Tratado Geral dos Bordéis (CAPÍTULO 1: DEFINIÇÃO ABSTRATA)


Bordel, cabaré, boate, casa da luz vermelha, maloca (no interior do Rio Grande do Sul), puteiro (de Santa Catarina para cima, especialmente no nordeste brasileiro), pouco importa a denominação (e o colorido especial que ela encerra), filosoficamente falando, é um espaço destinado exclusivamente ao exercício do mais doce prazer do universo, verificável entre as mais diversas espécies animais, de todos os graus de complexidade, na nesga de mundo conhecida pela humanidade.

Embora acidental, é estatisticamente avassaladora, também a presença, neste espaço do segundo prazer mais procurado e gozado pela espécie humana, o consumo do fogo, do goró, do trago, da bebida, ou simplesmente do álcool etílico ( fermentado ou destilado a partir de substâncias vegetais), que geralmente se denomina de pileque, carraspana (no linguagem arcaico dos anos 1800), ou porre, quando não farra – nome genérico que pode tanto se aplicar ao prazer da beberagem quanto ao tal da putaria, e que resume em si a íntima e simbiótica relação que guardam entre si ambas as categorias, que dificilmente se manifestam na realidade concreta sem o acompanhamento simultâneo da outra.

E que, embora não necessariamente, se completa e se refina na boemia, que é o modo sutil, profundo e sensível da prática noturna do prazer espiritual do álcool e do prazer carnal do sexo, enlevando o ser humano no gozo mental e abstrato que advém do líquido e na emoção profunda e mística que incrementa, inspira e aprofunda o tesão dos corpos. E que, mesmo apartada eventualmente da farra de natureza erótica, enobrece a pessoa humana na convivência mutuamente prazerosa e dignificante dos bons amigos, cuja afinidade se alicerça no bom papo, no usufruto comum e voluptuoso das idéias e das emoções longa e cuidadosamente cultivadas e desenvolvidas.

Visto deste ângulo, restrito à essência de sua natureza, ao que lhe é próprio e imediato,  e aos acidentes que numericamente lhe são comuns, antes de toda e qualquer complexidade e idiossincrasia concreta, o bordel é o verdadeiro paraíso, e guarda um perfeito paralelo com o prêmio post mortem que o islã reserva aos bons muçulmanos (bem mais interessante e criativo que o frio e instrumentalista céu cristão, carregado de austero e infelicitante “bem estar” assexuado e apartado de toda e qualquer satisfação e conforto iluminado e entusiástico).

Ubirajara Passos

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Um comentário em “Tratado Geral dos Bordéis (CAPÍTULO 1: DEFINIÇÃO ABSTRATA)

  1. free music disse:

    i like it Tratado Geral dos Bordéis (caulÍTULO 1: DEFINIÇÃO ABSTRATA) « Bira e during the time that Safadezas… now im your rss reader

    (tradução: “Gostei do que li em Tratado Geral dos Bordéis (capítulo 1: Definição Abstrata”, em Bira e as Safadezas… Agora sou leitor RSS)

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