A Caverna das Chuvas Eternas


Um ano e meio depois, mais um capítulo de Erótilia, para cujo perfeito entendimento, sugiro aos leitores acessar, na coluna lateral deste blog, o LIVRO ELETRÔNICO correspondente onde constam os capítulos anteriores:

A Caverna das Chuvas Eternas 

Caminharam como dois malucos por um dia inteiro até alcançar uma clareira na fralda de uma colina, onde às margens de uma cachoeira se encontravam as mais diversas oferendas a todos os deuses possíveis e imagináveis, muitas em pleno estado de putrefação, outras brilhando ao olhar do luar e dos cúpidos andantes, com suas redondas formas de amarelo brilhante e intenso, ouro e absoluto  ! Ali, pleno início noite, sentaram-se de qualquer jeito e, consumidas as provisões de pamonha dos alforjes, trataram de encharcar-se do suco fermentado da cana, sucumbindo aos seus apelos oníricos e roncando  “indecentemente” até a madrugada.

Três horas de uma noite pesada, densa e eterna, acordaram-se sob os gritos estridentes de um luar histérico e puseram-se novamente a caminho. O dia já nascia quando finalmente atingiram o destino programado pelo gordo mestre e Epicuro, trêmulo, e ainda meio bêbado, deixou-se levar pelas pernas e ser engolido pela abertura longilínea e elíptica na negra pedra, que o conduziu a uma enorme caverna, estranhamente iluminada por uma onda de verde flutuante que projetava sombras de todos os cantos. Repentinamente pareceu-lhe que a onda verde agigantava-se, ao mesmo tempo em que adquiria maior força (perceptível na própria pele) e velocidade e passava a descrever no ar rarefeito uma série de elipses sobrepostas, que o agitavam nas mais diversas direções, fazendo-o girar para todos os lados, em alternância enlouquecida e sucessiva, até que viu-se completamente suspenso, flutuando em meio a tudo.

Foi então que o verde foi escurecendo até transmutar-se por completo e projetar-se a sua frente um estranho e remoto mundo. Num único e violento jorro viu uma diminuta força transparente agitar-se numa vibração cada vez mais contundente e ir-se tornando cada vez maior e mais visível, até adquirir o aspecto de uma rubra e pastosa fogueira, que foi girando, girando e girando, até tornar-se uma esfera escalavrada azul e cinzenta, que se revelou a própria Terra primitiva.

Um chiado insistente e ensurdecedor, tomou então conta de seus ouvidos, a ponto de não entender uma única palavra do mestre Pancius, que gritava como doido em requebros, relinchos e coices de êxtase primevo. A frente de Epicuro se desenrolou por horas que duraram milênios e milhões de anos, uma torrente contínua, persistente e desgastante de chuvas, que desenrolou-se na paisagem de montanhas, vales, planaltos e depressões.

 A torrente incessante  penetrava cada vez mais e mais na terra, e na consciência de Epicuro, com uma força constante e envolvente, e ía cinzelando vagarosamente os contornos mais imprevisíveis sobre o solo, enquanto sua monótona e arrebatadora música ía forjando  profundamente todo os eventos vivos e dinâmicos dos milênios, milhões e bilhões de anos seguintes. Criando e cruzando histórias e personagens, imagens e abstrações mentais profundas e bizarras, que mergulhavam Epicuro até o fundo das águas, e além, até o núcleo líquido e incandescente, trazendo-o de volta à tona, e, por fim, projetaram-no numa encruzilhada escura, em meio da floresta, em que mal se via, sob um silêncio absoluto e aterrador, uma tênue fresta de luz à frente. Pancius, liberto de sua última missão (conduzir o imberbe discípulo narcisista às fraldas do nada), rebentou, num estrondoso tombo, junto à pedra da caverna, e seus cacos (que tornou-se, na queda, rígido qual estátua vítrea) reagruparam-se espontaneamente, até formar um chifre de ponta furada, que Epicuro, ainda semi-ínconsciente, juntou do chão e tocou reproduzindo a melodia da garoa eterna.

Gravataí, 16 de abril de 2011

Ubirajara Passos

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