Dos doidos e irreverentes (e mais do que nunca necessários) intelectuais revolucionários libertários!


Desde a publicação do último texto (o poema da bailarina) venho me deparando com documentários sobre Glauber Rocha. O primeiro, realizado por sua última companheira, sobre sua estadia na vila portuguesa de Sintra, nos seus últimos de vida – que assisti justamente na madrugada em que escrevi o poema, antes de tê-lo feito. E o segundo assistido, como o primeiro, casualmente, nesta última semana, no canal televisivo fechado Curta! (que peguei pela metade numa madrugada) e (integralmente) no youtube, na noite de anteontem.

E o resultado destas incursões na biografia do mais DDA, polêmico, espontâneo, impulsivo e verborrágico dos nossos cineastas, além das leituras realizadas na internet, após elas, em sites como Tempo Glauber, foi um apaixonamento redentor pela figura, que conheci quando ela se fazia repórter do programa Abertura da extinta TV, em 1979 (ano em que eu começava a me apaixonar pela política, por Leonel Brizola e pela revolução socialista e nacionalista). E a qual creditava um caráter um tanto confuso, extravagante e fora da ordem – imagem esta a qual a  assistência (rápida e parcial) de trechos de seus filmes (como Deus e o Diabo na Terra do Sol), nos anos seguintes, só aprofundousse-me. Me convencendo que o doido que teve a coragem de declarar, sem irônias, que o general gorila (responsável pela estratégia de sobrevivência do regime militar na sua essência econômica, social e cultural até os dias de hoje  – plasmada já naquela época pela promoção de Lula e do PT, a fim de afastar o fantasma de Brizola e Prestes) Golbery do Couto e Silva era o “gênio da raça”, era definitivamente um bicho porra-louca e hermético, destes cineastas cujo sentido das obras (os filmes de “arte”) somente eles (ou nem eles mesmos) compreendem e tem prazer em nos torturar o fatigado cérebro com elas.

GLAUBER-ROCHA-1

O que eu não sabia e não me dei por conta (e, mesmo tendo lido a autobiografia do companheiro Darcy, as Confissões) é que, na mesma polêmica e terrivelmente execrada frase ele afirmava que o outro único “gênio” da etnia brasileiro era o próprio Darcy Ribeiro (cujas informações dadas a Glauber sobre o caráter revolucionário popular da ditadura peruana do general Alvarado o convenceram da possibilidade de semelhante coisa vir a ocorrer na distenção de Geisel e abertura de João Figueiredo no Brasil). E que sua postura, em aparente contradição com seus pendores e concretas atitudes socialistas, nacionalistas e revolucionárias extremadas, vivida na prática da forma num turbilhão caudaloso e impetuoso de produção cinematográfica, literária e na própria e tempestuosa vida pessoal, não diferia nem um pouco da prudência das declarações de um Leonel Brizola sobre a natureza democrática do governo de João Batista Figueiredo, que correspondia, na época aos naturais temores de gato escaldado de quem havia se exilado diante da raiva histérica e furibunda dos golpistas fascistas e assistira à avalanche da tortura, opressão e censura política generalizada que sucedeu ao golpe nos anos seguintes.

E o que me faltava na minha remota adolescência (na qual forjei-me como um ser crítico, independente e libertário) era a trajetória concreta de uma vida iniciada na mais sisuda seriedade esquerdista revolucionária,  transmutada, pelas próprias pedras agudas e sofridas do caminho, na mais irreverente e cada vez mais aberta e questionadora postura, embora nem um pouco concedente para com as mazelas absurdas da opressão.

Hoje, entendo visceralmente a figura de Glauber Rocha (e, embora continue a ver em muitas de suas concepões conscientes, como no manifesto A Revolução é uma Estetyca, uma certa ingenuidade adolescente, o que é perdoável num marxista que, por mais que girasse num furacão criador, não conseguiu se desvencilhar de todo da  velha cartilha camarada) e constato o quanto, guardadas as devidas proporções, a minha trajetória e a do companheiro Valdir fluem nas mesmas águas e na mesma direção da pretensa doideira da metralhadora política giratória do que, efetivamente, foi um dos grandes gênios tresloucados (e, por isto mesmo, tomados de um santo e transformador delírio, que a tudo transcende e tudo questiona, para tudo revirar de patas para o ar e fazer surgir, no cadinho alquímico do pretenso caos, a humanidade profunda e embevecida com tudo que é vivo e/ou é sofrido e doído justamente pela falta de dignidade imposta sobre sua condição de ser vivo, pensamente e vibrante, de carne e osso).

O meu saudoso, inesquecível e cada vez mais pranteado, parceiro de política, intelectualidade, trago e vida, o alemão Valdir, se estivesse vivo e assistisse, e lesse, comigo a todos estes documentários e textos, certamente se entusiasmaria (como certa feita se apaixonou pela paradigmática frase de Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas no pré 1964, sobre a natureza redentora e necessária da agitação política, pois até os remédios são recomendados nas bulas que se agite para perfeita eficácia dos tratamentos), ainda mais que eu (pois ele era, do alto do seu aparentemente sisudo DDA, um ser eternamente inaugural, capaz de se apaixonar umbilicalmente e se engajar de corpo e alma em toda qualquer causa que lhe despertasse o insight da sacrossanta revolta), e, com toda a sua autenticidade nada convencional e abrupta me diria: mas Bira, o que tu quer criticado o tipo, este Glauber é a tua cara!

E, assim, num reconhecimento e homenagem pra lá de póstumos (eu que sempre fui também um adorador da dedicação e irreverência de um Darcy Ribeiro) resolvi, hoje, compartilhar no youtube e postar neste blog o trecho do documentário Glauber Labirinto do Brasil, de Sílvio Tendler (o mesmo autor de Jango e os Anos JK), em que o Darcy profere no enterro de Glauber Rocha (1981) um profundo e atual discurso, celebrando o seu amigo, que era o mais libertário, autêntico e sensível intelectual revolucionário brasileiro,  lá nos anos do já longínquo início do fim da ditadura militar. Vale a pena, caro (e provavelmente assustado com toda esta minha ladainha) leitor, assisti-lo, pelo seu conteúdo atualíssimo e pela profunda emoção expressada, naqueles dias em que o Brasil começava, com a morte de Glauber, a perder os seus grandes representantes da dedicação pura, inteira e vital, e mesmo ingênua, à revolução que reduziria a cinzas, no seu fogo aparentemente caótico e libertador (não fosse frustrada, traída e impedida por muitos que se diziam filhos dela, posteriormente) o desamparo e a miséria material e emocional das multidões sofridas deste país rico e dilacerado.

Dezesseis anos após este discurso (em 1997), se iria o próprio Darcy, que foi  outro grande quadro (como Jango e Leonel Brizola) do compromisso completo e visceral, atê o âmago mais recôndito, com a utopia redentora, socialista e libertária que doidos como eu e meu falecido amigo Valdir Bergmann continuamos, teimosamente, dentro de nossa humilde e limitada condição de peões metidos a intectuais de esquerda, a reverenciar e alimentar no dia-a-dia. Fiquem com o vídeo:

Ubirajara Passos

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s