Os retiros de Jesus Cristo


Calma que não entrei em crise, nem me tornei, às vésperas do carnaval, boêmio encarcerado no casamento, um beato arrependido. Isto nem as orações de todos os crentes que já passaram por este blog me esconjurado, ou preocupados em me converter, pela simples menção a “Satanás”, conseguirão.

Mas o fato é que justamente o cárcere da vida familiar (mulher, dois enteados, a minha filha Isadora que é a parte doce e apaixonante da “prisão”) não tem me permitido fugir da rotina de permanente exposição pública ou doméstica e desaparecer da frente de todos, “tirar um tempo para mim mesmo” e pensar com meus botões. O que é enlouquecedor para um portador de DDA. Especialmente para mim que, além de minhas pretensões artísticas e intelectualóides (literárias e políticas, ínclusive as póeticas) passei boa parte da minha juventude “viajando” (sóbrio, sem sequer uma cerveja à mão) sozinho, nas tardes modorrentas e nas madrugadas silenciosas da casa paterna, em Gravataí, ou nas dunas desertas da Nova Nordeste, na praia gaúcha de Mariluz.

Nestas ocasiões eu simplesmente construía e destruía mundos de ficção inteiros (muitos envolvendo histórias políticas em mundos paralelos, ou nem tanto) e perpassava por todos os escaninhos de imaginação, meditação e filosofia possíveis. Este diálogo interno, essencial para mim, era muito mais real do que o quotidiano e a vidinha concreta em casa, na rua ou na escola, e nele, certamente, se construiu muito mais do que penso hoje (e de boa parte das minhas atitudes, apesar das “limitações” auto-consentidas como o casamento formal) do que na prática escolar ou política.

Maior influência no meu imaginário e em meus trejeitos ideológicos e “artísticos” só mesmo as leituras aleatórias (que incluíam de detalhes poucos explorados em manuais de História editados nos anos 1930 às origens dos idiomas latinos em velhas gramáticas dos anos 1940 e 1950, todos da biblioteca de meu pai, que surrupiei ainda piá), nas madrugadas adentro.

Ou mesmo assistindo velhos clássicos hollywoodianos legendados, do tempo em que a Globo, por exemplo, levava ao ar o “Cineclube” (creio que este era o nome) às sextas-feiras no final da noite (ocasião em que assisti, lá por 1987, todos os grandes filmes de Chaplin, incluindo a Corrida do Ouro, The Kid, Luzes da Ribalta, Tempos Modernos e o Grande Ditador).

Mas foi a nostalgia dos tempos em que podia ruminar horas comigo mesmo em êxtase intelectual que me trouxe à baila o que, embora muito pouco divulgado, era um hábito corrente do arquétipo ocidental do “salvador”, o Cristo, que encontramos frequentemente no texto dos evangelhos.

Volta e meia, Yeshua (seu nome judeu), enchia o saco dos discípulos, e segundo os evangelistas, se afastava para montes e campinas desertos a reinar, ou meditar, consigo mesmo. O que a Bíblia não menciona, mas me parece mais ou menos óbvio, é que, nestas ocasiões, ele se escondia não somente da ignorância proverbial de seus apóstolos e discípulos (que, volta e meia, se supunham participantes do Big Brother e começavam a disputar entre si quem era o mais querido do Mestre ou quem expulsava mais demônios do couro das prostitutas palestinas – sabe-se lá com que método!), mas mesmo de Deus e o Diabo (o último com D maiúsculo, sim, que, na mitologia cristã, ocupa o verdadeiro lugar de opositor equivalente do primeiro).

E aposto que, ao invés de ensaiar seus sermões, se preocupar com a cruficação de que provavelmente derivaria sua pregação anarco-religiosa, ou procurar a verdade absoluta e profunda do tudo, ele simplesmente “viajava” e criava algum poema de pé quebrado do vôo de qualquer passarinho fugidio e da torrente de qualquer nascente em meio à rocha árida. Quando não ficava por lá, evidentemente, simplesmente escutando a voz do vento, sem atinar em mais nada, num verdadeiro nirvana búdico espontâneo e heterodoxo.

Eu ía acabar a crônica por aqui, e cheguei a publicá-la, instantes atrás, sem estes últimos parágrafos que vos cansam os olhos, ó caros leitores entediados por este cronista nostálgico e metido a besta. Mas não me aguentei e resolvi trazer um grão de realidade rouca e barulhenta das ruas para a conclusão. Junto com uma recomendação aos leitores.

Não se esqueça, companheiro, mesmo quando tens a chance de viajar de forma totalmente livre com a tua mente ao pé de uma cachaça na roda de amigos (ou só com o melhor amigo), que é uma outra forma de introversão criativa, sempre que possível, nem que seja sentado no vaso sanitário, reserve uns minutos para pensar e fantasiar qualquer besteira descompromissada.

Isto, além de preservar a “saúde” mental, é uma profilaxia perfeita contra o condicionamento de nosso pensamento e sua escravização aos conceitos pré-fabricados da mídia, da tradição cultural e do costume. Não é por acaso que os patrões de todo tipo (do budegueiro da esquina ao acionista da maior multinacional financeira) procuram “ocupar” permanentemente (até nas “horas livres”) a mente da peonada. É  para que ela não tenha tempo de imaginar outra vida, menos servil e brutal e mais livre e prazerosa – e, consequentemente, contrária às necessidades das classes dominantes, de existência de uma horda de bestas de carga humanas a seu serviço!

Ubirajara Passos

 

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