Toby e os prisioneiros


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Esta foto emblemática foi feitas às cegas (o reflexo do sol sobre a tela da câmera digital precária não permitia visualizar nada), às 15 h 33 min de um velho domingo, em 6 de fevereiro de 2011, na subida à direita após a esquina da rua Ibirapuitã com a Av. Dorival de Oliveira em Gravataí, quando retornávamos (eu e seu protagonista) da casa que herdei de meu pai (morto em novembro de 2010), e que venderia em fevereiro de 2013.

Filho do Dodó (o cachorro mais antigo da família, que aparece junto ao Bernardinho em retrato na matéria Bernardinho (o contestador galã de quatro patas) e eu”, identificado na legenda como “Totó”, doado quando nos mudávamos da casa da Rua Barbosa Filho, no outro lado da quadra onde foi tirada a foto, para a Rua Maringá, na Vila Natal), este ilustre exemplar da malandragem quadrúpede excedeu em muito à irreverência do parceiro canino de seu pai, bem como à rebeldia indômita deste, que (tendo sido sequestrado e mantido preso por uns vizinhos da pá virada, quando morávamos na Rua Jorge Amado, em frente à Ferragem Gaúcha, na Vila Santa Cruz, só foi libertado após nos mudarmos, em fevereiro de 2009) não se deixava prender por cercado nem cancela de qualquer altura ou espécie, além de possuir a mania de trazer suas eventuais namoradas cadelas para  casa, umas delas a Teodora, de cuja ninhada nasceu a Branquinha, mãe falecida do nosso cachorro mais velho, atualmente, o Maique.

Me seguia por todo lado, como o faziam os outros dois, e se divertia tremendamente quando cruzávamos, todo dia, a esquina das ruas Nestor de Moura Jardim e Alfredo Emílio Allen, já próximos do Foro, e era “saudado” aos latidos  mais histéricos por uma trupe de uns seis cachorrinhos alvoroçados com a sua presença.

De bela e chamativa estampa, e “charme” irresistível, o rabo a balançar constantemente, numa vivacidade incrível, chegou ao ponto de um dia entrar comigo em plena Padaria (a Miolo do Pão, na Rua Otávio Schemes, próximo da Avenida Dorival de Oliveira), e, ao invés de ser corrido como se esperaria, foi abraçado, acarinhado e apreciado por praticamente todas as gatinhas que atendiam no balcão, entusiasmadas com o “alegre, fofo e lindo cãozinho!”  Pena que nenhuma delas lembrou-se de solicitar ao seu acompanhante humano o número do celular do bicho…

Mas, voltando-se ao assunto desta crônica, a foto que a encabeça, nela O nosso cachorro travesso da época, o Toby, parece gozar esplendidamente seus parceiros de espécie, abichornados atrás das grades do portão! “ (publicação minha no Facebook em 10 de agosto de 2017).

E, literalmente, ilustra, de forma perfeita e acabada, o paradoxo em  que se encontra a humanidade inteira nos seus últimos seis mil anos de existência sobre a face do Planeta Terra.

Encarcerada na pior das prisões, aquela que conta com a participação voluntária e inamovível do próprio prisioneiro, a enorme maioria da espécie se aferra ao sofrimento e desprazer de suas vidas limitadas e oprimidas, como se fossem a própria essência da vida, mirando, de olhos murchos, desconfiados (muito raramente invejosos), e mesmo enraivecidos, os que conseguem escapar à prisão da redução à coisa em nome do prazer alheio abastardado, e usufruir da força vital de expansão e busca do prazer e conforto biológico e mental genuíno de que nos dotou a própria natureza.

E, mesmo se instados, com toda a argumentação racional possível, a romper as grades da cadeia e passar para o lado de cá (o da liberdade, da alegria e busca do movimento, do bem estar digno e vital), as forças internas que os mantém no cárcere são tão grandes que a única reação possível diante do choque da vitalidade simples e autônoma (exposto como chicoteada à sua face abobalhada) destes corpos vivos transformados em verdadeiros autômatos (ferramentas de carne e osso, apegadas ao trabalho compulsório e às regras limitadoras, sufocantes e geradoras de sofrimento) é a rejeição e, pior ainda, a fiscalização, delação, perseguição e condenação daqueles que tiveram a capacidade e a coragem de romper a biopatia generalizada que envolve nosso mundo desde que meia dúzia de arrogantes metidos a valente impuseram-se, pela força de suas imprecações perante a grande massa, como pretensos amos e senhores da sociedade, organizando , empesteando  e deformando a vida de todos os demais em prol de seus apetites!

Não há tratado, palestra, documentário ou descrição de qualquer natureza capaz de descrever, com a minúcia implícita e viva da fotografia, os matizes da peste emocional, a ossificação dos corpos e emoções que nos habitam desde que o velho patriarcalismo (o domínio do senhor macho “pai” de todos, com poder de vida e morte,  sobre todos os aspectos da vida de seus “familiares”, escravos de mesa e cama, do campo, comprados, capturados ou gerados de seu próprio corpo) nos impôs a disciplina inquestionável e obrigatória, regrando nosso comportamento, e nossos próprios pensamentos e emoções, segundo suas necessidades e perversos apetites.

Aí nasceram todos os tabus e proibições, muitos deles transformados em leis divinas, portanto irrefutáveis e imperativas, pela própria ideologia dominante do Ocidente (o cristianismo), a qualificar e punir como crime imperdoáveis o simples exercício da liberdade, a busca do gozo, do prazer e do bem estar de corpos e mentes na satisfação das mais comezinhas necessidades biológicas e mentais próprias da condição de ser vivo, como o paladar, o sexo, o descanso e o repouso necessários, a liberdade de pensamento e atitude individual etc., enquadrados nos 7 pecados capitais.

E desta teia de imposições, proibições e punições se construíram todas as sociedades posteriores, em que as classes dominantes vem exercendo o velho papel do patriarca, em prol de seus privilégios (que são a versão sádica e impositiva dos “prazeres perversos” proibidos aos peões relegados à vida de sofrimento), contando para tanto com a colaboração da maioria infectada de sua ideologia, que se alimenta da própria raiva em que se transforma a força vital básica ao tentar se expressar num organismo coberto por camadas de rígida couraça imobilizante.

Os cães visivelmente contrafeitos que estão atrás da grade observando o Toby, com ar estupefato, frustrado, até mesmo curioso por achar o caminho da fuga, ou ameaçador, poderiam unir-se e derrubá-la, mas as correntes que os mantêm acomodados são tão fortes, tão bem enterradas no profundo de seus seres, que continuam prisioneiros e se lhes fosse dada a oportunidade da fuga, pela abertura do portão que os retém, permaneceriam no seu interior, ou, em saindo, ao invés de gozar da liberdade, simplesmente saltariam sobre o cachorrinho livre e alegre e o trucidariam a mordidas e patadas, por não suportar a visão da liberdade!

Ubirajara Passos

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Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

PERUCA E A LOIRA NO CIO


Infelizmente não era o loiro dos cabelos (e pentelhos, que era uma loira “natural”!) o responsável pela reputação daquele pedaço (monumental) de mau caminho.

Branirrilde (como fora registrada pelo escrivão analfabeto ao ouvir a pronúncia do nome alemão), apesar de ter “secretariado” o advogado cível mais famoso da região de Cacimbinhamburguer, possuía dotes intelectuais tão vastos quanto o Peruca. Um de seus maiores feitos foi lascar, numa prova de Direito Processual, que “embargos infringentes” é o que ocorre quando um homem bota o saco pra bronzear ao sol do meio-dia!

Dizem as más línguas que só obtivera o emprego, e era aprovada nas provas da Faculdade, graças ao volume, consistência e alucinante formato curvilíneo do traseiro, que lhe valeu o apelido de “Bundilde”. Aliás, não era uma bunda qualquer! A coisa era estupenda, um monumento aos olhos brasileiros, e se fazia acompanhar de generosos seios, daquela cinturinha de vespa e de um sorriso de mula no cio que virava a cabeça da homarada! E o pior de tudo: a criatura botava no chinelo qualquer jogador de basquete norte-americano: um metro e noventa de pura gostosura, ou, conforme depoimento do “pastor” Kadu Macedo: “como diria meu velho avô, é uma égua de tão gostosa”!

E aquele tanque de guerra sexual, vindo do interior com a família (o pai era preparador físico e fora contratado por um time de divisão inferior da capital), veio estacionar justamente na Universidade Luterana (a Ulbra) de Gravataí!

Durante um mês a coisa foi um completo rebuliço e a epidemia de cio tomou a universidade a ponto de obrigar a suspensão das aulas. Bastava Branirrilde pôr os pés no corredor que a gurizada dos mais diversos cursos (da Psicologia à Administração) abandonava a sala e se punha de quatro a zurrar e babar enquanto assistia o desfile da “ingênua” potranca, que passava lentamente, de mini-saia e salto alto, com aquele ar de puta feliz que ganhou duzentão pra ver o “cliente” sessentão roncar na cama!

Mas a loira safada era exigente: apesar da provocação dissimulada não dava bola pra ninguém! E ainda fez espalhar o boato (completamente “verdadeiro”, segundo a sua coleguinha mais chegada, a “Nega Um Sete Um”) que honrava a portentosa bunda e a coisa que mais gostava de fazer era dar o cuzinho… mas só pra jogador de futebol, em quem papai confiava!

Houve algum tarado mais afoito que ainda insistiu (como o Camarguinho-chama-o-hugo, que tomou um pifão de dois copos de cerveja pra criar coragem e passou uma semana com a cara torta a tapa, num torcicolo “intencional”), mas por fim o gelo despeitado tomou conta da matilha de estudantes.

Até que um dia a cadelona “ingênua” ia fazendo o seu desfile solitário, desconsolada e de beiço caído por falta de platéia, quando esbarrou – literalmente – no Peruca! Ninguém sabe explicar, mas parece que a coisa foi “tesão à primeira vista”. E, não fosse a fidelidade do lendário bocaberta a sua Schuvaca Horripilis, teria se cumprido a profecia do Apocalipse: a união das duas bestas ao quadrado – cuja fórmula esotérica explosiva, em relação a qual o capeta seria um mero gatinho a balbuciar “miau”, não seria “666”, mas “696996”.

Branirrilde, entretanto, era persistente, possuía uma determinação inversamente proporcional ao quadrado do seu Q.I. e, num belo dia, aproveitando um “apagão” no prédio, investiu com artilharia pesada, suspirante e dengosa, em ataque contra o estudante refratário: “Ai, Peruca… Me disseram que tem um tarado a solta atacando as gurias aqui na Ulbra! Tu não podias descer comigo a escada até o banheiro? Eu acho o caminho mesmo no escuro, mas tô sem calcinha e vai que o taradão me ataca!”.

O convite não foi nada sussurrante e a canalha masculina entrou em júbilo de relincho e coice: finalmente a cretina cedera a um seu igual! Franja (Gílson Dinastia), Camarguinho-chama-o-hugo e Kadu Macedo só não “rasgaram suas vestes e se cobriram de cinzas” como os hebreus do Velho Testamento, não de tristeza como aqueles, mas de absoluto alívio, por não possuírem os apetrechos necessários e a coisa andar meio fora de moda há uns bons dois milênios!

Mas eis que, como diziam as velhas carolas amigas de minha mãe, parece que um anjo estava de plantão no céu, pronto a emitir o seu “amém” (assim seja), justamente no momento em que o Peruca se debatia nas brasas da dúvida, naquela hora do dia em que seu cérebro entrava em “black out” (exatamente como a faculdade) e a resposta foi um não redondo, estrondoso e apavorado!

Na modorrenta penumbra ouviu-se, então, um coro, não de anjo ou de demônios, mas profundamente humano, doído, assustador e soturno: “Isto não existe! Eu não acredito!” E, murcha e de orelhas caídas, a turma do Peruca tratou de se arrastar até o quadro de chaves elétricas, no porão, e restabelecer a luz, que a armação pouco adiantara!

Desde então não há outro debate: Kadu jurou-me acreditar, em nome de São Goró, um dia destes, em plena mesa de bar, que “o Peruca só não é gay porque é teimoso – já que possui todo o kit necessário para isso”. E Camarguinho-chama-o-hugo, do alto de sua inspiração etílico-budista me jurou: “não é bem assim, a Schuvaca é que é hermafrodita, por isso continua o casamento!”.

Ubirajara Passos

A PUTARIA NÃO É MAIS A MESMA!


Há pouco eu lia a orelha do clássico erótico francês “Anti-Justine”, escrito no final do século XVIII, que adquiri, faz uma semana, em edição de bolso da L&PM (a mais nacional das editoras gaúchas), e dei com o trecho final do comentário ao livro onde consta o seguinte: “Escrito em 1798, Anti-Justine foi publicado pela primeira vez em 1863, em tempos de banalização do sexo e do corpo, é nada mais que atual.” (grifo meu).

Antes que os leitores mais revolucionários e anti-moralistas se engasguem com a cachaça de cabeceira, vou esclarecendo: não tive nenhum ataque de recaída aos meus tempos de piá católico hipócrita (aí pelos quatorze anos), quando batia as mais homéricas punhetas, munido de uma simples revista “Ele-Ela”, e, oficialmente, chegava a professar a virgindade masculina antes do casamento! O fato é que putaria, foda (que sexo é um termo muito “puro”, neutro e tão higiênico quanto uma asséptica luva de dentista), o corpo de uma mulher para mim sempre foi um acontecimento espetacular!

Tanto que o simples ato de meter, sem as lambidas, bolinadas e chupadas (e principalmente sem o clima de festa irreverente, bêbada e hilária entre o casal), não tem simplesmente graça nenhuma! É preciso, antes de adentrar com o falo em brasa o porta-jóias de coral de uma mulher, antes de fazer-lhe os louvores cálidos e suaves de uma língua úmida e lábios sacanas, tremer de tesão ante um rostinho lindo, terno e malicioso, e desmaiar de prazer ante o liso de umas coxas roliças, sedosas e inquietas (que são uma festa para as mãos incertas)!

Mas basta assistir um filme pornô brasileiro padrão (destes que copia, com a mais requintada incompetência, o pior do padrão americano – cujas fantasias, em razão do puritanismo disseminado em sua sociedade, são as do mais bronco piá pré-adolescente barranqueador de égua) ou ouvir as narrativas das aventuras de uma gata pequeno-burguesa (nem precisa ser de um destes deslumbrados “boys” metidos a bom) para se dar com a falta de sal, de prazer genuíno e safado, e o mecanicismo (quando não o sado-masoquismo implícito e medíocre) do imaginário sexual do século!

Quanto à putaria mais estrondosa da internet e o discurso sexual da novela das oito da Rede Globo, nem se fale! Nosso tataravós (os pais dos trisavós) eram bem mais lúbricos e criativos! Qualquer dia um guri novato na sacanagem vai achar que trepar é subir num pinheiro e esfolar a piça no seu tronco!

 

Ubirajara Passos