SARAVÁ, MEU IRMÃO! OXALÁ JAVÉ/ELOHIM SE FODA!


Há quase uma década fui questionado por uma amiga (casualmente negra e um tanto cética) da minha gata preferida da época, em plena mesa do bar mais folclórico e conhecido de Gravataí (o “Quiosque” do Jorginho), num domingo à noite, depois de umas boas três cervejas entornadas, sobre a minha opinião quanto à macumba – que ela chamou, no jargão eufemístico de adepta, meio descrente, “a religião”.

E eu que, então, só conhecia do “batuque” o que as conversas das comadres da minha infância sobre o “saravá” e os livros (e adaptações televisivas e cinematográficas) de Jorge Amado haviam me permitido saber, respondi, num lance de puro diletantismo e intuição safada, o que a presença concreta em terreiras me confirmaria, nos anos seguintes.

Para mim, ateu professo e incoercível, a umbanda, embora fosse uma religião (e, como tal tivesse as características autoritárias e condicionantes de toda crença, e visão de mundo, imposta de fora sobre a livre consciência e comportamento das criaturas humanas) tinha uma vantagem fundamental sobre o cristianismo. Seus deuses, ao contrário do mudo e insondável deus cristão, se comunicavam, dialogavam pessoalmente com cada fiel, mero curioso ou desesperado que a eles recorria, e isto se fazia de forma concreta, através da voz de um filho de santo “incorporado” – a traduzir, em pleno transe hipnótico, as comunicações de um arquétipo – uma energia emocional típica – do inconsciente humano.

Afinal, uma das coisas que me deixava mais perplexo quando piá (catecúmeno mais ou menos incerto das tais verdades religiosas aos onze anos ou mesmo adepto fervoroso do altruísmo franciscano babaca aos quatorze) era que – apesar das enfáticas recomendações de catequistas, freiras e padres de que conversasse com “Deus” – toda vez que me prestava a tão insano diálogo, no meio de uma missa, por exemplo, em flagrante devaneio no canto da igreja – o corno jamais me respondia e tudo que restava da crença mística no criador era um silêncio e um vazio absoluto, que só não ultrapassava o sol ou a mais longínqua, e visível, estrela porque entre mim e eles havia o teto do templo. Vai ver que, por ser deus “genérico” (que precisava atender a “todos”, como o Lula) eu dava o azar de invocá-lo justamente na hora em que estava ocupado com o industrial Gerdau Yohan Peter (o maior burguês do Rio Grande do Sul).

O que ainda não sabia, ou não havia ainda constatado em termos “lógicos”, é que a religião tipicamente brasileira – filha do sincretismo de candomblé, catolicismo e espiritismo; e afiliada da influência árabe-islâmica da África e do “xamanismo” índio brasileiro-, a dona UMBANDA, ía muito além do diálogo direto. Mesmo que contaminada pela tendência normatizante, e opressora, de qualquer crença institucionalizada sobre o indivíduo, está muito além do moralismo autoritário e masoquista da cultura judaico-cristã do Ocidente.

Na experiência viva com as terreiras mais legítimas ou falcatruas (as “igrejas universais” da macumba), a que a paixão completamente asnífera e não-correspondida me levaram a freqüentar, me deparei, quase sem consciência, com sua profunda dimensão humana. Um deus (orixá), um semi-deus (caboclo ou preto-velho), um “anjo-mensageiro” (exu, completamente “imoral” e não a-moral, como seus equivalentes do trio cristianismo-judaísmo-islamismo) ou um elemental (uma força da natureza pré-consciente, como uma “jurema”) podem até barganhar, e tentar escravizar, com suas exigências, o consulente, mas jamais lhe exigem uma moral de entrega imbecil e sofrimento.

Jamais lhe enchem a cabeça e o corpo de obrigações abstrusas na vidinha quotidiana de cada de ser humano. Estão como grandes médicos d’alma, psicólogos sem diploma nem empáfia, a recomendar as regras rituais que “religarão” a consciência do indivíduo aos mais profundo de sua essência cósmica de expressão de desejo e vida, e que propiciarão a resolução de seus dramas. Se a solução dos problemas de um sujeito envolver o ódio, a oposição e a supremacia sobre um desafeto que quer lhe empestear a vida, jamais veremos um “santo” afro-brasileiro recomendando a passividade e a submissão ao sofrimento e a opressão impostos. Ele procurará, com a oferenda exigida, resolver o problema e libertar quem a ele recorre.

E, ao invés do monopólio do sofrimento auto-imposto em prol do algoz, o “saravá” contempla todas legítimas e espontâneas reações e emoções humanas. Sua plêiade de seres extra-humanos reflete os mais diversos e intrincados aspectos da alma e da experiência, da consciência e da subjetividade mortal, não impondo uma regra parcial, monolítica e infelicitadora como o cristianismo organizado desde séculos. No que, paradoxalmente, o batuque está mais próximo do personagem Jesus original, que nunca identificou amor com sofrimento burro e submissão às taras alheias. Nem era um santarrão acusador e punitivo, mas andava por aí a falar sem compromisso, ouvir e sentir prazer no contato com os “marginais” mais hediondos de sua época: simples mulheres, putas, cobradores de impostos para os imperialistas romanos, “leprosos” e mendigos. E tinha verdadeiro ódio aos especialistas hipócritas da moral e da lei (os fariseus e escribas). Saravá, irmão, mande deus (e seus criadores e beneficiários capitalistas, e remanescentes feudais de todo tipo) tomar no cu e viva plenamente tua vida!

Mas, se puder, abdique de toda religião, e viva só com tua consciência e sentimentos.

Ubirajara Passos

P.S.: só no final do testo persebi tê-lo eskrito na ortografia mista ofisial. Agora, azar. A pregisa não me permite retifiká-lo, Fika para a prósima.

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3 comentários em “SARAVÁ, MEU IRMÃO! OXALÁ JAVÉ/ELOHIM SE FODA!

  1. GEORGIA disse:

    EXPIRITO ME COMENDO DIZENDO QUE ME AMA DENTRO DO CORPO E JESUS CAMILA 15 ANOS EU NAO QUERO PERDE BELEZA E EWSTUDOS E VIVER COM, EXPIRITOS DENTRO DE CASA E DENTRO DO CORPO 3 SATANAS DENTRO DE CASA 3 TICHAIS CHIMBINHAS DIJAIS DIJALMA E EU RECEBE ISSO DOS OUTROS EU SOU MULHER AGORA DEUS AQUI TEM ANJO MIEL MIGUEL OU EU QUERO FICAR SER ASSIM DENTRO DE CASA DEUS PIROU ATE O COMPUTADOR E ZOMMMMMMMMMMM ZAIS DE JAIS ZEUS DE SATANAS E MEU

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  2. GEORGIA disse:

    RUA DOS MAIAS MADUREIRA GEORGIA SORRO ANJOSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

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  3. GEORGIA disse:

    SORRO NAO SOCORRO GEORGIA RUA MAIS MADUREIRA

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