“Velho feio da peste!”


Não é de anteontem que o anonimato, ou a própria distância, tem propiciado, na internet, uma imensa sinceridade e autenticidade (muitas vezes um tanto intolerante) nesta sociedade autoritária e hipócrita em que vivemos. Até mesmo nas redes sociais, onde, em tese, todos nos tornamos íntimos e informais. Mas o que me aconteceu recentemente foi simplesmente inédito!

Cansado da antiga (e pretendendo divulgar meu visual de cabelo pintado e cortado a máquina, operações sem as quais os meus 52 verões aparentam a infeliz decrepitude de um ancião centenário), resolvi trocar a foto de meu perfil no facebook e postei, ontem à noite, já sentado na cama (e “fardado” com meu mais vistoso pijama), a “selfie” feita no momento (sem o auxílio de nenhum “pau”) com o próprio celular. Barba por fazer e um certo ar sonolento, o retrato realmente não é nenhum primor, mas, atual, satisfazia os fins que pretendia dar-lhe.

Vários amigos (de colegas a parentes) o saudaram com a tradicional curtida. Uma velha e querida amiga, companheira de militância sindical, postou nos comentários o gif de um cachorrinho abanando alegremente. E um amigo que não vejo pessoalmente há tempos me brindou com o emoticom do sorriso (que muitas vezes se usa para se expressar a risada mesmo), o que já me deixou meio cabreiro.

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aqui a indigitada foto que rendeu o comentário, para apreciação dos leitores

Até aí tudo bem. Nada além do previsto, e até tedioso, nestas ocasiões. Mais eis que, do nada, sabe-se lá a que pretexto e por que diabo inspirado, um sujeito, que não conheço, mas ainda assim cumprimentei por ocasião de seu aniversário, e que só aceitei no meu rol de amigos do facebook por ser amigo comum de uma colega de Judiciário (que também não conheço pessoalmente, não é da minha comarca, mas foi aceita em razão da minha militância e liderança sindical, cuja popularidade deve tê-la levado a me solicitar amizade), resolveu lascar o seguinte comentário: “VELHO FEIO DA PESTE”!

Confesso que, apesar de libertário e desassombrado (embora um tanto destreinado da histórica malandragem aprendida na política e na boemia), levei um susto tão grande que, não estivesse, agora de manhã, deitado em plena cama, teria caído para trás. Já vi de tudo, até xingamentos homéricos e descabelados em razão da intolerância ideológica que anda pautando fascistas de direita e de “esquerda” no Brasil pós-golpe de 2016, inimizando velhos camaradas e dividindo famílias a pretexto das mais infelizes questiúnculas, artificiais e sem graça, acerca de questões de gênero, raça e parceria sexual. Mas esta de brindar, sem nenhuma intimidade gaiata que o justifique, uma simples foto de perfil com tão jocoso comentário não havia visto ainda.

Depois de meditar por um bom tempo, diante do inusitado, me decidi e postei a seguinte resposta ao meu irreverente amigo (que estampava antigamente a imagem de um corvo, mas agora nenhuma em seu perfil do face):

“Muito obrigado pelo comentário. Vou me lembrar de postar um semelhante quando o companheiro (que deve ser meu colega no qualificativo estético) tiver coragem de colocar sua foto no próprio perfil!!!”.

Até agora, infelizmente, não recebi nenhuma réplica.

Ubirajara Passos

 

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Paixões, Asneiras e Tristezas finalmente publicado


Jamais usei este blog para promover minha vaidade (que simplesmente não existe, por questões meramente técnicas e não por inclinação emocional, é claro). Tanto que, quando uma crônica deste blog (A foda sagrada de Drukpa Kunley) foi ao ar, na primavera de 2011, com direito a comentários efusivos e sacanas de mais de meia hora em programa noturno da KFK, rádio web de meu amigo Barata Cichetto, não dei a notícia aqui.

Mas este velho livro de poemas foi tão maltratado nas tentativas feitas, no século passado e neste, pelas editoras nacionais, que sua autopublicação no site da multinacional Amazon (em versões e-book e impressa) e no nacional Clube de Autores (versão impressa sob encomenda que pode ser paga com boleto), merece o registro neste blog, no qual seus poemas foram integramente publicados.

Não há no livro, portanto (com exceção da profunda revisão ortográfica e gramatical) grande novidades para os leitores do Bira e as Safadezas, além do possível prazer de ter os poemas reunidos num único volume impresso ou num prático e-book.

Mas, para que a frustração não seja completa, reproduzo abaixo alguns trechos da biografia constante no final, que mencionam alguns fatos ainda não mencionados neste blog sobre a “República” do Alemão Valdir no bairro Petrópolis, em Porto Alegre:

“Com a chegada do sobrinho de Valdir, Rogério Seibt, de Santa Rosa, que se hospedou no apartamento para realizar o curso pré-vestibular, em abril de 2002, se constituiria, no Edifício Morumbi da Rua Amélia Telles, a lendária “República do Alemão Valdir” (que durou até janeiro de 2004, quando o alemão retornou a Santa Rosa), frequentada, entre outros, por Alexandre Vorpagel (o “Gordo Ale”), amigo e conterrâneo de Rogério, que cursava Radiologia na capital, e por Luiz Miranda Pedreira do Couto Ferraz (o “Baiano Luiz”), emigrado de Salvador, formado em Física e Filosofia e emérito boêmio, blogueiro e colecionador de falenas, que Valdir conhecera no Hotel Elevado, na Avenida Farrapos, quando viera morar em Porto Alegre, em 1996, e se tornaria parceiro de cachaçada, boemia e sacanagem de Bira e Valdir na sauna La Luna, na rua Barão do Amazonas.

Aí, na “República” (como Valdir constatara se parecer o apartamento, numa súbita inspiração num almoço de domingo), os fins de semana, e às vezes os dias úteis, eram agitados pelas infindáveis conversas, anedotas e histórias rocambolescas dos frequentadores, sempre devidamente regadas à cerveja, com exceção do “dono da casa”, que mantinha, desde 2001, tratamento com antidepressivos e raramente bebia. Às vezes, na ausência do Luís, em noites entediadas, muitos poemas amorosos deste livro vieram à tona pela primeira vez na internet, nos “chats” do alemão Ale com suas namoradas virtuais, enquanto Bira os lia em voz alta. E aí nasceram uns quantos poemas datados de Porto Alegre, aqui publicados, como “!” , Amargo Mate da Amargura , Embriaguez e Menestrel Equívoco.”

Ubirajara Passos

Notícias do lado de cá


Aqui estamos,  camarada
O mundo é o mesmo.
A Terra gira,
Seca, sob o sol.

Vertiginosos passos
Lomba abaixo
Vão nos conduzindo,
E o burburinho urbano continua
A nos tontear
Entre os ruídos mil
Da coletiva insanidade.

Aqui estamos
Nada mudou na superfície.
Sem ti os céus ainda estão crivados
De quero-queros e sabiás,
Neste final de agosto
Que embebedou-se e se vestiu de primavera. 

Nada mudou.
Ainda há choro e risos.
Cada segunda-feira ainda há trabalhadores
Indo arrastar-se, trôpegos, à faina.

Os escândalos de sempre
E a ficção contaminada
Do pior que apodreceu a alma
Ainda habitam as mentes
E as telas eletrônicas.

Donas de casa ainda de se afundam na rotina
E criancinhas ainda encontram um mundo novo
Num simples caracol de forma diferente.

Nada mudou.
Somente a nós, que contigo viajávamos
Nesta custosa e longa peregrinação,
Foi arrebatada a metade de nós mesmos,
Que foi acrescentar-se à terra
Para nutrir as sementes de vermelhas flores,

Assim como continua
A alimentar em nossa mente a rebeldia
E o desejo desastrado e incontrolável
De vida, prazer e liberdade.

Gravataí, 22 de agosto de 2014

Ubirajara Passos

 

Possessão


Mais um poema estrambótico para distração dos leitores que ainda teimam em acessar este blog, apesar da frequência cada vez menor de suas matérias:

Possessão

Não me possuo desde o velho dia
Em que pretendi adonar-me da poesia
E ela, matreira, de um bote enfiou-se
Pelos meus poros e se esparramou
Do calcanhar à nuca, invadindo
Até os menores becos do meu ser.

Tão entranhada fez-se esta vertigem
Do inefável arrebatamento,
O inextinguível sentimentalismo,
Que esta voragem indefinível que atordoa,
E alaga em pranto toda a minha alma,
Submergiu-me os mais pesados blocos
De auto-controle e determinação

E transmutou-me de raio fulminante
Em portentoso lenho trespassado
Pela profundidade sensível e maldita.

Gravataí, 20 de março de 2012

Ubirajara Passos

 

À minha mãe ida, mas sempre presente


Não sou dado a manifestações emotivas em datas de comemoração “obrigatória” e padronizada, que atendem muito mais à ganância do mercado capitalista do que às memórias afetivas coletivas. Mas, hoje de manhã, em meio às peripécias finais da campanha eleitoral como candidato a Coordenador-Geral do Sindjus-RS, acordei com uma nostalgia antiga e dolorida, que o arvoredo de fundo de pátio, em pleno outono de frio, nuvens e ventania, para que dá a janela do meu quarto, tratou de reforçar, e acabei parindo o poema abaixo:

À minha mãe ida, mas sempre presente

Já faz bastante tempo que partiste
Para a longínqua estância do eterno,
Deixando-me pra sempre desmamado.

Quando tu fostes de volta ao pó da terra,
Mais do que alguém que carregou-me nove luas
No edênico berço do teu ventre,
Perdi uma amiga, uma das raras almas
Que compreendia-me profundo e desnudado
Dos atavios de adágios e discursos.

Perdi uma parte irrecuperável de mim mesmo,
Mas conservei, pulsante e permanente,
Uma ternura por tudo é quanto frágil,
Um cuidado preocupado e extremoso
Com a vida nova que se agita entusiasmada
E inconsciente da perfídia deste nosso mundo.

Eu que privava da tua intimidade,
Mas fui, contraditório, parco de palavras
Pra te dizer o quanto tu eras tudo,
Hoje compreendo, pai que sou de uma filhinha
O que inspirava as intromissões,
Que sufocavam meus ímpetos de potro,
Já bem crescido e senhor de si.

Hoje, conservo, em meio ao fogo da batalha
Pela transformação da sociedade
Em justa e solidária comunhão de peões,
Sempre uma ponta de intranquilidade,
Quando distante da minha menininha,

E, sempre que posso, jogo longe a armadura
E sento ao chão, criança revivida,
Para com ela ser bebê de novo,
Me arrebatar com o mais simples brinquedinho
Rindo à toa, com ela, o olhar cúmplice,

E lhe dar o que trago de mais caro,
Bem fundo, no mais íntimo de mim,
Que é o carinho que de ti restou-me,
Como relíquia sagrada e sem medida.

Gravataí, 9 de maio de 2010.

Ubirajara Passos

Tem putaria na Bíblia!


Um belo dia, em meio ao porre de vodka de garrafa plástica, entornada no bico (a Natascha), lasquei a frase título desta crônica para o meu amigo Xupaxota, que, apesar de todos os seus anos de malandragem e todas suas especialidades sexuais alternativas (como urolagmia e coprofagia), me respondeu, apavorado, os olhos esbugalhados e a boca escancarada:

– Bira… tu tá brincando!

Pedi então, com aquele ar sonso e circunspecto, que ele me alcançasse um exemplar do livro sagrado, dentre as centenas de volumes sobre todos os assuntos que possui na biblioteca do escritório de seu apartamento em Porto Alegre, e, feliz da vida, li para meu embasbacado amigo os seguinte trechos:

Despojei-me de minha túnica, e hei de vesti-la novamente? Lavei os meus pés, e hei de tornar a sujá-los?
O meu amado pôs a sua mão pela abertura da porta, / e minhas entranhas estremeceram com o ruído que ele fez” (capítulo 5, versículo 4);

“Quem é esta , que sobe do deserto enebriada  de delícias, /apoiada sobre o seu amado? / Eu te despertei debaixo da macieira; / foi ali que tua mãe te concebeu” (…) (capítulo 8, versículo 5). E, finalmente os excertos mais explícito grávido de volúpia e desejo:

Teu umbigo é uma taça feita ao torno, / que nunca está desprovida de licores” (…) (capítulo 7, versículo 2);

“A tua estatura é semelhante a uma palmeira, / e os teus seios a dois cachos de uvas.
Eu disse: Subirei à palmeira e colherei os seus frutos, / e os teus seios serão como dois cachos de uvas” (…) (capítulo 7, versículos 7-8).

Estes  últimos versos, pelo que desconfio, devem ter sido censurados pelo tradutor e, pelo que se vê nas entrelinhas, deveriam ser assim no original: “A tua estatura é semelhante a uma parreira, / e os teus seios a dois cachos de uvas. / Eu disse: Subirei à parreira e colherei as uvas”.

Estes textos são fragmentos do poema “Cântico dos Cânticos”, escrito por Salomão, o rei hebreu mais sacana e descolado do Velho Testamento, que, segundo as teorias de Erick Von Daniken, passeava de disco voador Ásia a fora e teve a desafaçatez de comer a rainha oriental mais sacana, e meio masculinizada (teria pêlos pelo corpo todo, quem sabe não é uma ascendente remota da Schuvaca Horripilis, a amada do Peruca), que atendia pelo nome de Belquis, ou “Rainha de Sabá”!

Pois Salomão, como bom e ardente árabe (que os judeus não passam de árabes arrogantes, primos que são dos descentes de Ismael, o irmão “bastardo”, segundo o Gênesis, de Isac – todos oriundos da piça de Abraão), produziu este livro de profundo, romântico, sensual  e lírico erotismo, que vale muito mais em termos de filosofia de liberdade, prazer e bem-estar para o ser humano que muitos dos sisudos livros e mandamentos moralistas do Velho e do Novo Testamento.

E, milagre dos milagres, conseguiu com que seu poema sobrevivesse, delicioso e intocável, ao longo dos milênios,  em meio ao misticismo rançoso e aos áridos alfarrábios da tradição mais autoritária, anti-prazer e anti-bem estar da História, que produziu a desgraça moralista e coisificante de homens e mulheres no Ocidente: a ideologia judaico-cristã.

Está provado, portanto, para surpresa e fascinação do meu amigo baiano (e de todos os ateus reichianos que necessitem de alguma justificativa mística para se fazerem crer em meio ao rebanho humano), bem como “para escândalo” dos inimigos do prazer e do bem do corpo e da mente, que há sim, saudável e encantadora, putaria na sisuda Bíblia!

Ubirajara Passos

O Ventre da Montanha (visão de um sonho em plena consciência)


Estou há três dias cumprindo a suspensão que me foi imposta (cujo desconto da metade do salário antecedeu-a em 23 dias!), sem nenhuma atividade, portanto, além de auxiliar nos afazeres domésticos e andar em casa, pra cima e pra baixo, com a Isadora no colo, conduzindo-a pela mão nos seus primeiros passos, ou simplesmente a acompanhando no andador.

E, no fim da manhã do último sábado chuvoso, acabei por parir, aos quarenta e quatro anos, este poema adolescente, que se insinuou nas minhas guampas, sexta-feira à tarde, quando subia a arborizada e poética Rua Barbosa Filho, no rumo de casa, após gastar uns cobres num “Tri Legal”, na esperança de ganhar um prêmio de loteria.

Ele cheira fortemente a plágio, e parece ter umas cores de Castro Alves ou Olavo Bilac, muito embora, como tantas vezes, tenha se desenvolvido a partir dos primeiros versos, em pura improvisão, diante da visão da montanha andina que nunca visitei, na viagem tão planejada e jamais realizada que eu e o Alemão Valdir faríamos, atravessando o deserto de Atacama, até encontrar o Oceano Pacífico, em Antofagasta, saídos do outro lado do continente, após nos despedir do Atlântico, em Tramandaí. Mas é, entretanto, o único produto, por enquanto da minha “vagabundice institucionalizada” e aí vai publicado para que os leitores possam ter a chance de ler alguma coisa neste blog além da pura (embora ótima) transcrição dos escritos do mestre Reich. Divirtam-se, se puderem:

O Ventre da Montanha
(visão de um sonho em plena consciência)

Silêncio absoluto! A hora é intensa
De uma solenidade sem fronteiras.
A cordilheira aos meus pés se ergue
Como uma catedral gótica rasgando
O céu gelado e tenso do poente.

No coração, envolto em neve, da montanha
Se abre o portal de um espelho transcendente
Que acolhe os raios translúcidos da tarde,
Me convidando a um sono em tons azuis.

Lá, no profundo do seu ventre mágico,
Sei que se encontra o sabor perdido
De um forno a lenha perfumando a tarde
Com sua fumaça, assando roscas de polvilho.

No extremo oeste, a milhares de quilômetros,
Venho encontrar, escondido, bem enterrado,
O crepitar saltitante, o entusiasmo
Bobo de passear na rua
Sob o frio transparente de um sábado à tarde.

Venho rever o encantamento de correr,
Piá solto, o arvoredo, espiando
De longe o canto obscuro
Em que ardem, hipnotizantes,
As chamas de uma ancestral fogueira.

Mas, ao tocar o coração do monte,
Tudo se esvai em cinza, em minhas mãos
Só restam grãos tímidos de sonho,
O mundo berra
Aos meus ouvidos com as contas por pagar!

Levanto, em um salto lúcido, e bato,
Forte, no muro duro e invisível
Do quotidiano de peão metido a poeta.

As correntes da rotina me maneiam
E já não há fuga apaixonada e mística.
Só o torpor de porre de cachaça
Pode me anestesiar de sua aridez intensa!

Gravataí, 24 de outubro de 2009.

Ubirajara Passos