Os assaltos que sofri em Porto Alegre – 2


O episódio narrado na madrugada da última quinta-feira foi o primeiro dos 4 assaltos por que passei nas madrugadas da capital gaúcha, entre o final de 1998 e  início de 2001, todos eles ocorridos na saída de cabarés da cidade.

Os dois últimos foram terrivelmente vexatórios e violentos, não valendo a pena discorrer a seu respeito. E em comum possuem o fato de eu ter acionado a Brigada Militar após sua ocorrência. Mas os primeiros tiveram uma tal aura de romantismo ingênuo e comicidade que eu não poderia deixar de contar sua história um dia neste blog.

Uma bela quarta-feira, após trepar com a minha namoradinha de bordel no cabaré Gauchinha Bar (que situava-se na Riachuelo, no andar exatamente acima do Beco dos Livros, a uma quadra do Palácio da Justiça), a Diana (morena linda e compreensiva com que eu me perdia em beijos de língua e confissões de minhas outras aventuras eróticas no salão, para depois comer-lhe, em pelo, só o cuzinho no quarto), resolvi sair mais cedo (1 hora da madrugada) e acabei indo parar na Sauna Riachuelo, que havia se transformado em boate de putas free-lancer, a moda do Corujinha (bar “dançante” onde às putas íam para dar de graça, por mero prazer).

Eu não estava muito a par da mudança de caráter do estabelecimento e assim fui logo me enfiando com aquele trio em que se destacava uma morena baixinha, de rosto lindo, nariz empinado e corpo gostosíssimo. Dançavam como umas loucas em frente ao balcão do bar, acompanhadas de um negrão de cabelo rastafari, que foi logo declarando que não tinham qualquer envolvimento com elas além da amizade (nem atinei que poderia ser o gigolô, por exemplo), e logo me convidei a me “gelar com eles”.

Embora a moreninha não me desse muita bola, eu, pra variar, bêbado como um gambá que mergulhou no tonel do alambique, estava doido de tesão por ela, e não me fiz de rogado, dando-lhe uma meia dúzia de onças (notas de cinquenta reais) para trocar, cada vez que resolvia pedir uma rodada de cerveja. Para coroar o ridículo da minha imponente figura de otário, eu as retirava do bolso interno da capa de chuva de gabardine marrom que usava, conjuntamente com o chapéu de feltro (verdadeiro detetive de filme yankee dos anos quarenta), pois era uma noite de chuva.

Conversa vai, conversa fiada vem e me convidaram para “ir ao barzinho”. E eu, supondo situar-se em andar superior ao da “sauna”, me vi, de repente, subindo a Rua Doutor Flores, com o mal intencionado quarteto (as três putas e o negrão), que estranhamente não falavam muito, além de frases soltas das duas putas mais altas de que eu e a baixinha tínhamos algo em comum e isto ía dar ainda em namoro, e da minha tentativa de conversa com ela, que resultou, no máximo, na troca de nomes (após eu  me “apresentar”,  ela me disse que se chamava “Tanajara”!?).

O clima era bastante estranho e qualquer malandro com 2 segundos de experiência entenderia que havia algo muito fora da ordem na situação. Mas, torto de goró e tara, a minha esperteza havia se reduzido à capacidade mental do Peruca e assim logo me vi na escadaria da Praça Raul Pila, abraçando a baixinha contra a amurada, enquanto o negrão picava fumo com uma faca de cozinha, destas de serrinha, no muro oposto (após ter me dito pra dar uma namoradinha), logo depois das duas outras putas terem “constatado” que “o barzinho estava fechado”.

O meu romance putanheiro a céu aberto não durou meio minuto. Tão logo tentei beijá-la, a Tanajara tratou de inverter a posição e me vi de costas para o muro, sem entender muito porquê. E entendi menos ainda quando o negrão saltou sobre mim com a tal faca de serra, uivando que ía me matar. Jegue alcoolizado, imaginei que eram ciúmes e logo me vi catapultado à mais crua e triste realidade, quando a minha parceira enfiou a mão inteirinha no meu peito (para ser exato, no bolso da capa de chuva) e me subtraiu, de uma vez, as últimas quatro onças (duzentos reais) que me restavam da farra noturna.

O rastafari, drogado e entusiasmado no seu papel falcatrua de amante enciumado, continuou ali, me furando a camisa social com a mísera faca, enquanto eu, tirando calma sabe-se lá de onde (provavelmente do “cu do conde”), lhe dizia que não fizesse a besteira de me matar, e, como ele não cedia, lhe abri os olhos chapados:

– Ô meu camarada, deixa de ser otário! Tu taí me cutucando com este troço e enquanto isto as tuas companheiras já tão lá adiante, subindo as escadas com todo meu dinheiro e te deixando sem nenhum puto!

Estremunhado, o tipo largou de mim e saiu, otário metido a malandro, pior que eu que não partilhava do seu quotidiano de marginal da noite, atrás das três, na inglória esperança de reaver sua parte no butim.

“Livre” do assédio, desci as escadas em direção à Avenida João Pessoa, que subi, desolado, passando pela frente do “Corujinha”, em cuja frente um brigadiano cumpria o seu papel de sentinela da putaria porto-alegrense. Pensei em abordá-lo e lhe narrar minha desventura. Mas logo concluí que, além de não servir para remediar a penúria resultante do assalto em nada, poderia ainda me enrolar e acabar, eu vítima do velho e surrado “golpe do suadouro”, preso pelo dito cujo.

Assim, retornei à Riachuelo, puto da vida, sem saber de onde tirar grana pra pegar o ônibus e voltar à Gravataí, onde tinha de trabalhar no dia seguinte, até que tomei a única decisão sábia e lógica possível: voltar à Gauchinha e pedir uma grana pra Diana. Ela, além de puta, era minha amiga, me considerava bem mais do que um mero cliente e haveria de resolver o meu problema.

E, assim que entrei no cabaré, ela abandonou a mesa que dividia com uma meia dúzia de piás folgazões (destes que vão a cabaré só pra encher a cara e rir das mariposas, mas não dão nem uma trepadinha de 2 minutos) e veio sentar-se novamente comigo:

– Voltou, meu amor? Quer uma cervejinha?

– Olha Diana, pra tu não pensar que é mentira minha, olha o estado da minha camisa (e mostrei o rasgão da faca. no lado esquerdo do peito). Saí daqui, fui à sauna Riachuelo e acabei assaltado por uma trupe de putas falcatrua e um rastafari safado. Fiquei sem nem um centavo. Tu não me arranja uma grana pra voltar à Gravataí?

A minha puta preferida do cabaré, após me censurar por deixar a sua companhia e ir procurar gozo em casa de péssima categoria, não pestanejou, foi até o proprietário, o Válter de León (uruguaio pai do proprietário do antigo Bagdá Café, o Johny), e voltou com 5 reais (que hoje equivaleriam, corrigidos monetariamente a uns 20, 3 vezes o valor da passagem do ônibus Direto), que me deu e jamais me cobrou de volta em um único dos tantos encontros que ainda tivemos nos anos seguintes.

Assim é que, na mesma madrugada, eu consegui a façanha de ser a mais ingênua vítima do golpe do suadouro e, pela única vez na vida, gigolear, com toda honra, uma puta.

Ubirajara Passos

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Um comentário em “Os assaltos que sofri em Porto Alegre – 2

  1. Letite disse:

    … Quem procura acha!
    E deu sorte de não ter sido por tais fregas/meretríssimas.

    Curtir

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