UM SONHO DO CARALHO


Juro que, apesar das características de piada de programa humorístico de sábado da Rede Globo, a coisa realmente aconteceu comigo e, dada a força com que ocorreu, dificilmente seria o remanescente de algum episódio literário ou rádio-televisivo esquecido.

O fato é que, curtindo aquela preguiça louca da manhã, no último domingo, eu acabei adormecendo novamente e, como em tantas ocasiões já me ocorreu nos últimos anos, de repente me vi em meio a um sonho consciente. Ou seja, um daqueles sonhos cretinos em que o sujeito está sonhando, sabe que sonha e, na maior parte das vezes, tenta controlar o roteiro do sonho, conseguindo ou não, ainda que não tenha, como eu, lido a “A Arte do Sonhar” do Carlos Castaneda, que – apesar do meu materialismo tingido de contraditório misticismo ateu – me fez percorrer corredores, abrir portas e tentar correr rumo a um horizonte que se ía enegrecendo, até acordar, nos mais diversos episódios oníricos, desde que dei com o livro, uns quatorze anos atrás.

E, antes de prosseguir, é necessário que eu advirta, também, os pobres leitores, que já devem estar com o saco pra lá de cheio com toda esta enrolação de cronista amador (o Kadu, se estiver me lendo, a esta altura já deve ter chutado umas dez vezes o retrato de sua professora de Ciência Política), que, nem na noite anterior, nem na manhã do fato, eu havia tomado qualquer porre de absinto, conhaque, vinho de garrafão ou cachaça paulista daquelas que, ao que parece do efeito, devem ser fabricadas com álcool para automóveis. Assim como não fumara qualquer cigarrinho do capeta – coisa que fiz apenas uma vez na vida, na casa de uma amiga, há uns quantos anos, já burro velho, e que, além de não me dar muito barato, tanto que me lembro perfeitamente do ocorrido durante a inalação da marijuana, achei tremendamente insossa frente a um bom porre etílico, mantendo minha exclusiva condição de bêbado irremediável.

Fique também claro que não tomei nenhum chá de cogumelo ou bala de êxtase e que, apesar das semelhanças, o protagonista do sonho não possuía, ao que se verifica, nada em comum com o o asno de Balaão ou com o rinoceronte do delírio de Brás Cubas, no famoso e melhor (na minha opinião, que vejo em Dom Casmurro uma obra menos sensacional) romance do mestre Machado de Assis, que li, comungando do espírito sarcástico do livro, aos quinze anos de idade.

Mas eis que, me achando nos braços de Morfeu (que, conste para os desavisados, é o deus grego do sono e não nenhum leão de chácara de boate gay), eu estava deitado em uma cama de uma casa que sabia não ser a minha, numa luminosa manhã, e, me virando para a esquerda, onde havia uma pequena escada de uns três degraus, dei com o inusitado ser. Que, pela energia forte que senti, velho leitor do junguiano Roberto A. Johnson (o autor de He, She, We, entres outros livros), com certeza devia ser um poderoso arquétipo (um padrão de energia e comportamento emocional universal da psicologia humana), ainda que me lembrasse um simples personagem simbólico de fábula de um velho filme holywoodiano que assisti há mais de vinte anos, quando minha mãe ainda era viva.

A criatura, entretanto, era bastante estranha para representar um deus pagão, um elemental ou uma consciência intemporal qualquer, apesar do ar de autoridade e irrefutável sabedoria, que a distinguia perfeitamente de qualquer vaidoso Tarso Genro. Era nada mais que um “pato” ou ganso, de barriga azul celeste , bem claro, e bunda branca – a que faltava apenas uma mancha preta para ser gremista, que é uma qualidade fundamental para um pato, na minha modesta opinião de colorado pouco entendido em futebol.

O bicho era fascinante. Podia ser meio inusitado. Mas foi justamente o ar exótico e a fantástica e forte emoção que inspirava que me fez pedir: “Pássaro azul, me diz a verdade!” E, não sei como, pois que o mestre animal não fez qualquer gesto além de me encarar com aquele supremo jeito de quem sabe, soube e saberá tudo (uma verdadeira “divindade” no sentido emocional profundo da coisa, muito além da chatice antropomórfica do deus cristão), entendi que devia encostar o ouvido ao seu bico.

Finalmente eu conheceria a verdade (que nem sei porque solicitei no sonho). Mas não uma verdade qualquer! Dali, daquele estranho primo do Pato Donald”, sairia “A Verdade!” Me seria revelado todo o mistério da formação e da composição profunda do Cosmos. Quem sabe o remédio supremo para o sofrimento humano, o significado oculto das mais estapafúrdias tropelias das nossas pobres vidas, ou o segredo absoluto da Pedra Filosofal, capaz de transformar em ouro uma existência de esterco de vaca, para nós, miseráveis mortais acorrentados a uma extinção certa, apesar de toda rica e envolvente agitação que nos faz desejar mais e mais vida!

O momento era solene. De uma solenidade que eu, velho anarquista cético e avesso à pompa e ao artificialismo ritual, reconhecia válida e viva. E aí o bico sagrado se moveu e dele, numa voz roufenha e estridente, como o auto-falante de uma kombi ou carroça de verduras, veio a frase:

Ô meu, tu dá muito doidão!

Ubirajara Passos

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