Ocupado pra caralho!


Antônio e Jesus eram amigos e colegas de trabalho no serviço  há uns vinte anos. A amizade começara quando, sem se conhecerem, se elegeram diretores do sindicato de sua categoria, numa destas listas montadas nas coxas por líderes falcatruas.

Falcatrua, aliás, era o que não faltava na dita entidade de classe. E os dois, desiludidos e apavorados com o peleguismo dos petistas que a dirigiam, acabaram por se afastar da direção executiva. Eternamente inconformados, entretanto, ao invés de irem tomar cerveja no quintal dos fundos, redrobrou-se a intensidade de sua militância. Que, apimentada pelo ódio aos inimigos políticos, era exercida enquanto tomavam cerveja (nos butecos do centro, evidentemente).

Durante anos gastaram todas as horas “livres” escrevendo e panfleteando, denunciando e avacalhando a pelegada. Além de debater, planejar e executar, no exclusivo plano do imaginário, todas as revoluções possíveis – da política internacional ao quotidiano dos lares pequeno-burgueses.

Antônio morava em Porto Alegre e Jesus, quase todo fim de semana, deixava sua casa numa cidade próxima e  tomava o caminho da capital para lá mergulhar de cabeça na revolução… e na cachaça! Até que um belo dia Antônio resolveu voltar para a terrinha natal e removeu-se para uma cidadezinha sonolenta e microscópica a 600 km da metrópole, nas proximidades de Ijuí.

Sempre que havia alguma assembléia ou congresso no sindicato, Antônio vinha a Porto Alegre, e eram raras as férias ou licenças-prêmios em que Jesus não atravessava o Estado para ir visitar o amigo. Nestas ocasiões retomavam, com todo a enxurrada alcoólica possível, suas tertúlias filosóficas e políticas, aonde se encontrassem, do bar da esquina à quadra de esportes do quartel local, eventualmente aberta ao público.

Mas, além dos encontros eventuais, continuaram a se falar diariamente. Nos primeiros anos, as conversas era telefônicas.  E, com exceção dos fins de semana, eram um tanto curtas. Mas, com o avanço da tecnologia no início do século, a internet entrou com tudo na repartição em que trabalhavam. E, com o MSN em mãos, e pouquíssimo trabalho por fazer, Antônio passava o dia disparando mensagens pra Jesus. Que, lotado numa cidade  de uns 300.000 habitantes na Grande Porto Alegre, mal tinha tempo para se coçar, e tinha de fazer verdadeiros contorcionismos físicos e cerebrais para atender o amigo, enquanto derrubava as pilhas de trabalho.

Até que um belo dia estourou (com a inspiração e decisiva participação da dupla, evidentemente) uma verdadeira bomba na repartição. Depois de meses fuçando e instigando questionamentos, havia vindo a público uma  monstruosa rateada da direção do sindicato. Mal vistos, e tidos por xiitas malucos pela maioria de seus colegas, de um dia para o outro Antônio e Jesus se tornaram heróis da moralidade e da combatividade sindical.

Jesus, entusiasmado, começou, então a disparar uma mensagem após a outra para Antônio que surpreendemente, reclamou:

– Pára, tchê! Mais tarde teclamos. Agora tô “tri” ocupado!

Jesus, surpreendido com a indisponibilidade do amigo, resolveu tirar um sarro e ironizou:

– Ué? O que houve? Santo Cristo foi invadido por Ijuí? – e leu, na sincera e alva tela do computador, a mensagem escrita com sotaque:

– Non. Tô redigindo uma reclamação do salário das férias. Me pagaro errado!

– Puta que pariu! E eu pensei que era trabalho! Mas escuta aqui, tu viu só a sem-vergonhice do João? Sabia de tudo! E  ficou bem quietinho!

-Non…

– E  a Xirlene e o Menezes? Ficaram tão apavorados que ameçaram “renunçar” e ainda estão acusando o Edílio de ter armado tudo sozinho, sem o conhecimento deles! Tão pousando de moralistas, ainda os sem-vergonhas!

– Non! Me deixa escrever o ofício, porra!

– Do que tu tá reclamando? Vi agora mesmo tu escrever! Eu não tô te atrapalhando. Tu escreveu ali, ó: porra!

Na semana que se seguiu a verborragia eletrônica de Antônio transformou-se num sepulcral mutismo. Jesus quase arrancou os cabelos, preocupado com o amigo, e não sossegou enquanto este, ainda meio emburrado, depois de dias, finalmente retornou à ativa e disparou:

– Tu viu o fiasco da Nasa esta semana?

Ubirajara Passos

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