A BANALIDADE DE NOSSAS VIDAS


O companheiro que está aí, sentado em frente ao computador, no maior tédio domingueiro, lendo este blog por não ter coisa melhor que fazer, já parou um segundo para pensar no tamanho do aborrecimento que são as nossas vidas?

Durante a semana assumimos o papel de escravo bem comportado, anulando o mais rico e criativo de nossas personalidades para vestir a fantasia de sisudo operário de fábrica, funcionário público ou atencioso e sorridente vendedor de loja (daqueles cuja atenção e sorriso é explicitamente regrada pela “Qualidade Total” e parecem uma pantomima pior ainda do que os gritos de gozo de filme pornô vagabundo ou o falso entusiasmo de putinha nova e impaciente). Isto para ficar apenas nas funções mais paradigmáticas da robotização capitalista. A coisa atinge em cheio toda a classe trabalhadora.

Esgualepados e totalmente idiotizados pela estafante e inumana rotina do trabalho (de cuja tentativa de amenização, pelo mínimo sorriso ou piada expontâneos, é vigiada de perto pelos peões-chefetes-feitores de escravo e logo devidamente “punida”), chegamos aos fins de semana (os mais sortudos tem também a manhã de sábado de folga) e tentamos então viver a feérica aventura das festas e bares noturnos (regurgitando com o mais imbecil entusiasmo as velhas bobagens boca abaixo e nos atirando às fodas cruas e mecânicas, na esperança de alcançar um gozo, que só é completo quando vai além do corpo e nos alenta as emoções mais caras).

Ou, no caso dos mais acomodados (o que quer dizer também “casados”, pois o que hoje conhecemos por casamento é unicamente acomodamento) ou cujas forças foram dizimadas pelo tempo, fingimos o maior contentamento no pretenso idílio doméstico de todo domingo.

Isto quando não mergulhamos na churrascada e na cachaça (ou somente nesta e no baseado, no caso daqueles companheiros que nem emprego formal possuem ou cujo salário e condições de trabalho não o diferenciam de um esmoleiro).

Ou praticamos o auto-flagelo mental de ficar babando frente ao “tótem” eletrônico, onde Faustões e Sílvios Santos relincham e guincham as mais tediosas banalidades como se fossem “as últimas novidades vindas de Paris” dos antigos mascates (há é claro também a possibilidade, igualmente banal e sem sentido, de tentar revolucionar as precariedades da nossa vida de escravos consentidos, estrabuchando e rebentando a garganta, aos gritos de louvor a Deus, em qualquer cassino chamado de “igreja pentecostal”).

Mas o fato é que, nos raros momentos, em que nossa mente se encontra livre da hipnose quotidiana (imposta pelos dominadores e aceita com a maior boa vontade por nós, bestas masoquistas), tudo o que enxergamos no horizonte é um vazio oco, fútil e desprovido de qualquer sentido, de prazer ou dor reais e dignos de criaturas cuja capacidade mental ultrapassou em muito a de um cachorro (não creio que o totó tenha idéia de sua existência como ser particular ou da sua condição dramática de mortal), mas cujas emoções, deformadas e tornadas tão descartáveis quanto qualquer geringonça de plástico, perderam o contato com a energia saudável e viva, imediata e vinda das entranhas, que anima o cão.

Ubirajara Passos

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2 comentários em “A BANALIDADE DE NOSSAS VIDAS

  1. gerson disse:

    Bá tchê, andás desaparecido!
    Li sua última poesia. muito boa.
    Telefonei para teu serviço,casa e celular, mas nada.
    O bugiu esta a solta, ou te baixou o espírito de tropeiro errante?
    Mande notícias, para que possamos tricotar a vida alheia, no bom sentido.
    Se precisarés de algo, é só dar um grito, os amigos são para estas coisas.
    Um forte abraço.
    gerson

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  2. Oi Ubirajara,
    nesse Blog tem um monte de coisinhas essenciais para a vida de um poeta. Você já “concebeu” um poeta ou um poemador sem gostar de uma putaria? Se deu tempo de ler a minha crônica e chegou nos “adendos”, deve ter chegado aos livros escritos e programados. O primeiro é: “Opúsculo de Amor e Obscenidades”; o próximo é: “Fescenino – Diário do Sexo”; depois tenho outros que não estão alí relacionados.
    As crônicas, ou os títulos de algumas são também hilários como: “O Metrossexual da Rua da Praia”; “A Ninfeta da Rua da Praia”; “O Chamego na Rua da Praia” e por aí vai.
    Com certeza, o bom poemador gosta de putaria. Haja vista, Gregório de Mattos Guerra e agora há pouco o baluarte da literatura latino americana escrever: “Memória de Minhas Putas Tristes”.
    Meditações é sempre aquilo que nós, os escribas de tempo integral queremos e por ùltimo, as narrações que você fala que são de um anarquista heterodoxo. Para mim seria muito ter um anarquista ortodoxo.
    Você sabia que levamos uns anarquistas da FAG a um programa que ajudo a fazer na POA TV – Canal Comunitário de Porto Alegre e eles queriam “por ordem” na casa? Acharam que o nosso programa é muito anarquista para o gosto deles.
    Oh seu Bira, esse Blog não faz aniversário? Não tem churrasco? Como é a coisa? Bom, vou ficando por aqui que já estou ficando abusado… prometendo voltar porque agora eu sdó dei uma olhadinha. E essas cantigas são coisas sérias.
    Ah, eu estou no ORKUT com o nome: geraldo potiguar nascimento junto com um monte de amigos e amigas que gostam de escrever e… ler.
    Prometido e cumprido !!!!
    Um abraço.
    GERALDO POTIGUAR DO NASCIMENTO.

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