“Nem tudo está perdido!”


Isa gaudéria

Texto que escrevi, de improviso, na tarde  do início do IV Congresso dos Servidores do Judiciário do Rio Grande do Sul (IV Conseju), antes de sair de casa, a partir de minhas experiências com a minha filha Isadora (que completou 3 anos no dia 1.º de setembro e que aproveito para homenagear com a foto mais recente, do último 20 de setembro – feriado estadual da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul):

Ver a própria imagem refletida num ser humano real, de carne e osso, em uma versão mais jovem. Isto é que é, verdadeiramente, um mistério. Não a possibilidade remota de improvável de perpetuar-se em sucessivos avatares de milhares de reencarnações. O mistério que engendra, na matéria viva e pulsante, um conjunto de manifestações mentais tão semelhantes às nossas, principalmente na parte operacional das emoções, mas tão distintas quanto às possibilidades do espírito humano.

Muito mais do que saber-se o resultado de reproduções variadas de pares de programas biológicos distintos que resultaram na conformação da consciência extra-corporal e em especializações cada vez mais refinadas de um protótipo original, realizando no concreto as potencialidades apenas entrevistas nos primeiros indivíduos, o entusiasmante mesmo é se constatar o quanto os nossos hábitos de comportamento são capazes de refletir-se naquele corpinho, já nos primeiros dias fora do ventre materno, independentemente de qualquer influência mimética ou condicionante resultante da repetição dos dias.

É fantástico, nos parâmetros estreitos de uma identidade que ainda se define pela noção de apropriação e territorialidade (esta a mais antiga, mãe da anterior, surgida da necessidade de sobrevîvência num mundo hostil e precário, animado na permanente competição entre iguais e na possibilidade do engolimento literal dos menos aptos pelos mais organizados), ver esta hereditariedade confirmatória de nossas precariedades e erros orgulhosos de si.

O mais prazeroso, arrebatante, entretanto, é darmos com aquele serzinho de apenas dois anos de idade tomando ares de autonomia, pretendendo vestir o próprio tênis ou carregar a nossa mala (com um ar voluntarioso e contrafeito à nossa enternecida e, inevitavelmente,  autoritária superproteção), e dizendo: “Deixa eu! Agora é eu! Eu posso!”.

Quando nos bate, ríspida e imprevisível, esta atitude à cara, podemos ter certeza, observando algo tão carregado de sentimentalismo e expectativas ou justificativas, no nosso imaginário, como o próprio filhote: A humanidade ainda tem jeito! A maioria dos indivíduos ainda há, logo, logo,de aprender a dizer NÃO! a toda opressão, a toda imposição unilateral, limitante e infelicitante, de regras e saberes, o mais vezes, sustentada sob o mais vil e hipócrita egocentrismo sádico erigido em pretenso, arrogante, e terrivelmente enojante, nauseante mesmo, dogma “científico” – aparentemente neutro e racional (e, em razão da aparências, mais perigoso e difícil de ser vencido), mas profundamente enraizado nos piores instintos, filhos do sobressalto e da miséria inomináveis. Resultantes da precariedade  que resume a vida a uma “sobrevivência” – infame, insulsa e raivosa – cujo único élan é a raiva incontida e espumante, a disposição destrutiva absoluta contra tudo que semelha um mínimo de gentileza, conforto, liberdade e criatividade, e até mesmo de agressividade sadia e redentora.

E desta negação contundente, convicta (e mergulhada, apesar de sua força e dureza, na ternura e na alegria de viver e compartilhar) há de nascer um novo mundo, prenhe e pleno de prazer, liberdade, inspiração e criatividade, em que não mais seremos galhos secos e indistintos jogados à fornalha dos apetites minoritários, mas o próprio vento, forte e indomável, compondo uma sinfonia de absoluta e enigmática beleza nos encontros e desencontros de  nossas vontades e inferências.

Ubirajara Passos

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Erosão


Soneto empolado, xaroposo e filosofante que pari debaixo do chuveiro há uma meia hora, que vai publicado para qualificar o prazer masoquista da melancolia de algum leitor insone e entediado:

Erosão

Tempo, tu és um salteador rebelde.
Não te limitas às raras alegrias
E aos prazeres e entusiasmos fugidios.

Nos arrebatas épocas inteiras
De ingênua e inciente plenitude
E, num ir e vir variável, mas contínuo,
Corróis grandes tristezas e euforias.

Tu dissolves
Nossos picos e vales,
Florestas e desertos.

Aplainas rochas,
Incendeias astros,
E nos transmutas num inerme prado
De imutável e marmórea eternidade.

Gravataí, 17 de maio de 2011

Ubirajara Passos

A Caverna das Chuvas Eternas


Um ano e meio depois, mais um capítulo de Erótilia, para cujo perfeito entendimento, sugiro aos leitores acessar, na coluna lateral deste blog, o LIVRO ELETRÔNICO correspondente onde constam os capítulos anteriores:

A Caverna das Chuvas Eternas 

Caminharam como dois malucos por um dia inteiro até alcançar uma clareira na fralda de uma colina, onde às margens de uma cachoeira se encontravam as mais diversas oferendas a todos os deuses possíveis e imagináveis, muitas em pleno estado de putrefação, outras brilhando ao olhar do luar e dos cúpidos andantes, com suas redondas formas de amarelo brilhante e intenso, ouro e absoluto  ! Ali, pleno início noite, sentaram-se de qualquer jeito e, consumidas as provisões de pamonha dos alforjes, trataram de encharcar-se do suco fermentado da cana, sucumbindo aos seus apelos oníricos e roncando  “indecentemente” até a madrugada.

Três horas de uma noite pesada, densa e eterna, acordaram-se sob os gritos estridentes de um luar histérico e puseram-se novamente a caminho. O dia já nascia quando finalmente atingiram o destino programado pelo gordo mestre e Epicuro, trêmulo, e ainda meio bêbado, deixou-se levar pelas pernas e ser engolido pela abertura longilínea e elíptica na negra pedra, que o conduziu a uma enorme caverna, estranhamente iluminada por uma onda de verde flutuante que projetava sombras de todos os cantos. Repentinamente pareceu-lhe que a onda verde agigantava-se, ao mesmo tempo em que adquiria maior força (perceptível na própria pele) e velocidade e passava a descrever no ar rarefeito uma série de elipses sobrepostas, que o agitavam nas mais diversas direções, fazendo-o girar para todos os lados, em alternância enlouquecida e sucessiva, até que viu-se completamente suspenso, flutuando em meio a tudo.

Foi então que o verde foi escurecendo até transmutar-se por completo e projetar-se a sua frente um estranho e remoto mundo. Num único e violento jorro viu uma diminuta força transparente agitar-se numa vibração cada vez mais contundente e ir-se tornando cada vez maior e mais visível, até adquirir o aspecto de uma rubra e pastosa fogueira, que foi girando, girando e girando, até tornar-se uma esfera escalavrada azul e cinzenta, que se revelou a própria Terra primitiva.

Um chiado insistente e ensurdecedor, tomou então conta de seus ouvidos, a ponto de não entender uma única palavra do mestre Pancius, que gritava como doido em requebros, relinchos e coices de êxtase primevo. A frente de Epicuro se desenrolou por horas que duraram milênios e milhões de anos, uma torrente contínua, persistente e desgastante de chuvas, que desenrolou-se na paisagem de montanhas, vales, planaltos e depressões.

 A torrente incessante  penetrava cada vez mais e mais na terra, e na consciência de Epicuro, com uma força constante e envolvente, e ía cinzelando vagarosamente os contornos mais imprevisíveis sobre o solo, enquanto sua monótona e arrebatadora música ía forjando  profundamente todo os eventos vivos e dinâmicos dos milênios, milhões e bilhões de anos seguintes. Criando e cruzando histórias e personagens, imagens e abstrações mentais profundas e bizarras, que mergulhavam Epicuro até o fundo das águas, e além, até o núcleo líquido e incandescente, trazendo-o de volta à tona, e, por fim, projetaram-no numa encruzilhada escura, em meio da floresta, em que mal se via, sob um silêncio absoluto e aterrador, uma tênue fresta de luz à frente. Pancius, liberto de sua última missão (conduzir o imberbe discípulo narcisista às fraldas do nada), rebentou, num estrondoso tombo, junto à pedra da caverna, e seus cacos (que tornou-se, na queda, rígido qual estátua vítrea) reagruparam-se espontaneamente, até formar um chifre de ponta furada, que Epicuro, ainda semi-ínconsciente, juntou do chão e tocou reproduzindo a melodia da garoa eterna.

Gravataí, 16 de abril de 2011

Ubirajara Passos

A foda telepática


Como já relatei na minha primeira crônica sobre o Almanaque do Pensamento e as previsões astrológicas de revolução absoluta da humanidade, desde os meus tempos de pré-adolescente que o “paranormal” (seja o científico ou o mágico, o místico  ou o simples espetacularismo filosófico) me fascinam, apesar do meu materialismo ateu professo.

Richard Bach (com o seu Fernão Capelo Gaivota, lido aos 16 anos, mas só entendido mesmo aos vinte e tantos, e com Ilusões – aventuras de um messias indeciso) é um autor que sintetiza perfeitamente o que já vinha caraminholando mentalmente muito antes de lê-lo e absorvê-lo e que se pode traduzir em “anarquismo místico” ou mágico, e que consistia na crença absoluta na liberdade, ao ponto de crer nas possibilidades dos poderes puramente mentais para alterar a realidade (especialmente quando assessorados por qualquer um ritual emocionalmente – Jung diria energicamente – significativo) e na possibilidade de alterar tudo pelo questinamento e pela vontade absolutamente livre.

Aos dezessete anos, por exemplo, eu cria piamente que era possível, mesmo, desafiar a própria morte pelo questionamento filosófico profundo. Se a humanidade inteira morria era porque acreditava na realidade da morte e nenhum maluco havia tido ainda a coragem de colocar em cheque a necessidade de sua existência… Hoje, à medida em que o programa genético universal que rege os seres vivos neste planeta vai me fazendo definhar fisicamente, em que as rugas e cabelos brancos vão se acentuando, e o espelho vai desmentindo, ao acordar diariamente, a minha eterna convicção de ter dezoito anos (pois a mente não muda e não adquire senso inato de velhice), vou me convencendo do meu engano adolescente… Se bem que volta e meio, apesar do espelho, tenho umas recaídas!

Este é um tema (como a crença nos extra-terrestres e na sua visitação à Terra na antiguidade – cevada em muitos livros de Von Daniken, lidos dos vinte pouco até quase os quarenta anos) que só tenho discutido em caráter extremamente privado, com o devido entusiasmo, e que em geral só exaustivamente explorado com o alemão Valdir (que comunga, apesar de velho comunista ateu, destas maluqices) e, em menor grau, com o Carlão.

 Mas, com toda a minha piração, o meu materialismo sempre colocou um freio nos chamados poderes paranormais da mente. Eu podia acreditar na possibilidade da mente humana influenciar o corpo a ponto de evitar o envelhecimento e/ou a morte (afinal a “mente” é resultado de uma série de interações elétricas e fisiológicas do cérebro e dos nervos que, no caso humano, acabou por tomar consciência discriminativa de si e do universo).  Mas, como bom libertário racionalista, só daria aval a determinados fenômenos se tivesse uma prova física irrefutável, como a telecinesia, por exemplo. Passei anos sonhando, inclusive, que fazia movimentar objetos com a simples vontade e direcionamento das mãos, mas até uns dois anos atrás jamais me dei conta de que, salvo uma coincidência absurda (que até é possível, mas, dadas as circunstâncias, é um tanto precária), havia tido, sem me perceber, em meio ao furacão emocional em que vivia, uma prova justamente de telepatia!

Lá por meados do ano 2000, apaixonado, e rejeitado pelo objeto da paixão, por uma gostosa loirinha de 24 anos, um belo domingo de manhã, já quase meio-dia, ainda me encontrava (pra variar) espichado na cama, quando me lembrei que a safada deveria estar, exatamente naquele momento, trepando com o meu rival (que, para meu desconsolo e piora do meu sofrimento, era bem mais feio e imbecil que eu) e pus-me a bater uma punheta, enquanto imaginava o casalzinho se pegando, pensando na safada o tempo todo. Troço meio masoquista que creio nem meu amigo Xupaxota deve ter feito. Mas, enfim, o que faz a neurose!

O diabo é que, umas duas horas depois, a cretina (que me rejeitava, mas, obviamente aceitava meus favores e mimos financeiros), me liga, perguntado se eu estava bem e me avisa que tinha uma coisa estranha para contar. Logo imaginei que tinha alguma coisa a ver com a tal punheta, mas não insisti e esperei o dia seguinte, quando, numa conversa em mesa de bar a gostosa revelou: 

– Puta que pariu! Ontem de manhã eu tava no “rala e rola” e não é que, na hora da loucura me vi pensando em ti, e te imaginei fazendo aquilo ainda por cima!

O mais interessante é que a hora, e outros detalhes cretinos do devaneio da gata, que  não revelarei, pois podem levar à identificação da criatura , que só eram do meu conhecimento, batiam completamente! Tivemos, portanto, ainda que sem retorno de parte a parte, uma comunicação mental paralela à distância!

Ubirajara Passos

A meu pai, morto em 7 de novembro:


Ao baixares à cova para o sempre
Choro por ti,
Por mim, e por nós todos,

Porque passaste a vida,
Sério e dedicado,
Cheio de agruras,
Levando sobre os ombros
O peso de um lar a ser provido.

Porque, a teu modo, creste e militaste
Nos ideais de redenção da peonada
E hoje transpões o negro umbral da morte
Sem ver, sequer, eles serem defendidos
Na antiga oratória falsamente radical.

Porque, compenetrado e cioso de teus filhos,
De tua mulher, que, como tu, viveu
O padecer do “paraíso” da família,

Foste mais um,
Como tantos de nós, trabalhadores,
Que consumiu a vida no labor
Cansativo e incessante,
Abrançado com entusiasmo,
Sem ter conforto ou nenhuma recompensa.

Se em alguma instância qualquer
Tua consciência tiver continuidade
E encontrares minha mãe por lá,
Que seja possível aos dois se divertirem
E rirem, serenos, dos trabalhos
Porque continuamos a passar neste planeta,

Dos nossos vãos esforços em fugir
Da labuta obrigatória e entediante,
Buscando um mínimo de originalidade
E de prazer em cada gole de cerveja,
No sorriso espontâneo de uma menininha,
Na brisa solta de cada primavera,
Nas madrugadas insones do amor dos corpos
Ou na tertúlia boêmia de amigos,

Porque, por mais que procuremos
Avidamente o bem-estar,
Sempre caímos
De volta à vala compulsiva das neuroses.

Gravataí, 19 e 24 de novembro de 2010


Ubirajara Passos

O Espírito do Mundo


Vai publicado a seguir o resultado de um transe consciente induzido pelo vinho na última madrugada de sábado para domingo, que, apesar de todo seu formalismo, se pretende uma descrição da intocável “substância” empírica de tudo:

Animus Mundi

É madrugada intensa e indefinida,
Onda perdida entre outras tantas
Num vórtice eterno e aleatório,

E no silêncio atemporal e abstrato
Sinto insinuar-se o espírito do mundo.

Uma energia primeva e sem qualquer limite
Um nada auto-determinado,
Feito de imensos vazios,
Mas cheio de vontades,
Flui pela imensidão do espaço azul-escuro
E faz-se em cada coordenada
Os mais diversos seres e sentidos.

Não é um deus porque não criou nada
Nem fez-se superior árbitro, distante,
Dos destinos do resto universo.

Não é um reflexo complexo auto-consciente
De interações físicas imanentes
E determinante de mudanças pré-escolhidas,
Porque nem sabe formalmente de si mesmo.

Mas é uma pura e inciente vibração,
Uma agitação indefinida e ilimitada,
Uma vontade sem peias, nem tutores
Que vai suberventedo a estabilidade
Dos elementos estanques e sem graça
Da natureza e recriando a cada breve
E infinito instante a vida espontânea
E absolutamente irreverente!

Gravataí, 11 de julho de 2010

Ubirajara Passos

Eclesíastes: um hino filosófico ao prazer genuíno enrustido na Bíblia


Na crônica “Da Censura a este Blog e seu Pretenso Caráter Pornográfico”, inspirado no post “Tem putaria na Bíblia”, sobre o Cântico dos Cânticos, publicado no início do último abril, prometi postar neste blog trechos do Eclesiástes, do Rei Salomão, o que, conforme meu costume, apesar de demorar, vai sendo aqui cumprido.

Como poderão conferir os leitores, muito antes do grego Epicuro ou judeu austríaco Wilhelm Reich,dos filósofos nihilistas, de Nietzsche e de Omar Kahyyám, o velho rei semita (que, insisto novamente, para mim possuía um refinadíssimo espírito árabe), já havia concluído, em total descompasso com a apologia judaico-cristã do sofrimento altruísta besta e auto-flagelador, que a única coisa que poderia dar algum sentido à nossa condição absurda e imutável de seres mortais, e conscientes da própria impermanência no mundo, seria o prazer genuíno de usufruir do bem-estar que a vida pode nos proporcionar enquanto respiramos, sem nos atrelarmos à “deveres éticos” escravizantes e prejudiciais ao bem-estar do indivíduo. E sem, muito menos, nos deixar escravizar por ideais de felicidade artificiosos, formais e superficiais, sem qualquer contato profundo com nossas emoções e sentimentos espontâneos, ligados ao tesão de nos sentir vivos, fascinados e confortáveis.

Salomão constatou  na própria  carne, e conhecia muito bem,  que o espetacularismo oco da ostentação e da celebridade em nada amenizam nossa trágica situação de mentes de aguda consciência racional e refinamento emocional destinadas a um dia virar pó, quando não a tornam mais infeliz ainda, e responsável pela miserável infelicidade das multidões jogadas à condição de coisa sem direitos para propiciar o vão luxo dos engalanados opressores. Assim como sabia que raiva e amor, agressão e acolhimento, destruição e construção não são energias opostas e excludentes entre as quais devemos escolher, ou rejeitar, para pautar nossas vidas, mas posições necessárias e benéficas, segundo as circunstâncias em que nos encontremos.

Este não é, como bem sabem os leitores, um site religioso, um blog “sério” (da seriedade moralista e “austera”), e muito menos dogmático, mas vale a pena transcrever aqui os iniciais do fantástico livro:

Palavras do Eclesíastes, filho de Davi, rei de Jerusalém. Vaidade de vaidades, disse o Eclesíates; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo trabalho com que se afadiga debaixo do sol?

Uma geração passa, e outra geração lhe sucede; mas a terra permanece sempre estável. O sol nasce e põe-se e torna ao lugar donde partiu, e, renanscendo aí, dirige o seu giro para o meio-dia, e depois declina para o norte; o vento corre, visitando tudo em roda, e volta a começar seus circuitos. Todos os rios entram no mar e o mar nem por isso transborda; os rios voltam ao mesmo lugar donde saíram, para tornarem a correr.

Todas as coisas são difíceis; o homem não as pode explicar com palavras. O olho não se farta de ver, nem o ouvido se cansa de ouvir.

Que é o que foi? É o mesmo que há de ser. Que é o que se fez? O mesmo que se há de fazer. Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela já existiu nos séculos que passaram antes de nós. Não há memória das coisas antigas, mas também não haverá memória das coisas que hão de suceder depois de nós entre aqueles que viverão mais tarde.

Eu, o Eclesíastes, fui rei de Israel em Jerusalém, e propus no meu coração inquirir e investigar sabiamente todas as coisas que se fazem debaixo do sol. Deus deu esta penosa ocupação aos filhos dos homens, para que se ocupassem nela. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e achei que tudo era vaidade e aflição de espírito. Os perversos dificilmente se corrigem, e o número dos insensatos é infinito.

Eu disse no meu coração: Eis que cheguei a ser grande, excedi em sabedoria a todos os que antes de mim houve em Jerusalém, e o meu espírito contemplou muitas coisas com grande atenção e aprendi muito. Apliquei o meu coração a conhecer a prudência e a doutrina, os erros e a loucura e reconheci que ainda nisto havia trabalho e aflição de espírito, porque na muita sabedoria há muita indignação e o que aumenta a ciência também aumenta o seu trabalho.

Então eu disse no meu coração: Irei e engolfar-me-ei em delícias e gozarei de todos os bens. Mas vi que também isto era vaidade. Por isso considerei o riso como um desvario; e disse ao gozo: Por que te enganas assim vãmente?

Então resolvi dentro no meu coração apartar do vinho a minha carne a fim de dedicar o meu ânimo à sabedoria e evitar a loucura, até ver que coisa seria útil aos filhos dos homens; em que ocupação devem eles empregar-se debaixo do sol durante os dias da sua vida. Executei grandes obras, edifiquei para mim casas, e plantei vinhas; fiz jardins e pomares, e pus neles árvores de toda a espécie; e construí para minha utilidade depósitos de águas para regar o o bosque em que cresciam as árvores; comprei escravos e escravas, e tive muita família, e gado maior e grandes rebanhos de ovelhas, mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém. Amontoei para o meu uso prata e ouro, e as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras, e tudo o que faz as delícias dos filhos dos homens, taças e jarros para o serviço do vinho; e ultrapassei em riquezas todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou comigo também a sabedoria. Não recusei aos meus olhos coisa alguma de tudo o que eles desejaram; nem proibi ao meu coração que gozasse de todo o prazer; e se deleitasse nas coisas que eu tinha preparado; julguei que seria esta a minha sorte, o desfrutar do meu trabalho. Depois, refletindo em todas as obras que as minhas mãos tinham feito e nos trabalhos em que debalde tinha suado, vi em tudo vaidade e aflição de espírito, e que nada havia estável debaixo do sol?

Passei à contemplação da sabedoria, dos erros e da loucura. Que é o homem, disse eu, para poder seguir o rei seu Criador? Reconhecia que a sabedoria levava tanta vantagem à loucura, quanto a luz difere das trevas. Os olhos do sábio estão na sua cabeça; o insensato anda nas trevas; todavia reconheci que ambos eles morrem igualmente. E disse dentro no meu coração: Se eu e o insensato devemos morrer igualmente, de que me serve ter-me eu aplicado com maior desvelo à sabedoria? E, tendo discorrido sobre isto comigo mesmo, adverti que também isto era vaidade. Porque a memória do sábio, dos mesmo modo que a do insensato, não será eterna, e os tempos futuros sepultarão tudo igualmente no esquecimento; tanto morre o sábio como o ignorante. Por isto a minha vida se me tornou fastidiosa, vendo que tudo é mau debaixo do sol e que tudo é vaidade e afliação de espírito.

Em conseqüência disto detestei toda aquela aplicação, com que eu tinha trabalhado tanto debaixo do sol, tendo de deixar depois de mim um herdeiro, que ignoro se será sábio ou insensato, mas que será senhor dos meus trabalhos, em que eu suei e me afadiguei; e há coisa que seja tão vã? Por este motivo dei de mão a todas estas coisas, e o meu coração renunciou a afadigar-se mais por nada deste mundo. Porque, depois de um homem ter trabalhado com sabedoria, doutrina e diligência, vem a deixar tudo o que adquiriu a um homem ocioso. E isto é também vaidade e um grande mal. Porquanto, que proveito tirará o homem de todo o seu trabalho e da aflição de espírito, com que é atormentado debaixo do sol? Todos os seus dias são cheios de dores e de amarguras, nem de noite descansa com  o pensamento. E não isto uma vaidade?

Não é melhor comer e beber e fazer bem à sua alma com o fruto dos seus trabalhos?” (capítulos 1 a 2, versículos 1 a 23).

O início do capítulo 3, clássico nas citações conformistas e fatalistas, nos dá, ao contrário da utilização que normalmente fazer seu pregadores, a medida da relatividade e benefício da dicotomia psicológica, de raiz biológica inclusive, das forças de aproximação e repulsão, contração e expansão (para usar um conceito clínico reichiano), encantamento e horror, quando manifestas em conformidade com as situações específicas que tragam vida ou sofrimento ao organismo humano. E é sobretudo um brado contra a coerência imbecil da palavra dada, do compromisso assumido, da descoberta lógica ou emocional futuramente invalidada pelo processo da consciência e pela correnteza concreta da existência, e contra a imobilidade absurda das idéias e posturas petrificadas e erigidas em verdade absoluta:

Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer e tempo de morrer. Há templo de plantar. Há tempo de arrancar o que se plantou. Há tempo de matar e tempo de sarar. Há tempo de destruir e tempo de edificar. Há tempo de chorar e tempo de rir. Há tempo de se afligir e tempo de dançar. Há tempo de espalhar pedras e tempo de se ajuntar. Há tempo de dar abraços e tempo de se afastar deles. Há tempo de adquirir e tempo de perder. Há tempo de guardar e tempo de lançar fora. Há tempo de rasgar e tempo de coser. Há tempo de se calar e tempo de falar. Há tempo de amor e tempo de ódio. Há tempo de guerra e tempo de paz.” (versículos 1 a 8). 

E, finalmente, o início do capítulo 4 é, por incrível que pareça, de um sabor revolucionário que antecipa o próprio Cristo anarquista a pregar no Sermão da Montanha a bem aventurança aos oprimidos e miseráveis, por que lhes será feita justiça e a lamentar os opressores de barriga empanturrada porque serão derrocados:

Voltei-me para outras coisas, vi as operações que se fazem debaixo do sol, as lágrimas dos inocentes e que ninguém os consola, nem eles podem resistir à violência, visto estarem abandonados de todo o socorro. E felicitei mais os mortos que os vivos; considerei mais feliz do uns e outros aquele que ainda não nasceu, e que não viu os males que se fazem debaixo do sol.

Contemplei de novo todos os trabalhos dos homens e reconheci que as suas habilidades estão expostas à inveja do próximo; nisto há também vaidade e cuidados inúteis. O insensato cruza as mãos, consome-se a si mesmo, dizendo: Mais vale um punhadinho com descanso, do que ambas as mãos  cheias com  trabalho e aflição do espírito.

Tornando a refletir, encontrei outra vaidade debaixo do sol: Há um homem que é só, e que não tem ninguém consigo, nem filho nem irmão, e que todavia não cessa de trabalhar, nem os seus olhos se fartam de riquezas, nem faz esta reflexão, dizendo:  Para quem trabalho eu, e me privo destes bens? Nisto há também vaidade e aflição miserabilíssima.

Melhor é, pois estarem dois juntos do que estar um só, porque têm a vantagem da socieade. Se um vai a cair, o outro o sustentará; ai do que está só, porque, quando cair, não tem quem o levante. E,  se dormirem dois juntos, aquecer-se-ão mutuamente, mas um só como se há de aquecer? E se alguém for mais forte que um só, dois resistem-lhe; o cordel triplicado dificultosamente se quebra. 

Mais vale um jovem pobre, mas sábio, do que um rei velho e insensato, que não sabe prever nada para o futuro. Porque às vezes sai um do cárcere e dos ferros para ser rei, e o outro que nasceu rei acaba na miséria. Eu vi todos os viventes que andam debaixo do sol com o jovem que tem o segundo lugar, e que depois há de ter o primeiro. Todos os que o precederam são um povo infinito em número; e os que depois virão, não se hão de regozijar nele; até isto é vaidade e aflição de espírito” (versículos 1 a 16).

Parece que na última frase transcrita, o Salomão andou prevendo também a ascensão do Inácio dos Nove Dedos… Mas, ironias à parte, tudo pode se resumir à velha e lapidar fórmula: “Comei, bebei e fudei! Tudo o mais é pura besteira”.

Ubirajara Passos