Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

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Conto de um Velho Tempo


Após a derrota do Movimento Indignação nas eleições para a direção do Sindjus-RS, em maio de 2010, decidi que iria escrever “literatura para ganhar dinheiro”, como andava me recomendando o companheiro Régis Pavani, e um belo dia resolvi participar de um concurso de contos.

O detalhe é que o texto não poderia ter menos de 20 páginas e tinha exatamente um mês para escrevê-lo. E, passados uns vinte dias, eu havia redigido no máximo os sete primeiros parágrafos e o poema que o segue. Comentei, na época, com o alemão Valdir este meu projetinho de conto e ele, para variar, se entusiasmou e me disse que, a pretexto do que já havia escrito, poderíamos aproveitar para discorrer sobre as mais diversas questões filsóficas e políticas, parindo um verdadeiro conto de tese!

No embalo da euforia bergmanniana (não do sueco escandinavo, mas do “alemão” sul-riograndense descendente de imigrantes), escrevi os parágrafos 8º a 23º, mas então já estávamos em 13 de setembro (o conto havia sido iniciado em 10 de agosto), e o prazo de envio para o concurso já se havia ido.

O conto ficou engavetado e tempos depois acabei por copiar um diálogo meu com o companheiro Valdir no msn que pretendia aproveitar nele e simplesmente esqueci-o.

Semana passada, indo revê-lo, tive o maior susto ao dar com a cópia da conversa no final do texto, de que já não me lembrava, e, acrescentando os 6 últimos parágrafos (no qual cometi um certo anacronismo na fala final do “Fausto” em relação ao ano em que passa a conversa no texto) e, trocando os nomes, aproveitei-a na íntegra, até para homenagear o velho amigo, dando o conto por finalizado e deliberando publicá-lo aqui.

Saiu-me, infelizmente, um texto bastante sofrível, cheio de discussões e devaneios filosóficos, mas até por recordatário, resolvi publicá-lo. Ao leitor que tiver a coragem de emaranhar-se nesta selva literária, garanto que, apesar da forma, não perderá de todo seu tempo, desde que tenha a devida paciência. Segue o texto:

Conto de um Velho Tempo

Naquela manhã, pouco antes do nascer do sol, levantou-se, na penumbra, sob a luz quase morta da lamparina, vestiu a toga e foi andando lentamente até a ampla porta envidraçada que dava acesso ao balcão.

Na clareira em frente, os primeiros raios pálidos do dia se esgueiravam, preguiçosamente, rompendo a semi-escuridão povoada de sombras esquivas e fugidias.
Enquanto a brisa úmida e gelada lhe roçava o rosto, sorveu a taça metálica com vinho e sentiu a estranha presença.

Não. Não se tratava do espírito mensageiro daquela estranha seita oriunda dos confins do Oriente, cujo apelo místico-histérico e escatológico era tão forte que se espalhara como um rastilho de pólvora pelo Mediterrâneo ao ponto de entusiasmar a própria mãe do Imperador, que a ela aderira e convencera seu filho a dar-lhe alguma proteção.

Nem era Lídia, desperta de um profundo sono, povoado de sonhos maravilhosos e envolventes, que vinha, lânguida e doce, lhe entusiasmar o corpo com um devoto e apaixonado beijo na tábua do pescoço e suas mãos a percorrer-lhe o peito, sob a túnica, num afago enternecido e provocante.

Mas era uma vibração profunda e densa, dotada de uma luminosidade arrebatadora, convincente e entusiástica como a carne fresca da mais dedicada, espontânea e excitada amante. Não havia naquela ante-manhã qualquer ruído além do farfalhar das folhas e do bater de asas abrupto e veloz da última das aves noturnas a largar de seus afazeres e ir buscar o repouso nos braços de Morfeu. Porém, era como se o próprio Pan estivesse, absorto e inspirado, a tocar melancolicamente a sua flauta, no encerramento da farra dos elementais.

O mergulho nas ondas edênicas do inconsciente rompeu-se, então, importuno e inesperado. Um galho seco estalou no chão, no canto sudoeste do jardim, e surgiu, diáfano como um espectro habitante do Hades em viagem entre os mundos, a figura de um velho ancião, cuja postura ereta, intensa e decidida contrastava com as melenas brancas, que desciam, pródigas, desde o topo da cabeça, engrossando e confundindo-se na barba espessa, como uma branca e espumante cachoeira. O aspecto revolto e volumoso, agitado no verbo do poderoso arquétipo feito carne, lhe dava exatamente esta impressão: a de uma corredeira veloz e violenta a romper em meio a um declive coberto de plácida e densa relva.

E, tronitoante e metálica como o a cachoeira, irrompeu a voz, que dizia:

“Sou o espírito do tempo,
No espesso breu dos confins do universo
Eu dormitava, imóvel,junto ao pólo
Do setentrião, enquanto os homens se agitavam
Nos afazares vãos e iguais de todo dia,
Até que tua mente despertou-me
Com um ruído que rompeu a aurora!”

– Maldito vinho é este que me faz ver sombras falantes no primeiro gole, e, ainda por cima, esnobes e metidas a eruditas, a fazer discurso em tom declamatório?

– Não é o vinho, meu caro amigo. Não te preocupes que não estás delirando, mas mais sóbrio do que nunca! Vives, todo dia, tua vida em quase absoluto sonho, inciente e heterônimo, e agora despertaste, em meio às estranhas e acidentadas fronteiras entre a escuridão prateada e a dureza pétrea da claridade!

– E, além de intelectual almofadinha, é metido a poeta de quinta! Puta que pariu! Se não é o delírio do princípio do envenenamento (sabe lá o que Lídia não anda pretendendo – tanta espontaneidade na entrega e tanta doçura é de desconfiar mesmo!) é loucura, com certeza! Pelo visto as minhas engrenagens mentais se desarranjaram de vez e ando pior que os adeptos do tal Nazareno!

– Se delírio fere, experimenta isto então! – E o vetusto vulto, deslocando-se em uma velocidade instantânea, veio bater-lhe com um bastão no cotovelo, provocando aquela sensação de choque elétrico, que na época devia ter outro nome, o que lhe fez desconfiar que – talvez – estivesse bem acordado e senhor absoluto dos seus sentidos.

– Muito bem, meu camarada, se não és o produto da minha pobre mente insana (que diabo é isto? estou eu mesmo, agora, a falar em tom empolado e declamatório!), que diabo fazes aqui e o que pretendes?

– Como te disse sou o espírito do sempre, o presente absoluto, que, paradoxalmente é limitado e eterno! E, já que me rompeste o imensurável descanso, vim te mostrar algumas coisas que te farão perder a tranqüilidade pelo resto de teus dias, mortal impertinente!
– O tempo é sádico, então?

– E tu tens alguma dúvida sobre isto? Basta olhar ao teu próprio redor e terás as provas mais banais, óbvias e esclarecedoras! O velho Cronos é extremamente cruel e tosco, e tem o mau hábito de seguir sempre na mesma direção, e nunca pára por nada, nem ninguém! Além disto é surdo, senão dissimulado, e não adiantam rogos, nem lamentos. Nem mesmo espinafrações. Por mais que o mandem tomar no cu ou o ameacem, ele que é o próprio fiofó do universo, jamais volta atrás! E pior de tudo, é que, além de teimoso e rabugento, tem um oceânico humor negro. Basta que uma peça de qualquer coisa saia fora de seu próprio lugar que, se deixares a coisa por conta do Tempo, vão outras se perdendo, e a coisa vai se desmontando e desfazendo numa bagunça infinda, da qual não há volta e nada sai de útil e organizado. Ou quem sabe pensas que é por acaso, ou culpa exclusiva de forças como a gravidade, que tudo aquilo que vive pendurado, e no início aponta para cima, com o andar do Tempo, vai cansando, perdendo as forças e pendendo para baixo até cair e, muitas vezes, arrojar-se ao chão e apodrecer! E tudo quanto é liso ou brilhante e belo, mesmo a cara ou a bunda da mais culta e fogosa hetaira, fatalmente acaba por enrugar-se, desbotar e transformar-se num horrendo monte de ruínas, qual mocréia palaciana ou escrivã cristã? Ou te iludes que é a ação do vento, do sol, ou o desgaste do uso repetido que faz as coisas que crescem e aceleram irem depois diminuindo e se tornando vagarosas e, por fim, mortas e paradas? Porque não crescem, se tem dentro de si o tesão do aumento da estatura e do movimento, para sempre e acabam chochas, moles e sem graça? A culpa toda é do tempo!

– Me desculpe, sábio e calculista mestre (que medes muito bem o teu discurso, como fosses senador), mas não lhe parece que esta força da Natureza deveria, como um dos criadores deste mundo, agir segundo propósitos racionais e organizados e não por uma vontade arbitrária e temperamental, qual deus grego reinento e vingativo?

– Meu caro e ilustre “pupilo”, não concluas do que falo que ele é pérfido e maldoso! O Tempo possui lá os seus, por mim nominados, defeitos, mas são particularidades da constituição de sua personalidade e de seu temperamento, não o resultado de decisões sacanas e propositais! Se os seios de uma princesinha cheirosa, cheia de mimos e maliciosas e birrentas vontades nocivas, (como aquela gostosa e exótica dançarina da nobreza colonial da periférica Palestina, que atendia pelo apelido meio italiano de Salomé), acabam por perder suas cores, sua tepidez e se transformam num nauseante monte de rugas caídas, ou se um garboso e arrogante escravo reprodutor, forte e imbecil como Peruca Camargorum, acaba por se tornar um raquítico, cambaleante e inofensivo ancião, sem serventia nem prazer nenhum, certamente a culpa não é do velho Tempo. Há um outro deus, cretino por princípio este, de nome Genes, que se diverte à custa dos mortais e lhes amarra os pés na caminhada sem volta nem desvio por que os leva Cronos, e, depois de alçá-los ao cume dos montes, se acaba todo em gozo e gargalhadas (as mais doidas e agudas dos infernos) ao jogá-los ao mais profundo e pantanoso abismo!

– Que tenha um cúmplice safado se admita. Mas convenha, meu nobre “Senhor” (com todas as prerrogativas do termo, que parece que és mais teimoso ainda que o próprio asno, ou o tal gladiador de serviçais bucetas), nestas coisas de levar ao absoluto dano tudo quanto tem um mínimo deslize há sem-vergonhice pura, pensada e caprichosa!

– Pois é neste ponto, justamente, que o rio dos sucessivos momentos é mais inocente e poderia, amoral e livre, apesar de seu jeito arredio e sem imaginação, tornar-se o mais brilhante e benfazejo colaborador dos homens! Se ele não pode contra seus irmãos mais poderosos, que respondem pela constituição da essência dos mortais, a estes foi dado o poder, ao qual o Tempo, infelizmente, não tem o menor acesso, de mudar suas atitudes e decisões e de repor ou reparar a peça quebrada ou deslocada, ou reorganizar e mudar o plano todo de suas existências específicas, e o tempo, burro e limitado como é, que segue sempre em frente e para um único ponto, acabará, por guiar as coisas pelos novos rumos determinados pelos pobres tipos humanos, sem nenhuma concessão, até que seus cósmicos irmãos reconduzam os mortais ao atroz e final destino. Nada mudará no final da jornada dos precários animais pensantes. Todos fatalmente serão conduzidos à cova para desfazerem-se como objetos largados ao léu e desaparecem da memória das gerações vindouras, mas, se ao invés de se envolver em minhas lamuriosas e recalcitrantes manifestações, se desviarem do mal enjambrado, do monótono e do repetitivo (da tradição de seus anciões azedos, inclusive), se refizerem seu itinerário como se fosse possível renascer e reiniciar todo dia tudo, terão a mim, Eternidade unidirecional, burra e obediente, por aliado o suficiente para gozar de algum prazer e validade em sua condição precária e provisória!

– Isto de se refazer sempre, como se nada houvesse antes há de tornar-se monótono e besta também! Mas vem cá! Cadê os entes ou fatos inquietantes? Com truques como este do bastão tu prometias bem mais do que este discurso filosófico sem fim! Eu esperava mais ação! Meditações sobre a finitude humana eu as encontro em Sêneca, Heráclito ou em Platão e Sócrates… Pra um espectro elemental és um tanto humano! Quem te mandou aqui pra me encher o sac…

Não terminou a frase e, previsível e obedientemente (para nós que acompanhamos as acompanhamos de longe) as coisas começaram a mudar. Árvores, a casa, o céu, o chão, todo o cenário começou a girar como uma esfera, a trocar de lugar, a se desfazer e misturar como uma aquarela borrada. Tivessem aparecido aquelas luzinhas coloridas logo no início e suspeitaria ter fumado um daqueles estranhos cigarrinhos de hachiche que eram fabricados no Oriente, lá pelas bandas de origem dos tais nazarenos, que só podiam viver no barato da tal erva para seguirem ao sacrifício no Coliseu, direto à boca dos leões, com o olhar esbugalhado, cantando, alegres,como uns loucos. Isto até a Imperatriz-Mãe Helena adotar seu culto e resolver protegê-los. Pois agora tudo andava se invertendo em Roma, também, e os ex-perseguidos começavam a ocupar postos de poder e a oprimir por sua vez, igualmente.

Mas não vira qualquer luz diferente flutuando a sua frente. Simplesmente o mundo parecia estar se dissolvendo e revolucionando por si e por todo lado. O que reavivou suas suspeitas de envenenamento. E, antes que pudesse iniciar a ladainha de auto-piedade paranóica e hipocondríaca, viu-se projetado num novo mundo, estranho e barulhento, tremendamente sujo e tão ou mais agitado que a turba no espetáculo previsível e horrendo das arenas de jogos.

Não mencionarei aqui as surpresas de Lucilius (que este era o nome de nosso protagonista, se não o citei antes foi por estilismo frívolo e a fim avivar no leitor alguma inquietação mental no meio desta monótona e arrastada narrativa) com as tecnologias incompreensíveis (para os seus olhos, sobrenaturais) e as sutilezas excêntricas do novo cenário. Isto para nós é óbvio, além de ser um discurso narratório extremamente surrado. Cabe apenas mencionar que, excetuando-se alguns comportamentos de bizarra especificidade, os dramas e rotinas da vida conjunta entre os homens não diferiam absolutamente daqueles com que nosso personagem encontrava-se acostumado, uns 1600 antes, no amanhecer do casarão rural, Pois, como efeito do vórtice em que se viu envolvido, dera um pulo de mais de um milênio e se encontrava em 2003. Para ser exato, num sábado qualquer do mês de agosto, numa esquina da rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, metrópole do extremo sul do Brasil, a maior população das nações de então das que nasceram da miscigenação dos soldados da velha Roma com os povos do Ocidente bárbaro europeu.

Bárbaro, aliás, era aquele desgrenhado e brusco germânico que gesticulava agitado, e bradava violentamente, a sua frente, contra a putaria política e social em que viviam. Ele, Lucilius, surpreendentemente, se deu conta de que não fora transportado ao futuro nem como espectro, nem como a si próprio em carne e osso, mas agora era outro (como um avatar indiano) e ali se encontrava semi-bêbado, em meio àquela dúzia de garrafas de cerveja que enfeitava a mesa que dividia com o seu amigo. E ambos partilhavam da rebeldia e da indignação com o mundinho estreito e filho da puta em que viviam. Muito embora reconhecessem que não podiam viver sem a fumaça dos velozes automóveis na rua, a barulheira das conversas em voz alta e o tilintar de garrafas e copos que enchiam o velho bar, o Alfredo, espécie de taverna em plantão permanente, que varava as madrugadas de portas abertas, e só fechava aos domingos.

– Puta que pariu, seu Lúcio! Me dá uma raiva! Ontem a noite a Vivo não me concedeu crédito nem para mandar um simples torpedo. É outra máfia que necessita pau perene!

– Olha, camarada Fausto, estas companhias telefônicas, os agiotas de luxo regulados pelo Banco Central, a nova burguesia petista, isto é tudo cria da mesma cadela: a sociedade de classes, melhor descrita como sociedade verticalizada, em que uma piça do tamanho do mundo desce desde das alturas olímpicas da burguesada pra arrombar o rabo do povo tacanho e lambe-cu.

– O pior é a gente saber que com alguns cartuchos dá pra conceder o descanso eterno a essa máfia e ficar aqui, bebendo cerveja, parados no meio do mundo, sem fazer o mínimo gesto que pode por fim a tudo: puxar o gatilho!

– É muito fácil acabar com o sofrimento. É só ganharmos coragem. Vivemos num regime de dominação. O cara monta no teu lomba e tu carregas ele. Nessa condição, “negociar” politicamente significa: não chicoteie tanto. Ou chicoteie com menos força. Mas continue chicoteando, ó meu amo e senhor! Pra sair deste maldito brete, o gesto é muito simples: é só sacudir bem as costas e jogar o safado que está montado, de patas pro, no chão duro!

– Duro é ter saco pra aturar esta putaria disfarçada de “ética”. Lúcio, acho que vou pro mato! Me enchi o saco disto tudo aqui. Tem um amigo meu de Giruá que está criando cavalos crioulos no interior do município. Me propôs uma sociedadezinha.

– Com o que, o companheiro pretende, então aburguesar?!

– Aburguesar um caralho! Se enrico tenho como comprar as bombas necessárias pra explodir esta safadeza toda. E o rincón é um belo lugar pra se fazer um treinamentozinho básico de guerrilha…

– Lá isto é. Mas espera aí que vou ao banheiro.

Nosso herói saiu cambaleando rumo à porta ao estilo saloon nos fundos do bar e, lá chegando, naquele modorrento sábado a tarde, enquanto tirava água do joelho e admirava-se, velho Narciso, ao espelho, quase rachando o pobre vidro de susto, simplesmente adormeceu, acordando novamente em seu solar rural, na velha Roma.

A alvorada se transformava, então, em dura manhã de sol escaldante. Lídia continuava a dormir e por perto não se via nada além dos passarinhos e da cachorrada que latia, distante, na vizinhança. De nada tinha certeza, mas parece que, num estranho transe, por alguns instantes, havia entrado numa nesga do futuro, numa nova Roma, tão conflituosa e precária quanto a velha capital do Mundo. Por alguns instantes ficou imaginando como se os tais cristãos não tinham alguma razão. A morte na boca de um leão, em plena arena, não seria, afinal bem melhor que esta sarabanda eterna em que se agita a vida, fazendo mil desvios pela estrada, rodando infinitamente para, por fim, terminar sempre no mesmo ponto? Desceu a escadaria e tratou de ir à cantina, entornar um vinho logo cedo, que tomar um porre, no momento, lhe parecia o mais lúcido e razoável a fazer.

Ubirajara Passos

 

Agourento 2014, tende piedade de nós!


Conforme a nossa vida vai avançando, a morte vai se tornando mais e mais nossa parceira.

Não apenas pelo fato de nos aproximarmos crescentemente dela, enquanto decrescem os anos que nos restam, numa equação em que pouco importa o valor inicial do termo (o número de anos da vida), variável a cada instante – conforme nossas decisões e atitudes – e em que a razão da progressão pode aumentar ou diminuir a vontade, mas cujo termo final é uma constante absoluta, fria e terrível, por mais complexas que sejam as expressões intermediárias entre o início e o final, que é sempre igual a zero.

Mas, pela simples consequência matemática e biológica dos fatos, é verdade estabelecida que é possível medir intuitivamente o quanto estamos “ficando velhos” pela proporção de parentes, amigos ou conhecidos que vemos partir a cada ano, que naturalmente vai aumentando até que chega o dia em que nos vemos quase que completamente solitários no mundo, em que já não resta muita gente, além de nós próprios, que se lembre mesmo daquela célebre atriz de Hollywood, gostosíssima, de olhos eloquentes e nariz estranho (e, por isto mesmo, chamativo e sensual).

A oito meses de completar meu primeiro meio século (que espero realizar, apesar do trago e da mania de me desgastar lutando contra este nosso mundinho opressivo e infelicitante, o sonho do meu avô – e de 99,99% da espécie humana – de atingir pelo menos cem anos), não estou exatamente no caso extremo, mas, assim como todo mundo que conheço, nunca vi um ano tão absurdo, com tantas mortes de celebridades, ou mesmo de pessoas próximas, no espaço de um único giro da Terra ao redor do Sol.

Algumas, previsíveis, são daquelas que apenas confirmam que estamos, inapelavelmente, nos aproximando da velhice e que (contra a maldita convicção de nossa mente, que é desementida a cada manhã, sem muito resultado, pelo espelho) aqueles personagens quotidianos que nos pareciam eternos já estão necessariamente no momento de partir.

Foi o caso da Shirley Temple (a eterna garotinha prodígio), da Virgínia Lane (e a eterna beleza das pernas mais belas do Brasil), Marelene (a eterna Rainha do Rádio) e de Gabriel García Marquez (autor de livros eternos, como Cem Anos de Solidão e O Amor no Tempos do Cólera). Além do poeta Manoel de Barros, da atriz Lauren Bacall,  o escritor Rubem Alves; Max Nunes, Marcelo Alencar, Antônio Ermírio de Moraes, Adib Jatene e  Mãe Dinah (que não tinha a menor previsão a respeito de seu passamento).

Outras já, embora possíveis, nos surpreenderam e chocaram, como foi o caso de Ariano Suassuna e Hugo Carvana.

Mas quando se foram, sem mais nem menos, figuras como José Wilker,  Jair Rodrigues, Nelson Ned, João Ubaldo Ribeiro, Robin Willians, Eduardo Campos (que tinha minha idade – sendo a mais badalada morte do ano), começamos a nos preocupar seriamente e chegamos à conclusão que, ainda que as estatísticas possam apontar para um certo padrão de mortes anuais de famosos, dentro dos quais os falecimentos citados estariam incluídos, nunca se viu, um mês após o outro, tantas mortes relevantes em tão pouco tempo.

Quando morreu Nico Nicolaiewsky, no início de fevereiro, li  a dolorida entrevista de seu parceiro na vintenária comédia Tangos e Tragédias, Hique Gomez, e fiquei imaginado como seria a minha vida política, literária e pessoal sem a presença do meu irmão gêmeo de ideias, lutas, trago e atitudes, o companheiro Valdir Bergmann.  Mas jamais imaginei que ele viria a compor o mais doloroso e irremediável item das mortes imprevistas e absurdas deste ano apoliptico, morrendo de uma pancreatite aguda dois dias antes de completar seus jovens 57 anos.

Só que a coisa não parou por aí e já havíamos nos convencido de que 2014,  embora não tenha testemunhado a deflagração de nenhuma guerra mundial como seu irmão do século passado, era um ceifador cruel e inveterado de almas, quando velhos amigos de minha família, e meus, com presença importante em pontos capitais da minha biografia, como Juarez Vargas e o colega Adroaldo Rocha, morto tragicamente em acidente automobilístico, praticamente às vésperas das festas de final de ano, foram-se também.

Assim é que chegamos ao último dia de 2014 erguendo as mãos por ainda estarmos aqui  o esconjurando e nos ajoelhando e erguendo as mãos perante tão nefasta entidade para pedir: “Agourento 2014, tende piedade de nós!”

Ubirajara Passos

Espiritismo “crioulo”


Me conta o meu amigo Carlão, de Farroupilha, que, entediado, durante o intervalo das aulas, ontem, na Universidade de Caxias do Sul (onde cursa Direito, visando se tornar “dotô”), resolveu dar um pulo na Livraria “Maneco”, situada no prédio da faculdade, matando o tempo entre as prateleiras.

E eis que, passando pelo escaninho rotulado “Literatura Espírita/Auto-Ajuda”, pegou automaticamente um volume e se deparou com “Neto Perde sua Alma” (biografia romanceada do general farroupilha que proclamou a República Rio Grandense, por Tabajara Ruas).

Assustado com a capacidade classificatória dos funcionários da livraria, deu meia volta e foi embora na mesma hora!

Depois de me contar o fato, concluiu, como umas quantas vezes já, em nossas conversas,  com o velho mote:

–  Eta Brasilzão! É de matar! Se é assim aqui, imagina só como é no Maranhão!

– Lá pelo menos o pescador “analfabeto” sabe a diferença entre uma “traíra” e um sujeito dedo-duro! – lhe atalhei para encerrar o assunto.

Ubirajara Passos

Você merece!


É muito raro eu publicar textos de outros autores neste blog. Que me lembre, há apenas, até o momento, duas ilustres exceções (o hino “A Internacional” ,  um capítulo do “Solo de Clarineta” do Érico Veríssimo e um poema do meu amigo coronel de bombeiros aposentado em Santa Maria), além, é claro da carta-testamento de Getúlio e discursos de Leonel Brizola e Osvaldo Aranha.

Mas, como no desfecho das duas últimas crônicas das Aventuras do Peruca (e em algumas outras desta minha linha) acabei por cometer, por culpa do colaborador que me enviou os textos prontos para editá-los e publicar, o triste pecado não do plágio, mas da cópia escancarada de piadas já publicadas por outrem na internet, abro hoje aqui mais uma exceção. Esta bem caracterizada e identificada pela assinatura de seu autor. 

Se algum leitor está curioso em saber quem foi o engraçadinho que me mandou as histórias com plágios no final (sem que eu me desse por conta), vai ficar na curiosidade. Adianto somente que se trata de um personagem da turma do Peruca que já apareceu em foto neste blog. Ganha uma edição encadernada do “Bira e as Safadezas…” quem enviar comentário e acertar seu nome ou apelido.

De resto, mesmo com o deslize cometido, o agradeço pela colaboração, deixando claro que é o único que me envia alguns argumentos ou textos, exclusivamente das histórias do Peruca, que tenho aproveitado ora quase que integralmente (é o caso dos dois últimos citados e da parte principal da Multa do Law Pirâmide da 59) ou simplesmente reescrito a partir da idéia original, com uns tantos acréscimos  (Peruca e a Loira no Cio e Peruca Derrapante nas Curvas de Glorinha são o caso). As suas outras colaborações foram algumas entradas do Almanaque do Peruca publicadas no segundo semestre do ano passado.

Homenagem feita, vamos à introdução do objeto deste post. Trata-se da letra de um samba gravado em 1973, no auge da repressão, e da exaltação de mídia, da ditadura militar, época em que eu, filho de professor público brizolista (que tratava de se manter o mais incógnito possível, por medo da perseguição), por incrível que pareça, usava, aos 8 anos de idade, uma camiseta branca com a estampa vermelha “Eu te Amo meu Brasil”, e assistia com meu pai às reportagens de Amaral Neto (“Amoral Nato” como foi apelidado pela intelectualidade da oposição de esquerda) transmitidas da construção da rodovia “Transamazônica”, na recém comprada televisão Phico 21 polegadas “semi-transistorizada”, preto e branco, sem ter a menor consciência de nada daquilo em que estas coisas implicavam.

E o autor da letra e da música, que foi também seu primeiro interpréte (aliás, o título dela identifica o disco “long play”, que foi o primeiro sucesso do sujeito) era nada mais que o fantástico Gonzaguinha (22/9/1945-29/4/1991), filho do “rei do baião” Luiz Gonzaga com uma cantora da noite (Dancing Brasil) que morreu tuberculosa,  Odaleia Guedes dos Santos, criado por seus padrinhos e que, no início dos anos 1970 não era ainda o “cantor/compositor” famoso por textos mais soltos e românticos, e mais próximos da aceitação do senso popular comum e da mídia “global”, como  O que é o que é, Começaria tudo outra vez, Grito de Alerta ou Explode Coração.

Gonzaguinha, que participou entre 1968 e 1970 dos famosos festivais estudantis de música popular brasileira, juntamente com Ivan Lins, se dedicava à música de protesto, praticamente revolucionária, o que lhe rendeu os óbvios problemas com os órgãos da repressão política da ditadura fascista brasileira (como o DOPS – Departamento de “Ordem” Política e Social).

E o texto aqui publicado é uma síntese de tudo que malucos como eu, ou meus companheiros do Movimento Indignação, temos discutido e publicado nos últimos anos, merecendo vir à tona, atualíssimo que é, como um alerta e uma reflexão escancarada para todos, anarquistas, socialistas e comunistas revolucionários, brizolistas ou algumas viúvas do PT, e do povão em geral. Dedico-o, mesmo, a meus colegas, trabalhadores do Judiciário do Rio Grande do Sul, especialmente àqueles que não tiveram a coragem suficiente para votar na chapa por mim liderada nas últimas eleições do Sindjus-RS (o que faço sem nenhum espírito de revanche ou dor de cotovelo, mas por puro interesse desprendido, de funcionário comum, apesar de líder, nas nossas condições de vida e trabalho). Chega de enrolação. Vamos ao poema, ou melhor ao samba: 

COMPORTAMENTO GERAL

Composição: Gonzaguinha 

Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: “Muito obrigado”
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

E um Fuscão no juízo final
Você merece, você merece

E diploma de bem comportado
Você merece, você merece

Esqueça que está desempregado
Você merece, você merece

Tudo vai bem, tudo legal

Da Censura a este Blog e seu Pretenso Caráter “Pornográfico”


Por incrível que pareça, como já dizia o velho e sacana Rei Salomão, no Eclesíastes (outro livro seu fantástico, de que tratarei de reproduzir trechos brevemente), nunca “há nada de novo sob o sol”, mas apenas “tédio e vaidade”.

Este blog já havia sido censurado pelo ímpeto persecutório da administração anterior do judiciário gaúcho (o que resultou na minha suspensão por sessenta dias, praticamente sem salário, em razão de uma crônica aqui publicada) e agora, durante a campanha eleitoral para coordenador-geral do Sindjus-RS (a própria entidade que deveria defender a liberdade de expressão e pensamento de seus filiados), foi novamente censurado, e difamado, por componentes da chapa, que, casualmente, ocupa já a direção da entidade.

Com o nítido e anti-ético objetivo de influenciar os eleitores menos conscientes e de mentalidade ainda patriarcal e moralista (desviando-os do voto em uma chapa de oposição classista, pró-servidores, combativa e anti-pelega) foram divulgados, fora de contexto e de maneira distorcida, poemas deste blog que fazem parte da sua seção “erótica”, digamos, mas não passam de pura sátira anarquista e reichiana, já mencionados em posts anteriores, caracterizando a mim e, o que é pior, aos meus próprios companheiros de chapa (que não possuem nenhuma responsabilidade sobre o que aqui é publicado) como um tarado devasso e a este blog como uma suprema peróla da “imoralidade sexual” e da pornografia. Tudo feito da forma mais sutil e torpe que caracteriza a estratégia e a tática política do fascismo petista.

Companheiros meus de chapa haviam, prevendo a manobra infeliz, me sugerido que tirasse este blog do ar durante a campanha. Mas, como isto seria de uma desonestidade intelectual inaceitável, pois não é prática minha florear ou esconder a realidade em prol do proselitismo eleitoreiro resolvi mantê-lo, assim como preferi nã0 responder as acusações subterrâneas, para manter o nível político da campanha. Até porque retirá-lo seria ceder também à “patrulha ideológica” da intolerância falso-moralista  e do fascismo informal em que vivemos.  

Mas, infelizmente,  parece que um dos fatores da derrota da nossa chapa foi justamente a intolerância incentivada de boa parte do eleitorado. Não mudará em nada a realidade eleitoral, já abertas e apuradas as urnas há mais de uma semana, mas tomando-o de empréstimo, a guisa de resposta para os companheiros trabalhadores do judiciário induzidos pela difamação petista, e de alerta aos freqüentadores deste blog, publico abaixo um trecho da biografia de Érico Veríssimo (o grande romancista gaúcho), constante da seção 1 do capítulo “O Escritor e o Espelho” de Solo de Clarineta – volume II,  que dá conta de casos desta natureza:

“Em geral , quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, num misto de alegria, alívio e essa vaga tristeza que vem após o ato do amor físico satisfeita a carne. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso assim: ‘Não era bem isto que eu queria fazer’.

Chegamos assim a um assunto que eu gostaria de discutir com mais vagar. Sou habitualmente apontado como um escritor erótico ou mesmo pornográfico.

Por que – me perguntam às vezes – tenho tanta preocupação com o sexo? Ora, respondo, decerto é porque no fundo sou um puritano. Mora dentro de mim um pastor protestante a pregar interminavelmente um sermão apocalíptico contra o pecado da carne, e eu não posso consentir que esse homenzinho emascule as minhas personagens ou a mim mesmo.

Por outro lado quero contribuir para que o problema do sexo seja examinado com mais coragem, honestidade, espírito adulto… e saúde. Muitas vezes fico alarmado ao pensar que, relativamente falando, um leitor sente menos indignação ao tomar conhecimento do assassínio de seis milhões de judeus nas câmaras de gás asfixiante dos campos de concentração nazistas, ou do lançamento da bomba atômica em Hiroxima que rendundou na morte de mais de cem mil pessoas, ou ainda saber que mais de dois terços da população do Brasil vive numa miséria abjeta – do que quando lê num romance uma cena erótica descrita com clara franqueza. O que quero dizer é que noto uma desproporção absurda, direi mesmo monstruosa, entre a natureza e a intensidade desses dois tipos de indignação.

Falando com a maior sinceridade, para mim pornografia mesmo é a crueldade do homem para com seu semelhante, a exploração do homem pelo homem; obscenidade é a guerra e o genocídio. Os mocambos do Recife, as favelas do Rio e de centenas de outras cidades da nossa terra constituem as mais indecentes e repulsivas páginas e cenas da vida brasileira.

Acho que os verdadeiros pornógrafos da História – já que uma pessoa realmente adulta só poderá sorrir das grotescas fantasias eróticas do Marquês de Sade – foram homens como Tamerlão, Nero, Calígula, Mussolini, Hitler –, para mencionar apenas os primeiros nomes que me brotam na mente.

Quanto à questão dos ‘nomes feios’, creio que não existe nada mais ridículo que esse supersticioso temor a certos vocábulos que, afinal de contas, não passam de sinais ou símbolos convencionais. Tomemos por exemplo a famosa palavra de quatro letras que designa a mais antiga das profissões. Conta-se que Ruy Barbosa descobriu dezenas de sinônimos, entre os perfeitos e imperfeitos, para o termo prostituta, de maneira que não temos nenhuma desculpa quando usamos a palavrinha tabu. No entanto em toda essa história o que importa mesmo, o realmente deplorável e melancólico é a existência da prostituição, o que não parece preocupar muito as pessoas  mais sensíveis às palavras do que às coisas que elas representam.

Isso nos dá uma idéia da terrível importância da linguagem. Vivemos tolas e terríveis ilusões semânticas . Por causa de palavras ou frases matamos ou morremos, sentimo-nos desgraçados ou infernizamos a vida de nossos semelhantes. Qualquer ato ou fato, por mais reprovável que seja, de acordo com paradigmas morais rígidos, perde a sua força, a sua natureza pecaminosa e tende a ser ignorado ou esquecido quando não verbalizado, principalmente em romances. Fazer, pois, não é tão importante, tão grave quanto dizer ou escrever. Quantas vezes transferimos a culpa duma situação vergonhosa – que na realidade cabe a um regime político-econômico ou a uma conjuntura social – para cima dos ombros dos jornalistas ou do ficcionista que ousou reproduzi-la numa reportagem ou num romance?

E é exatamente por causa da exagerada importância que damos às palavras que nós muitas vezes resolvemos nosso problemas apenas no papel, isto é, de maneira verbal, e vamos dormir tranqüilos. Porque se ninguém jamais pronunciar ou escrever a palavra puta (desculpem se me escapou o ‘nome feio’) a prostituição deixará de ter existência real.”

Semi-Soneto da Paixão Escrita


Para que os leitores não reclamem que, além de praticamente não publicar nada, nunca mais apareceu um poema que preste por aqui, vai publicado abaixo o último que escrevi, em raro estado de inspiração, no caminho de casa até o foro, após o almoço, na segunda-feira:

Semi-Soneto da Paixão Escrita

Escrever é um ofício solitário”.
É como fazer sexo consigo mesmo!

 Há os que exageram no tom masturbatório
E jogam aos olhos dos leitores
Toda uma porra xaroposa e exasperante,
Qual lenga-lenga de cornudo bêbado.

 E também há os meros sonhadores
Que se comprazem na contemplação
E nos envolvem na própria fantasia
Até o limiar de deleites absurdos
Para depois “se acabar” num nada seco!

 Mas há, são raros e inconformados,
Quem saiba transformar o fogo que arde
Nas suas entranhas mentais em plena arte
E nos fazer explodir, abestalhados,
Ante a surpresa do simultaneamente
Belo, simples e profundo,

 No tom dos gritos de um êxtase poético
De musa lúbrica, gostosa e apaixonada.

 Gravataí, 24 de agosto de 2009

  Ubirajara Passos