DA DITADURA DA ESTÉTICA E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL


Há absurdos três anos sem escrever sequer um sermão da Igreja de Satanás, finalmente me nasceu este, que comecei a escrever ao pé de um caneco de chopp, no bar Viene, na rua Andrade Neves, centro de Porto Alegre, há uma semana atrás, após ter participado de manifestação no Pleno do Tribunal de Justiça em favor da adoção do turno único de sete horas contínuas para a peonada do judiciário estadual e de panfleteação, em frente ao Palácio da Avenida Borges de Medeiros e ao Foro Central, da candidatura a deputada estadual da minha amiga Simone Nejar, juntamente com a própria. E conclui nesta insone madrugada de domingo para segunda-feira. Leiam, reflitam e divirtam-se!

DA DITADURA DA ESTÉTICA

E A FRUSTRAÇÃO SEXUAL

É mais ou menos óbvio que o sem graça, o tosco e o jocoso não inspiram absolutamente o menor tesão nem em um oligofrênico, um louco furioso ou num idiota drogado!

Do que não resulta necessariamente que o desejo humano deva restringir-se aos cânones da beleza absoluta e irretocável, tão perfeita, lisa e marmórea, qual estátua clássica ou manequim pós-moderno, que acaba por enjoar, justamente por sua precisão fria e burocrática, acompanhada, na imensa multidão dos casos, pela completa e entediante incapacidade imaginativa e emocional. Belíssima criatura carnal reduzida a um oco e inanimado exemplar padronizado da estética abstrata, como uma boneca de louça produzida em série.

A sensibilidade e a experiência concreta do repertório de sensações e modalidades de exercício do prazer permitem que o animal humano possa apreciar, pela mera contemplação da estampa ou pela aferição dos modos e trejeitos, da voz e do olhar aos gestos mais diversos, toda uma escala de beleza, na escolha do ser cuja presença lhe arrebata corpo e alma e o conduz à mais urgente e inadiável necessidade de consumir-se em fogo na fusão dos corpos.


Não há assim, na média dos casos e longe dos condicionamentos culturais das sociedades de classe, mulher, homem, veado ou lésbica tão feios e desengonçados que não sejam capazes de inspirar, circunstancialmente que seja (e ausente qualquer privação mental ou distorção emocional do apreciador), o desejo de fuder até lambuzar-se e extenuar-se completamente. Abstraído qualquer caso de fogo doentio por criaturas aleijadas ou bizarras, a verdade é que mesmo aquela gordinha de rosto lindo, aquela vovozinha sessentona, o sujeito magro, mas cheio de traquejo e charme, e outros tantos exemplares heréticos (segundo o padrão tradicional) da beleza, são capazes de botar muito macho de pau duro ou fêmea molhadíssima com a sua presença. E o exercício concreto da foda, ultrapassada a barreira inicial da mera visualização, pode revelar-se bem mais prazeroso e instigante do que a possível trepada insossa e sem graça com a mais deslumbrante e xaroposa modelo fotográfica ou manequim de desfile de modas.

Evidentemente que a beleza completa e requintada de uma gostosona não lhe retira necessariamente o requinte emocional e sexual, o fascínio dos movimentos e a sensualidade e o enlevo de olhares, da voz, dos trejeitos ou da própria prática arrebatadora das diversas modalidades de trepada. A loira linda e meiga não é necessariamente burra, ao inverso do estereótipo propalado, e pode muito bem ser uma loba devoradora e insaciável. Quando se encontra corpo perfeito unido a sensibilidade, humor  gaiato e boa foda tem-se o verdadeiro paraíso na face da Terra, aquele que, segundo o cretino mito cristão-judaico, fez o “primeiro homem”, criado pela pretensa divindade monoteísta, trocar todos os privilégios de viver em permanente e deleitoso ócio por alguns minutos de usufruto com a boazuda Eva.


Mas a pura e atroz verdade é que a distorção estética de nossa sociedadezinha capitalista filha de uma puta tem botado a perder e impedido muito macho ou fêmea (adepto dos mais diversos modos de exercício do prazer, da heterossexualidade ao homossexualismo ou à orgia desenfreada com tudo quanto é tipo de parceiro, até mesmo da zoofilia) de fuder gostoso, em nome de seu império tacanho e absurdo!


Prima dos critérios de escolha de escravos, e insuflada pela ideologia empresarial da qualidade, a exigência implacável e renitente de uma beleza física perfeita e inalcançável tem não só torturado muito dondoca nos mais infelizes regimes alimentares, e nas mais sobressaltantes e ansiosas neuroses, mas frustrado muito sujeito franzino, ou muita gatinha de bunda nem tão arrebitada ou seios mais próximos da pêra que da melancia, em seu intento sexual, frustrando e relegando à infeliz punheta ou siririca meia humanidade, em nome dos preconceitos e pré-requisitos estético-corporais que a safada mídia burguesa despeja sobre nossas mentes todo santo dia!


Se, na economia colonial do século XIX, por exemplo, o sinhozinho adquiria para o serviço escravo em sua propriedade o negrão de dentes perfeitos e brancos, e preferencialmente de canela fina (que os de grossa eram tidos por preguiçosos), a televisão, os jornais e as revistas de nossa ilustre nobreza burguesa se encarregaram, em nossos dias, de plantar na cabeça de 90% da humanidade que só serve para se dividir a cama, a mesa, ambos ou muitos outros tantos ambientes, na prática do deleite físico e emocional aquelas criaturas de bunda pefeitamente lisa, redonda e empinada, de seios absolutamente fartos e cintura de vespa ou (se se tratar do macho da espécie) aqueles indivíduos transformados em músculos dos pés à cabeça, de tronco portentoso como árvore de madeira nobre e ar macho, agressivo (e abestalhado!). Qualquer deslize mínimo de tais critérios e o pobre exemplar analisado está condenado a padecer a mais dura e revoltante solidão e a gozar, no máximo, da companhia erótica da própria mão!


Garante-se assim uma multidão de seres neuróticos, raivosos e idiotizados, cujo tesão frustrado se transforma, na medida perfeita, em revolta, recusa e combate a toda e qualquer manifestação alheia de contentamento, prazer e liberdade, a todo movimento espontâneo e leve, oriundo simples fato de estar vivo. Uma legião de filhos do banimento estético-sexual (sejam eles virtuais parceiros rejeitados ou estetas de gosto artificioso eternamente insatisfeito) afeitos ao sacrifício inumano, pronta a engrossar  a manada de trabalhadores submissa à hierarquia do escravismo assalariado, e empenhada na vigilância mútua e na delação moralista do comportamento de seus companheiros de desgraça – que se tornam a única válvula capaz de extravasar sua raiva histérica, filha da privação do gozo genuíno, espontâneo e benfazejo, auto-imposta pela adesão ao padrão ideal introjetado.

O tesão esteja convosco!

Porto Alegre, 16; Gravataí, 23 de agosto de 2010


Ubirajara Passos

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