A meu pai, morto em 7 de novembro:


Ao baixares à cova para o sempre
Choro por ti,
Por mim, e por nós todos,

Porque passaste a vida,
Sério e dedicado,
Cheio de agruras,
Levando sobre os ombros
O peso de um lar a ser provido.

Porque, a teu modo, creste e militaste
Nos ideais de redenção da peonada
E hoje transpões o negro umbral da morte
Sem ver, sequer, eles serem defendidos
Na antiga oratória falsamente radical.

Porque, compenetrado e cioso de teus filhos,
De tua mulher, que, como tu, viveu
O padecer do “paraíso” da família,

Foste mais um,
Como tantos de nós, trabalhadores,
Que consumiu a vida no labor
Cansativo e incessante,
Abrançado com entusiasmo,
Sem ter conforto ou nenhuma recompensa.

Se em alguma instância qualquer
Tua consciência tiver continuidade
E encontrares minha mãe por lá,
Que seja possível aos dois se divertirem
E rirem, serenos, dos trabalhos
Porque continuamos a passar neste planeta,

Dos nossos vãos esforços em fugir
Da labuta obrigatória e entediante,
Buscando um mínimo de originalidade
E de prazer em cada gole de cerveja,
No sorriso espontâneo de uma menininha,
Na brisa solta de cada primavera,
Nas madrugadas insones do amor dos corpos
Ou na tertúlia boêmia de amigos,

Porque, por mais que procuremos
Avidamente o bem-estar,
Sempre caímos
De volta à vala compulsiva das neuroses.

Gravataí, 19 e 24 de novembro de 2010


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