Dos filhos e as nossas (pouquíssimas) horas de sono: uma relação eternamente incompatível


Desde os meus quatorze anos luto contra uma insônia crônica, que começou da forma clássica (aquelas infindas madrugadas passadas em claro apesar do esforço em dormir, que acaba, justamente, por decretar definitivamente a vitória da falta de sono) até a típica da depressão, que se tornou minha companheira nos últimos anos, e que consiste em, apesar de agora conseguir engatar tranquilamente o motor do sono, vê-lo engasgar e me acordar, aos sobressaltos, uma ou duas horas antes daquela necessária, arruinando definitivamente a corrida pela restauração diária de mente e corpo combalidos pela tentativa de sobrevivência consciente nesta vidinha de peão metido a intelectual cada vez mais fudido financeira, física e psicologicamente.

Vivo, portanto, uma eterna batalha contra o sono (que se recusa, incessantemente a se fazer presente nas horas e na profundidade necessária a uma vida saudável), pelas minhas próprias idiossincrasias. O que não seria tão grave, não houvesse as circunstâncias externas, ligadas ao tema desta crônica, que acabam por torná-la bem pior ainda.

Até encerrar minha carreira de solteirão emérito, aos 43 anos e 2 dias, o problema era todo e exclusivamente meu, ou no máximo dos objetos inertes, do aparelho de tv e dvd aos livros e revistas consumidos na tentativa de cansar a mente e dormir por extenuação.

Mas depois que, simultaneamente, me casei e me tornei pai da coisa mais linda do mundo (a Isadora, atualmente com 6 anos) e padrastro do Erick e da Larissa (ambos na adolescência, o primeiro com 16 e a segunda com 13), descobri o grande tormento de todos os pais mundo a fora com o eterno ciclo dos filhotes humanos, desde o nascimento até o dia em que resolvem nos largar e sair pelo mundo atrás do primeiro rabo de saia, par de calças, ou de qualquer loucura que lhes justifique viverem sozinhos – o que, no meu caso, ainda não aconteceu com nenhum deles.

É inacreditável, mas terrivelmente real, e talvez seja a única verdade absoluta, indesmentível e inalterável do universo, depois da certeza da morte, a relação entre crianças, jovens e pouco sono dos respectivos pais ou cuidadores.

Quando recém-nascidas, é inevitável, mesmo que sejas o pai, a interrupção sobressaltada do sono, durante as horas mais imprevistas, em razão do choro reivindicatório da criatura enlouquecida pela teta materna.

Passada esta fase, quando, inocentemente, relaxamos e imaginamos que o problema está resolvido (pois agora a criaturinha, que logo começará a ensaiar seus primeiros passos e palavras, uma vez adormecida, ronca profunda e profusamente), descobrimos a total incompatibilidade entre a preguiça matinal que nos levava, quando jovens (mesmo não sucedendo noites em claro de boemia ou festas), a nos erguer da cama, aos arrastos, lá pelas 2 horas da tarde, e as criancinhas novas.

Só quem nunca foi pai ou mãe ou vive em qualquer planeta diferente desta nosso Terrinha jamais passou pela experiência. Por uma misteriosa configuração quântica ou mágica, basta o sol apontar seus primeiros raios pálidos na linha do horizonte para se ter um pirralho ou pirralha agitadíssimos saltitando sobre a tua cama e te arrastando pelo dedo indicador da mão para ir brincar com os filhotinhos da gata ou da cachorra da casa, quando não, porque é verão e o calor é terrivelmente convidativo, para se jogar na água fria da piscina, num choque apocalíptico para quem recém saiu, sem muita convicção e completamente chapado, dos lençóis noturnos.

Aí, lá pela proximidade da puberdade e adolescência a dentro, quando imaginamos que a gurizada, mesmo não tendo ido a nenhuma balada noturna, tratará de acordar bem tarde como fazíamos na sua idade e finalmente vamos conseguir dormir até umas 10 h pelo menos, descobrimos, cruelmente, que o que irritava nossos pais não era tanto o fato de atrasarmos para o almoço, mas os ruídos inevitáveis da tv, do rádio ou qualquer outra precária mídia da época, pela madrugada morta. O que hoje, com os tantos jogos e chats on line que permitem se comunicar verbalmente, com viva voz, a qualquer parte do globo, transforma-se qualquer casa onde esteja um piá adolescente num debate ou conversa animadíssima noite a dentro – que impede completamente o sono alheio e nos convida a nos reunir à boemia eletrônica ou a saltar, se for possível, para o mais próximo bar e encher a cara, porque para dormir, definitivamente, não dá mesmo.

Se a coisa é feia, fase após fase, imagine-se o terror do meu caso: viver as 2 últimas simultanamente, com a perfeita garantia de que a mais nova, estará, quando nos livrarmos das estripulias dos mais velhos, entrando na 3ª fase daqui a alguns anos.

Mas tudo bem. Estes percalços fazem parte e, confesso sem qualquer pieguice: apesar de tudo os filhos são a alegria das nossas vidas. E um dia, afinal, baterão as asas de casa e nos deixarão com aquela frustração eterna e mesmo com a saudade de sua gritaria pela madrugada ou das manhãs agitadas. Assim pensam aqueles que, como no meu caso, ainda têm os filhos debaixo da própria asa e do teto.

Mas a experiência alheia, infelizmente, desmente esta tranquilidade final e acaba decretando a eterna incompatibilidade entre a condição paterna ou materna e o bom sono. Poderás já ser avô, caro leitor, mas não te iludas, que sempre haverá ocasião para esmurrares o bidê ao lado, diante do telefone que toca insistentemente, pontualmente às 3 h da madrugada, e, uma vez atendido, transmite a voz chorosa de uma filha, filho ou até neto, que acaba de brigar com a respectiva cara-metade e não encontra outro ombro acolhedor para despejar sua desgraça íntima durante horas a não ser o teu, desventurado ser que cometeste a imprudência de colaborar para perpetuar a espécie humana.

Ubirajara Passos

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