Galileu Galinhei


Galileu Galinhei era um gringo tarado do século XVII que não podia ver se movimentar na sua frente qualquer coisa que usasse saias, vestido ou indumentária semelhante, inclusive batinas, sem ficar de pau em riste, esbugalhar os olhos e, babando e relinchando como doido, por-se no encalço do infausto objeto de sua entusiasmada atenção. O que justificava o apelido que acabou por incorporar-se ao nome.

Nascido em Pisa, no século anterior, há quem atribua seu apetite inextinguível a uma mística ligação com o nome da própria cidade cuja torre inclinada se constitui no único monumento fálico meia-bomba do mundo, e seria derivado (segundo os biógrafos falcatruas) de”Piça”.

O fato é que Galinhei, tendo sido coroinha, e aluno preferido na escola dominical, em sua terra natal, afeiçoou-se tanto à batina (e às guloseimas com que o mimava o padre no quartinho escuro, ambos sós, depois das aulas), que quis se tornar monge. Seu pai, preocupado com o interesse incontrolável do filho pelo corpo humano, e temendo vê-lo desencaminhado em sua masculinidade, resolveu mandá-lo estudar medicina na escola local. Flagrado, entretanto, em plena aula de anatomia, pelos colegas, utilizando um instrumento impróprio na dissecação de um defunto, acabou expulso não só da escola, mas da própria cidade (dizem alguns que não em razão do bizarro incidente, mas por influência do padre Pedrinho, muito apegado ao estudante, e que se sentira abandonado por Galinhei, quando este foi forçado a desertar do seminário). 

Exímio nas quatro operações, o jovem sátiro, divertia-se, nos raros intervalos em que lhe permitia o tesão imenso, com cálculos “inúteis” e consta que foi, nas aulas práticas de medicina, quando treinava a cura da histeria em algumas jovens aldeãs, por métodos nada convencionais, que, observando o vai e vem das tetas das colonas gringa, ao cavalgá-lo em pelo, notou que a extensão deste movimento no ar não dependia da fartura ou magreza dos seios, mas era igual conforme o seu comprimento (diga-se, de passagem, que as conterrâneas de Galinhei não pareciam ser exatamente as gringas mais favorecidas pela “lei da gravidade”, descoberta pelo judeu londrino Isaque, se celebrizando por serem bastante caídas). Foi assim que inventou o pêndulo.

Com tais pendores, acabou matriculado pelo pai em uma escola de Matemáticas em Pádua, aonde descobriu que a velocidade da queda não depende do peso, ao fazer umas experiências com suas bolas em plano inclinado sobre o lombo das putas do mais famoso cabaré da cidade. Fossem gordérrimas ou verdadeiros esqueletos, todas íam abaixo, despencando sobre o catre do bordel, exatamente no mesmo tempo, quando o Galinhei safado retirava sua enorme régua de seus receptáculos dianteiros e a cravava fundo em sua bunda.

Caindo na besteira de incluir na tal experiência a marafona preferida de um nobre, acabou corrido a pauladas e foi se refugiar em Florença, onde se achava, no início dos anos 1600, se dedicando pachorrentamente a suas duas distrações preferidas: a putaria e os números.

E foi lá que deu o azar, até então inédito, de ver-se rejeitado. Galinhei, além de fogoso e mestre em cálculos, era o típico sedutor italiano e não havia mulher, virgem ou puta, solteira, casada ou qualquer coisa similar, que resistisse ao seu verbo (embora haja quem diga que ele era mesmo um chato:  as gringas acabavam lhe dando para não terem de suportar mais suas barrocas arengas). Seja como for, lá Galinhei encontrou a mulher mais gostosa e interessante de todo seu vasto repertório. E justamente ela, por que daria a vida para ao menos ver nua, não queria nada, e fugia do próprio Galileu como o capeta de católicos e protestantes, naquela época de guerras religiosas  em que ambas as correntes se digladiavam até a morte para ver quem enviaria mais fiéis da seita inimiga ao inferno na ponta de suas espadas, nos instrumentos de tortura e nas chamas do “amor divino” (em cujas fogueiras a igreja católica era imbatível).

Pirado e emputecido, Galinhei não pensava em outra coisa e até largou das putas, das viúvas e das vistosas esposas dos camponeses dos arredores, para se dedicar exclusivamente à sua obessão platônica. E foi em meio à esta crise existencial que chegou-lhe às mãos um dos primeiros exemplares importados de uma novidade que veio  a calhar aos seus propósitos: o  telescópio. Durante noites e madrugadas Galinhei, pendurado nos galhos de uma árvore fronteira espionou as janelas do quarto da amada, com o artefato em punho, tentando enxergar-lhe a loira e voluptuosa nudez sem sucesso! E, finalmente, naquela sexta-feira de lua cheia, em pleno outono, conseguiu o intento. Branca e redonda, enorme, surpreendemente, estava lá se sacudindo, enquanto subiam pelas pernas as calçolas, aquela entusiasmante bunda, quando Galinhei, num movimento falso, perdeu o precário equilíbrio (pois segurava o telescópio com uma mão enquanto a outra fazia o serviço solitário, se apoiando no tronco com as coxas) e foi ao chão, dando uma tremenda cabeçada!

Colhido por um transeunte, o professor devasso foi levado ao hospital, onde, se acordando na manhã, seguinte, instado pelos amigos sobre o acidente, e ainda meio tonto, possivelmente delirando pronunciou a famosa frase, se referindo à bunda da gostosa: “i por si muove!”

Padre Pedrinho, seu antigo mestre, que andava na cidade, sabendo da história (que não havia ninguém mais popular na pátria do mais famoso poeta do amor platônico, que Galinhei naquela época), tratou de intrigá-lo e foi correndo a Roma fofoquear que o matemático havia dito que a Terra se movia sozinha, sem a intervenção de Deus, e, o que era pior, não era o centro do universo (parece que Galinhei, meio sonolento ainda, falara mesmo no hospital que a Terra girava ao redor da cobiçada bunda, quando interrogado sobre a estranha frase que recém berrara), mas andava ao redor do Sol!

Enrolado involuntariamente nas intrigas ideológicas e políticas da padralhada, por pouco Galinhei não perdeu a vida  na festa de São João do Papa. Conta-se a boca pequena que se salvou da fogueira não negando publicamente uma afirmação que, efetivamente, jamais fizera, mas mostrando ao papa (que comungava com ele, como era moda naqueles tempos entre os supremos mandatários da igreja,  a admiração por belas donas “boas” – como se dizia nos anos sessenta do século XX) um retrato que da formosa bunda, que lhe fizera, por encomenda e conforme as indicações de suas recordações, o neto de um pintor gringo famoso, também ele pintor, ainda que medíocre, o qual compartilhava com o avô o nome, e um epíteto que lhe simulava o sobrenome: o Leonardo Dá Vinte!

Ubirajara Passos

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