“Bernardinho” (o contestador galã de quatro patas) e Eu


Não se preocupem os leitores que não se trata de uma versão doméstica, pequeno-burguesa e sem graça do romance “Marley e Eu”, que ainda não li, mesmo tendo me tornado um “cidadão ‘sério”, casado e cumpridor dos seus deveres” (sem risos, por favor).

Fique claro, também, que não é nenhuma história infantil daquelas que éramos obrigados a ler nos manuais da quarta série primária, cujo caráter ingênuo e moralista já me foi sugerido para tornar este blog mais “decente” e evitar possíveis futuras retaliações caso continue a ser um espelho da “devassidão” ontológica deste arremedo de escritor (não é nenhum erro de digitação, não, me refiro exatamente à essência do ser e não ao caráter de anedótico ou digno de registro, “antológico”, portanto).

Seja como for, um dos efeitos colaterais do casamento foi a convivência com um cachorro mestiço, branco e preto, de nome “Bernardinho”, que mede atualmente seus 57 centímetros, aproximados, de comprimento, abstraído o saltitante rabo. Medida esta pra lá de aproximada, já que só é possível determinar sua posição exatamente da mesma forma que a de um elétron no acelerador de partículas, tantas são as constantes alterações na nuvem  de probalidade decorrentes de  seus saltos e correrias.

O bicho, se não fosse tão ágil, poderia ser o “Peruca” dos cachorros, pois é coisa quase totalmente impossível encontrar outro exemplar tão aloprado neste mundo. E a menor de suas façanhas foi me acompanhar, já uma meia dúzia de vezes, por mais de um quilômetro e meio, na caminhada diária que faço de casa até o serviço, pela manhã, e ficar me esperando, por meia hora, abanando o rabo em frente às portas de vidro, até desistir e voltar sozinho para casa.

flagrante inédito do elétron em ação

flagrante inédito do elétron em ação

 

Não fosse as portas, aliás, e certamente teria problemas com a segurança, já que Bernardinho seria capaz de fazer exatamente a mesma coisa que o feixe de elétrons disparado junto a dois buracos próximos, no efeito mais sensacional da física quântica, e seria visto quicando entre ambas as entradas do dectetor de metais, enlouquecendo os guardas.

Mas numa noite destas, no final do verão, entendiado com a impossibilidade de encher a cara com os amigos por infinitas madrugadas na noite de Gravataí ou Porto Alegre, resolvi ir à loja de conveniência do posto de gasolina mais próximo de casa (e que fica vizinho à quadra da casa de meu octagenário pai) comprar umas latas de cerveja, para beber em casa mesmo e irritar um pouco a minha mulher, e evidentemente fui seguido pelo nada entediado cão. Que, além de não se entediar, impede qualquer espécie de monotonia a sua volta, e foi logo tratando de fazer, na loja de conveniência, umas sisudas e circunspectas senhoras avançadas na meia idade, de ar grave e xaroposo, saírem da sua inércia e exercitarem bastante suas cordas vocais, lambendo-lhes os pés.

Não é necessário mencionar que, no caminho, exerceu também o seu esporte favorito: provocar cada cachorro, de pit bull a reles e sarnento vira-lata esquelético, e deixar em histeria todo bairro pequeno-burguês do Jardim da Figueira (que fica entre a minha casa na rua Barbosa Filho e a Avenida Dorival de Oliveira, em cuja margem se situa o tal posto) com o ladrar enfurecido dos guardas de focinho e rabo da pomposa e amedrontada classe média.

O galã Bernardinho

O galã Bernardinho

Foi na volta para casa, entretanto, já no bairro São José, no lado oposto à casa do meu pai, em plena avenida, que o meu revolucionário Bernardinho resolveu unir aos seus pendores de cachorro anarquista e  baderneiro a qualidade detestável de conquistador e mulherengo, que causou-me uma inveja infinita (que mulherengo sempre fui, mas jamais tive o charme do galã canino). 

Íamos subindo a rua Ibirapuitã, na esquina da Dorival, junto a uma sólida e pequeno-burguesa casa de pedra que abriga uma loja de roupas para noivas e debutantes, quando uma poodlezinha saída do prédio se postou em plena calçada com aquele ar de poodle patricinha e safada (praticamente uma “putelzinha”) e ficou nos olhando e balançando, insinuante, o rabo.

Eu, que ando há meses um tanto afastado da putaria, em razão da coleira matrimonial, vendo a cachorrinha naquele estilo, tratei logo de alertar o meu companheiro de quatro patas, que até então não tinha o infortúnio de usar coleira (pois tive de providenciar, ultimamente, uma para evitar atropelamento ou seqüestro do maluco em suas investidas no asfalto), e lhe avisei: “ô Bernardinho, olha ali uma namoradinha pra ti”. O bicho safado não moveu, surpreendemente, um milímetro, mas a fogosa poodlezinha tratou de caminhar até ele e encostar, entusiasmada, os focinhos, o que não durou muito pois logo a cachorrada playboy, metida e arrogante da tal casa, partiu para o protesto, acoando fortemente, e correu o casal peludo para o outro lado da esquina.

fugindo do perigo

fugindo do perigo

Tratei de trazer o meu intrépido cachorro cadeleiro à ordem, chamando-o de volta ao caminho de casa, e a cachorra da poodlezinha branca, fatal e cretina, correu à sua frente, se refugiando de volta no pátio da casa de pedra. Foi aí que o meu clone de quatro patas quase perdeu o pescoço, pois foi se enfiando portão de grade abaixo, atrás da “putelzinha”, e, não mandasse às favas a sua revolucionária valentia de bravata, teria sido trucidado pela malta de meia-dúzia de pit buls e buldogues. Mas, como todo bom Don Juan “vermelho” e irreverente, diante do perigo iminente, Bernardinho esqueceu seus pendores de provocador verbal e tratou logo de disparar correndo atrás de mim.

Ubirajara Passos

Bernardinho e Totó de porre

Bernardinho e Totó de porre

 

 

 

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Um comentário em ““Bernardinho” (o contestador galã de quatro patas) e Eu

  1. larissa disse:

    ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

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