QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 7


No último dia na Argentina (terça-feira de carnaval), saímos de Posadas já passado das 10 h (o originalíssimo relógio “Orenete” do Valdir marcava 9 h 30 min…) e, deixando para fazer as compras em Oberá, nos deparamos, a cada passo, com a inflexível instituição da “siesta” (que começa ao meio-dia em ponto e se estende, durante a semana – pois no domingo é píor) até as 4 horas da tarde.

Tanto no shoping de roupas Oscar, quanto no Supermercado “El Condor” (que fecha à 1 hora da tarde) fomos praticamente corridos por um atendimento impaciente e carrancudo, o que não me impediu de comprar uma camisa e uma bermuda argentina na loja e alguns livros do Nietzsche e uma coletânea de autores anarquistas em castelhano.

Mas o cúmulo da intolerância, da falta de acolhimento e da cretinice se deu no restaurante do Cassino. Estávamos nos servindo (cerca de 1 h 45 min da tarde, pois a “siesta” do Cassino fecha às 14 h), quando nos interpelou um garçom para nos avisar que o estabelecimento fecharia logo e que tínhamos quinze minutos para comer! Não, não me entendem mal os leitores: não é que o bifê fosse recolhido em quinze minutos e tívessemos tempo de, servidos, almoçar sem preocupações. A afirmação significava aque, chegadas as 14 h, tendo ou não terminado de almoçar, teríamos de sair correndo.

Invocado com o autoritarismo burocrático do “estabelcimento”, quando fui ao banheiro, fiz questão de mijar na pia. E, tendo contado o meu ato ao Rogério, este, por sua vez, mijou no cesto de papéis higiênicos. Estava vingada a honra brasileira e rio-grandense do desaforo castelhano. Uma hora depois retornávamos ao Brasil (Santa Rosa, Rio Grande do Sul) e, então, nos parecia que não havia passado apenas três, mas várias semanas fora de casa.

 

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 6


Na terça-feira de carnaval, após beber todas durante a madrugada, o alemão Valdir ainda pretendia se despedir de Posadas a caráter: enchendo a cara na calçada do restaurante mais fino da cidade. E assim, oito horas da manhã, marchamos, heróicos bêbados desafiadores do moralismo local (onde já se viu tomar cerveja logo de manhã cedo?), rumo ao café com nome francês.

Sentados com toda pompa na rua, o garçom castelhano nos recebe com a contida cordialidade local, que logo se esvai em estranhamento e censura quando pedimos uma Quilmes. O sujeito olha para o relógio e nos responde que só servem cerveja após nove horas da manhã! Putos da vida, fomos procurar um posto de gasolina para adquirir umas latas do produto redentor e demos de cara com uma lona preta sobre a porta do freezer onde ficava a cerveja.

Ainda assim, julgando se tratar apenas uma questão de costume “austero” da castelhanada (chegamos a supor que o garçom se recusara a nos servir para não deixar o estabelecimento “mal-falado” – os pequenos-burgueses de Posadas poderiam se escandalizar ao ver dois bêbados “imorais” tomando porre na calçada de um restaurante “familiar de classe” logo cedo), não tivemos dúvida e íamos retirando as latinhas, quando o dono da loja de conveniência nos intercepta, porque “no se puede vender bebida alcoólica en la via pública antes de las nueve: es ley de la municipalidad”!

Voltamos para o City Hotel revoltados. Que cretinice é esta do Estado de controlar a vida das criaturas humanas a ponto de regulamentar os horários em que podem embriagar-se e criminalizar quem bebe de manhã cedo (pelo que nos disseram, poderíamos ser presos se fôssemos pegos na rua com uma lata de cerveja antes das 9 h). Qual a diferença entre encher os cornos, e eventualmente fazer uma arruaça (esta deve ser a preocupação do prefeito) às oito e meia ou às dez horas da manhã. E se o “imoral gambá arruaceiro” quiser comprar a sua vodka antes do horário interditado e tomá-la, saindo para aprontar todas na rua entre meia-noite e nove horas, qual o efeito que tem a “educativa lei”?

Narramos aos atendentes da portaria do Hotel a nossa desventura e, quando fomos tomar um café na copa (que não serve nem almoço, mas apenas pão e café com leite), já passado de las nueve evidentemente, qual não foi a nossa surpresa: a administração do Hotel, pesarosa com a infelicidade dos turistas brasileiros (e temerosa de perder eventuais clientes futuros) havia mandado comprar um litro de Quilmes especialmente para nós. E na sacada do City Hotel, em plena praça principal da capital da Província de Misiones, a irreverência escandalizou e rompeu os estritos canônes do autoritarismo tacanho do lugar: dois gaúchos anarquistas e safados sorviam, com o ar da maior pompa possível, uma cerveja em local onde nem Coca-Cola se bebe, para espanto dos seríssimos clientes que tomavam seu café!

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 5


De volta a Posadas, na tarde de segunda-feira, tive, na calçada do café mais “chique” da cidade um destes raros momentos em que o espaço se abre à nossa frente e nos vemos lançados numa dimensão fora do tempo. Tomando uma Quilmes, mais uma vez, com o alemão Valdir, me dedicava a um dos meus esportes preferidos (espreitar mulher boa na rua), quando dei com aquela moreninha, de cabelos negros e nariz afilado, simplesmente linda e misteriosa como uma esfinge (possivelmente mestiça de índios e espanhóis), num vestido bege que lhe desenhava perfeitamente o corpo esguio e saboroso.

A deusa descida na terra ia caminhando junto à vitrine do café, a minha direita, e para sorte dos meus olhos, acabou por sentar-se na mesa onde estava a “espiã” no outro dia. Encarei-a e, quando menos esperava, ela, se levantando, me olha pergunta, se dirigindo para uma mesa à minha frente: “eestá ocupada”. Quase desmaiei e lhe respondi laconicamente no meu precário castelhano um “no”, para ouvir daquela voz paradisíaca um “muchas gracias” e lhe responder “no sea por eso”.

Este foi o formal e seco diálogo que mantivemos, mas o simples fato daquela criatura apaixonante falar comigo me deixou doido. A morena sentou-se e puxou do que pensei ser uma revista (mais tarde, quando já havia ido embora, fui até a mesa e verifiquei que eram prospectos de uma loja), e imaginei que iria se repetir a cena da loira do dia anterior. Mas logo chegou uma amiga e sentou-se à sua mesa.

É evidente que não despreguei os olhos da gatinha e tive a ocasião de vê-la mencionar-me à amiga, que voltou-se para trás, me espiando, umas duas vezes. Lá pelas tantas a coisinha linda foi ao interior do restaurante e, voltando com uma caneta, começou a escrever. O idiota aqui imaginou que iria receber um torpedo, mas conversaram mais um pouco e se mandaram, as duas, depois de uns vinte minutos.

A gata era tão impressionante, tinha um rosto tão decidido e enigmático, além do corpo voluptuoso, que cheguei a viajar e imaginar um romance ambientando em Posadas, a um passo do Paraguai, no qual o personagem principal, um jornalista desempregado, encontra a guria e acabava se envolvendo em mil peripécias, com direito a uma trama de espionagem e guerrilha. Quem sabe um dia eu o escreva. Mas o fato é que, diante daquela caboclinha, a capital de Misiones transfigurou-se e eu de repente vi uma cidade aprazível, numa encruzilhada internacional do mundo, ao mesmo tempo provinciana e populosa, na qual bem gostaria de morar. Viva o romantismo sem concerto.

 

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 4


Na passagem da ponte entre Posadas (Argentina) e Encarnación (Paraguai), a burocracia revela a completa falência do Mercosul e nos dá a noção do caráter autoritário e irracional do Estado. Têm-se de aguentar filas homéricas, de uma hora e meia, para ir de uma margem à outra e, ainda que não se leve mercadoria de um para outro país, se submeter ao ritual de apresentação de documentos e interrogatório da polícia de ambos os lados.

Para entrar no Paraguai tivemos de entregar nossos vistos de entrada e identidades no posto argentino e depois obtermos novos vistos no posto paraguaio (na passagem Brasil argentina tudo é feito no posto de Alba Posse). Aí até que os burocratas foram ágeis. Mas na volta há dois postos paraguaios de identificação sucessivos, a fora o posto de legalização de mercadorias compradas (pelo qual não passamos, pois tudo que possuíamos era coisa de pequeno volume e, ou colocamos no porta-luvas, ou viemos usando) e a inspeção prévia do porta-mala. a impressão é de que nos encontramos em algum campo de concentração nazista.

No último posto paraguaio da volta um cartaz oferece uma recompensa vultosa em guaranis para quem der informações de um bandido internacional, provavelmente traficante ou contrabandista, que atende pelo nome de “Gardelito”. Aí, vendo um cinqüentão qualquer que se achava na fila, nos divertimos com a idéia de “denunciá-lo” às “otoridades” para ganhar uma grana.

Encarnación nos pareceu bem mais provinciana que Posadas, ainda que seu povo possua um típico humor descontraído e sacana de brasileiros. O Paraguai é uma espécie de sub-colônia cultural do Brasil, onde a atitude e a mentalidade mais povão se manifesta radicalizada. Na “zona baja” (o mercado informal, situado na várzea do Rio Paraná, de um calor úmido insuportável) os camelôs com mesas na calçada (nem tendas ou barracas existem, lá o governo ainda não resolveu “civilizar” o comércio da muamba, como no Brasil) são os mais sofisticados. Pois a regra é o andarilho, que percorre a rua com suas quinquilharias, abordando veementemente cada estrangeiro, ou raro nacional desavisado que por ela circula.

Foi com um destes que o companheiro Valdir acabou comprando um relógio de “primeira” pela bagatela de uns cinqüenta reais, com a minha influência, pois além de achar barato o produto, acreditei na lábia do paraguaio e lhê afiancei o qualidade e autenticidade do belo relógio “Oriento” que lhe era oferecido. Só no dia seguinte, quando íamos de Posadas a Oberá, voltando para o Brasil, e o alemão deu com um atraso de vinte minutos no relógio a pilha, em relação aos nossos relógios, é que fomos examinar a marca dele e descubrimos que era um produto autenticamente nacional. O tal “Oriento” (comprado junto com um fajuto “Ray Ban”, que outro ambulante conseguiu passar ao alemão, na mesma ocasião) não passava de um “Orenete” original… do Paraguai!

Ainda quando visitamos a “zona baja”, tive a ocasião de divertir-me, e me esquivar de gastar meus pesos argentinos (há em Encarnación, não sei porque, uma certa preferência pelo dinheiro platino em relação ao Real), quando um índio gaiato, mais ou menos da mesma idade e compleição física do matuto de Posadas, na praça principal, horas antes, me oferecia aos gritos, e com um sorriso maroto, uma “faca para matar la sogra”. Confesso, que se não tivesse me livrado do arremedo de semelhante parente, que possuí na época em que me enredei com o grande amor da minha vida, teria certamente pago até o dobro do preço para adquirir tão útil objeto.

No almoço, ocorrido antes da visita ao mercado popular, foi que descobrimos, com o garçom, o significado de “panceta” (gordura da barrica do porco, ou, conforme os “grandes irmãos” – the big brothers – yankees, bacon) e do próprio do estabelecimento: Carumbé – que, conforme o simpático caboclo paraguaio, “es la tortuga”. Vendo que o gaúcho idiota de ascendência açoriana, e de velhos portugueses lagunistas, aqui não entendia, apesar de lhe perguntar em castelhano, me traduziu de imediato: “tartaruga”.

Mas a grande sensação da expedição ao Paraguai foi o guaraná local, de marca “Simba”. Seu sabor simplesmente passa a milhões de quilômetros adiante dos nossos guaranás aguados e açucarados. É o mesmo dos extratos medicinais de guaraná em pó, com o sabor acentuado da fruta. E a multinacional que o produz no Paraguai, e no Brasil vende água açucarada, é a mesma Coca-Cola yankee de cada dia. Apaixonados pelo sabor, quase trouxemos alguns litrões de contrabando.

 

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 3


Na manhã de segunda-feira de carnaval, finalmente tivemos contato com a alma de Posadas. Percorrendo a praça principal, lotada de barracas de artesanato e de guaranis desempregados a perambular, vendendo alguma bugigana ou simplesmente vagando, alguns dormindo bêbados ao pé dos monumentos, tivemos a ocasião de constatar o conflito subjacente de um povo cujo coração da capital ostenta homenagens em pedra ao opressor portenho que subjugou, na Guerra do Paraguai, uma região pertencente ao Paraguai e, anteriormente, fora parte da vasta república (informal) guarani estabelecida pelos jesuítas.

A seriedade provinciana patriarcal do branco descendente de espanhóis pesa, naquelas latitudes, como o próprio calor sufocante, sobre o mudo sofrimento dos filhos da terra. E, em nenhum lugar vi, até hoje, atitude tão refratária à curiosidade “religiosa” de dois ateus safados. Valdir, entusiasmado com o templo católico secular que se erguia no fundo da praça, se dirigiu a uma ilustre “señora” da cidade, que dele saia, perguntando-lhe: “que iglesia es esta?” E a “madame”, que mais parecia a mulher de um “don” que uma beata, na faixa dos quarenta anos, nos responde secamente: “la iglesia catedral!” Nada de informação sobre o santo de invocação nela cultuado ou sobre a história da catedral. A mensagem sub-reptícia era óbvia: o que querem estes brasileiros curiosos e irreverentes? Esta aqui é a casa sede da nossa rotina ossificada e necessária e está acabado. Aqui é a casa em que o supremo poderoso abençoa os poderosos cá da terra em nome da ordem imutável e nada de firulas, senhores turistas “devassos”.

Mas apenas a algumas dezenas de metros à direita, junto à rua lateral onde se ergue o palácio do governo provincial (velho palacete de um único andar, construído com pátio interno à moda das antigas sedes de fazendas da América espanhola, e com uma arquitetatura mais de quartel que de sede de governo) tivemos o absoluto contraste com a castelhana seca.

Perguntamos à algumas índias que casa era aquela e, como ninguém sabia nos responder, questionei um velho colono, destes de chapéu de palha e calça remendada (verdadeira figura de caipira ou matuto na região nordeste do Rio Grande do Sul) se aquele era o palácio do governo. E o velho, com um sorriso maroto, atravessado por um palheiro típico, nos respondeu: “Es la casa del cabeza grande”. Eu, encontrando naquela figura algo familiar a um roceiro brasileiro, resolvi fazer graça e lhe respondi: “dicen por la calle que él (o governador, o ‘cabeça grande’) también es cuerno!” E o velho, entre sarcástico e socrático, me devolveu: “Se es casado este es un regalo que hace parte”.

 

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QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 2


Na modorrenta tarde de domingo Posadas fazia jus à “siesta” costumeira: ainda que os carros passassem sem cessar junto às mesas externas do café (no centro, não há meio-fio nem asfalto, o calçamento é todo de lajotas e a calçada é dividida do leito da rua por palanques metálicos de meio metro de altura, dispostos a cada vinte centímetros), que se achavam lotadas, o clima dos castelhanos “misioneros” era de um tédio sepulcral. Até mesmo a mais gostosa e jovem loirinha, que se sentava com suas amigas junto à porta, na esquina, à nossa esquerda, tinha aquele típico ar de aborrecimento…

Contaminados pelo humor local (que não sei se deriva do calor abafado da mesopotâmia argentina ou da cerveja servida em baldes de plástico e refrescada por água fria, na qual bóiam cubos de gelo – o que a faz esquentar logo), eu e o alemão Valdir não nos sentíamos também muito inspirados para conversar. As frases eram esparsas, preguiçosas e pulavam de assunto, sem manter continuidade. Mas isto não nos impediu de tomar umas boas quatro Quilmes Imperial de litro.

Por natural inclinação de tarado, e para espairecer o tédio, eu corria o olhar pela rua, procurando um belo par de coxas e seios onde pudesse espanar a poeira do olhar, quando me fixei em uma loira de seus vinte e tantos anos, que em nada se parecia com a maior parte da população local, em que predomina a pele cor de cobre dos guaranis missioneiros. Durante mais de uma hora a contemplei, toda vestida de preto, com uma pele branquíssima e um rosto digno de uma senhora inglesa ou sueca de alguma pintura clássica do final do século XIX. A fascinante figura chamava atenção, além de sua estampa, pelo fato de se encontrar lendo, tendo sobre a mesa uma xícara (chá, como caberia a tal européia imagem, ou um simples café?), e por não erguer os olhos, sequer por um instante, para observar a paisagem circunstante.

Parecia uma estátua ou uma deusa caída na terra, sublime e indiferente ao movimento que a cercava (ainda que não houvesse muito burburinho: não se ouviam gargalhadas estrondosas, nem o falar aos gritos de um típico bar da cidade baixa, em Porto Alegre). E, após um bom tempo, pagou a conta e foi-se embora, sem que em momento algum eu a tivesse visto beber da xícara. Mas o mais estranho (que acabei por notar, apesar da minha distração de DDA) é que, em todo tempo em que esteve sentada na calçada, jamais virou a página do livro!

Mais tarde, no hotel, antes de ir jantar no bar do pançudo, eu e Valdir discutimos a respeito e concluímos: aquela não era uma gata argentina comum, metida a sofisticada. Só podia ser uma espiã da CIA (o que não seria novidade na Tríplice Fronteira, que, segundo os paranóicos yankees, é palco de conspirações palestinas)! Mas se este era o caso, se deu mal! Primeiro que nada teria a descobrir de dois solteirões malucos, metidos a anarquistas, que mal conseguem dirigir a própria vida, que dirá “subversivos” movimentos anti-americanos. Segundo que o disfarce da leitura pecava no essencial: não trocar de página por mais de meia hora denuncia qualquer curioso sentado à mesa de bar! Não posso afirmar que a moça era realmente uma espiã (seria muita paranóia), mas, em todo caso, a CIA devia treinar melhor suas agentes.

 

Ubirajara Passos

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 1


Domingo de carnaval, 11 horas da manhã. Eu, meu velho amigo Valdir Bergmann, o seu sobrinho Rogério Seibt (o que morou na “república” de Petrópolis, em Porto Alegre) e sua namorada Eliane, nos preparávamos para atravessar o Rio Uruguai, na barca que vai de Porto Mauá a Alba Posse (do lado argentino). Preocupado com as exigências alfandegárias na volta da viagem, o alemão Valdir resolveu consultar o agente brasileiro sobre a quantidade e natureza de muamba que podia trazer do Paraguai e da Argentina. O sujeito magro e cumprido, de cabelo curto, já com algumas entradas, e com um inconfundível ar de velho boêmio dos anos cinqüenta (não fosse o cantor Nélson Gonçalves já morto e o cara poderia ser confundido com ele), responde, acocorado junto à porta da aduana, com o ar mais despreocupado possível: aqui passa tudo, farinha, uísque, o que o senhor quiser, até carne… sem problemas, mas só aqui em Porto Mauá!

Na entrada na Argentina, a coisa já não era tão descontraída. Os agentes da polícia federal platina (lá a aduana é responsabilidade deles e não do tesouro nacional) fazem a pose mais pomposa no momento em que, com nossas identidades em punho, nos perguntam aonde vamos e quando voltaremos, para nos dar a autorização para circular no país (viva o Mercosul que controla o trânsito dos filhos da confederação em cada fronteira!). E, enquanto aguardamos com ar de cachorro “pidão”, se divertem cochichando e rindo no sotaque castelhano mais ininteligível, que eu e Valdir, que falamos espanhol (o alemão chegou a fazer curso), simplesmente não conseguimos decifrar.

Liberados pelas otoridades “hermanas”, seguimos estrada a fora, a passar sobre “lomos de burro” (literalmente “lombos de burro”, nome com que estão grafadas as “lomadas” – lombadas – na província de Misiones, desde Alba Posse até Oberá, daí por diante elas tem o nome normal) envoltos em ambas as margens da rodovia pela “selva” missioneira (que na verdade, mal passa de uma matinha, semelhante a estas que se vê nas áreas mais remotas de Rolante, Rolantinho da Figueira, Cará ou Santo Antônio da Patrulha, no nordeste do Rio Grande do Sul).

A esta altura, Rogério tira sarro da namorada Eliane, que se acha emocionada. É a primeira vez que bota o pé fora do Brasil e, apesar de Santa Rosa estar a apenas 30 km da fronteira, nunca visitara a Argentina Faço coro à gozação, para disfarçar, mas a verdade é que visito Oberá pela segunda vez, recém estive em “Paso de los Libres”, na semana anterior, e é a primeira vez que me adentro até a capital da província e ao Paraguai.

Lá pela uma hora da tarde, chegamos a Oberá e vamos direto para o restaurante Moscow, onde eu e Valdir enchemos a cara quase todo o tempo, na primeira vez em que lá estivemos, um ano atrás. O objetivo é óbvio: inaugurar a beberagem em plena calçada, frente à praça principal da provinciana Oberá (cidade de cerca de 60.000 habitantes, como Santa Rosa, e, como esta, com uma população extremamente multi-étnica).

Veio nos servir o mesmo garçom que em 2006 se divertiu às pampas com os dois brasileiros doidos, nos ensinando palavrões em espanhol, depois que lhe perguntamos, num castelhano sofrível (de quem conhece, mas não pratica o idioma) como se costumava mandar tomar no cu por lá. E o safado nos respondia no português mais claro: el señor puede hablar “dar a bunda”, “vai dar a bunda”, la gente entende”. E depois, entusiasmado, nos disse palavrões tipicamente castelhanos, ao ponto de, após servir alguns fregueses no interior do restaurante (bebíamos, obviamente, na calçada), voltar rsisonho e nos conta de mais alguns que se lembrara no caminho.

Almoçamos no cassino ao lado, onde o único evento digno de nota (e da censura contida da Eliane, que devia estar doida pra rir na nossa cara) foi o fato de eu e Valdir, já meio-bêbados, e após um ter criticado o outro pelo fato, errarmos a porta e entrarmos no banheiro das mulheres. Ocorre que o banheiro masculino fica no fundo de um corredor, apesar da indicação no seu início, o que nos induz a erro, pois o feminino tem acesso diretamente na porta. Quando dei com aquela fileira de portas fechadas e nenhum mictório na parede, percebi a besteira que havia feito. Mas aí, azar. Me enfiei na primeira “casinha” e apenas esperei que uma castelhana velha, que se achava na privada ao lado, saísse para lavar as mãos e disparei em direção à saída, não sem deixar a argentina com os olhos esbugalhados.

Duas horas depois chegávamos à capital de Misiones, Posadas, à margem do Rio Paraná, junto à fronteira com a paraguaia Encarnación. Após levar um susto, pois não localizamos logo o centro e a cidade de cerca de 400.000 habitantes (bem grandinha para uma capital da região, com população equivalente a Caxias do Sul, uma das maiores cidades do interior do Rio Grande do Sul) nos parecia mais provinciana que Oberá, encontramos a praça principal, onde nos hospedamos num hotelzinho que fica no alto de uma galeria comercial (há pelo menos dois na cidade com esta característica: o City Hotel, onde nos hospedamos, e o Continental, ambos na rua principal do centro histórico).

Brasileiros e gaúchos desavisados que somos, após descarregar as malas e dar uma descansada (o que equivale a tomar mais umas cervejas no quarto do hotel), resolvemos ir encher a cara na praia do Rio Paraná( a “costanera”). Lá encontramos apenas um buteco aberto, com um setenta clientes e um único garçom, que, não nos servindo em vinte minutos de espera, mandamos à merda e fomos procurar outro bar.

Deslumbrados com um barzinho próximo, onde não havia ninguém, fomos logo nos abancando, até sermos informados que se encontrava “cerrado”. Procura de lá e de cá, chegamos a um simpático restaurante envidraçado, cujo proprietário, um gordo argentino de vastos bigodes, com um ar de português (devia ser descendente de galegos), se encontrava sentado em uma cadeira à frente da porta, na calçada, de sapatos e calça social, mas espunha uma indecente e enorme pança nua, que acariciava com o ar mais solene e modorrento possível. Ali era impossível, apesar de não vermos clientes à vista, que não pudéssemos saciar a nossa sede de entornar cerveja às margens do grande rio, contemplando o Paraguai, do outro lado.

Mas eis que o sujeito, com o ar mais sério e lacônico (que contraditava aquela “indecorosa” barriga) nos avisa: “está cerrado, solo abre a las seis y media”. E nos informa, a seguir, o que, para marinheiros de segunda viagem (ao menos eu e Valdir), já deveríamos nos ter lembrado: além de ser domingo, vige na Argentina o tradicional hábito ibérico da “siesta” (coisa que entre nós, brasileiros colonizados e metidos a modernos, ilustres adoradores do capitalismo mundial, se extinguiu há muito tempo, mas era tradição lusitana, mantida até o princípio do século XX).

O resultado foi ir beber no principal e mais chique restaurante do centro, na calçada do pleno coração histórico de Posadas, cujo nome, no momento não me lembro, mas, se não me engano, atendia por uma ilustre expressão francesa, e era todo ele de um estilo clássico digno dos anos quarenta no Brasil.

Já noite, enxugados da cerveja “número um” da Argentina (a “Quilmes”, no caso “Quilmes Imperial” de litro, o equivalente bem melhorado de uma “Brahma Extra”), voltamos ao buteco do pançudo para jantar. E que surpresa: o principal prato era “panceta” (carne da barriga do porco)! Vai lá que o dono do estabelecimento não lagarteava à sua porta, em horas de descanso, de barriga de fora por acaso. Isto devia ser propaganda subliminar: estão vendo a minha “pança”? Aqui se serve “panceta”!

Amanhã conto o final da noite e o segundo dia em terras tropicais do antigo Vice-Reino do Rio da Prata, no coração da América do Sul. Gracias, y hasta la vista.

 

Ubirajara Passos