O SAPATO DO RAUL


Não sou muito dado a escrever sobre essas “banalidades” (como diz o meu amigo Valdir Bergmann), mas o fato é que ainda estou convalecendo mentalmente, o que me impede, por enquanto, de alçar maiores vôos políticos e literários e poupa Lula, a petesada da direção do Sindjus-RS e a governadora “gaúcha” nascida em São Paulo de uma saraivada de pau bem merecida, neste início de 2008.

Antes que algum leitor ou amigo apavorado imagine que desta vez não foi alarme falso (como na volta de São Paulo em março) e que tive um acidente vascular cerebral vou logo avisando: podem relaxar que não foi nada disto. Nem o meu sumiço de Gravataí ou do blog se explica pelo possível internamento em algum hospício como o São Pedro, em Porto Alegre (que é o destino de todo louco pobre).

O fato é que (devido a um encontro com a minha gata preferida que atrasou apenas sete horas) tive de mudar os planos de assistir a virada de 2008 na praia do Hermenegildo, no extremo sul do Brasil, com a ex-coordenadora geral do Sindjus, Magali Bitencourt e a turma da oposição sindical de esquerda, e fui passar o ano-novo em Santa Rosa-RS. E depois de sete dias contínuos de porre com o Alemão Valdir (que principiou já na madrugada de 31 de dezembro, quando lá cheguei pelas 6 horas, e se estendeu até o domingo dia 6), me vi com o cérebro totalmente formatado (ou seja, completamente vazio). Ainda mais que “somos intelectuais” e nossas bebedeiras são animadas pelas mais abstrusas discussões políticas, filosóficas, esotéricas, além de outras “banalidades”, é claro, cujo esforço mental exigido deixa um portador de DDA como eu completamente exaurido.Eu enchendo os cornos de goró na véspera do ano-novo

O “diabo do Valdir” (que é DDA também), por exemplo, lá pelo terceiro dia de porre, num raro momento de lucidez, em que curtia a mais atroz ressaca, se viu tão desconfortado como o mundo e consigo mesmo que ameaçou, com os olhos esbugalhados e a boca escancarada, comer o ventilador de teto em movimento e, não tivesse eu lhe arrebatado das mãos os vidrinhos de sal e pimenta (com que tencionava temperar o pobre eletrodoméstico), a esta hora estaria soltando a maior ventania pela boca!

Mas vamos falar de coisas sérias, chega de asneiras subjetivas e cretinas! Lá o que querem saber os leitores da minha bebedeira, de quantos peidos (que são o foguete dos “sem-dinheiro”) soltei à meia-noite de 1.º de janeiro, ou se chamei o Hugo na primeira madrugada do ano (o que juro não ter feito). Há muito assunto profundo e grave a ser aqui esmiuçado. Como a plaqueta de madeira artesanal com que me deparei em uma tenda de camelô, no túnel que dá acesso à Estação Rodoviária de porto Alegre, na partida para o Noroeste do Rio Grande do Sul, no domingo dia 30 de dezembro: “Não adianta ser rico. A melhor coisa da vida a gente faz pelado“. Concordo plenamente com o autor. Tanto que, não fossem as limitações impostas pela minha timidez e falta de atributos físicos e artísticos padrão porque suspira a maioria das gatinhas (que não impediu, entretanto de comer umas oitenta mulheres ao longo da vida), fuderia umas três vezes ao dia, no mínimo. O filosófo popular se esqueceu, entretanto, que , na maior parte das vezes, o prazer sádico da classe endinheirada não só “fode” com a nossa vida de peões, como ainda obriga , pela força de seu poder social e econômico, velhos boêmios como eu a esvaziar a carteira para poder estar pelado com as mais gostosas e fogosas fêmeas.

 

O diabo do Valdir, puto da vida por que não lhe deixei comer o ventilador

O assunto, aliás, o sexo, parecia estar na pauta dos deuses da “sincronicidade” (a “coincidência” providencial de esotéricos e junguianos), naquele dia. Tendo de suportar uma espera de mais quatro horas pelo ônibus (e me encontrando na rodoviária por absoluta faltas de opção de lazer na noite de domingo da capital do extremo sul do Brasil), comprei em uma banca de revista o velho poema do romano Ovídio, “A Arte de Amar”, que me encontrava lendo quando uma abelha sentou-me mansamente no indicador da mão direita e ali ficou passeando até ser enxotada pela minha fobia histérica, sem picar. Resta saber se foi atraída pelo cheiro de algum resto da coca-cola que eu acabara de beber, ou simplesmente queria conferir as dicas do “Kama Sutra” latino.

Se algum leitor histérico já está babando de raiva, e querendo comer um ventilador de teto, a esta altura, por não entender a relação entre o título e toda esta tagarelagem inútil, aí vai a explicação: retornado a Gravataí na quarta-feira, após descansar da viagem de oito horas e recompor o corpo (que a mente o abandonou e ainda não voltou) fui ontem comprar um sapato novo, no centro da cidade e acabei por cometer a heresia de adquirir um sapatênis, coisa que até hoje não havia usado. Por mais irreverente e debochado que seja, este anarquista e boêmio quarentão que vos fala jamais levou a sua irreverência além do limite de transar com um aparelho de ar-condicionado (ligado no frio) e tentar ensinar matemática ao Peruca. E, já que estava comprando um sapatênis, resolvi comprar o modelo mais fora da ordem possível, digno de ser usado pelo velho Raul Seixas – o pirado, desbocado e sarcástico cantor anarco-esotérico que é um dos meus heróis e escreveu e cantou coisas como “vem cá mulher, deixa de manha,/ minha cobra quer comer tua aranha”, em plena sisudez da ditadura de João Figueiredo (o general gorila que preferia cheiro de cavalo ao cheiro do povo). Feliz 2008 atrasado para todos!

Ubirajara Passos
O sapato do Raul
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Um comentário em “O SAPATO DO RAUL

  1. gerson disse:

    Avio uma receita a tí, mesmo sem ser médico e sujeito as sanções das leis: primeiramente não ingiras tanto goró, e sumeta-se a uma série de injeção de glicose, com sucessivas seções de banhos turcos. Cuidado! se tiveres diabets troque de tratamento, pois os efeitos colaterais poderão ser danosos, sujeito a alucinações e outros tantos males. Que 2008 sirva não só para experiência, mas sim de novas conquistas. Um abraço. Gerson.

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