Carta aberta ao senhor da guerra Barack Obama


Sou anarquista e, consequentemente, não creio na legitimidade de qualquer Estado, porque este necessariamente se alicerça no uso da força, da qual, técnica e formalmente, detém o monopólio para impor sua “soberania”, ou seja, a opressão sacralizada de governantes nominais sobre a massa dos povos, em defesa dos sádicos apetites das classes dominantes.

Mas, libertário em meio a um mundo dominado por governos e organizado verticalmente pela distinção do ser humano em classes (a que se arroga o mando e oprime e a que se submete e cumpre a função de objeto da outra), não tenho como ser indiferente às condições limitadas de maior ou menor dignidade e liberdade das multidões trabalhadoras nos diferentes estados.

E é com verdadeira e sagrada indignação (porém sem ingenuidade, nem surpresa) que assisto a onda da incipiente revolta popular democrática da “Primavera Árabe” ser usada como pretexto para o exercício cínico e torpe da investida imperialista em um país soberano, com governo constitucionalmente estabelecido (ainda que, pelos padrões “ocidentais”, haja dúvidas quanto à sua natureza democrática ou ditatorial).

É de conhecimento público inconteste, desde décadas, que a Líbia de Muamar Kadhafi foi sempre um bastião na África do Norte do nacionalismo árabe (e de um idiossincrático “socialismo islâmico), e um dos grandes promotores e financiadores da oposição árabe “terrorista” ao imperialismo capitalista internacional. E, portanto, um dos principais inimigos dos Estados Unidos da América e seus aliados (entenda-se, da burguesia multinacional). Mal ou bem, ditadura ou não, o regime líbio, ao que se pode conhecer no Ocidente, com as informações distorcidas e filtradas que a imprensa globalizada, dominada pelo capital nos permite, garante ao seu povo um mínimo de dignidade, um estado de bem-estar social bem diverso da grande maioria das nações vítimas do neo-colonialismo informal, como o Brasil. E, como Cuba, é um exemplo inconveniente que os senhores da guerra “ocidentais” sempre pretenderam extirpar da face do planeta.

 

Assim, é cruel e ridículo que a imprensa internacional, a serviço de seus patrões, confunda a oposição armada líbia (que parece ser formada em boa parte por apaniguados de senhores feudais locais) com as revoltas populares egípcia, tunisiana ou iemenita, e que Europa e Estados Unidos, do alto de sua arrogância, intervenham em seu território, sob a exigência de que o governo líbio não se defenda contra seu avanço.

Mas é mais terrível e inaceitável ainda que o senhor da guerra Barack Obama, negro norte-americano (descendente de africanos) de confissão e nome muçulmano, sob o pretexto infantil e insustentável da proteção à vida dos civis (vítimas da “repressão governamental” – na verdade das consequencias inevitáveis da guerra civil), tenha tomado a inicitiva (ainda no solo do meu país, o Brasil, onde se jactava de grande defensor dos direitos humanos) de desencadear o bombardeio aéreo indiscrimando sobre o país, chacinando estes mesmo civis, africanos e muçulmanos, vítimas das disputas de governos e guerrilheiros, com uma chuva de mísseis inominável.



Não se admite (ainda mais se conhecendo as verdadeiras razões políticas e econômicas, notadamente a sanha pelos recursos petrolíferos) que uma nação constituída, membro reconhecido das Nações Unidas tanto quanto Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha ou França) sofra a intervenção de qualquer outra em sua política interna. Que dirá que seu povo, já encurralado em meio ao tiroteio das forças políticas internas, se veja, vítima, sem defesa, das bombas imperialistas, pagando com sua vida o luxo sádico do senhores da economia internacional.

Do massacre “humanitário” perpetrado por Sua Excelência, o senhor presidente de uma “nação livre”, que preza a sua declaração de independência, mas escraviza os demais povos, não lhes permitindo a autonomia para resolver os próprios problemas, restará nada mais que uma Líbia dilacerada em novas e infindáveis guerras civis entre senhores feudais, como na antiga Iugoslávia após a morte do Marechal Tito, e, sobretudo, o saldo do sangue milhares de vidas inocentes, cujo clamor não tem a menor chance de chegar aos nossos ouvidos, mas há de ecoar para sempre na consciência do discípulo de Martin Luther King (se é que a possui), o negro muçulmano Barack Obama.

Ubirajara Passos

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