Crônica de segunda-feira


Lá vem o Bira com mais um lugar comum! Parece que o casamento corroeu seu cérebro e picou em pedacinhos, bem medíocres, sua criatividade. Se o leitor acabou de ter um pensamento desconsolado e irritante destes, saiba que talvez o criativo esteja justamente na publicação deste pobre e vazio lugar comum!

Como tenho ultimamente escrito aqui, a função de “pai de família” não tem me deixado muito tempo para escrever, ou fazer qualquer outra coisa que não esteja vinculado ao estrito cumprimento das rotinas de sobrevivência e manutenção. Exceto, é claro, descobrir com a Isadora os pequenos encantos de um campinho, um monte de terra vermelha destoando em meio à calçada de pedra, dois cachorros birutas se pechando na correria afoita, e quase nos derrubando, tudo sob a sinfonia de uma brisinha de outono, num sábado à tarde.

Encerrada esta pequena digressão poética pequeno-burguesa e sentimentalóide, cabe dizer que ultimamente programo com semanas de antecedência qualquer texto a ser publicado, anotando de passagem as eventuais inspirações que se fazem presentes, para poder, na torrente de desvios e postergações eternas com que o DDA me empurra de um lado para o outro da ventania existencial, atualizar este pobre e maltratado blog.

Assim, hoje deveria finalmente publicar aquela crônica política reproduzindo o discurso do Brizola no comício de 13 de março de 1964, acalentada desde o fim de março (e escrita na madrugada do último sábado, sob a inspiração da cachaça, que, manhosa, tratou de me fazer deletá-la por acidente antes de publicar). Como deveria já ter publicado no blog do Movimento Indignação o relatório da última, e infeliz, Assembléia Geral do Sindjus.

Mas a segunda-feira me tomou de chofre e me fez arrastar o dia inteiro na pior modorra possível. E não permite mais que simplesmente dela me queixar, maldizer este ânimo sonolento, lento e sorumbático, que nos faz jogar-se a um canto qualquer do mundo e ficar olhando para tudo com um estranho olhar, abestalhado, mas eventualmente surpreso.

Nestes dias, que não costumam ocorrer somente às segunda-feiras, mas podem se manifestar até aos sábados, e não são incomuns nas tardinhas ou noites de quarta-feiras, a gente (pelo menos eu) se sente meio fantasma. E sai por aí vagando, e observando tudo, como se não existisse, muito embora esteja cumprindo a rotina comum de todo mundo e todo dia e nossa figura, tropeçando pela rua, não difira nem um pouco do férreo e duro martelar histérico do trabalho e da ansiedade de todo dia.

Mas é estranho. Do nada, de repente, neste deslizar dissimulado, avistamos uma casa antiga, um pedaço torneado de cerca, um canto de varanda, uma velha vidraça de moldura bizarra cheia de arabescos, um vitral quebrado, e, por alguns instantes, zumbis adormecidos no mundo do necessário e do útil, acordamos para uma dimensão estranha e ali ficamos, boquiabertos, sonhando fantasias indefinidas, até que o ronco do motor, ou o latido do pit bull ao lado, nos traz de volta à vaca chata, morta e fria.

Desculpem os leitores esta crônica sem fim, nem princípio, e este linguajar meio balbuciante e afetado. É que hoje fui tomado de uma forma estranha, e completamente inédita na minha vida, pela maldição que desconhecia: a da segunda-feira mula sem cabeça, pé ou rumo. Boa noite a todos!

Ubirajara Passos

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