Até a mídia burguesa reconhece: o capitalismo é irracional e está no limite do insuportável!


Como anarquista não sou nenhum destes militantes socialistas ingênuos (nem um de seus matreiros líderes propagandistas de asneiras) para acreditar em análises políticas superficiais e espetacularistas, ou em simples fórmulas pré-estabelecidas, como aparenta o título provocativo desta crônica. Mas o fato inédito que, como se verá, sequer pode ser confundido com o mero puxa-saquismo do falso verniz socialista do governo do Inácio, parece justificar, desta vez de forma real e válida, a tese de que a opressão da massa de trabalhadores fudidos, de todas as camadas e matizes, atingiu tamanha intensidade (o que não deixa de ser verdade no fascismo informal do Brasil de hoje) que as consciências se libertarão na porrada das amarras que as mantém sob o jugo da safadeza alheia, da auto-submissão masoquista e da ignorância mútuas.

Desde piá (muito antes de aprender a ler e escrever) convivo com a presença do Almanaque do Pensamento, velho guia astrológico anual que publica, no Brasil, previsões e (como todo almanaque) artigos de curiosidades e utilidades os mais vários, há exatos 97 anos. Foi no do ano de 1982, por exemplo, que tomei, pela primeira vez um contato um pouco mais estreito com as previsões mileranistas de Nostradamus e outros, que alimentaram o meu misticismo ateu (podem crer: como contradição em pessoa, consigo ser simultaneamente anarquista e brizolista, racionalista e místico, predominando sempre a consciência livre e questionadora sobre tudo). Como quase todo esquerdista revolucionário, aliás, sempre nutri esperanças secretas e inconfessáveis de que os apolicapses da vida fossem uma obscura confirmação da da derrocada inevitável da sociedade hierarquizada e a assunção da igualdade e da liberdade absolutas para a humanidade.

Ocorre, entretanto, que, apesar das minhas suposições e interpretações íntimas, o referido almanaque jamais teve qualquer familiaridade com ideais de redenção da classe trabalhadora, se atendo sempre aos assuntos próprios do seu gênero e, sempre que abordou política, em suas diversas edições ao longo do tempo, reproduziu fielmente o discurso da mídia burguesa, se esmerando, por exemplo, em sua edição para 1972, na louvação mais descarada ao general gorila mais sanguinário e anti-povo dos que ocuparam o poder na última ditadura fascista formal , Emílio Garrastazu Médici.

Na página 2 da edição citada, pode-se ler no horóscopo para o Brasil referente ao quarto trimestre de 1972, por exemplo: ” Esse aspecto vaticina notáveis mudanças, favoráveis aos meios sociais e governamentais; haverá modificação nas ações do govêrno, porém sempre de modo acertado(grifo nosso); haverá igualmente melhora financeira e progresso nos assuntos relacionados com o poder judicial“.

Na edição para 1989, em pleno governo inaugural da ditadura informal (já promulgada a Constituição de mentirinha de 1988, para ser desrespeitada escancaradamente todo dia), na gestão do senhor feudal José Sarney, a rasgação de seda governamental e a falta de contato com a realidade efetiva é mais explícita e violenta ainda. Veja-se estes trechos:

“Haverá melhorias para a população de maneira geral, o que permitirá que as pessoas individualmente, vivam melhor, ainda que numa escala social maior tudo permaneça confuso e indefinido”;

“Ainda não haverá um acordo total entre o governo e os anseios da população, sendo necessárias algumas reformas que, até o final do ano, serão iniciadas (especialmente após o mês de setembro, mês em que é delineado um novo horóscopo anual para o país”;

“Até esse mês, as ações individuais (seja cuidando da própria vida, seja cuidando de negócios particulares), serão mais produtivas do que as ações conjuntas com o governo ou na dependência deste”; “Mas entre setembro e novembro a situação reverterá, dando impulso para uma fase nova e produtiva do nosso país” (casualmente se elegeria o mais badalado corrupto esquizofrênico – ainda que não tão eficaz na corrupção quanto o Inácio – o Fernandinho do Pó).

Já na edição para 1991, em plena era Collor, a coisa assume ares defintivos de defesa do regime vigente e das análises econômicas falcatruas do neo-liberalismo fernandiano:

“O ano de 1991 começará de forma muito positiva para os brasileiros, pois devido a bons aspectos da Lua progressada, a população como um todo terá melhores  condições de saúde, higiene, alimentação e trabalho”.

“Nos meses de janeiro e fevereiro a população receberá essas condições de vida, através de acordos feitos tanto com o governo quanto com a classe empresarial”.

“Os trabalhadores terão momentos difíceis nos meses de junho e setembro, quando poderão sofrer uma diminuição de salário, ou alguma forma de dificuldade financeira. Mas o mês de julho trará uma melhoria significativa no âmbito econômico, de forma a contrabalançar possíveis prejuízos”(grifo nosso).

No último trecho das previsões para aquele ano a epifania governista  atinge o auge do orgasmo astral: “O país será governado de forma estável e forte por seu dirigente máximo, dando continuidade à sua maneira de governar, desde que assumiu a Presidência do país”.

No ALMANAQUE DO PENSAMENTO 2010 (98º ano), entretanto, para espanto absurdo de quem tenha acompanhado a publicação ao longo das décadas (de que dei apenas 3 exemplos clássicos, haveria muitos outros entre os volumes que possuo em minha coleção) o discurso mudou diametralmente, a ponto de fazer tremer o menor pentelho (como diria, e escreveu certa feita no jornal do Sindjus-RS, o Lutar é Preciso, o meu amigo Moah, para escândalo dos diretores pelegos de plantão).

Nas previsões de caráter mundial  pode-se ler, por exemplo:“Um Vislumbre de 2010”(…) “Haverá protestos da população no mês de janeiro, e depois de abril a setembro”

“Independentemente das medidas políticas adotadas pelo governo, a situação econômica e financeira do país se revelará insatisfatória. O aumento de taxas e impostos cria insatisfação na população.”

“A partir da primavera tudo será questionado e até dezembro o mundo viverá um período de calma de pouca duração.”

“O ano se encerra numa atmosfera de lentidão: tanto os jovens como as pessoas idosas terão bons motivos para demonstrar sua insatisfação (…)

Já nas de caráter nacional, o compromisso com a realidade econômica e social concretas (e não a interpretação distorcida da imprensa submissa aos interesses da classe dominante) se faz plenamente presente:

Horóscopo para o Brasil no ano de 2010″

…) “O cenário macrocósmico estará dramático: quatro dos cinco planetas coletivos  estarão se relacionando de forma tensa no céu e nos primeiros graus dos signos cardinais, considerados por um lado como criativos, heróicos e renovadores, mas também impulsivos, bélicos e explosivos. A última vez que uma configuração semelhante ocorreu foi nos anos 30 e nos deixou como legado daquela época a queda da bolsa de Nova York, alguns golpes de estado, falências bancárias, redução drástica do comércio mundial, graves índices de desemprego, invasão da Manchúria pelo Japão, emergência de regimes totalitários, criação da bomba atômica, desmoronamento do liberalismo econômico na Europa. É claro que houve mudanças positivas, mas não são delas que nos lembramos.  E agora, o que podemos esperar? Um período de desafios sem semelhantes e de mudanças radicais para a humanidade e para o planeta.”

No parágrafo abaixo a coisa se aprofunda e assume o caráter nítido de análise socialista do mundo e da história humana:

“Na verdade, o paradigma em que nossa civilização mergulhou parece estar falido. Desde a Revolução Francesa vimos sendo orquestrados pela batuta de uma classe que chegou ao auge da dominação econômica e detém 95% dos principais ramos da economia e da sociedade atuais: o bancário, o do petróleo, o armamentista, o da mídia/comunicação/tecnologia, o químico/farmacêutico e o religioso. São muito poucos os indivíduos que dominam os 6,5 bilhões de seres humanos carentes e ignorantes da sua existência e atuação sem escrúpulos e sem ética. O estágio de incivilidade e de insustentabilidade que atingimos só tem sentido sob a ótica deles, do consumo, do poder ou do abuso do poder desses setores e classes dominantes. Atingimos o máximo que o racionalismo pôde chegar, fomentado pela ganância e pela sede de poder dos que estão por cima. A civilização contemporânea está de luto pela morte dos sentimentos, pela perda de sentido e pela ausência de significado que atingiu. Os aspectos que estão por vir, inaugurados por Plutão em Capricórnio, derrubam velhas e rígidas estruturas, porém são tremendamente criativos e e nos estimulam à reconstrução de uma nova sociedade, de uma nova estrutura, que partirá do físico, do básico, do concreto, do alicerce.(…)

Se o leitor já se encontra apavorado com o salto mortal do posicionamento ideológico e filosófico, leia então os trechos que se seguem, encharcados na mais pura e engajada propaganda revolucionária:

“É claro que o Brasil não poderia ficar à margem destas grandes mudanças. No entanto, por aqui as transformações serão mais concentradas nos aspectos político e social do que no econômico. Economicante, o Brasil parece estar bem, parece estar forte e deve atravessar a crise econômica mundial sem grandes percalços. No entanto, não esqueçamos que estamos num contexto e que o mundo está em crise. Mas é politicamente que por aqui não sobrará pedra sobre pedra e que finalmente chegou a hora dos velhos caciques da oligarquia brasileira darem lugar ao sangue novo, ao empreendedorismo, à criatividade e à juventude que intenciona replantar uma sociedade em bases mais justas, éticas e sustentáveis. O ano de 2010 representará uma quebra de paradigma na civilização humana e a tensão celeste ativará bastante o mapa natal do Brasil: assistiremos mudanças radicais ocorrerem nos poderes legislativo e executivo do nosso país, com direito a descobrirmos toda a corrupção e bandalheira que existe por trás destes poderes. Assistiremos ainda a verdadeiras convulsões  sociais, fruto do aumento do aumento da violência urbana e da indignidade do povo brasileiro que não aguenta mais tanta fome, miséria e injustiça.”

(…) Devemos agradecer por estarmos vivos neste momento tão importante da história humana, pois poderemos assistir o Brasil e o mundo se transformarem a olhos vistos”.

Confesso que a natureza da profecia é entusiasmante e fez a mim e ao Alemão Valdir (para quem enviei, no mês de janeiro, por e-mail, os trechos de 2010 reproduzidos) delirar em transe místico-anarquista por semanas. Mas, a parte a validade científica das “previsões”, o fato é que temos pela frente um fenômeno extremamente original, que não se explica nem por uma pretensa orientação vermelha da redatora dos textos (cujo site acessei e pude verificar não justifica tamanha verve revolucionária, ela até se pretende assessora esotérica de empresários). E que só pode ter uma única justificativa cabal: a pressão concreta da voracidade e do sadismo do escravismo assalariado no Brasil, e quem sabe a nível internacional, atingiu um limite tão absurdo que a própria imprensa burguesa baba-ovo, prenunciando (não pelos métodos mágicos ou paranormais, mas pela simples sensibilidade sócio-antropológica, que, talvez seja facilitada no âmbito dos profissionais da astrologia e outras práticas místicas) o estouro da boiada e a revolta generalizada contra tais condições, já está tratando de se adequar aos novos tempos, abandonando os capitães do mato de luxo da classe dominante (leia-se políticos e ideólogos de todo tipo, a começar por sacerdotes de tudo quanto é culto).

Talvez não vejamos realizado nem um centésimo do furor revolucionário previsto, e a alteração diametral de posição do anuário seja apenas um fato a ele restrito. Mas, como diz o próprio texto reproduzido, tal aceitação tão escancarada da realidade política e social, tal qual ela é, e vem sendo denunciada pelas gerações de revolucionários, é, no mínimo,paradigmática!

Ubirajara Passos

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Submergindo na Inciência


Após quase dois anos sem escrever uma única palavra neste livro eletrônico, embalado neste renascer de primavera (que continua insistindo em ser inverno, os termômetros registram 14º C neste momento), resolvi dar seqüência, hoje, à fábula Erótilia. Segue aí mais um pequeno capítulo:

Submergindo na Inciência

Nos dias que se seguiram, mestre e discípulo imergiram totalmente nas brumas alcoólicas, e, porre após porre, ressaca, após ressaca, Pancius foi instruindo Epicuro nas artes do desapego absoluto e do desprendimento dos hábitos de comportamento automáticos e auto-limitantes. Todas as rotinas imóveis e encarceradoras de postura, todas as etiquetas, do falar, do comer, as dissimulações hipócritas do modo de olhar e de falar, as regras da rigidez nos gestos íntimos ou públicos foram colocadas em questão e demolidas. Não pelo discurso racionalista. Nem pelas exortações panfletárias e milenaristas dos místicos revolucionários. Mas justamente pelo descontrole pessoal das situações, o deixar-se levar e o rompimento fisicamente obrigatório com os “bons modos” e a autodisciplina.

Jogado num turbilhão incontrolável de vinhos, cervejas e destilados de ervas amargas e aromáticas, o noviço pagão perdeu completamente a vontade própria, conduzido pelo cansaço físico e a confusão de estados d’alma. E o gordo mestre tratou de ensinar-lhe então o prazer ou a simples satisfação de vomitar-se todo, no auge da bebedeira. De mijar na toga, cagar em qualquer canto de floresta, rolar-se no chão e sujar-se, caminhar pelado na chuva, comer qualquer fruta achada pelo caminho, com as mãos embarradas da terra mãe, e simplesmente respirar, comer e viver segundo as pressões imediatas do corpo, da luz solar e da escuridão, dos ventos, do calor tórrido e das neblinas.

No nono dia de “loucura mansa”, quando Epicuro se encontrava absolutamente envolto nas ondas do inconsciente, e preparava-se, extenuado, para dormir uns bons três dias sem intervalo, Pancius o acordou, seis horas enjoadas de uma madrugada de outubro e o conduziu para um banho gelado no lago local, o fez vestir-se impecavelmente e pôr-se em marcha por uma trilha pedregosa e completamente cerrada de mato, enormes troncos e cipós de ambos os lados.

Ubirajara Passos

DOIS POEMAS SAFADOS E FILOSOFANTES


Estive desde domingo até hoje em campanha eleitoral para a escolha da próxima direção do SINDJUS – RS em 14 de maio, percorrendo as comarcas do interior do Estado nas regiões do Alto Uruguai, Noroeste, Missões e Planalto Médio, em razão do que foi impossível publicar novos posts no blog. Hoje, entretanto, deixo para o deleite dos leitores os dois poeminhas cretinos que seguem.

De intimidades…

No momento do gozo supremo
Haveremos de encontrar,
Em meio à explosão do “Big Bang”
(Que o universo é produto de um orgasmo)
A mesma besta e gratuita alegria
De uma pilhéria casual ao pé do fogo,
A intimidade e a descontração
Daqueles que primeiro riem juntos
E na corrente entusiástica do humor
Forjam a torrente incoercível do amor!

 

Vila Palmeira, 12 de março de 2004

Ubirajara Passos

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Anima Mater

Vem a mim, deusa loira da meiguice,
Vem a mim, mãe terna, louca amante,
Vem-me ninho de aconchego e doçura,
Ciclone de prazer forte e profundo!
Vem raiz de toda vida, seio
Fértil do mundo,
Mulher-mãe-de-tudo!

 

Gravataí, 14 de novembro de 2004

Ubirajara Passos

CÔNIDE SELÊNIA


Sábado sempre foi para mim o melhor dia da semana. Mas, nos últimos tempos, a depressão o transformou numa das tediosas ocasiões da minha rotina. Tudo que de “notável” se passou hoje foi o telefonema de uns três amigos: um baiano doido e tarado, passando “férias” no Rio de Janeiro, fascinado com a possibilidade de ir à “Vila Mimosa”; um companheiro de partido recém vindo do litoral do Rio Grande, dando notícias das últimas tropelias do presidente do diretório municipal; e um alemão quarentão, morador de Santa Rosa – RS, a comemorar a derrubada de um helicóptero yankee com uma tripulação de “13” soldados.

O que não me impediu de, com o auxílio de algumas taças de vinho tinto serrano, concluir o terceiro capítulo de Erótilia, que aqui vai publicado para desenfado dos leitores que, eventualmente, como eu curtem o tédio de uma insossa noite de sábado.

Cônide Selênia

Epicuro ia, aéreo, campo a fora, já noite alta, sem lamparina, que havia lua cheia, a mente a revolver-se sem descanso. Que história era aquela do mestre, de iniciação prática? Pelo que sabia, e supunha assim fora com os mestres de outras eras, a iluminação era resultado de profunda e contínua imersão da mente, isolada do mundo e em contato estreito com a mente maior que nos habita. O máximo de promiscuidade com o mundo era o contemplar, também meditativo, da natureza. De lagos, bosques e montanhas… Mas vinha agora o mestre π (que nome estranho e enigmático!) lhe propor esse negócio de “prática concreta”! E ainda lhe enviava a qualquer megera, que devia ser uma destas feiticeiras cheias de crendices, de boa lábia e suprema vigarice…

A esta altura o discípulo iniciante já entrara bosque a dentro e uma rocha mais dura que pau de guri novo o acordou do devaneio, indo imprevista e indecentemente de encontro ao dedão do pé esquerdo. Contam as lendas erótilias dos pósteros, que o uivo de Epicuro, nesta noite, “foi tão agudo que até ouviu-o a própria lua, /no alto céu toda excitada… E os lobos responderam em uníssono/ e, temerosa, veio até ele a matilha/ lamber-lhe os pés/ e seguiu-o em cortejo”.

E, em meio à dor, e à confusão dos lobos mansos (que primeiro lhe deram terror e depois o deixaram estupefato com sua adoração), o futuro hierofante de Erótilia, viu, embasbacado e besta (dizem até que botou um metro e meio de língua pra fora e, nesta noite, da sua baba nasceu um pequeno riacho que cai montanha abaixo e desemboca em plena cachoeira), a coisa mais absurda e inacreditável. Epicuro que, até este dia, não passara da punheta e das rápidas metidas nas cabras de seu pai, se achava o suficiente acima dos “baixos instintos” para se dedicar exclusivamente “à arte dos mistérios”, sem a interferência nefanda dos falsos prazeres desvirtuadores. Mas aquilo não era coisa deste mundo, nem mesmo do outro! Num instante, na mesma velocidade em que seu falo crescia e se alçava ao céu, imenso (assustando os lobos, que desandaram em correria caótica, muitos despencando abismo abaixo), arremessaram-se ao infinito os códices, regras, crenças e ideais do noviço pagão e só restou uma única verdade. A que os olhos lúbricos de sua mente permitiam-lhe enxergar.

Banhada de luar e cachoeira, a imponente nudez loura alçava ao azul escuro da noite dois pontiagudos bicos róseos, túmidos de desejo, que se eriçavam na brisa arisca, enquanto suas mãos percorriam suavemente seu marmóreo corpo, dos fartos e empinados seios à bunda roliça e arrebitada. Cônide Selênia, era, na madrugada fresca e povoada de cricrilares e coachos, a própria volúpia encarnada na terra. E a mais enlouquecida e raivosa fera em luta se transformaria em um gatinho aos seus pés delicados e ágeis, que sustentavam pernas torneadas pela própria deusa do delírio onírico e grossas e lisas coxas, em cujo encontro o coral mais fino se constituía da vibrante xana, uma saborosa espiga de milho que fez o enfadonho discípulo de Π girar desenfreado de vontade lambê-la!

Uma onda arrepiante de prazer corria aquele corpo lindo, enquanto Cônide se masturbava, requebrando arfante, sob a cachoeira, e cantando um hino à sua deusa madrinha, numa voz que transportou Epicuro ao mundo do inacreditável. Era como se o tempo e o espaço houvessem desaparecido e ele tivesse sido arremessado a um estranho e fascinante escaninho do universo onde toda verdade e todo sentido fossem palpáveis ao menor toque, e, no entanto, avassaladores e incompreensíveis. Contrariamente à reação comum de um macho da espécie, ele se viu paralisado e suspenso no cosmos, fascinado como se tivesse sido conduzido ao centro do princípio de tudo, e ficou pasmo e paralítico, enquanto a loira lhe chamava com o dedo!

Instantaneamente tudo escureceu e Epicuro acordou-se, já tarde alta, deitado em um jardim desconhecido.

Ubirajara Passos

ÍNTERIM NO TEMPLO DO MAR


Publico hoje o segundo capítulo de “Erótilia”:

Ínterim no Templo do Mar

O sol ofuscante batia de chofre sofre a mesa envernizada e o bafo vindo do continente punha doido o Mestre do Templo, cuja pândega noturna se resumira a uma cervejada ao som alternado de cítara e tambores (só mesmo em Erótilia Antiga poderia haver uma combinação musical tão díspar) e a exaltadas declamações de improviso. Em meio à celebração particular, improvisadas coreografias de guardiãs da noite, peladérrimas e endoidecidas, frescas de brisa e ferventes de tesão, traziam à concretude carnal os sonhos dos poemas.

E agora aquela manhã insossa, aquele sol feitor de escravos gritando em claridade e a maldita necessidade de manter-se em pé! (Era o “dia do destino”, a data anual em que a configuração astronômica da lua chamava os vocacionados do velho culto a decidirem-se a dedicar-lhe a vida, e o Mestre devia ficar de plantão à espera dos futuros iniciados, desde o fim da madrugada).

Πsudo Traçoidorum (mais conhecido pela forma abreviada: π) ganhara este pseudônimo por óbvias razões, sem qualquer relação com a Matemática. Havia anos, conhecera em Bagdjônia uma puta oriunda de Erótilia, chamada Mársilia, por quem se apaixonara e era a responsável pelo apelido. O que, aliás, era seu grande mérito. Pois ela e π passavam horas a bater trela e entornar vinho, e fodiam muito pouco. Ainda assim, restara o apelido, que era motivo de absoluto orgulho do sofista.

E, naquela morna e opressiva manhã de quotidiana ressaca , viu os fantasmas da orgia materializarem-se, em pleno dia claro. Morghourellius, um velho companheiro de boemia lhe enviara o sobrinho (nada mais que o rapazola Epicuro, o Antigo) para que o instruísse na nobre arte do culto à Buçamãe.

– Senhor, vos afianço que me haverei com a maior seriedade e dedicação às vossas graves lições! E que hei de honrar-vos como ilustre questionador que és da fútil sociedade! Hei de renunciar, mesmo, ao leviano prazer físico! (Assim, entre balbucios e brados, se apresentou o patético pupilo a π, que., de enfado e susto quase perde os bagos!)

– Pois olha, piá, a “honra” é toda minha em ajudar o filho, quer dizer, o sobrinho do meu amigo Morghourellius. Mas, antes de explorar os intrincados labirintos da sabedoria lógica, é preciso que o caro guri conheça um pouco da práxis concreta, para que, após a experiência in loco com a matéria, possa suscitar seus próprios desafios mentais! Eu vou te enviar pra “tia” Cydilene. Após decifrar-lhes os mistérios, coisa que há de ser bem dura, estarás pronto a adentrar na suprema teofania!

E com um tapão do mestre, que quase lhe põe os pulmões a correr à sua frente, Epicuro, devidamente munido de mapa e bússola, pôs-se em marcha, curioso e contrariado.

Ubirajara Passos

DE SUSPIROS E REINAÇÕES


A introdução da narrativa de Erótilia (publicada nos dois últimos posts) foi escrita de um jato só no outono de 2005. De lá pra cá venho eventualmente arrastando alguns capítulos que vão surgindo mais ou menos ao acaso. Segue o primeiro.

De Suspiros e Reinações

Epicuro, o Antigo, após emitir um sonoro peido, desfez-se em lânguidos suspiros e, dando as costas (era o máximo que se permitia dar) à Grande Obra, foi descendo a Ladeira Putelêdiam, absorto nas velhas recordações de guerra… de quando, sábio filósofo e oficiante de um culto sem deus, mas jovem e pândego, desmanchava-se em ondas deleitosas, dignas da via-láctea, nas saltitantes bundas das guerreiras cavaleiras.

Quanta bela noitada gozada em claro, quanto suco de cevada etílico (a cerveja, ao contrário do que afirmam os textos acadêmicos, não surgiu na Mesopotâmia, mas já era conhecida na velha Erotília) a inspirar as safadezas mais cretinas, da declamação de poemas épicos aos shows de streap-tease e aos concursos de resistência física (os guerreiros erotílios eram os mais denodados de todos os virtuosos cidadãos do continente e seu esporte favorito era o sacrifício a que expunham seus corpos, até o limite do insuportável, disputando violentamente quem era capaz de permanecer por mais tempo na tortura de entornar cerveja!).

Naquela época não havia amazona capaz de derrotar Epicuro, mas agora, ai do sumo sacerdote, seu pequeno paraíso andava restrito ao ato do felatio e do cunilingus, de sublime requinte para o êxtase, mas tão pouco digno do triunfo de um guerreiro!

Epicuro ia tão absorto nestas divagações que não percebeu a aproximação de Veatus – fidelíssimo, mas temperamental ajudante de ofício do templo.

— Mes-tre… precisamos tomar providências severíssimas e urgentes! Estes peões da muralha, com suas pica eretas, ahann… suas picaretas enormes, erguendo as rochas e abrindo buracos, de torso nu são um escândalo!

— E qual o problema, ó meu glorioso servo dos deuses, quereis então que eles cubram o tronco sob esse sol escaldante? Possuiu-vos o espírito do sadismo?

— Não, mes-tre… Longe de mim imaginar tal tortura! É que eles poderiam também deixar a descoberto o resto!!!

Epicuro deu três relinchos e quatro coices mentais antes de responder e concluiu que pouco adiantaria mandar Veatus tomar no cu (era tudo o que ele queria!). E, assim, encarregou-o da missão mais “grave” (e impossível) que pode imaginar. Determinou solenemente ao auxiliar dos cultos que lhe descobrisse (já que esse era o problema apresentado), por exaustiva pesquisa esotérica dos registros sacros, a fórmula eficiente de puxar o saco do touro sagrado.

Desnecessário faz-se mencionar que o servo Veatus, boquiaberto e estupefato – entre puto de raiva com a atitude de seu amo e embevecido com esta história de saco e touro (que bem podiam ser de carne e osso, ao invés de restringir-se ao couro do pergaminho) – resignou-se a dar o couro no espinhoso trabalho e foi-se saltitando entre louvores!

Podia, agora, Epicuro abandonar as picuinhas da hora e voltar a ruminar suas saudosas e safadas memórias!

Ubirajara Passos

ERÓTILIA – 2


Erótilia era uma terra feliz e livre (nenhum erótilio estava submetido a qualquer chefe, havia no máximo consultores reconhecidos por sua experiência e habilidade – inteligência e capacidade intelectual em si era um dom universal do país – que coordenavam os trabalhos mais complexos e que envolvessem diferentes operações e trabalhadores, e, caso exorbitassem de suas funções e tentassem transformar em ordens suas recomendações, eram levados de volta à realidade, não por pauladas, mas pelos mais hilariantes deboches públicos). Mas era uma terra sem opção! Quem nela nascesse não poderia viver senão em tal mundo. Numa era em que voar era coisa só de pássaros, a grande obra, as muralhas, eram o limite necessário do destino dos erótilios.

Alguns filósofos, por natural curiosidade, insistiram que se deveria desenvolver algum meio seguro de aventurar-se eventualmente ao exterior (o território dos povos belicosos, imperialistas e sofredores, onde a maioria vivia sob o jugo sádico dos amos) que possibilitasse transpor as muralhas sem abrir acesso ao inimigo (mal sabiam que, para este, desde muito Erótilia era tida como um cemitério e não um paraíso inatingível). Mas a velha gozação erótilica os havia calado sob estridentes gargalhadas!

Até que um dia, após milênios, Erótilia foi atacada! Não por terra ou por túneis, ainda impossíveis (a tecnologia da muralha, mesmo antiga, era avançadíssima e impedia aos mais modernos aparelhos terrestres ou subterrâneos sua transposição ou destruição), mas por pesada, ainda que primitiva, artilharia aérea de arqueiros empoleirados em planadores! E o que sobrou de seu povo, incapaz de defender-se (pois criado na mais absoluta falta de necessidade e ignorância das artes da guerra e da violência física entre os homens) foi feito escravo e espalhado por distantes terras.

O país feliz, embora paraíso de prazer, liberdade, inteligência e plena realização de cada membro, havia pecado em dois aspectos que – contraditoriamente – estavam ligados à própria razão de sua característica paradisíaca na Terra “pré-histórica”: porque a muralha externa os dispensara não haviam desenvolvido a agressividade bélica e nem técnicas aeronáuticas! A perfeição de seu mundo de prazer e harmonia e o temor de um mundo exterior de castigo e sofrimento que inspirara os construtores da grande obra haviam impedido a curiosidade e a necessidade de contato com o mundo!

Assim um santuário ecológico irretocável e uma sociedade sã, igualitária e livre, sem direitos e deveres obrigatórios, mas pautada na inteligência, no afeto puro e no bom humor , que avançara terrivelmente nas ciências da vida sem romper com natureza, não tentando subjugá-la como inimiga, mas compreendendo-a no seu âmago imaterial (os erótilios haviam, inclusive desenvolvido uma medicina naturalista que quase eternizava suas existências, prolongando-a por séculos e com uma qualidade ainda hoje impensável), e prescindido de sociologias, psicologias ou economias científicas, mas ajustava seus conflitos na franca convivência diária, foi destruída por seu único preconceito: a crença absoluta no poder defensivo da muralha! Seu isolamento não lhe permitira imaginar a evolução dos transportes e técnicas aéreas de guerra, assim como a mantivera como um mundo a parte, completamente inciente do resto do planeta!

E o mais irônico é que a civilização que a derrocou não era oriunda do “mundo sem muralhas”, mas Cropólidia, sua filha dissidente, cujos sufocados e neuróticos habitantes, no correr dos séculos, na ânsia da fuga das muralhas, haviam desenvolvido a aviação primitiva!

O que era o símbolo da desgraça fatal aos cropólideos e a segurança de felicidade aos erótilios (a muralha) foi a única falha na autonomia dos últimos: eles eram livres em absoluto, mas dependiam de algo externo como condição de sua liberdade, sua autonomia não lhes era garantida por si mesmos num mundo que exige-nos sobretudo rebeldia e resistência ao permanente assalto autoritário e onde só podemos contar com nossas capacidades para não sucumbir à escravidão imposta. Estamos sós e só nossos escudos interiores (não muralhas que nos separem do ataque do domínio e do suplício) podem nos garantir alguma autonomia e gozo. Se a moral final da fábula aqui inventada parecer pobre e inaplicável à complexidade contemporânea fica a advertência: o que falta (o que está além das muralhas da escrita e da compreensão) está nas entrelinhas… da fábula e da vossa interioridade!

Gravataí, 8 de maio de 2005

Ubirajara Passos