Você merece!


É muito raro eu publicar textos de outros autores neste blog. Que me lembre, há apenas, até o momento, duas ilustres exceções (o hino “A Internacional” ,  um capítulo do “Solo de Clarineta” do Érico Veríssimo e um poema do meu amigo coronel de bombeiros aposentado em Santa Maria), além, é claro da carta-testamento de Getúlio e discursos de Leonel Brizola e Osvaldo Aranha.

Mas, como no desfecho das duas últimas crônicas das Aventuras do Peruca (e em algumas outras desta minha linha) acabei por cometer, por culpa do colaborador que me enviou os textos prontos para editá-los e publicar, o triste pecado não do plágio, mas da cópia escancarada de piadas já publicadas por outrem na internet, abro hoje aqui mais uma exceção. Esta bem caracterizada e identificada pela assinatura de seu autor. 

Se algum leitor está curioso em saber quem foi o engraçadinho que me mandou as histórias com plágios no final (sem que eu me desse por conta), vai ficar na curiosidade. Adianto somente que se trata de um personagem da turma do Peruca que já apareceu em foto neste blog. Ganha uma edição encadernada do “Bira e as Safadezas…” quem enviar comentário e acertar seu nome ou apelido.

De resto, mesmo com o deslize cometido, o agradeço pela colaboração, deixando claro que é o único que me envia alguns argumentos ou textos, exclusivamente das histórias do Peruca, que tenho aproveitado ora quase que integralmente (é o caso dos dois últimos citados e da parte principal da Multa do Law Pirâmide da 59) ou simplesmente reescrito a partir da idéia original, com uns tantos acréscimos  (Peruca e a Loira no Cio e Peruca Derrapante nas Curvas de Glorinha são o caso). As suas outras colaborações foram algumas entradas do Almanaque do Peruca publicadas no segundo semestre do ano passado.

Homenagem feita, vamos à introdução do objeto deste post. Trata-se da letra de um samba gravado em 1973, no auge da repressão, e da exaltação de mídia, da ditadura militar, época em que eu, filho de professor público brizolista (que tratava de se manter o mais incógnito possível, por medo da perseguição), por incrível que pareça, usava, aos 8 anos de idade, uma camiseta branca com a estampa vermelha “Eu te Amo meu Brasil”, e assistia com meu pai às reportagens de Amaral Neto (“Amoral Nato” como foi apelidado pela intelectualidade da oposição de esquerda) transmitidas da construção da rodovia “Transamazônica”, na recém comprada televisão Phico 21 polegadas “semi-transistorizada”, preto e branco, sem ter a menor consciência de nada daquilo em que estas coisas implicavam.

E o autor da letra e da música, que foi também seu primeiro interpréte (aliás, o título dela identifica o disco “long play”, que foi o primeiro sucesso do sujeito) era nada mais que o fantástico Gonzaguinha (22/9/1945-29/4/1991), filho do “rei do baião” Luiz Gonzaga com uma cantora da noite (Dancing Brasil) que morreu tuberculosa,  Odaleia Guedes dos Santos, criado por seus padrinhos e que, no início dos anos 1970 não era ainda o “cantor/compositor” famoso por textos mais soltos e românticos, e mais próximos da aceitação do senso popular comum e da mídia “global”, como  O que é o que é, Começaria tudo outra vez, Grito de Alerta ou Explode Coração.

Gonzaguinha, que participou entre 1968 e 1970 dos famosos festivais estudantis de música popular brasileira, juntamente com Ivan Lins, se dedicava à música de protesto, praticamente revolucionária, o que lhe rendeu os óbvios problemas com os órgãos da repressão política da ditadura fascista brasileira (como o DOPS – Departamento de “Ordem” Política e Social).

E o texto aqui publicado é uma síntese de tudo que malucos como eu, ou meus companheiros do Movimento Indignação, temos discutido e publicado nos últimos anos, merecendo vir à tona, atualíssimo que é, como um alerta e uma reflexão escancarada para todos, anarquistas, socialistas e comunistas revolucionários, brizolistas ou algumas viúvas do PT, e do povão em geral. Dedico-o, mesmo, a meus colegas, trabalhadores do Judiciário do Rio Grande do Sul, especialmente àqueles que não tiveram a coragem suficiente para votar na chapa por mim liderada nas últimas eleições do Sindjus-RS (o que faço sem nenhum espírito de revanche ou dor de cotovelo, mas por puro interesse desprendido, de funcionário comum, apesar de líder, nas nossas condições de vida e trabalho). Chega de enrolação. Vamos ao poema, ou melhor ao samba: 

COMPORTAMENTO GERAL

Composição: Gonzaguinha 

Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: “Muito obrigado”
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

E um Fuscão no juízo final
Você merece, você merece

E diploma de bem comportado
Você merece, você merece

Esqueça que está desempregado
Você merece, você merece

Tudo vai bem, tudo legal

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