O BONDE DO LADRÃO


Riquinho é um primo magrela do Zé Doidinho (aquele mesmo que sugeriu enterrar o Peruca, em coma alcoólico, no cemitério municipal) que foi trabalhar num estabelecimento comercial alternativo (loja de R$ 1,99) de seu tio em Cacimbinhamburguer. Desenfreado das guampas e metido a gozador, comunga, entretanto, da mesma lendária lerdeza do Peruca.

No primeiro dia de trabalho, ficou com as mãos em carne viva de tanto esfregar papel carbono, com o intuito de deixá-lo limpo e branquérimo como cueca lavada com Alvex, como lhe havia pedido o gerente falcatrua. E até hoje não entende por que, apesar do esforço e sofrimento inútil, quase todos os colegas deram a mais estrondosa gargalhada na sua cara, inclusive o próprio gerente – que, pela lógica, lhe devia passar uma mijada.

O único que se compadeceu do idiota foi o Gordonando, o varredor do estabelecimento, que, nas folgas, ganhava uns trocos vendendo, coincidentemente, vassouras na praça principal. Por afinidade de criatura estranha, desengonçada e rejeitada (mais conhecido na loja como Baleia Branca ou “Vassoura Leve”), aproximou-se do Riquinho e se tornou seu melhor e único amigo.

Não saíam da casa um do outro, estavam sempre juntos tomando um absinto, na noitinha, no buteco em frente à loja, para ver se o álcool pesado os tornava mais malandros e espertos e consta, mesmo, que andaram caçando travecos (convencidos de que eram fogosas panteras) nas ruas secundárias e escuras das madrugadas do centro.

Tudo ia às mil maravilhas, apesar de pequenas rusgas: o Riquinho, além do salário, recebia regularmente uma mesada do pai e fazia questão de esnobar o amigo, ostentando o “i pode?” novinho em folha, comprado em uma única parcela, enquanto o Baleia gramava como um louco para pagar as prestações do rádio portátil. E, nestas raras ocasiões, o gordinho fazia beiço e se dizia humilhado. Fora isso eram como a corda e a caçamba.

Até que um belo dia, tresnoitado de uma farra com o gordo, Riquinho chegou tarde no “um e noventa e nove” e, já tendo dado pela falta do amigo (coisa que muito o preocupou, que o cara não era de gazear serviço, mesmo na ressaca – será que estava doente ou tinha sido esfaqueado por algum vagabundo na volta de casa, o coitado?), foi à farmácia comprar uns engoves e, na hora de passar no caixa, deu pela falta do cartão bancário.

Mas, como ainda tinha uns trocos, voltou para o serviço, atabalhoado (que o atraso lhe rendera a primeira reprimenda gerencial) e se esqueceu do caso. Somente no dia seguinte, ainda apreensivo pelo amigo (que simplesmente sumira do mapa – não veio trabalhar e ninguém sabia dele, nem no buteco, nem na zona gay), como convém a todo lerdo, foi ao banco mandar bloquear o cartão e encomendar novo – e aproveitou pra sacar uma graninha. E tamanha foi a surpresa que deslocou a mandíbula (de tão enorme “boca aberta”) e foi levado, furioso, ao hospital, grunhindo e espumando, para botar o focinho no lugar.

O fato é que lhe haviam sacado o salário e a mesada inteirinhos (uns R$ 800,00). E, ao assistir o filme da câmera de segurança do terminal onde ocorrera o furto, deu com a balofa e saltitante figura do amigão do peito, no papel de galã da fita, rindo, histérica, e enchendo os bolsos com os maços de “onças”.

O caso em si é bastante banal, e os leitores devem estar novamente preocupados com minha sanidade mental: o que o Bira, afinal está querendo com esta historinha insossa, contada em tom coloquial de comadre pesarosa e tendente ao moralismo recalcado?

O fato é que, tão logo a turma do Peruca me narrou a façanha, eu, que casualmente conheci, de passagem, a “Orca ladrona” e o Riquinho, tive uma inspiração iluminada e escrevi a seguinte paródia ao maior sucesso do medíocre e xaroposamente porno-sádico funk do “Bonde do Tigrão” (umas das pérolas clássicas do machismo popular, pra não dizer lumpen, do Brasil do século XXI):

Bonde do ladrão

Quer sacar, quer sacar,
O baleião vai te ensinar.
Quer humilhar, quer humilhar
O gordão vai te ferrar!

Vou passar o cartão na mão
Assim, assim.
Eu vou te roubar, meu irmão
Vou sim, vou sim!
Não vou parar na gaiola.
Din-din, din-din
Vou trazer muito pra mim.
Vou sim, vou sim!

Eu vou sacar oitocentão,
Vou mostrar que eu sou ladrão,
Vou te dar muita tensão.

Então se escabela, escabela
Se escabela, que o teu cartão
Eu levo na mãozinha
Na palma da mão!
É o bonde do ladrão!


Então pra ela, pra ela
Pra ela, vou dá um sorrisão
Pra camerazinha,
Vou abanar a mão.
É o bonde do ladrão!

Ubirajara Passos

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