O Verbo e a Virgem


Outro dia, eu comentava com o companheiro Gerson Monteiro que, se antigamente, eu escrevia num jorro só (embora, raríssimas vezes, o resultado eventualmente não fosse o melhor), ultimamente ando precisando de inspiração em fatos do quotidiano e de um certo amadurecimento dos textos, especialmente as crônicas.

Os poemas, entretanto, continuam a sair-me num impulso quase inconsciente.  E foi assim, sentado à beira do lago do Parcão de Gravataí, ontem à tarde, enquanto a minha enteada Larissa se divertia em alimentar tartarugas e patos, que praticamente psicografei o poema que publico hoje. Como em geral, o primeiro verso surgiu meio do nada, apenas com a intenção de retratar o primeiro olhar de um casal.

Era para tratar de quaisquer desconhecidos, com nomes comuns na tradição luso-brasileira. Poderia ser o dos pais do Cristo, José e Maria, mas a inspiração insistiu em colocar João, e a partir daí nasceu o texto, que poderá parecer polêmico a evangélicos, católicos, cristãos e moralistas em geral. Aos quais, desde logo, previno que não tive a menor intenção, ateu ex-católico, de “denegrir” a imagem de sua santa “virgem”, cuja maior e concreta “pureza” foi a de dar apoio, sofrendo ao lado, do mártir revolucionário que cometeu a loucura de desafiar um império só com a palavra, sem armas na mão.

Quis apenas celebrar, num momento de ficção, e a pretexto do episódio em que Cristo entrega seu díscipulo mais amado e sua mãe para que se cuidem mutuamente, o amor real, prazeroso, feliz e transformador, que nasce nos corpos, porque é feito da pura energia vital básica, o átomo do tesão, a que o Mestre Reich chamava orgone. Aliás, creio, que se alguma forma de psicografia se manifestou foi o velho Guilherme (Wilhelm) que “encostou” ao meu lado, enquanto rabiscava o bloco de papel. Seja como for, segue abaixo o poema:

O Verbo e a Virgem 

E eis que João olhou para Maria,
Depois que o Cristo lhe pediu que a protegesse,
E viu não uma mãe, mas uma amante!

E desejou-a tão intensamente
Que surpreendeu-se ao ser correspondido.

Ele, o apóstolo mais obscuro,
Pouco dado a manifestações
De eloquência e entusiasmo,
Mas, apropriadamente,
Depositário dos mais íntimos segredos,
Confessionário ambulante do Messias!

Não poderia crer que a “eterna virgem”
(Naquele tempo uma ilustre cinquentona,
Sofrida mãe de uma meia dúzia

De machos loucos dados à guerrilha,
Dos quais o Mestre era o mais manso nas armas,
Porém o pior questionador no verbo)
Pudesse responder com um sorriso aberto
E com trejeitos de fêmea no cio,
Em plena execução do filho mais amado.

Mas assim foi e se abraçaram ambos,
Com as bênçãos do pastor trintenário,
E se afastaram, de mãos dadas, enlevados
Num encanto mútuo, andando sobre as nuvens.

Uma delas, cinzenta,
Lhes barrou o caminho
E se voltaram, pesarosos, para o Cristo.

Mas eis que o Salvador, quase morrendo,
Gritou com o último fio de voz que lhe restava:
Vai em paz, mãe, sejas feliz e faças
A este irmão e filho meu feliz.
Vos alcançastes
O supremo grau de elevação do ser humano!

Que o amor do Pai frutifique em vossos corpos
E vossa mente possa ser a chama
Que resgate a humanidade do pecado
E a liberte da culpa, da dor e do sadismo.

E assim morreu, enquanto ía
O novo casal rumo ao futuro do amor vivo!

Gravataí, 19 de fevereiro de 2011

Ubirajara Passos

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