DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO


Nestes dias de desilução pós-eleição, em que nos resta, pelo caminho da política formal e institucional, escolher entre os canastrões da direita tradicional (os “Geraldos” da vida) e os fascistas vermelhos enrustidos (Inácio e seus corruptos amestrados), cai bem uma reflexão mais geral sobre as formas políticas de transformação do mundo (ainda que tenhamos de estar atentos para evitar o prejuízo maior de dar mais um mandato ao fascismo).

Assim, para desenfado dos leitores, enquanto concerto o meu “aparelho de pensar” (que está se recuperando de uma farra regada à cerveja praticada ontem), lá vai um dos primeiros “SERMÕES NA IGREJA DE SATANÁS”, parido originalmente sem o plano de ser um sermão (4 anos antes d’O Falatório Histérico em Política) e que adaptei após ter escrito os três primeiros

DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO

O Socialismo, o Projeto Revolucionário de Emancipação da Humanidade, deve levar, muito mais do que ao estabelecimento de uma realidade material igualitária, justa e digna da condição humana, à possibilidade de que a vida de cada homem seja uma aventura plena de encanto, de jogo, prazer e liberdade. Muito além, portanto, do utilitarismo economicista e do frio racionalismo do finalismo universal.

Assim, o livre pensamento, o questionamento, a postura do homem em encarar-se como válido em si mesmo são uma pré-condição do projeto revolucionário. O mental e o material se condicionam mutuamente e a emancipação econômica dos trabalhadores, da maioria da sociedade, será uma mera conseqüência de sua autoconscientização, da rebeldia e desafio às regras que lhes são externamente impostas.

Não será operando nos moldes tradicionais, na disciplina absoluta e obrigatória, na autoviolentação diária dos indivíduos que se alcançará uma realidade de plena liberdade, de consciência e realização do homem. O “dever” é uma invenção autoritária e destroçante da intuição e espontaneidade humanas, plasmada por aqueles que julgam-se “no direito” de impor sua vontade sem limites aos demais, em benefício dos seus exclusivos apetites materiais e totalitários.

O mal da praga que são as sociedades de classe, das sociedades exploratórias de todo tipo (capitalistas, feudais ou escravistas), ao contrário do apregoado por um certo “socialismo” vulgar, superficial e hipócrita defendido por pretensos setores políticos de esquerda, não está no “individualismo”, mas num esquema concreto de relações que só permite a plena realização individual – mesmo assim limitada por regras externas preconceituosas e heterônomas – a alguns indivíduos, barrando este caminho aos demais.

O altruísmo cristão extremado, por sua vez, tanto pode justificar uma sociedade solidária, justa e igualitária, quanto servir de suporte à entrega da maioria dos indivíduos – na condição de sacrificados voluntários – aos apetites de poucos, como “servos” convictos.

Não estamos no mundo “para servir uns aos outros” merda nenhuma!

Primeiro porque não há regra, forjada em uma instância abstrata qualquer acima dos homens, que possa determinar-nos a finalidade de nossas vidas. Cabe a cada um de nós construir, na interação com os demais, nossa realidade.

Segundo porque o homem, essa consciência concreta, só pode se realizar em si mesmo. Não sucedendo daí que a realização, a “felicidade” (para usar um termo universalmente compreendido) de uns possa, legitimamente, se fazer sobre o sacrifício da dos demais – o que é válido não somente no campo econômico, mas em todas as áreas da vida e das relações entre os homens.

A condição para o exercício desta violência, para a exploração dos trabalhadores, não está, porém, determinantemente na vontade do explorador, mas no consentimento semiconsciente do explorado.

O que constitui realmente a “propriedade” (uma abstração jurídica, uma regra de coexistência socialmente aceita) em elemento determinante do poder, da “dominação” de uma classe sobre a outra, senão a transformação em realidade concreta, mediante a submissão inquestionada, desta ficção de que alguém possa ser “dono” do trabalho alheio e dos bens materiais por outrem produzidos e, como tal, determinar as condições deste trabalho e da distribuição e gozo de seus frutos porque “tem direito”?

Nem mesmo a força física da minoria privilegiada tem condições de se impor efetivamente sobre a maioria explorada (pois esta, como tal, suplantaria qualquer tentativa de constrangimento) sem o seu consentimento.

A condição para a libertação da humanidade está, portanto, na conscientização (entendida como processo de autoconstrução de visão de mundo, de realidade mental individual), no questionamento, no exercício radical da liberdade pela maioria dos indivíduos.

Liberdade, consciência, questionamento, o auto-dispor de cada um sobre a “sua” vida, eis o “o princípio, o fim e o meio” da emancipação filosófica e política da humanidade. O prazer, o jogo, a realização lúdica da riqueza interior e multifacetária do Homem será sua conseqüência.

Quem disse que só o drama e o sofrimento dão graça, sal e cor à existência?

Ubirajara Passos

Anúncios

OBRIGAÇÃO DE SER FELIZ


Quero agradecer aos comentários postados ontem pelo meu irmão de fé e cachaça, o Nego Dantas do Sindjus-RS, da periferia porto-alegrense e dos incríveis butecos do Mercado Público (quem não conhece o mercado, gaúcho ou não, não sabe o que está perdendo). Muito me emocionaram e me convenceram que o companheiro Jorge Dantas tem bom potencial pra escrever. Basta seguir a sua receita para a vida: dizer as coisas com emoção e tesão, da forma como vêm das entranhas, grávidas de vida e disposição de luta. Escrevo apenas o que a vida me ensinou. Antes eu precisava de mil sistemas e teorias para justificar a existência humana. Hoje sei que a maior ventura é apenas viver, buscar e gozar de prazer e liberdade e, sobretudo, não permitir que nos usem e escravizem impunemente. Em homenagem a tão ilustre admirador segue mais um “sermão na Igreja de Satanás:

Da Obrigação de ser Feliz

Mais infausta ainda que a “infelicidade” objetiva é a felicidade obrigatória e pré-concebida do breviário revolucionário organizado (os partidos e grupos políticos “socialistas” institucionalizados – com autorização, ou alvará de funcionamento – da democracia burguesa ocidental ou do fascismo de esquerda remanescente).

Enquanto o infeliz (no sentido banal e aceito do termo) pode viver seu tormento, e identificar-se como tal, exclusivamente pela noção subjetiva de sua situação (derivada, muitas vezes, dos ideais de felicidade introjetados dos catecismos religiosos, doutrinário-filosóficos, e das prescrições implícitas da moda ou mídia burguesas), o indivíduo submetido aos reclamos iluminados e intelectualóides dos modernos profetas redentores (os ideólogos do bem-estar e conforto produzido em série) estará tanto mais afastado do prazer genuíno e benfazejo, quanto mais se esforçar em atender-lhes as exigências e padrões impostos.

Além de estar fatalmente condenado à desgraça, não terá qualquer oportunidade de alcançar o “paraíso” justamente por tê-lo congelado e normatizado dentro de si. Sua tão almejada ventura, na medida em que corresponder aos planos alheios, abstrusos e “objetivos” dos messias da “salvação” proletária, estará reduzida à frieza dos silogismos e “padrões” pré-determinados, que podem ter toda intimidade com critérios matemáticos e abstratos de excelência e insuficiência, à semelhança dos parâmetros de classificação de um cão ou gato de exposição, mas nada em comum possuem com a realidade e necessidades efetivas de seres feitos de carne e osso, com emoções e percepções próprias, cuja validade se justifique na sua íntima experiência e não em planos etéreos e cartilhas “deduzidas lógica e objetivamente”.

O ideal religioso, explicitamente autoritário e opressor, da salvação da alma justificava a submissão, e o conseqüente sofrimento, da maioria coisificada sob o argumento implacável do julgamento divino – que premiaria ou condenaria os indivíduos em uma pretensa vida futura, conforme estes se resignassem ou não à dominação e à “morte em vida” . Já o imaginário laico da “felicidade coletiva” (mesmo nos raros casos em que não está a serviço do domínio e da exploração velada, típica do fascismo “vermelho”) encobre o desejo de domínio absoluto sobre os mínimos detalhes da vida alheia sob o argumento do altruísmo de seus gurus.

Os “apóstolos” agnósticos da revolução autoritária (que hoje são, em sua maioria, inofensivos e devotados “socialistas democráticos” – e não “comunistas totalitários”) não pretendem manter as multidões oprimidas acorrentadas à uma existência inexoravelmente degradante, sob a desculpa da determinação extra-humana de deuses e princípios. Ao contrário, proclamam, aos brados histéricos e altissonantes, sua total devoção à “felicidade” humana! E, para que ela seja plena e infalivelmente assegurada, planejam, na solidão e aridez de seus gabinetes (modernos ermitões ateus), cada atitude e condição íntima do quotidiano de seus “beneficiários” para que estes não “se percam do reto caminho” rumo à realização programada.

Querem ardentemente um paraíso na Terra, e não num falso Além, mas um “paraíso” não “caótico” e “anárquico” (sujeito ao ao arbítrio das suscetibilidades individuais) que ponha em risco a perfeição de seu programa; um “paraíso” racional e “responsavelmente” determinado por suas brilhantes mentes, longe do qual não há qualquer possibilidade de “realização do ser humano”. Assim, como caudatários racionalistas do velho totalitarismo da sociedade de classes (“purificado” de irracionais e “preconceituosos” ideários monárquicos, religiosos e metafísicos) os nossos novos salvadores da humanidade “mensurarão” a “felicidade” de povos e grupos segundo índices “objetivos” de “desenvolvimento humano” – tais como o percentual de alfabetização, mortalidade infantil ou a “renda per capta” de determinada sociedade – e providenciarão para que seus “governados” se encaixem nas melhores estatísticas fixadas, pouco lhes importando o íntimo grau de satisfação e liberdade dos milhares e milhões de pessoas a eles submetidos.

Para nossos beneméritos novos “pais da humanidade” o acesso às mínimas condições materiais (como energia elétrica e água encanada) e culturais (o domínio do be-a-bá e da matemática), ou a “regalia” de possuir na residência um moderno aparelho de DVD, justificam a servidão humana, seja através da escravidão assalariada capitalista, ou – na melhor e mais remota das hipóteses – de um socialismo “coletivista” onde cada um, mesmo garantido o maior e mais justo bem-estar a todos, esteja submetido a interdições e prescrições de pensamento e comportamento. Esteja jungido a modos de sentir, raciocinar, gozar e agir pré-determinados e heterônomos – sem qualquer direito ao questionamento e originalidade na construção de sua biografia – sob a pretensa “necessidade” inapelável de regramento da vida (cerceamento e “fossilização” de todo movimento mental e emocional expontâneo) para a mais perfeita “harmonia” e “felicidade dos homens”.

Estas normas se apresentam como a encarnação mais perfeita e irrefutável da lógica, totalmente alheias a crenças e preconceitos irracionais. Mas sua pretensa raiz científica e especializada é justamente a face visível de seu estranhamento do raciocínio livre e isento de arbitrariedades derivadas da vontade de domínio.

Tal utopia de felicidade outorgada pretende validar o jugo de nossas vidas ao conhecimento de Psicologias, Sociologias, Economias, Éticas etc. gestadas segundo o ponto de vista totalitário e “não-envolvido” de seus “iniciados”, mas sem qualquer intimidade e participação efetiva de nossas emoções, percepções e pensamentos individuais. Sua transformação em realidade nos reserva a alegre e espetacular condição de autômatos infalivelmente programados.

Ubirajara Passos

DA REBELDIA SAGRADA


Mil perdões aos leitores pela preguiça dos últimos dois dias. Logo em breve estarei publicando uma série de crônicas, contos e comentários sobre o Luís Inácio (Lulinha, “o eruditchio”) e mais algumas “safadezas”. Por enquanto, saboreiem mais um ”SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”:

DA REBELDIA SAGRADA

A liberdade, a autonomia de pensamento e ação, a consciência (tanto a derivada da reflexão racional, quanto a verbalização dos sentimentos e emoções mais autênticos e profundos) não nos garantem o prazer, a ausência da dor e a felicidade. Mas sem elas não há qualquer possibilidade!

Quando os acontecimentos e questões que nos dizem respeito são decididos por qualquer outro que não nós mesmos, ou porque qualquer instituição na qual não temos a menor ingerência prática (ou agimos sob tais influências), a única certeza que podemos ter é de que viveremos segundo as inspirações, humores, apetites e interesses alheios e que, salvo um imponderável lance de sorte, 99,99% das vezes estes não coincidirão com os nossos e não levarão a outro caminho que o da infelicidade e do sofrimento.

Nem mesmo o mais desinteressado amor de mãe poderá nos conduzir ao conforto ou ao deleite de uma vida válida e instigante se impuser os seus critérios e sonhos ao nosso roteiro pessoal, pelo simples fato de que eles são o produto de suas vivências e não possuem qualquer intimidade com os nossos processos subjetivos de sentir e pensar, por mais universais que possam ser!

Infelizmente, embora a experiência incontestável demonstre uma unidade nos modos de raciocínio e conhecimento imediato, comum a todos os seres humanos, pela mera contingência de sermos criaturas individuais (corpos limitados, separados uns dos outros, nos quais toda experiência mental se dá “dentro” do cérebro e dos nervos de cada um), as mais indubitáveis “verdades universais” (mesmo aquelas sem as quais nem mesmo poderíamos nos comunicar) só existem como realidade à medida em que se tornam “verdades para nós”, pela construção interna que as impregne de algum sentido além da aceitação frouxa e acomodada da tradição ou do “costume” inquestionado.

Isto é suficiente para renunciarmos a toda passividade de comportamento, por mais prazeroso que seja o deixar-se conduzir, imóvel e cômodo, no fluxo inerte dos dias e das noites, do vento e da chuva, das fofocas de esquina ou dos escândalos e maravilhas do imaginário jornalístico.

E, desde o momento em que resolvemos seguir nossos insights e asneiras auto-inferidas, só podemos realmente ser livres e tentar escapar à fatalidade de nossa condição animal (ainda que só possamos ultrapassar as barreiras da existência material e da morte no íntimo de nossas mentes) se nos colocarmos numa posição de permanente luta e vigilância, em um mundo que está organizado para que sejamos membros do rebanho, sem direito à mais mesquinha individualidade.

Numa sociedade em que a maioria é submetida (com a própria colaboração de seu conformismo) a existir segundo os padrões definidos pelos dominadores (no proveito destes), o exercício do livre arbítrio só é possível como rebelião, pois, a todo momento, estará chocando-se com as regras de comportamento exigidas pela dominação.

Onde há senhores que precisam de autômatos humanos para executar por eles todo o trabalho intolerável e penoso, quem quer se arrogue o direito à própria singularidade jamais o poderá fazer na ingênua crença de ter como justificar sua vida por si, e para si mesmo (uma vez que, como toda gente, é um ser que pensa e sente). Tal disposição é contrária à ordem que nos é imposta e a realização concreta da liberdade só poderá dar-se na forma da rebeldia, já que, permanentemente, os mais diversos condicionamentos e exigências, as mais sutis punições e chantagens, as mais explícitas seduções e sabotagens cairão sobre o indivíduo livre para reconduzi-lo à procissão do fatalismo ou até mesmo ao próprio desaparecimento da Terra, se necessário à manutenção desta ordem.

A cada instante da existência, ou nos opomos às ondas construídas pela sociedade hierarquizada e pela opressão de todo tipo (principalmente a das idéias, crenças e condicionamentos jogados sobre nós em prol das mórbidas necessidades de prazer de nosso amos), ou nadamos ferozmente contra a correnteza do poder e da inércia dos subjugados, ou contestamos tudo o que não seja genuíno e são (que não nasça do âmago de nossos corpos e mentes e a eles não se manifeste como satisfação e gozo), ou nos tornamos rebeldes, transgressores de toda ética vinda dos poderosos e seus adoradores, ou só nos restará o doloroso, e ainda assim inconformável, papel de bufões da inteligência e da liberdade! Mais valeria, não nos rebelando, fôssemos pedras e não houvesse a natureza viva evoluído até nos dotar de consciência.

Ubirajara Passos

DO FALATÓRIO HISTÉRICO EM POLÍTICA


Embora dirigente partidário, como já escrevi neste blog, sempre mantive a independência mental e a capacidade crítica suficiente para constatar as asneiras dos políticos, até mesmo dos mais autênticos “socialistas”. Certas práticas a que a necessidade do voto, numa sociedade majoritariamente imbuída da mentalidade burguesa e dos preconceitos próprios da cultura autoritária (como “honra”, “honestidade”, “simpatia”, “status”, etc.), acaba por submeter o mais radical revolucionário vermelho (as demagogias “marketeiras” de todo tipo) são simplesmente inaceitáveis.

Não por contrariarem ideais puristas de “verdade”, “realidade” e “conscientização das massas”, mas por jogar na vala comum do lixo geral as oportunidades de indignação concreta dos trabalhadores e igualar, na prática dos palanques (de praça ou eletrônicos) o velho discurso do clientelismo e dos pretensos defensores do povo. Por mais bem intencionado que seja, o político que se arroga a missão de “salvador”, “mártir” ou “protetor das massas”, está (pela simples atitude) colaborando para a manutenção da sociedade autoritária (ainda que seu autoritarismo se faça de forma disfarçada), hierarquizada e opressora.

Não há como escapar, ao ceder às demagogias comuns à cultura da mídia capitalista, à óbvia conseqüência da manutenção da “escravidão assalariada”. Pois muito mais do que no exercício concreto da “força” é nos hábitos e crenças mentais das multidões que se sustenta sua opressão. Assim, toda prática que não apostar no questionamento e na rebeldia aos modos de pensar pré-determinados e condicionados às pencas na TV nossa-de-cada-dia (só para citar o principal instrumento de “adestramento” das nossas mentes) só pode conduzir, NECESSARIAMENTE, à manutenção da sacanagem vigente.

Toda esta elocubração intelectualóide é para, safadamente contextualizado por este escritor cretino, reproduzir abaixo o primeiro “SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”, por mim parido nos idos de outubro de 1999:

DO FALATÓRIO HISTÉRICO EM POLÍTICA

Não adianta namorar a revolução com intenções explicitamente utópicas, como não resolve flertar com uma mulher de forma manifestamente luxuriosa. O encanto de ambas as coisas está justamente na intimidade secreta, fruída pelos amantes de maneira natural, vale dizer semiconsciente, sem protocolos, nem compromissos formalmente estabelecidos.

É a fascinação daquela afinidade e prazer recíprocos, simplesmente intuídos (captados no relance de um olhar carregado de cumplicidade e tesão), que dá o sabor do sobressalto e valoriza um amor.

Assim é que – quando um líder precisa clamar veementemente às “massas” suas intenções redentoras e engajadas – sua credibilidade, ainda que formalmente íntegra, se encontra simplesmente rota e sua liderança, esboroada.

Previnamo-nos, caros amigos, dos loquazes e verborrágicos representantes da ira divina, dos despreendidos defensores do povo, tempestuosos instrumentos da justiça! A sua verborragia oca e vertiginosa guarda nada mais do que a própria essência do olho do furacão: de nada se compõe e a nada levará, senão à satisfação inconfessável de seus mais elitistas e abjetos interesses.

Ubirajara Passos

DA NATUREZA POLÍTICA DAS SOCIEDADES EXPLORATÓRIAS


Enquanto me curo da ressaca de champanhe (ando um bêbado chique ultimamente, ainda que o “espumante” seja daquele baratinho de R$ 5,00), deixo com os leitores mais um “Sermão na Igreja de Satanás”:

DA NATUREZA POLÍTICA DAS SOCIEDADES EXPLORATÓRIAS

Embora os nossos ilustrados revolucionários igrejeiros creiam piamente que todo drama do capitalismo consiste na “má distribuição de renda”, a mais banal e oculta (para os seus compassivos olhinhos) verdade é que, como todas as outras formas de sociedade de classes, a atual nada mais é do que o exercício da velha e boa pecuária aplicada à manada humana. Concentrar toda luta social na reivindicação de salários dignos supõe implicitamente a possibilidade da existência de patrões bonzinhos e reduz a revolução à expectativa infantil de uma oração ao Senhor para que nos dê uma boa burguesia, que nos faça felizes e não nos deixe passar fome”.

Ainda que o capitalismo esteja impregnado da psicologia da classe que, historicamente, lhe deu origem (cuja fé concentra no deus-dinheiro toda devoção), a sua essência em nada difere do escravismo ou da servidão feudal, a não ser na ausência dos pés acorrentados (a qual é mais produto da rebeldia parcial dos “explorados” que da vontade burguesa) e do título formal de vassalagem.

A mentalidade burguesa, filha das incertezas materiais de indivíduos que no Ocidente medieval encontravam-se à margem do sistema produtivo predominante, dá à atual sociedade de classes a cor da marcha ferozmente competitiva e ávida pelo progresso da riqueza (ou melhor, do butim)… do capitalista! (o senhor de escravos ou de feudos já se contentava em ter à sua disposição uma horda de rezes falantes que realizasse por ele todo o trabalho e lhe permitisse integral dedicação ao ofício da vadiagem). Não é, entretanto, o simples exercício da “esperteza”, e a vigarice herdada dos velhos mercadores (cuja sofisticação das técnicas se constitui na moderna gestão econômica), que permite aos ladrões protegidos por lei (com registro na Junta Comercial) sua posição sócio-econômica.

Como seus antecessores de outras eras, eles não possuem poder porque nos roubam, mas nos roubam porque se fazem poderosos. E sua pilhagem se mantém intocável através dos tempos porque não se resume à expropriação do que produzimos com nosso trabalho, mas porque nos roubam a própria vida, o tempo, os braços, a mente, convertendo-nos em sua propriedade!

Pouco importa se o “contrato de emprego” se constitui em compra, troca de serviços por “proteção”, ou aluguel, porque seu objeto não é apenas os braços, o cérebro, a buceta (ou tudo isto, no caso de uma santa esposa e “dona de casa”), mas todo o nosso ser e (ainda que não o percebamos) pelo tempo integral de nossa existência quotidiana.

Esta é a realidade num mundo em que a maioria de nós não possui tempo, dinheiro ou disposição para o prazer, o amor, o sexo, a doce e instigante gandaia de noites bêbadas e boêmias, ou mesmo a mole ternura familiar e a descontração satisfeita de uma conversa à toa, pelo simples fato de que a rotina exaustiva e obrigatória de trabalho que nos impõem os nossos senhores e as migalhas da riqueza que produzimos, e nos é devolvida em forma de “salário”, não o permitem, e não por nossa opção.

Bem observada, a nossa existência se resume a trabalhar e prover os meios de nos manter em pé e preparados para produzir, enquanto a classe que se arrogou o direito de organizar, e carrear em seu proveito, a produção econômica necessária pode viver, dentro das limitações que lhe impõe o próprio exercício do domínio, todas as possibilidades que a aventura da vida consciente de si mesma lhe permite.

Ou seja, não apenas na vontade e concepção de nossos dominadores, mas em nossas próprias atitudes habituais, em momento algum justificamos nossas vidas além da simples sobrevivência, vivendo não para nós mesmos e em vista de nossas necessidades e desejos de animais sensíveis e conscientes. Mas, da mesma forma que os “animais de criação”, toda nossa rotina está voltada para os interesses e necessidades de nossos “donos” e são eles que a definem em detalhes, seja quanto ao ritmo (condicionado pelos horários e dias de trabalho e descanso), quanto às possibilidades biológicas, materiais e mentais (rigorosamente fixadas pela escala de salários, que preenche, no caso humano, as funções da seleção e adestramento de raças destinadas a trabalhos específicos ou exposição: não por acaso um engenheiro ou uma “modelo” de moda têm remunerações diferenciadas das de um lixeiro ou peão de obra), e mesmo quanto às próprias idéias que fazemos do mundo e de nós mesmos (pela via do condicionamento ideológico profundo).

Somos, em suma, os apêndices, as ferramentas necessárias “empregadas” pela burguesia para a geração e perpetuação de seu requintado, vadio e, perfidamente, colorido quotidiano, verdadeiro carnaval de 365 dias por ano, a contrastar com a feiúra e melancolia gris de nossos farrapos e carrancas. Para que a minoria de salteadores prepotentes e maquiavélicos possa gozar permanentemente uma plenitude de deuses do Olimpo nos é imposta, em essência, a mesma e velha condição dos escravos (com a única diferença que, pelas necessidades e interesses decorrentes da moderna tecnologia, nos é dada uma maior mobilidade e uma aparente liberdade), cujas cadeias são ainda mais difíceis de romper que as das correntes físicas, porque disfarçada e fortemente introjetadas na própria alma e com a própria colaboração de nossas crenças.

Já não nos separam em compartimentos para machos e fêmeas, e nem nos retiram nossas crias para a educação impessoal de amas de leite e o adestramento de feitores. Nos permitem ter nossas próprias choças e viver nossas próprias ilusões domésticas, à semelhança das famílias burguesas, e temos liberdade, ao menos teoricamente, para definir a que profissão nos dedicaremos (se seremos cães pastores ou de caça) e em que empresa trabalharemos (a quem nos venderemos). Mas não temos liberdade, em momento algum, para trabalhar o mínimo necessário à manutenção de nossas vidas, nem para decidir qual o grau de sofisticação e prazer físicos e mentais que lhes pretendemos imprimir; se viveremos, dentro das possibilidades naturais, num mundo de alegre e satisfeito jogo, ou nos sacrificaremos em nome de qualquer ilusão grandiloqüente! São os nossos amos quem o decidem, no próprio proveito, e é o poder (calcado nos nossos mais recônditos condicionamentos de obediência servil) de mando (político, portanto) que mantém a vigente tortura universal e inevitável da escravidão assalariada, e não a sua pretensa maior habilidade na negociação de um “contrato” de trabalho entre partes pretensamente iguais.

Enquanto houver patrões, enquanto alguns impuserem na prática, e sob as mais abstrusas fantasias – como as noções de Direito e Estado, aos demais as regras e condições de comportamento e, por via disso, apropriarem-se do produto do trabalho alheio, haverá a miséria, a vida subumana e indigna da condição do mais vil vira-lata, ou, no máximo, a de “touro de exposição agropecuária” (que nem por bem alimentado e tratado, como é o caso da pequena-burguesia , deixa de ser touro e viver nos limites do curral e da mangueira). Ninguém funda uma empresa privada com intenções altruístas e é da própria natureza da propriedade burguesa (que é “propriedade” dos bens alheios, portanto expropriação dissimulada) o desejo de domínio e a conseqüente opressão da humanidade.

Ubirajara Passos

DO CARÁTER NEFASTO DA ÉTICA


Como, hoje à noite, o cansaço da avalanche de serviço no foro não me permitiu escrever, vai aí, para que os leitores não fiquem na mão (que punheta literária é coisa braba), mais um dos meus “Sermões na Igreja de Satanás.

DO CARÁTER NEFASTO DA ÉTICA

Mais do que todas as dores e incômodos físicos, constrangimentos e humilhações psíquicos possíveis, a noção de culpa é, historicamente, a mãe dos maiores infortúnios que sofremos. Diversamente daqueles, que podem ser completamente involuntários, ela só pode existir, nos atormentar e induzir-nos às atitudes mais prejudiciais a nós mesmos, pela colaboração de nossa vontade e pela aceitação convicta dos preceitos e proibições com quem somos bombardeados desde a mais tenra infância.

Não é a transgressão destes (que, ao contrário de nossas suposições moralistas, constitui o único modo possível de atingir a felicidade) a responsável pelos desconcertos e tragédias públicas e subjetivas da atual humanidade, mas (por mais absurdo que possa parecer aos denunciadores de escândalos – os modernos ratos de confessionário) justamente o empenho angustiado e intenso com que nos impomos as mais infelicitantes regras, em nada derivadas da necessidade de bem-estar inerente a todo ser vivo, mas filhas do sadismo institucionalizado.

Bem ao inverso do que engolimos diariamente boca abaixo, a “moral” e a ética não possuem qualquer relação com a “harmonia” ou o “bem de todos nós”, mas se constituem, antes de mais nada, num conjunto de imposições e proibições absolutas que – pela sua simples natureza impositiva (acima e a parte de nossas necessidades, raciocínios, sentimentos ou decisões) – necessariamente se opõem à nossa legítima e inquestionável condição de seres conscientes e pensantes.

Se – afora seu caráter autoritário – examinarmos a fundo o conteúdo do que normalmente nos é recomendado em seu nome, verificaremos que a “ética” em muito pouco difere dos modos formais, mecânicos e rígidos de comportamento das “festas” aristocráticas de todo tipo (das velhas orgias “hierarquizadas” do escravismo – onde o prazer sádico dos senhores era absolutamente livre para satisfazer-se no lombo dos “criados”, mas o papel destes era pré-determinado e jungido às taras de seus amos – aos insossos saraus burgueses do século retrasado, devidamente macaqueados da velha nobreza feudal).

Ou seja, não passa, no fundo, de etiqueta, cuja natureza objetivamente irracional, injustificável e indiferente à essência das atitudes que pretende normatizar (da posição dos talheres à mesa à rigidez da ordem unida e das continências e cumprimentos em quartéis, hospícios e escolas) tem por objetivo nada mais nada menos que garantir a nossa cordada e sobressaltada submissão aos nossos “donos” (os “proprietários” de todos os matizes – dos capitalistas senhores de esposas e “empregados” aos feitores de escravos “executivos”, “gerentes” e simples peões “chefes de família” – tão dominados quanto todos os demais trabalhadores, mas a que a moral tradicional da burguesia garante uma parcela de “autoridade”, nem que seja sobre o seu cachorro) para conforto e satisfação de seu domínio sádico.

A própria idéia de que possa existir legitimamente um conjunto de regras de “comportamento” (uma moral) não derivado da consciência raciocinante e dos sentimentos de cada um nós, mas que justifica sua validade (e a necessidade de nossa “obediência” a ele) na sua característica impessoal e abstrata, além da existência concreta da humanidade, trai a sua verdadeira origem e finalidade. Ao invés de verdadeiro “deus”, eterno, anterior aos homens e deles independente – como se pretende apresentá-la na sua forma mais “intelectualizada” e filosófica – a ética é apenas o manual de domesticação e adestramento do rebanho humano para que seja dócil ao domínio da classe exploradora.

Justamente por estar a serviço de nossos subjugadores e dos bretes a que nos submetem, suas normas se apresentam como inflexíveis, ilegitimando qualquer circunstância que não se encaixe estritamente em seus padrões, e revestem-se de uma perversidade que assimila o prazer ao “mal” e ao “pecado” (a imperdoável quebra mística da “lei” ou do “mandamento”) e identifica o sofrimento (o da classe explorada, evidentemente) com a “virtude” e o “bem”.

Outra não é a razão da pretensa “imoralidade” do sexo, ainda subjacente em nossas mentes modernosas, das noções de “honra” (orgulho pessoal revestido de pretenso altruísmo) e “probidade” que implicam na prioridade do cumprimento dos “compromissos assumidos” (sejam eles de caráter explicitamente financeiro, como os empréstimos que devem ser pagos, ou economicamente implícitos, como o casamento compulsório que não deve ser rompido), ainda que dele derive a miséria e a fome de quem teve de emprestar ou a infelicidade emocional do cônjuge cujo fogo amoroso e sexual extinguiu-se, mas não pode separar-se em nome da “integridade psicológica da prole” ou da própria “moral sexual” abstrata. Não é por acaso que tais “crimes” ou “violações” da sacrossanta ética atingem justamente os interesses maiores de seus criadores: a sua sanha de riqueza (em razão da qual os crimes contra a “propriedade” burguesa dos bens alheios são em geral punidos mais severamente que os contra a vida de outrem) e a utilização dos seres humanos como coisas em favor de seus recalques e prazeres sádicos.

É este caráter de verdadeiro adestramento de bois e cavalos – disfarçada sob os conceitos de “dever” racional, dos “bons costumes”, do “bom senso” e do “temor a Deus” (ou seu substituto, a moral laica abstrata) – da ética que desmascara sua contrariedade à nossa legítima integridade biológica e emocional (o que a faz a maior mãe dos sofrimentos psicológicos). Ela é um sistema de prêmios e punições, que castiga os que não se submetem ao auto-flagelo e não reprimem suas legítimas necessidades de prazer e bem-estar de corpo e alma (para contemplar as mesquinhas “necessidades” de fausto, pilhagem e ócio dos donos da sociedade) e mima com o mínimo de conforto a que tem direito (quando não se limita a “reconhecer-lhes” a “honradez” e precedência de “operário padrão”, “pai de família exemplar” ou “esposa ‘honesta’ e dedicada”) os que permitem lhes seja aplicada a canga e as rédeas.

Afinal, o que significa a “honestidade” para um operário senão a absurda crença de que deve se esfalfar oito (ou mais horas) trabalhando arduamente para produzir riquezas capazes de sustentar dezenas de homens com o suficiente a uma vida digna de gente (de carne, ossos, mente e emoções e não simples zumbis) – quando ele próprio pode no máximo manter-se em pé trabalhando com o rendimento de fome canina? Significa o dever absoluto de não furtar-se um segundo ao suplício a que é submetido em nome da sacanagem institucionalizada de seu patrão e penitenciar-se a cada vez que sua precariedade biológica o obriga a “faltar” ao trabalho por se encontrar “doente”?

Qual o sentido dos remorsos de um empregado de escritório ou funcionário público, cujo salário equivale a 7 vezes o deste peão, quando “engana” o chefe imediato e usa a folga solicitada com a desculpa do médico para encontrar-se clandestinamente com uma parceira sexual, cujas “normas” da sociedade verticalizada impediram-no de constituir uma relação à plena luz do conhecimento público? Ou “subtrai” para uso próprio um simples pacote de “papel-ofício” que nada representa em sacrifício econômico para o patrão, mas falta ao filho estudante e pesa no orçamento da família? Significa expor-se à permanente condição de criancinha de 2 anos, submetendo-se a “puxar o saco” de um chefe de setor qualquer, balbuciando os mais cretinos elogios ou calando às mais absurdas afirmações de superioridade de criaturas muitas vezes mais medíocres que uma vítima (irrecuperável) da hidrocefalia?

A ética, qualquer que seja o seu formato alegórico, que nos é imposta sob o pretexto da incontrolável tendência humana à “rebeldia” (que se identifica com a “maldade” por colocar em cheque a dominação), só serve mesmo aos destrutivos e safados interesses dos “poderosos”. E debaixo de seus canônes funestos, filhos do pior ímpeto de redução de seres livres e criativos a meras ferramentas, ela só pode conduzir-nos ao absurdo da psicologia da tortura: se não nos negamos, como indivíduos válidos por si, a servir senhores, se não antepomos o puro prazer de respirar e estar vivo à necessidade do martírio quotidiano, se não rejeitamos deuses abstratos cuja única glória é a nossa própria desgraça, tanto mais “dignos” seremos da prisão a que, por falta de questionamento, aderimos e que é tão moral que sua supremacia importa na vasta legião dos infelizes!

Ubirajara Passos

DA ETIOLOGIA IDEOLÓGICA DA NEUROSE NA SOCIEDADE MODERNA


Ainda na onda de preguiça mental, mas pretendendo amenizar o tédio dos leitores (e divulgar o livro impublicado) vai aí mais um SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS:

DA ETIOLOGIA IDEOLÓGICA DA
NEUROSE NA SOCIEDADE MODERNA

É admissível falar-se em neurose, sofrimento mental, conflito emocional como expressões de uma patologia, portanto de um desvio dos “padrões” de normalidade, em uma sociedade filha da puta como a em que vivemos?

Afora a discussão sobre padrões (em si mórbida, pois estes, no que se refere à ação do homem , são necessariamente doentios, constituindo a negação do que há de mais sublime e criativo: a liberdade) a regra, na esmagadora maioria das vidas humanas, é, e tem sido através da História, o intenso padecimento da alma, dividida entre o desejo e o “dever”, as legítimas aspirações e as “possibilidades”, e não o contrário.

Quando concebemos um neurótico, entretanto, costumamos imaginar um indivíduo particularizado (integrante, como o alcoólatra, de uma suposta minoria a ser tratada nas entidades de “anônimos”, sejam os “A.A.” ou os “N.A.”) que insiste em ser infeliz, apesar de toda a beleza da vida! Que teima em queimar a alma nas chamas infernais (pobre Capeta!) da ansiedade, da angústia, da tristeza e do permanente sobressalto, complicando – por uma espécie de prazer masoquista – desnecessariamente a existência, enquanto o restante da humanidade vive (melhor seria dizer pasta) placidamente (ou bovinamente?).

O neurótico, na visão clássica, e sem vergonha, é, portanto, um inveterado criador de casos, cuja estranhíssima mania de consumir a vida rodando ao redor do próprio rabo (e não vivendo plenamente) é objeto das mais variadas e abstrusas investigações psicanalíticas, sem que a Psicologia especializada tenha conseguido cabalmente determinar suas origens.

Tão absurdo nos parece seu comportamento, que só podemos crer seja causado pelos mais recônditos e indizíveis traumas infantis, os mais idiossincráticos complexos emocionais.

Como é possível, porém, “ser normal”, ter-se calma, tranqüilidade, prazer de viver, quando a existência da imensa maioria de nós é um rosário perpétuo de mazelas e privações (desde as mais comezinhas necessidades materiais até as frustrações filosóficas mais sofisticadas). Exigir uma fria e controlada impassibilidade diante da fome, do não ter o que vestir de forma decente, das contas estourando, e avolumando-se de forma crescente, a cada fim de mês, é supor um super-homem, forjado em ferro – e não constituído de carne, nervos e ossos.

A caracterização da neurose como doença, como caso individual – exceção em relação a uma pretensa normalidade emocional majoritária – obscurece, na verdade, que ela é (ainda que a própria condição humana mortal a suponha), sobretudo, o produto de mazelas sociais muito bem determinadas, de um quotidiano de miséria e opressão, cuja raiz está na própria natureza da sociedade capitalista.

As condições objetivas em vivemos (um rendimento não maior que o necessário à simples sobrevivência e uma disciplina de trabalho autoritária e despersonalizante) nos reduzem a meros instrumentos de geração dos meios que permitem a boa-vida (materialmente faustosa e emancipada do castigo do trabalho) a um punhado de burgueses, que agem e nos tratam como se fossem proprietários não apenas do “capital”, mas de nós mesmos.

Exatamente como o gado, sem que o percebamos, o próprio ritmo de nossas vidas – condicionado pelos “horários de trabalho” – e a expressão concreta de nossa personalidade – tolhida pela “ética” de comportamento da empresa e da “sociedade” – são determinados não por nossos interesses e decisões, mas pela vontade e necessidade do patrão que nos explora.

Diante de tal existência, o conflito interno, a divisão, a “neurose” é a mínima reação que se espera de um espírito saudável. Apresentá-la como misteriosa e incomum doença da alma, calcada exclusivamente nos conflitos do inconsciente é corrobar, na verdade, como normal e saudável (e, portanto, desejável e justificável racionalmente), a ordem social essencialmente mórbida em que estamos mergulhados.

Uma alma que não se retorça, que não ferva diante da violentação da liberdade e do prazer legítimo, da frustração perpétua da felicidade a que todos temos direito de construir para nós e por nós próprios; que não se despedace em tédio e amargura profunda ante a impotência individual em alterar tal realidade; que não agonize ante a censura e a dissuasão contínua (exercida por seus próprios companheiros de desgraça) sobre sua rebeldia revolucionária, é tudo, menos sadia. Doentio é aquele cuja coisificação atingiu tal grau que a própria desgraça já não lhe causa qualquer sofrimento íntimo, tão conformado (e deformado) se encontra com a boçalidade de sua vida.

Ubirajara Passos