A Fi(n)cada


Os leitores mais radicais ou adeptos da razão absoluta vão me matar e espancar mentalmente. Mas, pela centésima, vou usando o argumento da exceção e me desculpando descaradamente antes de detonar o que, para muitos deles, parece uma contradição com o meu ideário manifesto e o a linha programática deste blog.

O fato é que não sou nenhum moralista (do que é a prova a profusão de palavrões que se encontra, especialmente, no item “mais lidos” da coluna lateral deste blog), muito menos um beato anti-sexo ou um machista.

Mas outro dia, pra ser exato um belo fim de tarde, depois do expediente, me vi mais uma vez surpreso, junto ao caixa do supermercado, com a conversa que a loirinha gostosa (na casa dos seus vinte e poucos anos) mantinha com o empacotador.

Começou contando que custara a se adptar à solidão quando se separou e foi morar sozinha e que sua família (que é extremamente superprotetora) acampou na sua nova casa no primeiro fim de semana e só saiu de lá depois que se convenceu que ela não ía se suicidar desitratada de tantas lágrimas.

Aí, com o ar mais despreocupado, de quem está discorrendo sobre o preço da banana, arrematou dizendo que está “ficando” com um cara há uns seis meses. E que, por incrível que pareça, apesar da insistência dele, ela não pretende ainda “namorar”. É muito cedo, e chegou a ameçar o pobre homem de não vê-lo mais se insistir na idéia. Afinal, se ele continuar com esta idéia de namoro é melhor não ficar mais!

Certamente é nesta altura da crônica que o leitor libertário, de mentalidade elástica, me encherá de impropérios em razão da minha surpresa. Mas convenhamos: apesar da pretensa revolução de costumes (especialmente sexuais e dos papéis de gênero) desde os anos 1970, a verdade é que a maioria das mulheres ainda se pauta pelo antigo comportamento carregado de preconceitos e papéis pré-determinados, típico das dondocas. E os machos, mesmo tendo assimilado uma certa inversão de papéis, em geral não chegam ao extremo de se constituir nas novas dondocas românticas, carentes, apegadas e rejeitadas!

Leitores mais antigos e atentos deste blog pinçarão uma terrível incoerência da minha estupefação e dirão que eu próprio já havia diagnosticado este tipo de comportamento feminino na crônica As Jararacas Emancipadas, publicada há mais de 4 anos.

O detalhe é que, se o comportamento da gatinha é uma constante sociológica entre a maioria das mulheres em nossos dias (ainda que, normalmente, da pequena-burguesia para cima), o empenho romântico emotivo do candidato a namorado é, no mínimo, grotesco.

Mas o que mais me chama atenção é a nomenclatura da coisa, que, confesso, desde que surgiu o termo, nunca entendi. Afinal qual a diferença entre “ficar” e “namorar”? Se a primeira palavra designa uma relação em que rola de tudo, especialmente o sexo, e a segunda pressupõe apenas uma certa sofisticação da primeira, se distinguindo pela freqüência e caráter rotineiro da coisa, não estaríamos diante de um novo “código moral” artificioso e heterônimo no comportamento sexual? O novo “namoro” dos modernos casais não estaria, contraditoriamente, se constituindo numa relação institucionalizada, cheia de regras e cobranças obrigatórias, vindas de fora e opressivas (o que não tinha todo este caráter nos tempos em que a Filomena tagarelava, e se esfrega furtivamente, com o Felisberto no portão de casa)?

E, aliás, seguindo na linha distintiva da “duração temporal” e da “rotina e do costume”: se uma foda, que deve incluir necessariamente algumas distrações não puramente sexuais (como uma cervejinha no bar ou um programinha de TV asssistido a dois, em pleno quarto de motel), já ultrapassou seis meses sendo praticada com certa regularidade pelo mesmo casal, já não teria ultrapassado há muito o status da “fincada”?

Ubirajara Passos

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