Isaque, o nihil tom, e a puta força!


Isaque era um professor judeu de meia-idade. Para ser exato, um quarentão cabaço, terrivelmente excêntrico e distraído.

Sua excentricidade incomum principiava na própria condição étnica. Pois sendo um judeu, filho de um comerciante judeu, e (agravante indefensável) judeu inglês, cuja família se encontrava radicada na ilha há séculos, negou-se terminantemente a suceder o pai no bolicho londrino, dedicando-se ao infausto, mal quisto, mal visto e mal remunerado ofício de mestre-escola de meninos burgueses, numa época em que ser burguês era coisa equivalente à ralé de nossos dias (ao menos para os falidos e soberbos nobres de então).

Jacó, seu pai, havia percebido, que o rapazinho, desde novo, tinha um ar e uns hábitos estranhos. Ao invés de correr as guriazinhas goens do vilarejo, preferia andar, ensimesmado, pelos obscuros becos, com a cabeça na lua e os pés tropeçantes, como se pisasse sobre um colchão de penas de ganso e não sobre a terra dura e fria.

Suspeitava mesmo que o filho era veado e só não o levou ao rabino, para as devidas admoestações, porque o estranho piá, apesar do ar fresco e abestalhado, também não chegava perto de guris. Preferia passar o dia a conversar sozinho nas esquinas.

Crescido, já o pai morto, Isaque liquidou o comércio da família e, para decepção de sua mãe, irmãs e primos, abriu aula pública para filhos da nascente burguesia mercantil-marítima, garantindo algumas vagas, custeadas pelos cobres herdados, a ranhentos filhos da ralé suburbana, que diferiam dos demais alunos por sua compleição física um tanto avantajada e rudes hábitos zoófilos.

Mas Isaque não era um professor comum. Apesar de sua propensão ao pouco lucro e, contrário à sua raça, à ingenuidade própria dos mais imbecis otários, Isaque, como todas as gerações que o antecederam, era exímio em cálculos, e bastante criativo. O que não lhe favorecia nem um pouco a ilustre condição de bocaberta. Era famosa em toda a Londres do final do século XVII a anédota sobre o dia em que foi cronometrar o tempo necessário ao cozimento de um ovo no forno à lenha e introduziu neste  o relógio, ficando a segurar o ovo (por motivos bem mais puros e precários do que poderiam supor seus maledicentes vizinhos, cuja diversão preferida era espionar o jardim de sua chácara, quando nele se reunia a pequena multidão de mancebos em idade púbere).

Ermitão esquisito,  com fama de puto,  portanto, Isaque, surpreendentemente, tinha por melhor amigo um sujeito enfronhado na pior ralé do baixo meretrício da antida Londinium. E foi por sua insistência, heróica e veemente, que um dia resolveu abandonar  quadro negro e estrado, dando-se à futilidade de ir percorrer, em plena e apavorante madrugada, a zona da capital bretã.

Como convém a todo chato intelectual burocrático e moralista, Isaque era abstêmio. E, herança maldita que integrava a essência da índole herdada, tão recalcitrante (apesar da rejeição voluntária), era pão-duro. Assim, quase bota a perder a vantagem do amigo, que o levava ao cabaré do Peter em troca dos favores gratuitos das ilustres falenas rubras, justificado apenas na valorização que a fama da presença do ilustre mestre haveria de trazer à casa, situada às margens do então cristalino Tâmisa. Chegado às dez da noite, eram três horas da manhã e, entediado e bocejante, o seco professor não havia se disposto a pagar uma única dose a qualquer das dadivosas e dedicadas girls e já começava a causar rebuliço entre o plantel de pinguanchas, exasperadas com a chatice e a inexistência da clássica porcentagem sobre o vinho, ainda que obrigadas pelo rufião-proprietário do bordel a sentar-se à mesa do urubu narigudo, todo vestido  de preto (com olhar parado e turvo de sádico dominador).

O homenzinho, além de empolado e discursante (de uma conversa enigmática, pedante e enjoativ) era brocha. As putas desdobravam-se na maior loucura, se esfregavam em pelo no colo do infeliz, bolinavam-lhe e lhe lambiam a cara e NADA!

Mas eis que chegado próximo ao encerramento da função noturna, apavorado, o pobre amigo tratou de fornecer-lhe, sem aviso, uma estranha erva no cachimbo, e o qüera, enlouquecido, pôs-se sobre a mesinha circular, completamente nu, com o tarugo em riste, a cantar e gesticular, desafinado, se esvaindo em gargalhadas.  Num giro histérico, foi deitar o olhar justamente na Clotilde, a mais rechonchuda e desvalorizada camareira do lugar, que naquela hora passava pelo salão com um rolo de lençóis entre o único quarto e a tina de lavar.

Doidão como estava, não houve quem pudesse convencer Isaque, jegue emaconhado, a largar mão da tia e grudar uma mariposa nova e bonitinha. E assim foi, saltitante, histérico, aos gritos e relinchos, para um infecto cubículo, onde, à luz cambaleante do candeeiro, Clotilde, entusiasmada (que fazia uns bons vinte anos nem cego ou marinheiro torto se dispunha a lhe ralar as carnes) sacou as roupas de um único e arrebatado coice. Apavorado com o enorme e esburacado traseiro, que mais parecia um queijo (ou a lua, como o professor a vira ao telescópio), Isaque ficou sóbrio num segundo e, vendo aquela coisa molenga e pesada lhe pender sobre o caralho, agora falecente, entrou em transe matemático, e, num insight histórico, formulou a clássica e irrefutável teoria que explica o funcionamento do universo.

Havia uma força muito grande, absurdamente séria e preocupante, que o havia conduzido ao sujo catre  e fazia aquela colossal buzanfa flácida pender sobre o seu púbis e lhe esmagar os ovos magros, sem apelação, fazendo-o esbugalhar os olhos num movimento reativo da cabeça de baixo ao topo da de cima. Não sabia como explicá-la, embora pudesse calcular em detalhes o impacto e a trajetória. E sendo tão grandiosa e infelicitante, num lance genial, a denominou, diante da situação periclitante, de FORÇA DA GRAVIDADE!

Ubirajara Passos

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Um comentário em “Isaque, o nihil tom, e a puta força!

  1. gerson disse:

    Isaque usou de sua influência para divulgar o óbvio, e de seu talento literário para produzir sua tese. Enrolou todos com a finalidade de se tornar conhecido nos mais variados ciclos inteletuais sociais burgueses.
    Se lei da gravidade nâo tivesse sido discutida profundamente, muito trabalho seria poupado. No planeta terra tudo que sobe cai, com ecessão da inflação que corroi meu palpérimo salário.

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