DO ÚLTIMO BLOG DO ALEMÃO VALDIR, NUNCA DIVULGADO: “Santa Rosa e as Missões Jesuíticas: impressões sobre a utopia atávica no coração da América do Sul”


 

Em 5 de outubro de 2010, na sala da casa do companheiro Valdir Bergmann, ao lado da de sua irmã Astri, em Santa Rosa, escrevi o texto abaixo reproduzido, para a sua última versão do blog “O Folhetim”, nunca lançada (e cuja única matéria postada foi este meu ensaio). Nele (que deveria introduzir uma série sobre Santa Rosa e região), além de um pouco da história da minha amizade com o Alemão, pode-se conhecer um dos muitos sonhos que o entusiasmavam nos últimos anos. Embora eu compartilhasse (e desenvolve-se no texto as justificativas, agregando algumas impressões pessoais), a idéia da tríplice fronteira e regiões adjacentes como um país culturalmente diferenciado no coração da América do Sul, com uma base antropológica na presença comum de imigrantes europeus tardios, é dele e demonstra a variedade de interesses que o absorviam depois do retorno ao interior do Estado. Deixo, assim, os leitores na companhia de mais este pedaço vivo do pensamento do saudoso amigo do peito, companheiro de lutas, tragos, alegrias e desgraças, o eterno “alemão Valdir”:

Santa Rosa e as Missões Jesuíticas:
impressões sobre a utopia atávica no coração da América do Sul

Conheci Santa Rosa em 1994, quando, diretor recém-empossado do Sindjus-RS (o sindicato dos trabalhadores da justiça estadual gaúcha), percorri durante uma semana o interior do Rio Grande do Sul, em palestra sobre o ante-projeto de plano de carreira que, na condição de representante da entidade, ajudara a elaborar na comissão para isto designada pelo Tribunal de Justiça. Naqueles tempos heróicos e, de certa forma, ingênuos, mal sabia eu, brizolista de esquerda na casa dos vinte anos, os caminhos e descaminhos que percorreria na seguinte década e meia.

E muito menos imaginava os tantos atalhos, desvios e estradas sem saída que veria o Rio Grande do Sul, o Brasil, e o próprio movimento sindical em que militava, tomar para, finalmente, desembocar no infeliz e tragicômico teatro que faz do pobre palhaço Tiririca o deputado federal mais votado do Brasil, nos dias de hoje, e nós todos palhaços mendicantes a assistir o circo do capitalismo colonial e feudal disfarçado de radicalismo vermelho (o petismo) comandando e desgraçando o cotidiano de 90% dos brasileiros, que cada vez suam mais para ter  direito a menos nos seus bolsos e nas suas mesas (para não falar de carências mais complexas, mas tão imprescindíveis quanto uma vida digna da condição humana).

O referido ante-projeto, por exemplo, acabou tristemente engavetado, e neste ano de 2010, depois de 15 versões, continua a ser “estudado” pela alta administração do Judiciário, que desde então nunca mais admitiu a participação de um representante sindical nas sucessivas comissões elaboradoras, porque a minha atuação foi traumática demais para as autoridades, estranhamente escandalizadas com a garantia de direitos básicos constantes da própria Constituição, até hoje não aplicados, como a isonomia salarial dos servidores do interior com os da capital.

O companheiro que me acompanhava na épica jornada de sete dias entre Caxias do Sul e Pelotas, passando por São Borja, entre dezenas de comarcas judiciais visitadas, embora já demonstrasse alguns pendores pessoais um tanto narcisistas, na época, acabaria por se tornar, anos depois, surpreendentemente, meu desafeto político e hoje ocupa um alto cargo de assessoria burocrática na bancada petista do legislativo, em Porto Alegre.Bem longe, portanto, do afã dos cartórios ou das marchas e manifestações de rua.

Eu próprio já não ocupo cargos na executiva política do sindicato, mas candidato de oposição derrotado, por antigos companheiros, no presente ano, à coordenação geral dele, sou um dos tantos que lidera grupo de ativistas pró-servidores e anti-pelegos, o Movimento Indignação.Continuo tão radical e tão puro quanto então, nos meus princípios e atitudes políticas,mas já não tenho qualquer ligação com o PDT, descaracterizado após a morte de Brizola, na onda do adesismo ao neo-fascismo disfarçado do governo Lula,

Mas esta crônica não tem por fim contar a minha vida política e muito menos discorrer sobre as eternas mazelas de nossa sociedade. Se, abusando da paciência do leitor, acabei, também, por desviá-lo por outras veredas nada prazerosas e entretedoras, o foi por sestro psicológico inevitável e para dizer que, naquela era, mal passei pela cidade (tão somente o espaço de uma tarde de palestra no foro local ao retorno ao hotel em Santo Ângelo, à noite), como mal falei, em Caxias do Sul (pólo sindical a que pertencia a comarca de São Francisco de Paula, onde ele trabalhava) com aquele cuja amizade se tornaria, anos depois, o pretexto das inúmeras visitas que tenho feito a esta cidade da Região Missioneira do Rio Grande do Sul, o companheiro Valdir Bergmann. Foi na companhia dele que aqui voltei dois anos depois, em nova caravana de reuniões mobilizadoras pelo interior, agora somente sobre o centro, o norte e o oeste,que duraram semanas. Nesta nova ocasião a visita foi mais intensa, mas não passou do churrasco na casa da mãe do companheiro, da noite no hotel Rigo e da madrugada no bordel Replay.

Somente em 2004, quando o ex-diretor do Sindjus, Valdir deixava Porto Alegre (em que residiu por quase dez anos) para retornar à sua querência adotiva (filho de Cerro Largo), é que passei a visitá-lo freqüentemente e, coisa de uma a três vezes por ano, a conviver profundamente com Santa Rosa e com a Região das Missões e Noroeste do Estado. E fui mesmo além, incursionando duas vezes pela vizinha província argentina de Misiones, que, juntamente com a região gaúcha referida, constitui, desde o século XVII, um mundo a parte no cenário sul-americano, diferenciado de Brasil e Argentina, e aparentado da raiz nativa do vizinho Paraguai, em pleno coração do continente.

Desde então tenho conhecido mais e melhor um país que parece destinado a espelhar de forma concreta e silente, em meio às mazelas da sociedade capitalista moderna, as utopias ancestrais do Novo Mundo. Aqui se encontram as mais diversas etnias convivendo lado a lado, do imigrante europeu germânico, eslavo ou italiano aos recentes palestinos, e aos descendentes dos índios guaranis e mestiços de luso-brasileiros e da castelhanada. E aqui, a centenas, quase milhares, de quilômetros de Porto Alegre, de São Paulo, Brasília, Santiago do Chile ou Buenos Aires ainda é possível, mesmo a um estrangeiro como eu, ao passar pela rua, ou adentrar a fruteira e o boteco, ser recebido com aquele sorriso aberto, claramente espontâneo e acolhedor, com aquela empatia básica de um ser vivo por qualquer outro e manter, sem qualquer conhecimento prévio com o intelocutor, o mais despreocupado diálogo sobre o tempo, o preço da soja ou mesmo a malfadada política, o que só acontece após aquele cálido e simpático bom dia, boa noite, boa tarde…

Ao contrário das grandes metrópoles, muito raramente se vê um missioneiro andando pelas ruas com o ar preocupado, a cara fechada, o olhar esbugalhado e furibundo de um cachorro louco. O típico paulista ou porto-alegrense neurótico, entorpecido da fumaça das surdinas, pode até mesmo acabar por ter um ataque fulminante de tédio ou surpresa ao se deparar com um povo autêntico e de bem com a vida, embora nada apartado do trabalho duro e dedicado que formam o estofo da alma imigrante e de seus antecessores.

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Roberto Seibt, Ubirajara Passos e Valdir Bergmann a bordo da balsa, na travessia do Rio Uruguai entre Porto Mauá (Rio Grande do Sul, Brasil) e Alba Posse (Misiones, Argentina)

E neste ponto é interessante, até para encerrar esta idílica descrição, citar as casualidades aparentes e curiosas que fizeram desta a minha segunda querência e que perpassam a sua história. Nasci, vivo e trabalho em Gravataí, cidade no entorno metropolitano de Porto Alegre, distante quase seiscentos quilômetros desta Região,  com seus 300.000 habitantes descentes de portugueses açorianos (sendo eu, inclusive, um deles, ainda que meus pais sejam originários das margens do Rio Rolante, em Fazenda Passos, antigo município de Santo Antônio da Patrulha) e, desde os anos 1970, migrantes das mais diversas regiões do extremo sul do Brasil. Afora a amizade com o alemão Valdir, e as eventuais visitas da minha atividade político-sindical não haveria, aparentemente, qualquer outro fato que me ligasse à Santa Rosa, São Borja, Santo Ângelo, as ruínas de São Miguel, a Ijuí, Posadas, Oberá ou Encarnación de Paraguay. Nem nada justificaria a minha paixão pela região e por Santa Rosa, além de suas características próprias e do encantamento imenso da beleza de suas mulheres. O detalhe, entretanto, é que Gravataí surgiu originariamente como um aldeamento de índios guaranis trazidos à força pelos portugueses como resultado da primeira guerra entre o imperialismo europeu ibérico e a nação diferenciada e autônoma, formada pelos padres jesuítas nos campos que correm o continente desde o norte do rio Paraguai até além da margem oriental do Uruguai, entre os índios locais. Eu, filho de migrantes destinados originariamente, também, por Lisboa a colonizar o Território das Missões Jesuíticas(o que nunca se realizou), depois de evacuado pelos índios guaranis, nasci no pé da Serra Geral, justamente na cidade onde se deu o encontro destes dois mundos: os rechaçados e enjeitados filhos das Missões Jesuíticas e os filhos do Açores, ambos com o destino ligado às terras regadas pelo centro-norte do aqüífero guarani e das bacias hidrográficos dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai.

A outra coincidência, que não diz respeito a mim mas à história da civilização ocidental dos últimos séculos, é o destino destas terras. Abrigando secularmente os guaranis, se tornaram pela ação protetora e aculturadora dos padres da companhia de Jesus o berço da primeira, e talvez a única legítima, concretização da utopia comunista, numa época em que nem o avô de Marx era nascido, e em que as manifestações contestatórias da peonada trabalhadora européia se reduzia a umas quantas revoltas de camponeses. Neste país, ainda que vinculado ao império espanhol, sob a inspiração e supervisão dos padres, os índios criaram as primeiras cidades planejadas, hierarquizadas é bem verdade, mas que garantiam a cada um de seus membros condições materiais e espirituais de uma vida instigante e prazerosa, de trabalho sim, mas também de aplicação das mais refinadas e exigentes técnicas intelectuais, artísticas e laborais da época, que hoje se manifestam nas ruínas, na estatuária, nos restos arqueológicos da metalurgia e da música remanescentes, que podemos encontrar nos museus da região.

Este povo, que vivia para si e por si, foi atingido, de um dia para outro, no século XVIII pelo resultado das disputas gananciosas e narcísicas do imperialismo e das nobrezas decadentes de Portugal e Espanha,envoltas no jogo de poder europeu, e, após mais de meio século de guerras, foi desarraigado de seu torrão e espalhado na Argentina, Paraguai, Uruguai e Rio Grande do Sul, como massa de enjeitados por seus territórios, humilhados e reduzidos a gado como todo o povo de tais nações.

O irônico é que uns 80 anos depois da passagem do último furacão político-militar pela região (por ocasião da guerra de independência do Uruguai, ocasião em as sete cidades guaranis gaúchas foram esvaziadas pelo tacão caudilhesco, tomando o destino definitivo de ruínas), na década de 1910, os mais enjeitados dos enjeitados tardios do Ocidente imperialista, os imigrantes europeus de segunda e terceira geração trazidos para as metrópoles de ambas as margens do rio Uruguai, vieram aqui se estabelecer, e recriar, na honrosa categoria de enjeitados do mundo, uma nova civilização, bem mais humana que a Europa e seus sucessores anglo-americanos (que, para igualar-se àquela primeira república guarani só necessita ver embandeirando seus campos o autêntico e humano socialismo), mesmo que sob o domínio das potências sul-americanas que dividem em três países formais esta nação original, trabalhadora e alegre que são os Povos Jesuíticos da América do Sul.

Santa Rosa, 5 de outubro de 2010

Ubirajara Passos

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“Corneacione”, a novela nobre da Globo


Que as novelas da oito horas da noite 4.ª maior rede de televisão do mundo são a verdadeira versão ficcional do Big Brother, primando pela exaltação glamourizada da falcatrua e da putaria sexual sádica da burguesia de São Paulo e Rio até reclusos monges tibetanos sabem!

O mundo no filtro de suas lentes digitais toma cores de conto de fadas trágico e mambembe, com requintes de teatro de marionetes de lugarejo do sertão nordestino da década de vinte do século passado. No seu tacanho esquematismo a sociedade se reduz ao frenético e sobressaltado círculo dos burgueses de “sangue azul”, arrastados neuroticamente de um lado para o outro nas ondas da vigarice mútua e da histeria geral, e a um caricato e abobalhado “núcleo pobre” em que os personagens ganham o pão que o diabo amassou trabalhando de criados nas “casas grandes” do núcleo rico, ou vivendo de esquemas na favela, mas tem um quotidiano temperado de alegria e descontração no samba do buteco da esquina e nos fuxicos das comadres da rua.

Nada disto é novidade, mas, simplesmente, a surrada e velhíssima lavagem cerebral eletrônica que quem conta no mínimo quarenta anos de idade está acostumado a receber desde criancinha, a tal ponto que se tornou mais banal que zumbido de mosquito em barraca de farofeiro bêbado dormindo às duas da manhã em praia poluída.

O grande ineditismo, e a verdadeira sensação do momento, da última pérola da testa de ferro brasileira da yankee Time-Life, entretanto é a ênfase explícita e total no esporte favorito da burguesia segundo Karl Marx: “a corneação”.

O protagonista da novela, por exemplo, protótipo do ingênuo  chato (daqueles de doer) cai nas mãos de uma sofisticada puta falcatrua cuja brincadeira favorita é gastar seus cobres com um sobrinho doidão do idiota, fudendo a varrer num luxuosíssimo hotel italiano às custas do imbecil. Outro irmão do “mocinho” da novela (que, pra variar, é “meio-irmão”) é um pedófilo histérico que, como conseqüência de seus ataques paranóicos acaba sendo chifrado pela mulher com o mais sonso e puxa-saco agregado de sua mãe presidente de metalúrgica S.A. A irmã deste pedófilo, por sua vez, desiste do casamento com um vigarista que explora toda a família após passar a tarde, em pleno horário da cerimônia religiosa, fudendo com o tal agregado. A cunhada da ex-noiva, ao seu turno, trata de cornear o marido com o sobrinho dele (filho do protagonista), que acaba comendo a filha da sua parceira de safadeza. Para coroar o festival de guampas a avô da família “nobre” aparece com a perna quebrada na cama do motorista de décadas da família, casualmente pai do sonso empregadinho da firma que come a mulher e a irmã do pedófilo. Tudo sob a justificativa mais imbecil possível das contradições amorosas entre o casamento  compulsório e as imposições do jogo econômico-social.

Antes que o leitor me berre aos ouvidos que estou me tornando um velho rabugento, moralista e fascistóide, vou esclarecendo, anarquista e reichiano, além de boêmio e sacana, que sou: o problema não está na fodelança desenfreada (e o conseqüente excesso de galhada por metro quadrado, que quase impede os personagens de se movimentarem), nem na pretensa tensão entre o amor livre e as amarras do sistema. O detalhe escandoloso e torpe, para não dizer ridículo, é que toda esta sarabanda de trepadas às escondidas, inédita pelo volume e insistência (que é, claramente, a tônica da novela, que não faz questão de enfatizar qualquer outra “tensão dramática”) se dá da forma mais carrancuda e crua possível. Com uma “seriedade”, aliás, que beira o olhar grave de defensor do júri em performance demagógica.

Os personagens não se deixam levar nas ondas de um tesão gaiato e avassalador, nem no fogo da paixão romântica absoluta que anula o resto do mundo e nos conduz às loucuras quixotescas de “fuder” com tudo. Mas a coisa se dá da forma mais banal e descolorida possível (com exceção do par de velhinhos safados), com todos os matizes imagináveis da psicopatia e da esquizofrenia. Ninguém apronta por que seja movido por uma emoção fortemente arrebatadora e envolvente, mas antes parece movido por um automatismo robótico filho de uma hipnose mal feita. A “traição” parece se dar de forma automática, gratuita e rotineira como o próprio ruído sem graça e consciência das esteiras de uma fábrica de tecido conduzindo a matéria-prima.

A conclusão necessária cagada sobre a mente dos telespectadores desavisados é de que a omissão e a meia-verdade são peça fundamental a quem não queira sucumbir no jogo social e que fora dela não há sobrevivência. O que não deixa de ser verdade, afinal a hipocrisia é a pedra de toque do sistema burguês. Sem ela, a falsa verdade, a maquiagem sentimentalista tosca, não há como justificar a redução do operário braçal ou mental a ferramenta de geração do luxo sádico e sofisticado de um brutal patrão, que faz questão de humilhar, além de reduzir o explorado à miséria material. Somente a fantasia da colaboração entre órgãos de um mesmo corpo pode sustentar a idéia de que o resultado das relações de produção da existência material das criaturas (o trabalho), sem o qual nada nem ninguém existe, se faça nas condições de opressão e diferenciação absurda entre algozes e escravos assalariados.

O problema é que a natureza concreta do sadismo psicopático social (o capitalismo) não se esclarece com a propaganda de seu principal instrumento (a deslealdade), na medida em que tudo aparece como conseqüência lógica e sem escapatória da pretensa natureza absoluta da sociedade humana e não como distorção atroz a ser combatida e superada. Mas seria muito ingenuidade (pior do que aquela que os autores da peça novelística devem atribuir à grande maioria de seus espectadores) esperar outra coisa. Afinal, além tudo, parafraseando o companheiro Karl Marx, no Manifesto do Partido Comunista, de 1848, ao abordar a questão da opressão entre os sexos e sua relação com o sistema capitalista: “Para o burguês, sua mulher nada mais é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que haverá comunidade das mulheres. Não imagina que se trata de arrancar a mulher de seu papel atual de simples instrumento de produção.

“Nada mais grotesco, aliás, que a virtuosa indignação de nossos burgueses sobre a pretensa comunidade oficial das mulheres que os comunistas adotariam. Os comunistas não precisam introduzir a comunidade das mulheres. Esta quase sempre existiu.

Nossos burgueses, não satisfeitos em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se uns aos outros.”

Ubirajara Passos

O “anarquista” Darcy Ribeiro


Na crônica “O Vinho do Carlão”, há quase dois anos (em abril de 2006, quando eu recém iniciava este blog, ainda no provedor do Terra) eu citava, a respeito do protagonista da narrativa (o Carlão), que havia me mandado “uma mensagem em português todo empolado para este blog” e arrematava afirmando: “comentarei isto outro dia”. E desde então tenho deixado os leitores da época (ou que acessaram o texto posteriormente), e mantém a freqüência ao blog até hoje, na mais absoluta ignorância e frustração.

Mas, conforme fiz, na última semana, com a questão do DDA, cumpro hoje (com vinte e um meses de atraso) a promessa então feita – se é alguém ainda se lembra dela (o Carlão provavelmente lembrará). Pois a mensagem do sujeito, postada no primeiro texto do blog, o poema “Esconjuro Ateu e Libertário”, era assinada sob o pseudônimo de “Fernando Sabino” (o cronista preferido do Carlão, que como eu, ficou conhecendo seus textos na antiga coleção didática “Para Gostar de Ler”, da Editora Ática, lá nos tempos do “1º grau”, no final dos anos 1970). E lascava; “Texto de excelente construção léxica, demonstrando que o autor é um anarquista de fazer inveja a Darci Ribeiro”.

Nada de mais quanto ao irônico elogio sobre a “construção léxica”. O único problema é que Darcy Ribeiro (cuja última entrevista, pouco antes de sua morte, em janeiro de 1997, Carlão assistiu aqui em casa, em vídeo-cassete que gravei e ainda conservo comigo), tecnicamente falando, jamais foi anarquista. Ao contrário, antes de se integrar ao trabalhismo , após o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e se tornar um dos fundadores do futuro PDT de Leonel Brizola, e signatários da “Carta de Lisboa” (o encontro de trabalhistas exilados e residentes no Brasil), em 1979, foi militante, nos anos 1930 e 1940, do “estalinista” Partido Comunista Brasileiro, de Luís Carlos Prestes. Mas, assim como Brizola, possuía traços bastante próximos de um libertário e, se não advogava a liberdade absoluta ou a “sociedade sem estado”, encarnou vida a fora a figura de um sujeito radicalmente livre, seja como pensador e cientista social, seja como político. Ele e Brizola foram, desde os meus quatorze anos (lá em 1979), as figuras que me influenciaram mais profundamente.

Darcy e Brizola

Leonel Brizola foi o grande arquétipo político da minha vida, mesmo que eu tenha me tornado anarquista. Ele encarnava a coragem e a segurança absolutos e, sobretudo, o radicalismo (aquela profunda crença no ideal, aquela energia interior de quem realmente quer mudar as coisas), e uma autenticidade a toda prova, que não dobrava a espinha aos críticos intelectualóides da esquerda “caricata”, nem às distorções difamadoras da mídia..

E em suas atitudes se podia constatar um profundo e real compromisso com o sofrimento do brasileiro comum que rala todo dia, bem como a mais incoercível oposição ao imperialismo capitalista que submete um dos mais ricos países do mundo (o Brasil) à situação de colônia miserabilizada (em que 90% da população sequer tem acesso a um computador ou a Internet, no fundo estou aqui escrevendo para a “pequena-burguesia”, não no sentido ideológico, mas daqueles “remediados” financeiramente como eu, cujo salário permite ter um computador e uma linha telefônica em casa).

Mas, se Brizola era a verdadeira encarnação do revolucionário sem armas, nem dogmas (ainda que socialista ou “social-democrata”, nunca foi “marxista” e não andava por aí recitando as teses do “Capital”, nem enquadrando os fatos na dialética do materialismo histórico, como muitos burocratas comunistas, mas vivia a prática revolucionária nas atitudes), uma espécie de “Super-Homem” nietzchiano da esquerda, nunca me inspirou a menor intimidade pessoal.Darcy na praia de Copabana, celebrando a vida
Com Darcy foi diferente. Embora nunca o tenha visto de perto (ao contrário de Brizola, que, em agosto de 1995, cheguei a seguir, da Carta Testamento na praça da Alfândega, em Porto Alegre, até a então sede do Banco Meridional,hoje Santander, quando embarcou no carro, sem coragem de abordá-lo, tímido sindicalista que eu era então), desde a primeira entrevista sua na televisão tive a impressão de estar diante de um camarada de pensamento e de buteco.

Darcy na praia de Copabana, celebrando a vida

E o pensamento e as tiradas do Darcy eu os conheci não através da fama distorcida de mero planejador de CIEPs (quando Vice-governador fluminense e Secretário da Educação de Brizola) ou “intelectual importante” (inclusive membro da Academia Brasileira de Letras) das cartilhas partidárias do PDT. De Darcy li os principais livros (O Processo Civilizatório, O Povo Brasileiro), assim como seus poemas (Eros e Tanatos, editado postumamente), o romance Maíra, o recordatário do Brasil no século XX “Aos Trancos e Barrancos – como o Brasil deu no que deu”, as antologias de ensaios “Gentidades” e o “Brasil como Problema”, além, é claro de sua auto-biografia, fantástica, as “Confissões”. E além dos livros, sempre me impressionaram suas entrevistas na TV (especialmente as concedidas a Roberto D’Ávila, como a última de sua vida) e eventuais participações em documentários.

Darcy com os  ndios do Planalto Central

E se Brizola era o que havia de mais próximo dos sentimentos do povinho comum, Darcy era o intelectual mais gaiato, menos hermético, mais entusiasmado, crítico, humano e sincero possível da nossa “esquerda” pensante. Ainda mais que não era intelectual de gabinete. Como etnólogo viveu por dez anos entre os índios do Xingu (cuja criação do “Parque Nacional” foi obra de sua pressão, dos irmãos Vilas Boas e de Noel Nutels sobre Getúlio Vargas). E como educador esteve à frente da criação da Universidade de Brasília. Sem falar nos cargos políticos exercidos em momentos capitais da história brasileira, como Chefe da Casa Civil do Presidente da República João Goulart, cargo que ocupava quando do golpe fascista de 1.º de abril de 1964, o que lhe valeu o exílio por boa parte do período autoritário.

Mas o que mais impressionava em Darcy Ribeiro, além do humor gaiato e inteligente, bem distante da “seriedade intelectual” dos burocratas do pensamento (na última entrevista faz uma entusiasmada recomendação, com uma felicidade de moça debutante, aos telespectadores que tivessem dor, como ele vitimado pelo câncer, para que “tome morfina meu irmão, morfina é muito bom”), era seu completo desapego do “bom senso” e sua ousadia sem espetacularismos, que o fez voltar ao Brasil (ele, figura proeminente, e tida por ideologicamente perigosa, do governo trabalhista deposto), com a cara e a coragem, em 1968, época dos protestos estudantis e do AI-5, em plena ditadura fascista raivosa e espumante.

E esta mesma ousadia “irresponsável”, moleque é que o fez fugir do hospital para viver plenamente e escrever seus últimos livros (como o Povo Brasileiro e as Confissões). Com certeza foi este jeitão irrequieto, absolutamente DDA, que saltava aos olhos no menor parágrafo de texto, a absoluta autenticidade e o humor de suas manifestações que fez com que o Carlão o identificasse, não de todo errado, como um “anarquista”, que, se não o foi na teoria e militância, o foi no exercício da própria vida: uma alma absolutamente livre, humana, defensora absoluta do direito a uma vida digna de gente para cada ser humano, e sobretudo incansável e entusiasmada.

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Darcy nunca reinou e ruminou sobre as nossas desgraças nacionais e aDarcy, o utopista sem fuzil frustração da revolução socialista, mas sempre manteve acesa a chama da construção de um Brasil digno para os brasileiros, não como mera esperança intelectualóide, mas na atividade prática. Foi o nosso Che Guevara embalado em samba e sem fuzil, melhor e mais tolerante, mas não menos indignado e determinado, por que batizado nas águas indígenas e africanas.

Na introdução de “Aos Trancos e Barrancos” (escrito em 1985), os dois últimos parágrafos dão uma idéia de sua ação e pensamento :

“Desejo apenas que este livro faça algum jovem pensar que é tempo de tomar este país nas mãos. Para construir aqui a beleza de nação que podemos ser. Havemos de ser! Para tanto, é indispensável impedir o passado de construir o futuro: quero dizer, tirar da gente que nos regeu e infelicitou através dos séculos o poder de continuar conformando-deformando nosso destino.

É hora de lavar os olhos para ver nossa realidade. é hora de passar o Brasil a limpo para que o povão tenha vez. No dia em que todo brasileiro comer todo dia, quando toda criança tiver um primeiro grau completo, quando cada homem e mulher encontrar um emprego estável em que possa progredir, se edificará aqui a civilização mais bela deste mundo. É tão fácil: estendendo os braços no tempo, sinto na ponta dos dedos esta utopiazinha nossa se realizando.

Ponha o ombro no andor, companheiro, faça força você também. Se não cuidarmos deste país que é nosso, os gerentes das multi e seus servidores e sequazes civis e militares continuarão forçando o Brasil a existir para eles.”

Para terminar este panegírico, que vai ficando extenso e pouco diz do elogiado (nem sequer citei o que seria o maior “orgulho institucional” dos burocratas do PDT: o fato de Darcy ter sido senador do partido, pelo Rio de Janeiro, nos últimos anos de vida), reproduzo abaixo o prólogo das Confissões (1996), que neles o leitor “sentirá”, mais do que constatará racionalmente, a essência do que era o vulcão Darcy Ribeiro:

“Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada.Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, e a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava.

Se nada de irremediável suceder, terei tempo para revisões. Não ouso pensar que me reste vida para escrever mais um livro. Nem preciso, já escrevi livros demais. Mas admito que tirar mais suco de mim nesta porta terminal é o que quisera. Impossível?

Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo.

Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisas. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu tiver algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso.

Quero muito que estas minhas Confissões comovam. Para isso asDarcy nos últimos meses de vida escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. Meu propósito, nesta recapitulação, era saber e sentir como é que cheguei a ser o que sou.

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Quero também que sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia. mas por aqueles poucos que viveram vidas paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nos confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não aos que não tiveram nem terão vidas de viver, nem de confessar. Menos ainda aos pródigos de palavras de fineza, cortesãos.

Quero inclusive o leitor anônimo, que ainda não viveu nem deu fala. Mas tem coração que pulsa, compassado com o meu. Talvez até me ache engraçado, se alegre e ria de mim, se tiver peito. Não me quer julgar, mas entender, conviver.

Não quero mesmo é o leitor adverso, que confunde sua vida com a minha, exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os dolorosos, conforme sua pobre noção do bem e da dignidade. O preço da vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o que dela foi dor ou contentamento.

Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memórias de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos’.”

Peço paciência aos leitores que preferem textos mais ágeis e concisos, mas o resgate deste meu “guru” (nos trechos reproduzidos devem ter percebido algo da influência no que escrevo), há muito estava planejado, era necessário, e casualmente se fez no mês em que se completam os dez anos da sua morte (ocorrida em 17 de janeiro de 1997).

Ubirajara Passos