Memória de Elefante


O portador de DDA ouvia, com toda a paciência, pela quadragésima vez, a preleção da psicoterapeuta alternativa. E, não sabendo se segurava o riso ou o bocejo irreprimível (reações simultâneas que lhe vinham, ainda que contraditórias), lamentava a tortura a que se submetera como condição daquele empréstimo de mil reais pedido ao amigo fascinado pelo tratamento.

Na verdade, não fosse a exigência absurda (que o camarada, antigo paciente, tratou de fiscalizar in loco no consultório, antes de liberar a grana), jamais teria comparecido a uma única sessão. E não fosse o temor de perder uma amizade antiga e profunda (destas que não se encontra nem meia dúzia ao longo da vida), simplesmente teria acabado o “tratamento” no segundo encontro com a psicóloga cognitivo-comportamental, auto-proclamada DDA, como seus pacientes.

Leitor voraz e apaixonado de Reich e Jung, seus sonho era parir, no puro  dilentantismo filosófico e antropológico, teoria que pudesse unificar as visões igualmente fascinantes dos dissidentes materialista e espiritualista de Sigmund Freud (de cuja Psicanálise possuía noções suficientes para se opor e propor, auto-didata, suas teses próprias).

Mas, nem por isto, tinha a Psicologia em conta de determinar o roteiro de sua vida, especialmente através de qualquer profissional institucionalizado e pago. Afinal seu anarquismo era o resultado de profundas convicções, questionamentos e experiências vividas e incorporadas existência afora e não um sintoma psíquico decorrente de qualquer desvio da química cerebral, ou de um suposto complexo neurótico.

Isto sem falar no comportamento excessivamente excêntrico da psicóloga, que, além do entusiasmo reducionista e do fôlego de padre carismático em sermão de manhã de domingo, era uma perfeita fofoqueira. Costumava atender seus pacientes ao telefone em plena sessão e se derretia de prazer em comentar os casos com o pobre coitado que se encontrava sentado na poltrona  a sua frente (ávido, evidentemente, em satisfazer a curiosidade atiçada), após a interrupção. Mas a coisa não parava por aí. Cansou de narrar saborosas confissões, feitas na confiança absoluta do sigilo profissional, pelo amigo e pela própria secretária deste, fofocando a torto e a direito entre os três, nos mais entusiasmados fuxicos ao estilo de matrona de favela.

Não fossem os violentos arranca-rabos que, com frequencia, resultavam do método nada usual de terapia, as fofocas até que eram divertidas. Pois o nosso herói, desde os cinco anos de idade, adorava uma boa e gorda indiscrição.

E, piá ainda impúbere e completamente desprovido de malícia, fudera, já naquela idade, por mera diversão, com a vida de um vizinho, cuja atenção bastante animada com a vizinha gostosa de mini-saia (um tanto atenciosa também) entregara à mulher do cara.

Que, agradecida ao guri, e furiosa com seu marido metido a cabrito pulador de cerca, moeu o conquistador a pau, dando a primeira lição de sabedoria apreciável ao futriqueiro-mirim, que concluiu naquele dia: “Receber a pobre vizinha em casa para emprestar gelo, com a persiana baixada, e esfregar suas pernas nuas pra espantar o frio, é mau negócio. Pode se acabar apanhando sem qualquer motivo”.

Mas, naquele dia, a doutora realmente se passara nas medidas. Pela segunda vez, como já o fizera na seção passada, lia para o nosso “distraído e desatento” protagonista (em cuja infância sua síndrome atendia pelo ridículo nome de “disfunção cerebral mínima” e era, na inexistência da ritalina em território nacional, tratada com gardenal mesmo) uma lista de exercícios destinados a auxiliá-lo na melhoria da memória, como visualizar mentalmente a disposição  e aspecto dos móveis e objetos em sua sala de trabalho.

Discreto, e um pouco tímido, como era, o paciente fazia a cara mais deslavada de curiosidade e solicitude diante da repetição, despercebida pela esperta doutora, da lição de casa. Vai que ela o fazia de propósito, só para testá-lo!

Mas não se aguentou e, mesmo segurando o riso, fez aquela estranha cara de quem sentou no formigueiro quando a dita cuja, com toda a pompa e convicção, no auge do frenesi palestrante, arrematou:

– Seu fulano! Se tu seguires direitinho estes passos, vai melhorar muito e, um dia, até ficar igual a mim. Eu tenho uma memória de elefante!

Ubirajara Passos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s