Bodisatva


Faz uns quatro anos, às vésperas do “fim do mundo”  do calendário maio, comprei meu atual notebook (de que,  embora “ultrapassado” nos conceitos modernosos, não me livro de jeito nenhum, pois, com suas 15 polegadas de tela, possui um raríssimo teclado numérico lateral, independente do teclado alfabético) e desde então adiava a organização dos arquivos de downloads, documentos, fotos… o que somente me animei a fazer hoje, em meio à folga do recesso judiciário.

E, agora há pouco, percorrendo os arquivos de poemas para movê-los a uma pasta específica dos documentos, dei com o sonetinho mal composto, abaixo, que aqui vai publicado para encer a murcilha do Bira e as Safadezas, sem necessariamente encher a paciência dos leitores (assim espero):

 

Bodisatva

De gatos e invernos
A existência
Alimentava no longo rio dos tempos.

E, sob o olhar túrbido do poente,
Flanava entre espessos sonhos,
Fluía em pensamentos soltos,
Ao som espiralado da torrente.

Sua alma era vasto campo
Onde chocavam-se os mais etéreos ventos
E, na umidade absoluta das tormentas,
O olhar vagava, impávido e absorto.

Era colosso em meio à cólera das vagas,
Esfinge na erosão dos séculos
E terno magma ante o entusiasmo de qualquer criança.

Gravataí, 29 de março de 2013 

Ubirajara Passos

 

 

 

 

 

Transe


Poema escrito no sábado à tarde, enquanto Isadora, ao meu lado, rabiscava uma multidão de folhas brancas espalhadas pelo chão, e ouvíamos música popular brasileira na FM Cultura de Porto Alegre:

Transe

É meia tarde,
O vento sussurrante,
No velho parque nos convida ao sono.

Um sol de outono se projeta
Mais cedo no abismo negro
E, com ele, nossa mente vaga,
Vadia, rumo ao inominável.

Velhas lembranças flutuam no lençol
De malva luz coada
E se misturam a bizarras fantasias,
Indo morrer junto à fonte adormecida.

Por um instante, nosso ser inteiro
Levita com o pólen esvoaçante
E já não há fonte, nem sol, nem nós, nem vento!

Gravataí, 19 de março de 2011

Ubirajara Passos

 

A FODA SAGRADA DE DRUKPA KUNLEY, O SANTO “bundista” do HIMALAIA


Mestre Kunley em meditação

Libertário “heterodoxo” e amante apaixonado do prazer, me entusiasmei, desde os meus vinte e poucos anos, não somente com pensadores de carne e osso, como Epicuro (o filósofo do prazer sereno e da busca do conforto no universo subjetivo), Max Stirner (o defensor da insurreição do indivíduo, independentemente do rebanho) e o mestre Wilhelm Reich (o psicólogo do tesão que concluiu que toda vida é produto da energia sexual imanente existente no cosmos – o orgone – e todos os males emocionais e sociais da humanidade são produto da sua repressão e regramento).

Entre os “gurus” que sempre me encantaram figuram também criaturas arquetípicas, entidades míticas como Dionísio (o Baco romano), deus do porre (pai do vinho), das festas, da alegria, do prazer e da orgia, e o Diabo – o grande rebelde cujo demérito, segundo a crença judaico-cristã, foi justamente insuflar o homem à consciência, fazendo-o comer o fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, e à liberdade, rompendo com a obediência cega à proibição, de um deus repressor e matreiro, de que se aproximasse da razão lógica e da verdade… está na Bíblia, logo nos primeiros capítulos, não estou inventando nada!

Como ex-católico, o Capeta, evidentemente, sempre foi o meu preferido entre os arquétipos hedonistas e libertários, até porque o ranço anti-prazer da Igreja (defensora do sofrimento e da renúncia… da maioria em prol da bacanal restrita das classes dominantes, o que fica oculto no seu discurso oficial) teve o condão de incorporar ao demônio as qualidades lúdicas e prazenteiras do deus pagão. Tanto que o fiz personagem inspirador dos ensaios em forma de discurso que venho escrevendo nos “Sermões na Igreja de Satanás”.

Mas o que jamais imaginei foi a existência de um ser vivo, um homem destes que anda e respira – não mera figura do imaginário – que foi a síntese perfeita das idéias e comportamentos destes autores e personagens, vivendo concretamente o idílio da liberdade e do deleite gaiato e folgazão – o antípoda perfeito do Cristo sofredor, grave e sado-masoquista.

Pois a figura, de historicidade concreta ainda que mais conhecida pela tradição oral himalaiana, foi o lama tântrico Drukpa Kunley, conhecido como o santo budista das 5.000 virgens, que é o padroeiro budista do pequeno reino do Butão – talvez por razões menos religiosas do que se supõe, pois, como perambulava pela região, deve ser o ancestral comum de todos os butaneses étnicos. E tomei conhecimento de sua história, lendo, por acaso, uma matéria na revista National Geographic – Brasil de março.

O sujeito costumava vagar de aldeia em aldeia, na maior parte das vezes peladão, recitando, de improviso, seus poemas iluminados e vivendo, como convém a todo monge doutrinador, da caridade alheia. Mas, como perfeito santo boêmio que era, o Drukpa não dava conselhos à toa: só transmitia seus ensinamentos mais profundos (desenvolvidos a partir da iluminação espiritual, atingida, ainda muito jovem, nos mosteiros budistas) em troca de cerveja. E tinha verdadeiro horror dos monges de outras correntes budistas não tântricas, como a Theravada, de que costumava debochar descaradamente.

Kunley adorava exterminar demônios com seu “raio flamejante” (a enorme piça), cuja reptapeçaria religiosa butanesa com as pingolas flamejantes e protetoras de Kunleyroduções adornam, até hoje, os lares butaneses, que as usam para proteção, devidamente enfeitadas com um “vistoso laço” (é o que diz a National Geographic). Porém, seu maior e mais importante feito (que usar o caralho pra matar demônio é muita falta de imaginação, além de ser uma prática de absurdo mau gosto) foi conduzir, em seus 115 anos de vida (1455-1570), cinco mil mulheres ao Nirvana (a suprema iluminação e a libertação do ciclo de sucessivas reencarnações, apego, perda e sofrimento), fazendo-as gozar com seu divino falo.

Mas não vá se imaginar que o santo farreador era um putanheiro sem qualquer critério e ía comendo qualquer uma pelo caminho – como o boêmio aqui que, pra atingir a humilde marca de oitenta mulheres, só faltou trepar com aleijada, velhinha de asilo ou freira assanhada (esta última até me agradaria, mas não encontrei nenhuma nos cabarés de Porto Alegre). Para ter o prazer de gozar do cacete sagrado a mulher necessitava ser uma dakini – a versão feminina do boditsava (a perfeita reencarnção do Buda), que era reconhecível por ser terrivelmente gostosa e ter aquele ar próprio da suprema sabedoria.

O detalhe meritório do sexo sagrado (o tantra), do qual o nosso amigo Kunley foi a expressão máxima, é que, ao contrário das crenças religiosas do histérico (eu escrevi histérico, sim! e não ‘histórico”) Ocidente, busca conduzir ao aprofundamento da consciência transcendente (equivalente à individuação, mediante a incorporação criativa dos conteúdos energéticos da mente inconsciente, do psicólogo Carl Jung) através do que há de mais vivo e benéfico no universo: o prazer carnal mutuamente propiciado entre dois seres.

Ao invés de uma furibunda batalha final (o “armagedom” apocalíptico) entre as forças do “bem” (um deus proprietário e mandão) e do “mal” (um Diabo rebelde e sedutor), a “salvação” (ou antes, a “satisfação”) da humanidade pelo gozo que é “um maremoto de prazer indescritivelmente melhor do que um orgasmo comum, que mantém o êxtase por tempo ilimitado”. E ao invés da valorização da virgindade (que é um desperdício absoluto e só tinha sentido na sociedade patriarcal, onde a mulher era a ovelhinha mais preciosa do rebanho), a suprema glória espiritual do êxtase. Eis uma religião em perfeita harmonia com a vida e a natureza, que justificaria até largar de ser ateu!

Ubirajara Passos