lidos é a seguinte:

Título Visualizações
1) VAGINA, MASTURBAÇÃO E HOMOSSEXUALISMO 3,758
2) BUCETA TRANSGÊNICA 2,451
3) A BUCETA DE PANDORA 2,103
4) A BUCETA DE ÓCULOS 1,942
5) O TRAVECO VIOLENTOOO!! 1,745
6) XOXOTA ELÉTRICA OU BUCETA LUMINOSA? 1,443
7) UM POEMA APAIXONADO 1,308
8- PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 3
903
9) HINO À BUCETA E OUTRAS HOMENAGENS 733
10) TENDINITE DE PUNHETEIRO 711

São textos ótimos, não sou nenhum puritano, senão a maioria de seus títulos (com exceção de dois) não conteriam palavrões, mas é uma pena que entre os dez menos visitados constem poemas e crônicas tão brilhantes quanto os “dez mais” (algumas inclusive com o tema da putaria), relegados ao esquecimento pelos leitores, como:

1) QUEM É DOM LUÍS INÁCIO? 3
2) “LUTAR É PRECISO” VIROU UM PANFLETÃO DO PT E DO PATRÃO 3
3) GRUPO 30 DE NOVEMBRO – 2 3
4) QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 5
3
5) DE SUSPIROS E REINAÇÕES 2
6) DESAMOR E SUICÍDIO 2
7) ÁUREO FANTASMA 1
8- UMA REINA POÉTICA INCONTIDA 1
9) O ALEMÃO ALE E A PRINCESINHA BURGUESA 1
10) ÍNTERIM NO TEMPLO DO MAR 1

Os fatos apenas confirmam o que todo mundo já sabe há muito tempo: 99,99% dos internautas estão atrás de putaria virtual. O que significa uma multidão sem fim de punheteiros e “siririqueiras”! Mais uma vez repito: não tenho nada contra o sexo solitário embalado pela própria mão e creio que pornografia é assunto bem mais proveitoso e interessante do que a sonegação fiscal de um petista corrupto qualquer, praticada em meio aos mais sensacionais escândalos de apropriação do patrimônio público e compra de votos de parlamentares.

Eu mesmo não dispenso uma punheta quando o dinheiro ou a capacidade de sedução escasseiam (e mesmo quando o sexo a dois ou três vai de vento em popa, caso em que muitas vezes a recordação da noite sacana me induz a encher a mão de calos no dia seguinte).

Mas me assusta imaginar que toda esta ênfase na coisa signifique, na grande maioria, um triste e apagado paliativo para a falta de uma boa trepada com alguém de carne e osso, ou, o que é pior, para a rotina insossa e robotizada da foda burocratizada, sem entusiasmo nem imaginação.

O meu único consolo (e conselho aos doidos que se prestam a me ler) é que a sacanagem virtual possa servir de incentivo para a concretização e sofisticação erótica da sacanagem! Masturbadores e masturbadoras de todos os países, fudei-vos!

Ubirajara Passos

O ALEMÃO ALE E A PRINCESINHA BURGUESA


O alemão “Ale” podia até não ser o tipo mais esquisito que freqüentava a República do alemão Valdir, no edifício Morumbi da rua Amélia Telles (bairro Petrópolis, em Porto Alegre). Havia outros melhores concorrentes ao título, como o Xupaxota, ou eu mesmo.

No quesito obesidade, ele emparelhava com o baiano, e, no concurso do mais inverterado bêbado, disputávamos os três o prêmio principal. Muita madrugada atravessei com o Ale, entornando aquele litro de vodka com fanta, que enxugávamos até cair de pata pra cima e boca escancarada.

Agora, quando se tratava do mais desastrado, com certeza, ele era o campeão imbatível. Prova é a história que um dia me confidenciou, entre mil exigências de sigilo absoluto, e que, se divulgo, o faço sem maior detalhes, como a cidade em que se deu – que era a de origem da infeliz criatura – e o nome da gata envolvida, que, se ele me disse, já esqueci há muito tempo.

O fato é que, apesar de atrapalhado, gordo e desengonçado, o pobre Ale, tímido, ingênuo e afável como uma criança de colo (apesar dos seus cem quilos só terem mesmo como repousar no colo de uma elefanta), foi logo cometer a besteira de se apaixonar pela gata mais linda da cidade, que casualmente era toda a prole da mais polpuda fortuna.

E deu azar absurdo de ser correspondido! Um belo dia de carnaval, completamente bêbado, as pernas tropeçando umas nas outras (que já andava qual um quadrúpede, faltando só zurrar), a canequinha de cerveja presa na cintura, o pobre esbarrou na amada, ainda mais torta de álcool que ele. E, após umas quantas cabeçadas mútuas, conseguiram se sentar na calçada, ombro a ombro, encostados na parede e o cenário estava pronto para um “gran finale”… até o sujeito vomitar no colo da gostosa!

Mas, como dizia o Paulo Coelho, o universo todo conspira a favor quando se trata de uma criatura humana cumprir a sua lenda pessoal. E, apesar do azar, o gordo teve novamente a sua grande chance, agora em grau qualificado. A guria era louca mesmo e convidou-o para o aniversário na mansão da família.

O Alexandre hesitou muito, procurou trezentos pretextos pra não ir, mas chapou-se de calmantes e acabou comparecendo. Por incrível que pareça, desta vez o romance ía nas nuvens do cupido! Trajado a rigor, a boca a encostar nas orelhas, o roliço personagem flutuava em pensamento, aquele tépido e voluptuoso corpo junto ao seu, a corrente do tesão mútuo embriagando-os.

Até que passou de raspão pelo casal, tropeçando no banco de jardim, o cinqüentão grisalho que liderava o bloco carnavalesco mais podre da cidade, “As Virgens Fudidas do Fritz”, composto exclusivamente (como convém a todo bloco interiorano da espécie) pelos mais enlouquecidos pinguços vestidos de mulher.E o nosso herói, querendo fazer graça, lascou pra namorada:

– Ô meu, aquele velho ali é puto? – A doce beldade enrubesceu, fez-se azul, roxa e pálida, em seqüência, e, entre estabanada e furiosa, guinchou pro apaixonado:

– Não, não é não senhor! Que história é esta?

– Que que é , meu, tu não tá vendo? Olha o jeito do veado… Aquela reboladinha ali, a mão quebrada. Se aquilo ali é macho, minha vó é irmão do Maguila!

– Olha aqui, seu Ale! Eu conheço ele muito bem, desde pequeninha! Se eu tô dizendo que não é, é porque que não é! E vamos parando por aí. Se ainda me quer, acaba logo com o assunto!

– Qualé, meu! Tá pensando que eu sou bobo! Por acaso tu tá transando com aquele bambi pra ter tanta certeza? Eu logo vi que este teu interesse por mim não tava certo! Tá me querendo pra corno de fachada, pra encobrir teu casinho com o velho?

– Olha aqui, seu doido infeliz, aquele ali é meu pai!

O resto não preciso nem contar. Mas fica aqui a advertência: o Ale não possui qualquer parentesco com o Peruca, nem sabe de sua existência, e, na época, morava a uns oitocentos quilômetros de Porto Alegre.

Ubirajara Passos

A FODA SAGRADA DE DRUKPA KUNLEY, O SANTO “bundista” do HIMALAIA


Mestre Kunley em meditação

Libertário “heterodoxo” e amante apaixonado do prazer, me entusiasmei, desde os meus vinte e poucos anos, não somente com pensadores de carne e osso, como Epicuro (o filósofo do prazer sereno e da busca do conforto no universo subjetivo), Max Stirner (o defensor da insurreição do indivíduo, independentemente do rebanho) e o mestre Wilhelm Reich (o psicólogo do tesão que concluiu que toda vida é produto da energia sexual imanente existente no cosmos – o orgone – e todos os males emocionais e sociais da humanidade são produto da sua repressão e regramento).

Entre os “gurus” que sempre me encantaram figuram também criaturas arquetípicas, entidades míticas como Dionísio (o Baco romano), deus do porre (pai do vinho), das festas, da alegria, do prazer e da orgia, e o Diabo – o grande rebelde cujo demérito, segundo a crença judaico-cristã, foi justamente insuflar o homem à consciência, fazendo-o comer o fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, e à liberdade, rompendo com a obediência cega à proibição, de um deus repressor e matreiro, de que se aproximasse da razão lógica e da verdade… está na Bíblia, logo nos primeiros capítulos, não estou inventando nada!

Como ex-católico, o Capeta, evidentemente, sempre foi o meu preferido entre os arquétipos hedonistas e libertários, até porque o ranço anti-prazer da Igreja (defensora do sofrimento e da renúncia… da maioria em prol da bacanal restrita das classes dominantes, o que fica oculto no seu discurso oficial) teve o condão de incorporar ao demônio as qualidades lúdicas e prazenteiras do deus pagão. Tanto que o fiz personagem inspirador dos ensaios em forma de discurso que venho escrevendo nos “Sermões na Igreja de Satanás”.

Mas o que jamais imaginei foi a existência de um ser vivo, um homem destes que anda e respira – não mera figura do imaginário – que foi a síntese perfeita das idéias e comportamentos destes autores e personagens, vivendo concretamente o idílio da liberdade e do deleite gaiato e folgazão – o antípoda perfeito do Cristo sofredor, grave e sado-masoquista.

Pois a figura, de historicidade concreta ainda que mais conhecida pela tradição oral himalaiana, foi o lama tântrico Drukpa Kunley, conhecido como o santo budista das 5.000 virgens, que é o padroeiro budista do pequeno reino do Butão – talvez por razões menos religiosas do que se supõe, pois, como perambulava pela região, deve ser o ancestral comum de todos os butaneses étnicos. E tomei conhecimento de sua história, lendo, por acaso, uma matéria na revista National Geographic – Brasil de março.

O sujeito costumava vagar de aldeia em aldeia, na maior parte das vezes peladão, recitando, de improviso, seus poemas iluminados e vivendo, como convém a todo monge doutrinador, da caridade alheia. Mas, como perfeito santo boêmio que era, o Drukpa não dava conselhos à toa: só transmitia seus ensinamentos mais profundos (desenvolvidos a partir da iluminação espiritual, atingida, ainda muito jovem, nos mosteiros budistas) em troca de cerveja. E tinha verdadeiro horror dos monges de outras correntes budistas não tântricas, como a Theravada, de que costumava debochar descaradamente.

Kunley adorava exterminar demônios com seu “raio flamejante” (a enorme piça), cuja reptapeçaria religiosa butanesa com as pingolas flamejantes e protetoras de Kunleyroduções adornam, até hoje, os lares butaneses, que as usam para proteção, devidamente enfeitadas com um “vistoso laço” (é o que diz a National Geographic). Porém, seu maior e mais importante feito (que usar o caralho pra matar demônio é muita falta de imaginação, além de ser uma prática de absurdo mau gosto) foi conduzir, em seus 115 anos de vida (1455-1570), cinco mil mulheres ao Nirvana (a suprema iluminação e a libertação do ciclo de sucessivas reencarnações, apego, perda e sofrimento), fazendo-as gozar com seu divino falo.

Mas não vá se imaginar que o santo farreador era um putanheiro sem qualquer critério e ía comendo qualquer uma pelo caminho – como o boêmio aqui que, pra atingir a humilde marca de oitenta mulheres, só faltou trepar com aleijada, velhinha de asilo ou freira assanhada (esta última até me agradaria, mas não encontrei nenhuma nos cabarés de Porto Alegre). Para ter o prazer de gozar do cacete sagrado a mulher necessitava ser uma dakini – a versão feminina do boditsava (a perfeita reencarnção do Buda), que era reconhecível por ser terrivelmente gostosa e ter aquele ar próprio da suprema sabedoria.

O detalhe meritório do sexo sagrado (o tantra), do qual o nosso amigo Kunley foi a expressão máxima, é que, ao contrário das crenças religiosas do histérico (eu escrevi histérico, sim! e não ‘histórico”) Ocidente, busca conduzir ao aprofundamento da consciência transcendente (equivalente à individuação, mediante a incorporação criativa dos conteúdos energéticos da mente inconsciente, do psicólogo Carl Jung) através do que há de mais vivo e benéfico no universo: o prazer carnal mutuamente propiciado entre dois seres.

Ao invés de uma furibunda batalha final (o “armagedom” apocalíptico) entre as forças do “bem” (um deus proprietário e mandão) e do “mal” (um Diabo rebelde e sedutor), a “salvação” (ou antes, a “satisfação”) da humanidade pelo gozo que é “um maremoto de prazer indescritivelmente melhor do que um orgasmo comum, que mantém o êxtase por tempo ilimitado”. E ao invés da valorização da virgindade (que é um desperdício absoluto e só tinha sentido na sociedade patriarcal, onde a mulher era a ovelhinha mais preciosa do rebanho), a suprema glória espiritual do êxtase. Eis uma religião em perfeita harmonia com a vida e a natureza, que justificaria até largar de ser ateu!

Ubirajara Passos

UMA IMAGEM VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS


Eu e Kadu em êxtase dionisíaco regado a cachaça, num amanhecer de quinta-feira, durante as férias de janeiro passado:
Bira e Kadu no reino da cachça
O doido do “Caiu-sim-mermão” (que agora posso chamar, simplesmente, de Kadu, pois todo mundo que o conhece está aí vendo a cara de pau e o sombreiro “del Tripierna de Tihuana en la noche de la gran penumbra sexual”, conforme ele mesmo se auto-qualificou e ao seu desempenho com as “moças de vida airada” naquela madrugada) postou esta foto em seu orkut uns cinco dias depois da farra, sob a legenda “Bira e eu depois de beber MUITO chá de cogumelo”. E então eu já não me lembrava dela (DDA ou amésia pós-porre?) e levei um susto! Não pela irreverência da coisa, que apesar da minha rabugice nata, povoa boa parte dos meus dias. Nem pela cara de doido, a língua de fora, o gesto da mão (que não é um sinal de “ok”) ou a enorme caneca que seguro (que contém, evidentemente, a pinga de uma garrafa plástica de “Velho Barreiro”).

O espanto ficou por conta da atitude “arquetípica” estampada na minha tresloucada figura (que não pretende ser uma versão encachaçda da famosa foto do Einstein). Ali está simplesmente, em carne e osso, a mais perfeita encarnação de um sátiro (que nem uma velha estátua ou alto-relevo medieval ou greco-romano figura tão perfeitamente), assemelhada a um deus maia. E resumidos num único ser as energias vitais da paixão boêmia e bêbada, do prazer pueril e “mal-criado”, do divino humor enlouquecido e do feroz deboche a toda seriedade opressora e limitante que nos impõe o sofrimento como regra.

Evidentemente, não represento tudo isto – neurótico e auto-limitado que sou, num mundo de permanente vigilância e suplício das criaturas. A minha rebeldia é, invariavelmente, maculada pela timidez e o medo sobressaltado da punição imposta pelos algozes da sociedade anti-prazer. Mas a figura traduz nas entrelinhas muito mais que mil palavras.

E, antes que o Kadu reclame do meu panegírico narcísico, fique registrado: este Zé Pelintra clássico em mim incorporado não traduziria toda esta significação simultaneamente carnavalesca e revolucionária, libertária e farsesca, sem o complemento do gigante do chapéu (e sua versão americana do gesto pornô brasileiro). Somos nesta foto o diabo e o capeta embalados no etanol de cana.

Ubirajara Passos

O BONDE DO LADRÃO


Riquinho é um primo magrela do Zé Doidinho (aquele mesmo que sugeriu enterrar o Peruca, em coma alcoólico, no cemitério municipal) que foi trabalhar num estabelecimento comercial alternativo (loja de R$ 1,99) de seu tio em Cacimbinhamburguer. Desenfreado das guampas e metido a gozador, comunga, entretanto, da mesma lendária lerdeza do Peruca.

No primeiro dia de trabalho, ficou com as mãos em carne viva de tanto esfregar papel carbono, com o intuito de deixá-lo limpo e branquérimo como cueca lavada com Alvex, como lhe havia pedido o gerente falcatrua. E até hoje não entende por que, apesar do esforço e sofrimento inútil, quase todos os colegas deram a mais estrondosa gargalhada na sua cara, inclusive o próprio gerente – que, pela lógica, lhe devia passar uma mijada.

O único que se compadeceu do idiota foi o Gordonando, o varredor do estabelecimento, que, nas folgas, ganhava uns trocos vendendo, coincidentemente, vassouras na praça principal. Por afinidade de criatura estranha, desengonçada e rejeitada (mais conhecido na loja como Baleia Branca ou “Vassoura Leve”), aproximou-se do Riquinho e se tornou seu melhor e único amigo.

Não saíam da casa um do outro, estavam sempre juntos tomando um absinto, na noitinha, no buteco em frente à loja, para ver se o álcool pesado os tornava mais malandros e espertos e consta, mesmo, que andaram caçando travecos (convencidos de que eram fogosas panteras) nas ruas secundárias e escuras das madrugadas do centro.

Tudo ia às mil maravilhas, apesar de pequenas rusgas: o Riquinho, além do salário, recebia regularmente uma mesada do pai e fazia questão de esnobar o amigo, ostentando o “i pode?” novinho em folha, comprado em uma única parcela, enquanto o Baleia gramava como um louco para pagar as prestações do rádio portátil. E, nestas raras ocasiões, o gordinho fazia beiço e se dizia humilhado. Fora isso eram como a corda e a caçamba.

Até que um belo dia, tresnoitado de uma farra com o gordo, Riquinho chegou tarde no “um e noventa e nove” e, já tendo dado pela falta do amigo (coisa que muito o preocupou, que o cara não era de gazear serviço, mesmo na ressaca – será que estava doente ou tinha sido esfaqueado por algum vagabundo na volta de casa, o coitado?), foi à farmácia comprar uns engoves e, na hora de passar no caixa, deu pela falta do cartão bancário.

Mas, como ainda tinha uns trocos, voltou para o serviço, atabalhoado (que o atraso lhe rendera a primeira reprimenda gerencial) e se esqueceu do caso. Somente no dia seguinte, ainda apreensivo pelo amigo (que simplesmente sumira do mapa – não veio trabalhar e ninguém sabia dele, nem no buteco, nem na zona gay), como convém a todo lerdo, foi ao banco mandar bloquear o cartão e encomendar novo – e aproveitou pra sacar uma graninha. E tamanha foi a surpresa que deslocou a mandíbula (de tão enorme “boca aberta”) e foi levado, furioso, ao hospital, grunhindo e espumando, para botar o focinho no lugar.

O fato é que lhe haviam sacado o salário e a mesada inteirinhos (uns R$ 800,00). E, ao assistir o filme da câmera de segurança do terminal onde ocorrera o furto, deu com a balofa e saltitante figura do amigão do peito, no papel de galã da fita, rindo, histérica, e enchendo os bolsos com os maços de “onças”.

O caso em si é bastante banal, e os leitores devem estar novamente preocupados com minha sanidade mental: o que o Bira, afinal está querendo com esta historinha insossa, contada em tom coloquial de comadre pesarosa e tendente ao moralismo recalcado?

O fato é que, tão logo a turma do Peruca me narrou a façanha, eu, que casualmente conheci, de passagem, a “Orca ladrona” e o Riquinho, tive uma inspiração iluminada e escrevi a seguinte paródia ao maior sucesso do medíocre e xaroposamente porno-sádico funk do “Bonde do Tigrão” (umas das pérolas clássicas do machismo popular, pra não dizer lumpen, do Brasil do século XXI):

Bonde do ladrão

Quer sacar, quer sacar,
O baleião vai te ensinar.
Quer humilhar, quer humilhar
O gordão vai te ferrar!

Vou passar o cartão na mão
Assim, assim.
Eu vou te roubar, meu irmão
Vou sim, vou sim!
Não vou parar na gaiola.
Din-din, din-din
Vou trazer muito pra mim.
Vou sim, vou sim!

Eu vou sacar oitocentão,
Vou mostrar que eu sou ladrão,
Vou te dar muita tensão.

Então se escabela, escabela
Se escabela, que o teu cartão
Eu levo na mãozinha
Na palma da mão!
É o bonde do ladrão!


Então pra ela, pra ela
Pra ela, vou dá um sorrisão
Pra camerazinha,
Vou abanar a mão.
É o bonde do ladrão!

Ubirajara Passos