TRISTEZAS


A depressão em minha vida tem sido uma constante desde muito cedo. O poema seguinte, embora impregnado de um certo tom retórico e farsesco, expressa, no entanto, um dos meus momentos de falta de sentido, aos vinte e cinco anos de idade.

TRISTEZAS

Quando não resta mais que lamentar
Da vida os infortúnios
E o passado torna-se o refúgio
De antigos sonhos que o destino,
Nas suas vagas de redemoinho,
De louca tempestade a galopar,
Cobriu do pó eterno dos caminhos
E sepulto-os sob a lájea fria
Do desengano atroz;

Quando do dia a luz e a alvorada
Perderam o sentido de beleza
E não exaltam mais do homem
Os anseios,
Quando os ímpetos rebeldes
E inconformados de revolução,
De luta incessante e indomável
Pela transformação da sociedade
(Que, falida, na própria lama imerge,
Sobre a maior parte de seus membros
O sacrifício sem compensação,
O peso do suplício a arremessar)
Não mais alentam a alma do poeta;

Quando os amores murcharam e apagaram-se,
No caminho da rejeição eterna,
E o coração de gelo e cinzas recobriu-se,
À alma humana é possível
O renascer no vigor de uma quimera,
Da fênix o mito
Em vibrante realidade transformar?

Gravataí, 4 de julho de 1990

Ubirajara Passos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s