A última canção


Meio-dia e meia de uma tarde quente de final de primavera, para ser mais exato, 9 de dezembro do ano passado. Aproveitando o horário do intervalo, o Oficial Escrevente de um Foro da comarca da serra gaúcha, nas horas vagas ilustre músico honorário de uma banda de quarentões classe média (funcionários públicos e profissionais liberais), está na loja de instrumentos musicais comprando encordoamento para o seu violão.

Absorto, sentando na banqueta acolchoada, junto da velha janela de vitrais, com aquele ar estranho de quem pegou um trem pra Marte e esqueceu de pagar a passagem, coloca as cordas novas e vai afinando o instrumento, repetindo, com curtas pausas, cadenciadamente os gestos e tiques típicos de músico experiente que começa a abrir as portas da mente para as notas e vai nelas se aprofundando, até se deixar tomar pela influência de Apolo, numa verdadeira obsessão do deus grego.

Aproveitando a cortesia da casa, que, na esteira da velha tradição imigrante européia, faz questão de manter o espaço informal no canto da sala para os improvisos dos clientes, deixa-se possuir, de vez, pelo espírito da música e, mergulhando no próprio ser, começa a executar Blackbird, do velho mestre Macca (Paul Mcartney para os leigos na gíria musical), quando sente ao seu lado a presença de um “encosto” bem menos diáfano que Apolo ou Baco (cuja inspiração também se fazia presente, embora até agora não tenhamos mencionado, afinal não poderia faltar, em plena serra gaúcha, de colonização italiana, a taça de vinho colonial servida por cortesia do dono da loja repousando na mesinha circular em frente).

A figura magra, de uns 7o anos bem vividos, pele amarela como a de uma estátua de museus de cera, vestida a rigor, apesar do aspecto puído e vetusto do terno, empertigando uma camisa de riscado e uma calça de tergal desgastados pelo uso, mas perfeitamente frisados a ferro, sentou-se a seu lado, sacudida por uma rápida tosse seca, e ficou ali, com um olhar suplicante e embevecido lhe observando, irritantemente.

Quebrado o encantamento da poesia interna, do improviso musical no meio do dia atabalhoado a lhe dar instantes sagrados de sossego e embevecimento longe de tudo e de todos, o músico de horas vagas, funcionário forense burocrático de todo dia, já ía se dispondo a se erguer e foi atalhando, ríspido, sem mais nem menos:

– Meu senhor, se espera escutar música, está perdendo o seu tempo. Daqui não sai nada, não, senhor. Estou só tentando afinar meu violão no afinador eletrônico, onde qualquer débil mental consegue.

Polidamente, de uma educação de moça virgem ingênua de internato, o velho lhe estendeu a mão e apresentou-se:

– Desculpe, meu senhor, se o interrompo. É que já fui cantor de boates há muito tempo. Já estou aposentado, não tenho mais saúde pra continuar. Mas eu ía passando por aqui e, não sei por que, dei com o senhor, e resolvi entrar. Faz pouco tempo operei um câncer na laringe – e indicou a marca do catéter recém retirado – e como o vi tocando tão concentrado, pensei que poderia, quem sabe, acompanhá-lo e relembrar um pouco do prazer da mocidade.

– Não sei mais quanto tempo me resta  e é raro ver um músico com a tua paixão. Mas se o senhor está incomodando, não se preocupe. Me retiro. Só quero lhe dar meus cumprimentos pela virtuosidade.

E, abaixando-se numa saudação de palco, estendeu ao nosso protagonista ambas as mãos, que enlaçou nas dele, quentes de um calor febril.

Constrangido, o nosso músico amador, deixou-se comover e, esperando, ainda, qualquer porcaria executada por qualquer maluco, como estes que passam a vida brincando de viajantes, com chapéu de palha e mala feita de caixa de sapatos, crivada de recortes de cidades famosas, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, recuou de sua rejeição inicial:

– O que é isto, companheiro? Esteja à vontade. Afinal a casa não é minha, é de todos nós. O que vamos tocar?

E o velho, como se não o tivesse ouvido, não deu resposta, mas abriu o peito e se pôs a executar uma canção de Lupicínio, a que se seguiu outra. Ambas conhecidíssimas do nosso herói, que muito as tocara quando, ainda rapazote, animava bailes do Clube dos Coroas, na Avenida João Pessoa, na capital gaúcha.

O importuno cantou, e cantou muito! Com muita técnica e uma melodia absolutamente impecáveis e arrebatadoras, que jamais poderia se imaginar estivessem saindo de uma garganta condenada, mas sobretudo com uma sensibilidade absoluta, inatingível, inatacável e irrepetível. E atingiu o auge, num arrebatamento digno de coro gregoriano em catedral gótica, em plena Idade Média, quando o quarentão, comovido, o acompanhou ao violão, fundindo-se ambos numa estranha sinfonia, destas que nos visitam raras vezes na vida, na meia idade ou na adolescência, e nos transportam a mundos indizíveis e maravilhosos, que deixam uma saudade amarga, mas adorável para o resto da vida.

Olhos marejados, cara de cachorro que vomitou no colo da madame, o nosso músico de horas vagas não soube o que dizer quando o cantor, tão delicado e circunspecto como entrara, despediu-se, sem maior explicação:

– Meu guri, tocaste muito, e muito bem. E me deste um grande presente de Natal executando estas canções. Até logo!

E afastou-se, trôpego, mas de espinha ereta e digno, dobrando na primeira esquina.

O violonista, abestalhado, deixou-se ficar ali, sentado no canto da loja sem saber o que pensar, nem o que fazer. Por pouco não ceifara a felicidade enorme daquele homem que, por tão pouco, e com tanto mérito, parecia ter atingido o paraíso de um instante único, talvez o último digno de sua vida, verdadeiro “canto de cisne”. E pensou que, talvez, tivesse sido visitado por algo bem menos corriqueiro que um velho virtuose aposentado pela absoluta impossibilidade física de prosseguir no ofício. Quem sabe ele, que apesar de doar-se como um louco nas raras ocasiões possíveis em que se encontrava com a música, mas que vivia reclamando e se enfronhando nas piores neuroses das mesquinharias de repartição e do lar, no dia-a-dia, não recebera uma visita de outras dimensões, que viera testá-lo no seu amor à música, ao ser humano e à vida. Em Deus não acreditava, menos por razões político-ideológicas do que por puro empirismo racional sem sobressaltos, mas algo estranho ocorrera ali. Parece que estivera na presença do próprio Apolo, ou quem sabe não era, afinal, Papai Noel?

Ubirajara Passos

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