Noturno


Poeminha parido ontem de tardinha,enquanto esperava a Isadora cortar seu cabelo na casa de sua tia, e minha comadre, Viviane:

Noturno

Noite velha sobre o rio.
A palidez do luar
Caindo, mansa, sobre a praia.
A areia murmujerando
No embalo da brisa morna.

A um canto do arvoredo,
Na estridência da toada,

Uma cigarra tece a noite.
A noite sonhando a noite,
Na rede a se balançar.

Vila Natal, 23 de novembro de 2017

Ubirajara Passos

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Madrugada de verão


Noite velha.
Varandas floridas.
Estrelas cadentes.
Frias ventanias.

Redes balançando e embalando sonhos
Antigos como estampas
Floridas, desbotadas,
Das salas de antanho.

Velha lua bêbada tropeçando em astros
E formando halos cálidos em gélidas nuvens
Com seu bafo amargo de puro absinto.

Gravataí, 3 de janeiro de 2016

Soneto do Penúltimo Dia


Profundo sábado,
Refúgio sagrado,
De todos êxtases,
És de outra esfera.

Viceja em ti
Um gozo tão sereno.
Não há canção que não conduza às lágrimas.
Não  há cachaça que não alargue a alma.

Em tuas noites
Qualquer raio de lua
É uma viagem às esferas do nirvana.

E qualquer banco de praça nos conduz
Aos mais estranhos deleites
Dos altares ou das camas.

Gravataí, 3 de dezembro de 2012

Ubirajara Passos

Confissão ao Luar


O poema que segue foi parido na noite de sábado passado, sob a maior lua da década, na mesa da garagem de casa, enquanto o cretino imperialismo yankee despejava uma chuva de mísseis sobre o povo líbio e fazia gracinhas no Brasil:

Confissão ao Luar

Plenilúnio prateado,
Que me chamas,

Na noite branca,
A sonhar e a viver,

Não exageres na tua claridade,
Que a noite é fria,
E o teu olhar marmóreo
Me arrepia até o menor pelo.

Contraditório és,
Tua brilhante luz,
Que se pretende sol,
Não nos aquece,

Antes conduz-nos ao negror profundo
Do sono em que mergulha-nos o ser.

Tu nos embalas, nos teus lençóis brancos,
Doce como um velho vinho,
Na embriaguez noturna,
Mas excita-nos,

A rubra cólera da revolução,
Qual transparente vodka.

Gravataí, 19 de março de 2011

Ubirajara Passos

Transe


Poema escrito no sábado à tarde, enquanto Isadora, ao meu lado, rabiscava uma multidão de folhas brancas espalhadas pelo chão, e ouvíamos música popular brasileira na FM Cultura de Porto Alegre:

Transe

É meia tarde,
O vento sussurrante,
No velho parque nos convida ao sono.

Um sol de outono se projeta
Mais cedo no abismo negro
E, com ele, nossa mente vaga,
Vadia, rumo ao inominável.

Velhas lembranças flutuam no lençol
De malva luz coada
E se misturam a bizarras fantasias,
Indo morrer junto à fonte adormecida.

Por um instante, nosso ser inteiro
Levita com o pólen esvoaçante
E já não há fonte, nem sol, nem nós, nem vento!

Gravataí, 19 de março de 2011

Ubirajara Passos

 

Lua Nua


Poema escrito hoje de manhã, enquanto vinha para o trabalho, a pé, ainda inspirado na fantástica lua de sábado passado (a mais próxima da terra em 18 anos, fiquei sabendo hoje em um blog do wordpress):

Lua Nua

Ó lua nua, que te mostras,
Despudorada, a toda humanidade,

Tu nos incitas, com tua pele branca,
A mente e as pernas a vagar nas madrugadas
Frias do outono,

Conduz-nos com este teu olhar
A obscuros e cálidos refúgios
E faz-nos uivar,
Encharcados de cachaça,
No frenesi do gozo sem barreiras.

Gravataí, 21 de março de 2011

Ubirajara Passos