Tertúlia de Compadres em Fundo de Quintal


Segue abaixo publicado um pobre poema que escrevi hoje à tarde, entre o vento varredor compulsivo e a simpatia fascinante e as gracinhas de minha filha Isadora, que, nos seus profundos e espontâneos dois aninhos, encarna  um buda embriagado no epicurismo (toda feita de sorrisos e travessuras que, indagada sobre o que está fazendo, responde, entusiasmado que é “arte!”):

Tertúlia de Compadres em Fundo de Quintal:

A tarde corria
Embalada no vento,
Ao sussuro da aragem,
No arrepio da brisa.

Na tépida sombra
Do arvoredo antigo,
Refrescando a alma,
Aquecendo os corpos
A vetusta garrafa
De “São João da Barra”.

E o leal compadre,
Comparsa de eras
De boemia e trago,
Entre um gole e outro,
Lhe recomendava,
Por falta de assunto:

Companheiro velho,
Não te atires tanto
Na paixão da noite,
Desmanchando-te todo
No fogo do afago,
Na graciosidade
Das lindas tigresas
De pelo macio e tesão ronronante,
No vulcão do gozo,
No riso picante
E na sutil ternura
Dos salões sacanas.

É (clichê antigo)
Uma perda de tempo,
Um desgaste inútil,
E, acima de tudo,
É pura ilusão!

E o parceiro, inspirado
Pelo sagrado conhaque,
Redarguiu, entusiasmado:


Caríssimo amigo,
Sei que tens razão
Em tudo que me dizes,
Mas prefiro ainda
À realidade dura
E sem sal dos lares
Pequeno-burgueses,
Da opressão doméstica,
Uma gostosa e lúbrica ilusão!

Gravataí, 13 de novembro de 2010

Ubirajara Passos

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