Da Hipocrisia Intrínseca da Sociedade Capitalista


 Em toda opressão sempre há um quê fundamental de meia verdade, mentira ou omissão. Mesmo o sujeito dominado pela força é vítima da falsa crença na superioridade física do opressor e, convencido por ela, se submete voluntariamente ao seu domínio. Toda a história da sociedade de classes se reduz à tortura e ao assédio moral organizados*, devidamente disfarçados, como convém e se faz necessário, sob o pretexto do “dever”, da obrigação ética, da “harmonia social” e do “amor ao próximo” e o “bem-estar coletivo”. Conceitos estes que, evidentemente, só existem enquanto ferramenta necessárias à submissão do gado humano oprimido ou como racionalização justificadora da gandaia luxuosa e chique restrita à minoria dominante.

Ninguém, absolutamente, que manipula, divulga e inculca tais categorias de austero e nobre comportamento acredita nelas como princípios válidos para a conduta humana (especialmente para si próprio e para a classe a que serve). E, quando as empurra boca abaixo da multidão submetida e mistificada, espera tão somente que elas sirvam para que a peonada de todo tipo (dos letrados cheios de si aos trabalhadores braçais) se limite a exercer, com toda eficiência, e burra e cega obediência possíveis o papel de máquina sem exigências ou requintes (que são monopólio dos senhores), destina da exclusivamente à produção da vida dionisíaca, apimentada de sadismo, de seus amos.

E os próprios escravos assalariados, em sua grande maioria, quando externam a crença nas boas intenções e exigências morais (ou nos benefícios do “progresso técnico-científico” para uma humanidade abstrata) que justificam oficialmente o seu suor compulsório e não recompensado, exercido sob o pior controle impositivo e infelicitante da opressão calculada e inquestionável, estão no máximo encenando o teatro que julgam necessário para manterem-se vivos e empregados sem o temor da retaliação necessária de patrões, chefes e chefetes a qualquer rebeldia e (supremo e inadmissível “pecado”) à expressão crua de descrença nos cândidos e inocentes mitos “éticos” e espetacularistas que formam o substrato falso e doloroso da produção da vida material, intelectual e emocional comum. Que condicionam o trabalho absolutamente essencial à continuidade dos nossos dias, exercido em íntima relação e “colaboração”, em uma sociedade em que tais atividades não se fazem sob a inspiração da espontaneidade solidária e da empatia natural e mútua dos seres humanos, resultante da proximidade, mas sob o comando da mais humilhante e destruidora hierarquia verticalizada de mando e pilhagem de uns poucos salteadores, organizados e convictos de seu status diferenciado e superior (que nada mais é que o resultado de sua capacidade cínica e cara-dura de auto-imposição e manipulação sobre a imensa horda oprimida).

Mas, no caso da espoliação capitalista, a hipocrisia é absolutamente essencial à existência e à manutenção do sistema, fundado no caráter de informalidade e descompromisso do “dono” com o peão escravizado, que, para permitir maior e mais eficaz “uso”, e, conseqüentemente, maior concentração e usufruto de bens e serviços extraordinários pelo proprietário, é escravo generalizado da classe dominante, sem qualquer relação fixa, vitalícia e obrigatória com determinado membro da burguesia. E se justifica exatamente pelo fato de que as regras morais apresentadas como desejáveis para “todos” e como fundamentos essenciais e básicos da sociedade (especialmente aquelas que dizem respeito ao patrimônio e à economia) foram forjadas, na prática, somente para a maioria trabalhadora, não sendo exigidas da classe dominante, cuja própria existência se sustenta justamente da sua permanente transgressão.

Se o roubo e o homicídio praticados por membros do povo são condenados, e seus praticantes reprimidos, recolhidos ao cárcere e execrados, como prejudiciais à convivência humana em geral, é justamente do apoderamento do resultado do trabalho alheio, da submissão de multidões ao trabalho compulsório e penoso e da morte em vida, ou da eliminação física propriamente dita (nas guerras formais ou informais) que se geram as riquezas e privilégios dos senhores da sociedade capitalista, que forjaram a falsa moral para poderem viver em ócio e fausto montados no lombo de seus escravos.

A antiga dominação senhorial ou feudal podia, nas bases materiais e tecnológicas de vida e comunicação precárias, restritas ao essencial da existência do animal humano, se fazer de forma mais explícita, sob o tacão do simples terror, do amedrontamento e da ameaça física crua e brutal. Ainda que o chicote, a forca, o tronco ou a arena dos leões necessitassem, para efetiva concretização de seu poder constrangedor, como sempre, da crença íntima dos dominados na sua incapacidade de reação e na impossibilidade de virar o jogo pela simples recusa ou rebeldia libertadora.

Mas a moderna roubalheira organizada e burocratizada do capitalismo tecnologicamente sofisticado, dependente de uma engrenagem produtiva intrincada, complexa e ramificada, que cria legiões de níveis de especialidade e aptidão os mais diversos no rebanho de trabalhadores; a sacanagem avançada de um sistema de pecuária humana (que gerou, como efeito colateral, toda uma rede de possibilidades de conforto físico e de comunicação das criaturas humanas entre si muito além do simples feudo ou reinozinho fechado sob a vontade e a ditadura de sua nobreza local ou nacional) necessita de algo que envolva a massa de explorados e utilizados em algo bem mais justificável que o medo e o preconceito rígido imposto por toda uma rede de verticalização de poderes decrescentes de imposição, como ocorria no velho patriarcalismo senhorial, em que a escala dos “direitos” de opressão se estruturava, perfeita e absoluta, desde o rei até o “chefe de família” e o “irmão mais velho”.

Até pela necessidade de consumo dos bens necessários ao lucro mercantilista da classe dominante, o escravo assalariado, acaba por ter um mínimo, ainda que precário, contato com o prazer abastardado que forma o estofo da vida de seus senhores, e, para que não se rompa o élan de sua colaboração, se faz necessário toda uma criação ideológico-cultural falsa e fantasiosa que dê conta da nova necessidade de bem-estar que passa a fazer parte essencial do imaginário do gado humano.

Assim é que toda a sociedade burguesa, da vilinha tibetana perdida no Himalaia às frenéticas e esquizofrênicas esquinas de Nova York ou Tóquio, só consegue manter-se em pé debaixo da hipnose coletiva mais vil e inescapável do prazer substitutivo da nova ética, revelada, ironicamente, de forma clara e nua em etiqueta. E os novos valores “imperativos” e incontestáveis do comportamento universal, a nova “moral” vão do parentesco mais próximo e cru da “moral antiga”, como a supremacia da “qualidade”, dos índices de eficiência em prol do engrandecimento pretensamente generalizado da sociedade toda (seja ela a cidade, a nação, ou toda a humanidade), até os ditames comportamentais tidos por “modernos” e chiques (ou “fashions”) do vestir, do rir, do beber e do fofocar (que é essencial a toda sociedade hierarquizada), invadindo toda as instâncias da vida quotidiana do indivíduo, sob uma constelação de regras impositivas apresentadas como benéficos e desinteressados aconselhamentos em prol de seu “sucesso” sócio-cultural, que, na verdade, garantem, muito longe e diversamente de seu pretenso conteúdo, a continuidade de uma vida de sofrimento, inadequação e eterna infelicidade à legião dos desgraçados que trabalham debaixo do poderio vigarista e psicopata de uns poucos milhares de ladrões bem estruturados e aparelhados em sua capacidade de imposição filha da puta!

 Gravataí, 17* e 28 de setembro de 2010 

Ubirajara Passos

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Um comentário em “Da Hipocrisia Intrínseca da Sociedade Capitalista

  1. Olá Bira, meu amigo! Peço desculpas em nome desta minha crônica preguiça. Deveria participar mais amiúde dos debates do teu blog. Teu estilo, alicerçado por uma cabeça privilegiada, produz esta crônica diária que, aparentemente às vezes parece superficial, mas que, bem analisada, muitas vezes nos deixa diante da verdade quase toda.

    O fenômeno socio-político que abordas hoje deveria ocupar mais o tempo dos chamados militantes de esquerda. São pouco eficientes com seus jargões decorados. Até parece que não querem elevar a consciência da peonada.

    A toda poderosa classe burguesa, que tanta desgraça e miséria traz a milhões de seres, que mereciam ter uma vida mais digna, é, contraditoriamente, tão frágil. Conta unicamente com sua azeda e nojenta cara-de-pau. A impáfia, a hipocrisia, levantando um moralismo barato atrás do outro, é tudo o que detém para dominar a humanidade por séculos. E o que almeja resume-se numa palavra: trabalho(alheio), único fenômeno social que produz riquezas, as quais pretende para si sem mérito.

    Aparentemente, pois, seria fácil acabar com a sociedade de classes. Bastaria que o povo trabalhador se orgnizasse e virasse as costas a essa gentalha.

    Mas não é tão simples assim. Carece de lideranças para apontar rumos e soluções. E com vistas a isso, pode-se dizer que o PT é a maior mazela social e política de todos os tempos. Espertamente, rugia um discurso de esquerda no início de sua tragetória, até tomar conta das mentes da massa. Hoje, vale-se disso justamente para, aos poucos, substituir os exploradores de outros tempos.
    Ou acaso tu conheces moralistas de calça curta mais nojentos que os petistas?

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