Os assaltos que sofri em Porto Alegre – 1


Noite “alta” (para bem dizer a verdade, madrugada), a cabeça mais altíssima ainda que a mais longínqua e friolenta estrela, sigo, passos meio incertos, a imitação de maleta em vinil traçando elipses pendulares na escuridão, pela rua da Praia, madrugada adentro.

Entupido de álcool e de putas, regurgitando cerveja e sacanagem, avisto, na obscura esquina da Marechal Floriano, um sujeito que me parece familiar. Todo sorrisos, um olhar abobalhado, e aquele ar bonachão de mãe às vésperas de dar o peito, o cara grita, com um entusiasmo digno do Sílvio Santos em programa domingueiro, nos tempos em que era apresentador na Globo, uns trinta e tantos anos atrás, todo simpatia:

– Meu baixinho!

E eu, completamente imbecilizado pela orgia etílico-putanheira, vou me achegando ao personagem, como totó que avistou osso na mão do dono. Assim que paro em sua frente, ouço a frase fatídica e cretina, proferida agora no tom mais seco e impositivo possível:

– Me dá um dinheiro aí, tio!

Pronto! Em dois anos de putaria isto nunca me acontecera. Acostumado a fazer o caminho entre o Bagdá Café, no final da lomba da Marechal, e o final da linha do Gravataí, na Chaves Barcelos, junto à Praça Osvaldo Cruz (caminho este que incluía subir,rumo centro, sob o viaduto da Borges), em plena madrugada velha, há  muito perdera meus temores, porque o máximo que me ocorria era tropeçar nos mendigos que dormiam, estirados nas calçadas, ou ter de dar uma nota de um real pro pingunço malandro de plantão, como o Nego Apolo.

Mas agora a coisa é diferente. Otário metido a malandro, é a hora da estréia. Não há nem o que pensar. É um assalto! O cara não tem arma (nem um reles canivete de 2 centímetros como aquele que brandi para um taxistas imbecil uma vez na frente do hotel Elevado, acompanhado do Mílton Dorneles, história que contarei outro dia), mas pelo tom, na madrugada morta, está mais evidente que se trata de um assalto! Não estivesse completamente bêbado, e não tivesse convencido a mim mesmo há alguns anos do valente personagem boêmio que sou, me borraria todo!

Estou “pra lá de Bagdá” tanto espacial quanto mentalmente e não sei se caio na risada ou levo a sério a triste e cômica situação. Mas diante da emergência e “gravidade” do momento, disparo, com o ar mais sério e circunspecto, sem alterar a voz (dentro do que me permite a língua, que insiste em se enrolar na boca, numa caimbra estranha, talvez seja o resultado das 3 ou quatro bucetas chupadas na orgia paga):

– Ô meu tio, as putas me levaram tudo! Gastei no cabaré o que podia e o que não podia, só me restam seis reais!

O idiota a minha frente, tentando manter a pose do seu malogrado papel de ladrão, cambaleando e enrolando a língua um pouco menos do que eu, tenta fazer um ar de brabo e perigoso facínora e vai me anunciando:

– Baixinho, nós te conhecemos! Tu tem dinheiro sim, vai despejando aí! E não te fresqueia, que acabamos de fugir do Presídio Central!

Sem nem prestar atenção na pessoa do verbo, avisto, na esquina em frente,  um outro tipo, alto, loiro, cara amarrotada e um pouco menos abestalhado que o nanico de bigode que tenta me amedrontar e, amortecido pelo álcool que  eu estava, sem bravata, nem medo, mas simplesmente indiferente, o chamo:

– Ô rapaz, o teu parceiro acha que eu tenho dinheiro! Vem aqui me revistar! O que tu achar pode pegar!

– Olha lá, hein! Se tu tiver mais grana do que disse nós vamos te moer a pau – ameaça o gordinho bigodudo.

Com a maior preguiça do mundo, o comprido vem até a mim, enfia as mãos no meu bolso e, encontrando um destes suportes para moedas com molas (em que se distribui em buracos de tamanhos distintos os valores), que na época se vendia às pencas em lojas de “um e noventa e nove”, me “sangra” os últimos três reais e pouco que tenho além dos seis em cédulas (que já saquei da carteira e passei para o seu valente líder).

Preocupado em como vou chegar em Gravataí, afinal tenho de pagar a passagem do ônibus, e tenho de ir para o trabalho de manhã, suplico, transtornado, aos dois assustadores assaltantes que me devolvam pelo menos uns dois reais e recebo um deboche carregado de bafo de cachaça nas fuças:

– Não te preocupa que ela vem linda!

Uma quadra e meia depois, resolvo remexer na maleta (lembram dela?) e constato que, além do talão de cheques e do cartão bancário magnético, que não me servem pra nada a estas horas, ainda tenho uns bons vinte reais em moedas no seu fundo.E vou, contente e admirado, me rindo por dentro, para a parada do Sogil. Meus terríveis ladrões realmente eram dignos de pena. Ou haviam tomado umas tantas mais que eu (que mal me aguentava em pé) ou eram simplesmente uns incorrigíveis amadores!

Ubirajara Passos

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